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O Gato
São quase sete horas. O relógio na parede bate os segundos mansinho, o único barulho na casa bonita e bem asseada. A pia brilha, as louças estão todas guardadas, e sobre a mesa há um pão, café fresco e toda sorte de complementos para uma boa ceia. É bem verdade que a mesa está posta para um só, e parece um pouco desproporcional a quantidade de comida.
Mas isso não importa.
Ao lado da porta, ajoelhada ao lado do tapete ao portal, a mulher magra, de pele branca como leite, nua da cabeça aos pés exceto pela coleira de couro negro e metal ao pescoço, gravado com as iniciais do Homem a quem ela pertence. As mãos atrás, unidas nas costas, os olhos um pouco baixos indicam que ela espera, o corpo todo retesado de ansiedade. É sempre assim ao final do dia. Seus cabelos compridos, castanhos, lisos, lhe cobrem um pouco o rosto, e ela se contém para não tirá-los dos olhos. Seu Senhor gosta assim, assim será feito.
Bate sete horas, e tirando-se os dias do futebol com os amigos do trabalho, Ele é sempre muito pontual. Bate uma brisa, e ela percebe que esqueceu de encostar a janela da cozinha completamente. Bem, aberta ficou, aberta ficará, já que ela não se arrisca a levantar.
O barulho da porta do elevador é audível, e como sempre, ela sente seu coração se acelerar. As chaves giram na porta, e Ele finalmente entra. Seus sapatos lustrosos são beijados, o casaco dEle é atirado para ela, que habilmente o pendura nos ombros enquanto lhe descalça os pés. Sem levantar os olhos, ela recolhe os sapatos e o casaco e os leva para o quarto enquanto Ele se senta à mesa do café.
Apenas quando Ele parece à vontade é que ela volta, senta-se no chão lustroso ao lado dEle na cozinha e apoia a cabeça em sua coxa como uma boa cadelinha. Percebe por Sua respiração que Ele não está muito bem. Sente que Ele parou de comer e levanta a cabeça, num impulso atrevido, e olha-O no rosto. Ele retribuiu o olhar, envolvente, carinhoso, glorioso. Dá um sorriso cansado, perde Sua mão em seus cabelos, ora docemente, ora puxando-os com força, fazendo-a fechar os olhos num prazer gostoso. É só agora que ela ousa falar-lhe:
-Boa noite Senhor...
-Boa noite cadela. o carinho se intensifica boa noite...
Respeitosamente, ela afasta-se dEle, e com as mãos solícitas, um pouco medrosas, vai lhe desabotoando a camisa, e com a segurança de quem conhece o corpo moreno e musculoso de cima a baixo lhe faz uma massagem. Ele inclina a cabeça para trás, apoiando-a na barriga nua da escrava, e deixando-a ver que gosta, fecha os olhos e sorri de leve.
Passam-se alguns minutos, entre os dois poucas palavras são necessárias. Ele volta a comer, e como sempre, levanta-se com uma xícara de café em direção a mesma poltrona sobre a qual encontra o jornal do dia. Por entre as folhas do jornal, por detrás dos óculos, Ele a vê comendo apressadamente, ansiosa para grudar-se novamente ao seu corpo. Ele se sente assim também. Entre os dois há uma paixão, uma necessidade quase física de estarem sempre perto um do outro. Ao terminar o jornal, sabe que ela já tem tudo em ordem na cozinha, e imperativamente assobia. É quase instantâneo o barulho dela pondo-se de quatro e vindo rapidamente, como uma cadelinha ansiosa, ao seu encontro pela sala. Como sempre, ela apoia o queixo em Seu joelho, feliz, rebolando, um pouco medrosa. Ele lhe faz um carinho distraído até que o gato siamês dos dois vem miando, de rabo erguido, choroso, ansioso do Dono tal qual ela. Sorrindo agora sadicamente, ele empurra a cabeça dela, afastando-a, e com um chilreio, chama o gato que logo se acomoda em Seus joelhos.
Arrogante, o bicho parece saber que lhe tomou o lugar, e agora faz coro aos olhares insolentes dEle, ali, para ela jogada ao chão. Timidamente, ela tenta apenas encostar a cabeça em Seus pés, no que é imediatamente repelida. O ronronar do gato se intensifica, e é nesse momento que Ele resolve falar:
-Cadela?
-Pois não, Senhor? ela levanta os olhos esperançosos.
-Já pensou alguma vez em ser emprestada? tom dEle é divertido, como quem não quer nada.
-Senhor? o choque e o desespero são visíveis em todo o rosto dela.
-É surda?
-Não Senhor. É que realmente nunca pensei nisso. Não sei se gostaria... vai diminuindo o tom de voz até o completo silêncio submisso.
-Entendo... o tom de voz dele agora é decepcionado. O ronronar do gato se intensifica.
-Não é que não faria pelo Senhor sua voz se desespera, em tom de desculpas. mas eu só gosto de servir ao Senhor e...
Ela não continua. Começa a chorar baixinho, abaixa a cabeça, fica de joelhos, as mãos para trás. Ele, agora um tanto quanto severo, coloca o gato no outro sofá e ordena, incisivo:
-Venha até aqui.
Mais que imediatamente, Sua ordem é cumprida, e mal ela se coloca perto dele novamente, Suas mãos agarram os cabelos castanhos e levantam-lhe o pescoço, abruptamente. O medo e a adrenalina varam o sangue dela, fazendo com que suas pupilas se dilatem. Chorando ainda, ela o olha, toda cheia de submissão.
-Você ele desenha os contornos do rosto dela com os dedos, suave só sabe chorar?
Antes que ela possa responder, o tapa vem em cheio, intenso, deixando mais uma vez a palma da mão dEle no rosto dela. Entendendo a mensagem, ela para de chorar, e caindo num murmúrio de pedidos de perdão, beija-lhe os pés repetidamente, a respiração acelerada. Não parecendo muito satisfeito ainda, Ele a pergunta, irônico:
-Qual é o motivo para você estar tão sensível nos últimos dias? Toda e qualquer coisa que eu digo agora é motivo para choro...
Afogueada, ela para de beijar os pés dEle e, levando um segundo para responder, e, com a voz esmagada, responde baixinho:
-O Senhor não me usa mais...
-Ando cansado.
-E agora prefere mais o Seu outro bichinho de estimação...
-O gato?
-O gato...
Empurrando-a novamente para longe de si, ele ri alto, tão alto, que o gato se assusta e corre para dentro. Ri com gosto, como não ri há tempos, deixando-a um tanto confusa. Quem tem lágrimas nos olhos agora é Ele, mal consegue respirar, o riso ainda incontrolável. Quando finalmente se contém um pouco, consegue dizer, a voz ainda engrolada:
-Minha puta com ciúmes do gato?
E volta a rir, de uma maneira quase abobada. Ela, não entendendo a piada, recolhe a xícara de café e o jornal, colocando-os em cima da mesinha de centro e perguntando-se se deveria retirar-se ou não.
Não é preciso. Rindo ainda, ele bate com as mãos nas coxas, chamando-a como se chama um cachorro. Agora é a vez dela sorrir, a felicidade invadindo seu coração por completo. Dedicada, rápida, mal se acomoda por entre as pernas do Dono, abre-lhe a calça e com destreza começa a lamber Seu pênis, Suas bolas, Sua barriga firme, deliciada, submissa. Em pouco tempo Ele tem uma ereção dura como rocha, fazendo-a afogar-se com Seu tamanho. Seus gemidos de riso agora transformando-se em de prazer, Ele começa a espanar-lhe a mão aberta na bunda dela, nas costas, violento, à medida que ela o suga com mais intensidade. Num frenesi, ergue-se, chutando-a para longe, e num movimento rápido, tira as roupas, assobiando para que ela o siga ao quarto.
Ela é tão rápida de quatro quanto Ele em pé. Ao chegar ao quarto, Ele a levanta pelos cabelos, abrupto, violento, e sem cerimônia a atira contra o poste que têm no quarto, o rosto dela contra a madeira. Prende suas mãos para cima, afasta-lhe as duas pernas, e, sem um único barulho a mais, passa a admirar Sua propriedade. O contraste do corpo claro com o quarto escuro, de iluminação fraca do abajur, o excita por si só. Cola-se rápido contra as costas brancas, vendando-a e dizendo-lhe que todos os seus desejos seriam saciados essa noite.
Numa de Suas gavetas, escolhe um chicote. Um de couro cru, fino e trançado, chama mais a sua atenção. Como as paredes do quarto são à prova de som, ele não se preocupa em amordaçá-la. Hábil, indiferente aos gritos, ele vai desenhando em alto relevo linhas roxas e latejantes por todo o corpo dela. Sem parar, ela vai contando aos gritos cada uma das 25 chibatadas que Ele lhe concede, extasiada, dolorida e já quase fraca. Sente sua vagina se desfazer em líquido que já escorre por entre suas pernas amortecidas, e suspira aliviada quando Ele para.
Não é porém por muito tempo. De mãos nuas agora, ele vai desenhando uma trilha vermelha pelas costas dela, sádico, controlado, quase frio aos gritos dela. Quase escuta o ranger de dentes delas, segurando-se. Rindo agora de sadismo, transformado, vai para a frente do poste, procurando o olhar de sua escrava:
-Satisfeita agora, minha cadela?
Ela respira fundo, atreve-se:
-Não senhor. Quero mais.
Ela não precisava ter dito. Sorrindo, Ele beija sua testa suada, sai do quarto por um tempo. No silêncio que fica, ela se sente completa. Nos últimos dias, o ciúme do gato, a distância do Dono e o Seu cansaço a faziam se sentir cada vez menos pertencente à Ele. No meio do escuro, dolorida, suada e molhada, ela esperava então a próxima surpresa.
O medo novamente atravessa seu corpo quando ela sente os eletrodos gelados em suas costas e sua bunda. Carinhoso, Ele passa a mão por todo o corpo de Sua peça, admirando-a, acariciando as marcas recentes. Sem aviso, liga o aparelho, fazendo a gritar de susto. Os choques contínuos e rápidos provocavam nela uma sensação de amortecimento, de entrega, de prazer, sabendo que Ele, apesar de machucá-la, cuidaria para que nada lhe acontecesse.
Quando o Dono finalmente cansou de escutar seus gritos e descolou os eletrodos de seu corpo, desamarrando-a docemente, pegando-a nos braços e a estendendo sobre a cama foi que ela, com a voz cansada, disse baixinho:
-Obrigada, Senhor.
Ele não respondeu, ocupado em acomodá-la confortavelmente. Doce, carinhoso, começou a lhe acarinhar, sussurrar-lhe palavras de canções que marcavam a trajetória dos dois. Quase como se Ele estivesse solícito, beija-a por todo o corpo, com Seus lábios afaga as marcas ainda há pouco feitas. Tremendo quase incontrolavelmente de prazer, a escrava pede-lhe autorização para o gozo, no que é negada sem mais meias palavras.
Sentando-se na cama, Ele bate novamente nas coxas, e sem hesitação ela cai de boca em Seu pênis duro. Há nela um misto de desespero, como se ela quisesse que nada daquilo acabe. Sua vulva inchada de tesão pulsa ainda mais quando Ele vai colocando Seus dedos um a um ali, acariciando-lhe o clitóris e fazendo-a pular a cada vez. Num impulso, a puxa pelos cabelos, e vira-a, tomando posse dela num frenesi desenfreado. Cavalga-a como louco, puxando seus cabelos é quando ela e Ele se completam explodindo Ele primeiro num gozo e permitindo-a fazer o mesmo pouco depois. Estapeando-a em todos os lugares que Sua mão consegue alcançar, abraça-a, enquanto ela chora em seus ombros de gratidão, de medo de perdê-lo, da idéia de desapontá-lo.
Torce o bico de seus seios uma vez, do choro ela passa a um grito estrangulado. Busca piedade em Seu olhar, mas não há nenhuma. Empurra-a da cama debaixo de tapas, e a leva para sala pelos cabelos, numa mudança de atitude repentina. Sentando-se na poltrona, pega o controle do rádio e ligando uma música qualquer, manda:
-Puta, dance para mim. Como uma puta de bar! Anda!
Ela fecha os olhos, humilhada, dançando sensualmente. Ele se excita novamente, e ao fim da música chama-a para perto de novo, apoiando as mãos dela na mesa e expondo seu traseiro, ficando à mercê de Seus desejos.
Novamente, toma posse dela, dessa vez em seu ânus, até perceber que ela quer gozar novamente. Num sussurro imperioso, nega-lhe a vontade, e ao sentir o próprio gozo vindo, o faz no corpo de sua cadela, que, lambuzada, suada, de tesão reprimido, abaixa-se e beija os pés do Dono, num agradecimento continuamente murmurado.
Ele a levanta pelos cabelos até que ela fique de pé, seus olhos novamente calmos e doces, manda-a tomar um bom banho. Ao vê-la retornando, pega de um par de algemas, e algemando-a com as mãos para trás, a conduz para a esteirinha que ela dorme ao lado de Sua cama, e lhe diz, divertido:
-Boa noite, cadela! Durma bem, e vamos ver se acorda com ciúmes do gato amanhã.
Fim
Mestre R.