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Sob o Jugo de Bárbara, Desde Sempre
Bárbara Peçanha. É ela mesma! Bete mal pode acreditar no que mostra a tela do pc. Linda como sempre, com os mesmos traços delicados e o olhar enigmático e malicioso, desde o ginasial. Olhar este que, ao mesmo tempo em que deixava os garotos da turma totalmente estupidificados, à sua mercê, servia como um alerta para as eventuais concorrentes, independente do objeto da disputa. Se o alerta porventura não funcionasse, pobre da adversária... Oh! Bárbara... Bete lembra da garota que ousou desafiá-la, e do quanto ela saiu literal e psicologicamente arranhada da experiência. Lembra do quanto Bárbara e suas não menos peçonhentas amiguinhas se divertiram com o sofrimento daquela coitada. Lembra do quanto bateram nela, rasgaram suas roupas, jogaram seus cadernos numa poça d'água e lama. E Bárbara ainda ficou com o garoto que tava paquerando a pobrezinha, só pra se exibir pra esta e depois descartá-lo... A garota acabou saindo da escola, tamanhas as humilhações que passou a sofrer, diariamente. Como poderia Bete lembrar-se disso tudo, não fosse ela própria a vítima?
Que maravilha o orkut! Só aqui Bete poderia encontrá-la. Descobriu que existe uma comunidade daquela escola. Talvez até encontre suas carrascas-mirins da época, as escravinhas de Bárbara, as responsáveis pelas suas péssimas recordações da adolescência. As informações são encontradas com facilidade: hoje ela é psicóloga, com mestrado e doutorado, artigos em revistas estrangeiras, casada, um filho... "humm... que casarão, carro importado, piscina e tudo! Cheia da grana, ainda, a maquiavélica. E eu aqui, ralando dia a dia nesse escritório de contabilidade, sem saber se vou conseguir pagar as contas ao final do mês", Bete desabafa.
Sempre foi a certinha, a estudiosa, a generosa, e hoje amaldiçoa a sua sorte, amaldiçoa a justiça divina. E Bárbara, que se deliciava em ver os outros sofrerem, fisicamente, moralmente ou por amor, agora bebe champanhe na beira da piscina...
Bete nunca conseguiu esquecer Bárbara, bem como essa fase da sua juventude. Será que foi devido aos traumas das humilhações sofridas que ela nunca conseguiu se erguer profissionalmente? Não sabe. Terá Bárbara alguma parcela de culpa pelo fracasso da sua vida afetiva? Por ela ser hoje uma medrosa frente aos obstáculos? Muitas indagações, nenhuma certeza. Mas uma coisa é certa: tê-la reencontrado, hoje, ainda que virtualmente, mexeu com Bete de uma forma muito intensa. Desconcertou-a, alterou o seu centro de equilíbrio. Por alguma razão inexplicável, sentiu vontade de entrar em contato com Bárbara. Mas falar o quê? Não sabia. Mas precisava, disso não tinha a menor dúvida. Algo mais forte do que ela parece estar dominando-a nesse instante. Procura algum endereço de msn. Nada. O jeito é mandar um scrap mesmo.
"Oi Bárbara!
Aqui é a Bete, tua colega lá do tempo do colégio Cruzeiro, lembra? A sardentinha! rsrs
Que surpresa te reencontrar! Olha, quero que saibas que não guardo nenhum rancor pelas coisas que aconteceram, as briguinhas entre a gente, as fofocas. Espero o mesmo de ti, viu?
Estou tentando organizar um encontro dos nossos ex-colegas, um almoço ou algo assim, e faço questão da tua presença!
Tu podes me informar teu msn ou email, para combinarmos melhor?
Um grande beijo
Bete"
Agora é esperar. "Meu deus, por que inventei essa história de almoço? E agora, como vou desenrolar? Azar. Foi o que me ocorreu na hora. O importante é que eu consiga falar com ela. Bárbara é psicóloga e vai entender", Bete pondera.
A resposta não tarda, com o esperado endereço de msn. Adiciona na mesma hora. Daí a uns instantes, Bárbara aparece online. Bete dispara:
"Oi amiga! Há quanto tempo, hein!"
A resposta demora alguns segundos. Bete nem respira.
"Oi Bete! Que surpresa! Como vai essa vida?"
"Vai bem. Que maravilha o orkut, né? De que outra forma íamos nos reencontrar?"
"É verdade. Você está organizando um encontro dos nossos ex-colegas? Que bacana!"
"Bem... na verdade, não exatamente..."
"Como assim?"
"Assim que achei teu perfil, senti uma necessidade grande de conversarmos. Achei que tu não ias passar teu msn se eu não inventasse uma coisa assim. Desculpe"
"Pra que isso, Bete? Era só ter pedido. Sobre o que você quer conversar?"
"Bem... na verdade nem pensei, foi tudo tão rápido... desculpe a minha confusão, só sei que estou de certa forma aliviada de estar falando contigo. Eu precisava disso"
"Olha Bete, antes de tudo quero que saibas que me arrependo das coisas que fiz contigo naquele tempo, eu era imatura. Te peço desculpas e espero que não guardes rancor, assim como já disseste"
"Não, não guardo rancor. O que acontece é que as lembranças daquela época sempre fizeram parte da minha vida, e de alguma forma me bloquearam e continuam me bloqueando em muitas coisas. Mas não considero trauma, é algo diferente"
"Você já procurou alguma terapia?"
"Já, uma vez, mas concluí que não era lá que estava a solução dos meus problemas"
"Posso te encaminhar pra uma colega, é uma excelente psicóloga"
"Não, ela não vai me ajudar!"
"Como você sabe?"
"Acho que sei onde está a solução"
"Onde, então?"
"Em você! Sinto isso com uma clareza absoluta"
"Em mim?!?"
"Em você. As idéias nunca estiveram bem claras na minha cabeça, mas hoje, ao te reencontrar no orkut, algo muito forte se manifestou em mim. Senti que a minha cura, se existe, está onde tudo começou. Se alguém vai me redirecionar para o caminho certo, esse alguém é você!"
"Olha, Bete, por questão de ética eu não posso te ajudar profissionalmente, mas reitero que a Vivian, minha colega..."
"Não, Bárbara, por favor! Eu não quero ajuda profissional, além de que não confio em psicólogos. Consultei uma vez e não me ajudaram em nada. Desculpe, nada pessoal. Tudo o que eu queria, agora, era a oportunidade de conversar contigo como uma amiga, pessoalmente. Como se pudéssemos voltar ao tempo em que éramos adolescentes"
"Ai, Bete, você está me deixando numa situação..."
"Por favor, Bárbara, não permita que eu continue sofrendo pro resto da vida!"
Longa pausa.
"Tem que ser pessoalmente?"
"Tem, Bárbara! Mas você não precisa se preocupar, não quero lhe fazer nenhum mal. Você escolhe o lugar, o dia, a hora, depois só me avisa"
Mais uma pausa.
"Tudo bem, Bete. Aguarde um contato meu por scrap. Só te peço que não nutras muitas expectativas sobre os benefícios que você possa tirar desse encontro"
"Obrigada, amiga!"
Bete respira aliviada. Um turbilhão de sentimentos conflitantes invade o seu espírito. Há muito que não sentia tal intensidade de emoções. Hipnotizada frente à tela do pc, percebe lágrimas correrem de seus olhos.
A confirmação do encontro não demora. Será na casa de Bárbara, num sábado. Bete passa a semana toda inquieta, agoniada, preparando-se psicologicamente para o crucial momento. Mal consegue concentrar-se nas tarefas do escritório. Chega mesmo a pedir um adiantamento de salário, a fim de poder apresentar-se de forma impecável à anfitriã.
Chega o dia. Bete mal se agüenta de tanto nervosismo. Acorda cedíssimo, vai ao salão de beleza, coloca sua melhor roupa e dirige-se ao tão esperado encontro.
A casa é lindíssima, situada num bairro nobre, guaritas de seguranças em todas as esquinas, um jardim mais lindo que o outro. Toca a campainha. A própria Bárbara atende. A emoção de encarar aqueles olhos de malícia e mistério, doze anos depois, faz Bete tremer nas bases. Não consegue articular palavra. A outra se adianta:
- Como vai, Bete? Nossa, você está ótima! Vem, vamos entrar!
Bete responde ao cumprimento, timidamente, e as duas entram. Bárbara veste um terninho verde escuro, de corte perfeito para o seu corpo de manequim, uma echarpe branca no pescoço e sapatos de salto alto Carmen Steffens pretos. A residência é de uma decoração requintadíssima, com o que há de melhor em lustres, móveis e equipamentos de som e vídeo. Seu marido, moreno, porte atlético, pinta de modelo de revista feminina, monta um quebra-cabeça com o filho do casal, uma bela criança de cinco anos. Rápidas apresentações, e as mulheres dirigem-se ao gabinete-consultório de Bárbara, com vistas para a piscina. Assim que a porta do aposento se fecha às suas costas, Bete tem uma crise nervosa. Joga-se aos pés da ex-rival, em prantos, banhando o peito do pé arqueado e imponente de Bárbara, bem como o couro italiano dos seus Carmen Steffens, com lágrimas de puro sofrimento. Doze anos de sofrimento. Murmura, enquanto beija aqueles pés:
- Minha amiga... minha amiguinha... onde você esteve esse tempo todo? Eu sofri muito, sabia? Sofri por tua causa...
- Ok, ok, Bete, ok, agora tenha calma. Levante-se, vamos!
Mas a outra sequer a ouvia; continuava a beijar seus pés e a se lamuriar:
- Meu lugar foi sempre aqui, aninhadinha aos teus pés, sob o teu jugo... Longe deles, longe de ti, só fiz burrada nessa vida! Não me deixe continuar sofrendo, Bárbara, não deixe, NÃO DEIXE!
Chorava copiosamente, o rosto apoiado entre os pés de Bárbara, as mãos segurando seus tornozelos. Bárbara, atônita, ainda que com o autocontrole necessário à profissão, deixa-se ficar assim por uns momentos, depois acalma a amiga e ambas se sentam. Bete mostra-se tremendamente envergonhada. Bárbara inicia:
- Podes me explicar a razão dessa atitude?
- Não sei... desculpe...
- Por que tu disseste que o teu lugar é sob o meu jugo?
- Não sei, já disse. Aquilo veio de dentro. Só posso dizer que a experiência daquela surra que eu levei de ti, no tempo da escola, sempre esteve presente no meu espírito.
- Presente de que forma?
- Nunca fui tocada daquela forma, não falo fisicamente, mas no íntimo. Sei que tuas amigas também me bateram e humilharam, mas, fossem só elas, seria algo totalmente diferente. Elas serviram mais como instrumentos nas tuas mãos. Você lidou comigo com uma propriedade e uma segurança absolutas, como se arrancasse o meu espírito pela goela e o sacudisse a seu bel-prazer. Você despertou algo em mim que eu não sei explicar, só sei que até hoje não tive uma experiência que sequer se comparasse àquela; nunca ninguém "libertou meus fantasmas" como você o fez. Esses fantasmas, hoje, estão aprisionados e me sufocam dia a dia - desabafa Bete.
Bárbara pensa por alguns instantes, sem desviar os olhos de Bete. Levanta-se, retira o seu cinto e pede à amiga:
- Bete, você pode levantar e se apoiar na poltrona, de costas pra mim?
Bete obedece sem questionar. Bárbara desprende sua saia, deixa-a nua da cintura pra baixo e lhe aplica vinte vigorosas cintadas no traseiro. A outra não dá um pio. Bárbara manda-a compor-se e sentar novamente, e faz o mesmo.
- O que você está sentindo agora, abstraindo a dor física que eu lhe infligi, podes me dizer?
Bete tem os olhos baixos; as lágrimas ainda correm.
- Que eu estou completamente desarmada, indefesa, à sua mercê... que esse é o dia mais importante em anos... que eu estou nervosa...
Volta a chorar.
- Que mais?
- Me ajude, amiga, me guie! Me liberte desse labirinto em que se transformou a minha vida! Se achar que eu devo apanhar, me bata, me espanque, mas me liberte! Eu sou tua... - o desabafo extingue-se num balbucio.
- Estou entendendo... agora compreendo perfeitamente! Você me autoriza, então, a utilizar contigo o tratamento que eu achar adeqüado?
- Sim - a resposta é imediata.
- Responsabiliza-se inteiramente por qualquer dano que você possa sofrer, de qualquer natureza, resultante dessa decisão?
- Me responsabilizo.
- Então seque essas lágrimas. Quero te apresentar a umas amigas.
Bete espanta-se.
- Agora?
- Já!
Bárbara pega seu celular e disca um número. Segundos depois, a porta se abre e duas mulheres elegantemente vestidas entram. Bete não acredita no que seus olhos vêem. Como se não bastassem as emoções até agora, não demora a reconhecer Priscila e Verônica, suas duas carrascas de outrora, que faziam trio com Bárbara nas maldades. Bete estremece até a última fibra.
- Como é, não vai cumprimentar as amiguinhas? - Bárbara brinca.
Olhos constrangidos de um lado, olhares maliciosos de outro, tímidos cumprimentos e as mulheres se sentam; Bete na sua poltrona e as três, lado a lado, à sua frente. As recém-chegadas, Bete repara, já sabem mais do que deveriam. Verônica quebra o silêncio:
- Quanto tempo desde que estudávamos no Cruzeiro, né?
- Hoje rimos de tudo aquilo, as panelinhas, as fofocas, as brigas...- Priscila completa.
Bete vai ficando cada vez mais constrangida.
- Hoje sou advogada, e a Pri é administradora de empresas. - a primeira retoma - E você, o que faz? - dirige-se a Bete.
- Trabalho num escritório de contabilidade no centro - responde, com uma voz quase inaudível.
Priscila e Verônica mal conseguem disfarçar um risinho contido. Bárbara não as censura; apenas esboça, por sua vez, seu tão conhecido 'sorrisinho irônico'.
- És formada? - a mesma insiste.
- Não.
As duas esforçam-se menos ainda em segurar o riso. Bete está acabada, antes mesmo de suspeitar do que a espera.
- Andei comentando com elas sobre o que conversamos aquele dia. Você não se importa, né? - Bárbara intervém, ainda sustentando seu sorrisinho cruel.
Bete não responde. Apenas lhe dirige um olhar de incredulidade. Nesse instante, Carlos, o marido de Bárbara, entra trazendo uma bandeja com sucos e biscoitos. Diz à mulher que vai andar de bicicleta com o menino, no parque, e retira-se.
- Ficamos curiosas com o que Bárbara nos contou. Foi um amor à primeira vista, ou melhor, à primeira surra, é? - provoca Priscila, caindo na gargalhada. Verônica a imita.
Bárbara sorri discretamente, sem fazer qualquer censura às amigas.
- Posso contar o que você fez ao entrar aqui?
Bete apenas olha para o chão, desolada. Já está suficientemente consciente de que as humilhações estão apenas começando.
- Conta! Conta! - as amigas se animam.
- Ela se jogou aos meus pés e ficou beijando-os e chorando, acreditam?
- O quêêê?
- Exatamente, hihihi! Desculpe ter contado, Bete. Mas também, se você não queria que eu agisse como psicóloga, eu não preciso seguir a ética da profissão, né? - explica, extremamente irônica e debochada.
Bete apenas lhe dirige um olhar triste.
- Ahhh... também quero ter meus pés beijados! Afinal, eu também contribuí para a experiência mais tocante da tua vida, né, Bete? - Priscila reivindica.
- Eu também, eu também! Ora, cadê o reconhecimento? - a outra se anima.
Bete as olha, desolada. As lágrimas lhe voltam. Não tem qualquer força pra manter um ar superior. A imagem de Priscila, menina, esbofeteando-a e rasgando suas roupas, volta-lhe à mente. A lembrança da outra, pisoteando e dançando em cima dos seus cadernos, na lama, idem. Volta o olhar a Bárbara, que lhe faz um sinal afirmativo com a cabeça. Entende agora que está ali pra ser humilhada, tudo fora planejado, e sua função é obedecer. E como se entregou de corpo e alma a Bárbara, não há outra saída. Levanta-se e obedece.
- Aproveita e me traz um copo de suco! - Verônica pede.
Bete dirige-se a ela, entrega o suco, ajoelha-se e começa a beijar o peito do seu pé (também calçando salto alto). De repente, sente um gelado nas costas.
- Oh!, desculpe, amiga! Que estabanada eu! - Verônica se lamenta, segurando o copo vazio.
Bete não esperava aquilo, e fita a mulher com ódio.
- Bete, comportada! - Bárbara censura. Sua voz autoritária é suficiente.
A humilhada baixa novamente a cabeça, dá mais uns beijinhos e passa à outra. Começa a beijar os pés de Priscila (que também calça scarpin), do peito do pé ao calcanhar.
- Humm... que delícia! - exclama Priscila - Há anos que não tenho os pés beijados! A sensação de poder é gostosa demais! Vou recompensá-la por isso!
Retira um pé do seu scarpin, despeja dentro dele um pouco do seu copo de suco e o leva à boca de Bete, utilizando o calcanhar do calçado como um bico de jarra.
- Isso, bebe tudinho! Tá gostoso? Você merece, pois é muito obediente! Viu, Verônica, é assim que se recompensa uma boa escrava! - ironiza.
Puxa um pedaço da camisa de Bete e seca o interior do calçado. As duas amigas riem muito. Bárbara também, a essa altura, não se satisfaz apenas com o risinho contido. Começa a gargalhar como as outras.
- E você, Bárbara, recompensou Bete pelos bons serviços?
- Sabe que não tinha pensado nisso? Oh! como sou injusta!
Pega, então, uns três biscoitos, coloca-os no tapete e os esmaga com o sapato. Chama Bete, apontando para o chão.
- Está servida, meu amor?
Manda-a ajoelhar-se, amarra suas mãos às costas com a echarpe e ordena:
- Não quero ver nem um farelinho depois, hein! Este tapete é caro! Espere, deixa eu tirar esse batom; também não quero vê-lo manchado!
Usa a própria gola de Bete pra isso. Esta inicia a humilhante refeição, com a bunda arrebitada para as mulheres. Todas caem na gargalhada, depois começam a relembrar os tempos de colégio, as traquinagens, os namoricos. Bárbara, durante a conversa, fica acariciando a cabeça de Bete com o mesmo sapato que esmagou os biscoitos. Esta, em silêncio, restringe-se a catar, com a ponta da língua, os fragmentos de biscoito entre as fibras do tapete.
- Pois é, tantas lembranças daquele tempo... - Bárbara conclui - Quando a gente menos espera, aparece mais uma... E essa aqui, que nem sei como me achou e agora não sai do meu pé. Já apareceu algum grude do passado pra vocês?
- Ha! Ha! Ha! Vira essa boca pra lá! Lembra do Leozinho, aquele garoto que ficava me perseguindo na escola? Vi ele numa loja do shopping, dia desses. Escondi a cara e escapei na mesma hora! - Verônica recorda, entre risos.
- Cruz-credo! Vocês têm que colocar uma coroa de alho na porta! - Priscila completa - ramo de arruda, ferradura, água benta - gargalha.
As mulheres não conseguem se segurar de tanto rir; chegam a ficar com falta de ar, vermelhas. Bárbara volta-se à sua submissa:
- Terminou tudinho?
- Terminei. - Bete balbucia.
- TERMINEI, SIM SENHORA! - Bárbara repreende, dando tapinhas com o sapato no rosto da outra.
- Terminei, sim senhora. - Corrige.
- Vê se não tem biscoito na sola do meu sapato!
Bete não se dá ao trabalho de examinar; já começa a lamber o solado do scarpin da sua mestra, com força, com gosto. Seu grau de humilhação e desespero já lhe tirou o senso crítico e sua vergonha. Não recusa mais nada do que lhe é ordenado. As amigas rebaixaram-na a um estado primitivo, animal.
- Vamos dar um passeio? - Bárbara convida.
Bete apenas olha sua mestra, com um olhar de cachorro pidão. Tenta levantar mas é detida. Bárbara solta suas mãos e amarra a echarpe no pescoço de Bete.
- Agora você é minha cadelinha!
As amigas adoram a idéia. Divertem-se, brincam com a cadelinha, mandam-na buscar objetos com a boca. Dirigem-se então aos belos jardins da casa. Bete engatinhando, todo o tempo. Lá chegando, é presa num poste de iluminação, dentro de um canteiro de flores. Tem início, então, o verdadeiro show de humilhações. Priscila, pra relembrar os velhos tempos, arranca a camisa de Bete com um só puxão, deixando-a só de sutiã. Outro puxão, e era uma vez a saia de duzentos reais.
- Verônica! Você é a dançarina, lembra? - Priscila convida, estendendo na terra as roupas rasgadas.
A outra tira o scarpin, a meia de nylon, sobe no tapete improvisado e começa sua dança erótica, transformando aquelas pobres vestes numa maçaroca de terra preta e pano. Bete recorda de imediato os cadernos de outrora, o branco do papel sumindo sob o barro, o prazer da carrasca com o seu sofrimento, o riso de todos. Bárbara só observa o espetáculo, perguntando, vez que outra, como sua escravinha se sente. Esta não responde, mas agora já não é devido ao choque, nem à raiva. Surpreende-se ela própria com essa constatação. Os fantasmas estão começando a serem expulsos.
As amigas divertem-se por meia hora às custas da coitada. Humilham-na, xingam-na com os apelidos da escola, que a própria Bete ajudou-as a lembrar, inclusive; fazem um concurso de cuspes, usando o rosto de Bete como alvo; Priscila traz ovos e cada uma delicia-se ao espatifá-los na cabeça da pobre. "Como você está se sentindo?", "Como essa experiência está agindo no seu íntimo?", "O que representa pra você receber um cuspe na cara ou um ovo na cabeça?", Bárbara ia perguntando, de tempos em tempos. Bete não sabia se ela estava agindo como psicóloga ou apenas zoando com ela.
Fazem Bete deitar-se e rolar na terra úmida, de um lado pro outro; passam terra no seu rosto, cospem e espalham com os pés descalços. "O que você está sentindo em relação a Priscila e Verônica, agora que elas te fizeram tudo isso?", Bárbara continua. "Não sei", a outra balbucia, "Por que estão fazendo isso comigo?". "É pro teu bem, querida", Bárbara consola. Verônica urina no que sobrou da roupa de Bete; Priscila faz o mesmo nos sapatos dela, e manda-a calçá-los assim. Bete é novamente questionada pela psicóloga, mas nada fala. Por fim, Bárbara busca um chinelo entra em ação. Manda Bete ficar de quatro e castiga o seu traseiro com força, com vontade, com toda a maldade inerente ao seu ser. A cada série, palavras de exorcismo:
- Vamos, Bete, reaja! Até quando vais se deixar ser humilhada? Cadê a Bete aprisionada aí dentro, presa aos seus fantasmas? Ou tu acordas ou eu acabo contigo na base da chinelada!
E paf! paf! paf! paf! paf! Voltou a golpear aquele pobre traseiro, impiedosamente, com os olhos injetados. As outras só assistiam, espantadas.
- Parem, suas desgraçadas! Vocês não vão me destruir, eu sou mais forte do que vocês! Eu não vou me rebaixar a vocês, suas malditas! Eu sou a Bete, não a cadelinha de vocês! - explode.
Bete finalmente liberta seus fantasmas. Bárbara respira aliviada, exausta, ofegante. A experiência foi desgastante para todas.
Bárbara encaminha Bete ao banho. Suas amigas vão embora. Devidamente asseada, Bete recebe roupas de doméstica. Não entende o motivo, e Bárbara explica:
- Bete, querida, hoje você passou por uma experiência muito intensa, muito desgastante. Considero que parte do objetivo foi alcançado, pois eu consegui te pôr frente a frente com o teu próprio íntimo, com uma Bete que estava aprisionada. No entanto, ainda não posso te considerar completamente livre e curada, por isso gostaria de te acompanhar de perto por um mês. Quero te propor que peças férias no teu serviço e venhas trabalhar aqui, como doméstica. Vais receber cinqüenta por cento a mais do que recebes lá, e tuas roupas inutilizadas serão devidamente ressarcidas. Já tenho cozinheira e faxineira, de modo que você só ficará responsável pela arrumação e pelo jardim. Outra coisa: meu marido e filho não podem sequer suspeitar de nada. Pra eles, você é tão somente a nova empregada. Quando eles estiverem fora, poderei me dedicar à continuação do teu tratamento, da tua libertação. Você não se incomoda de usar essas roupas, né?
- Não, senhora.
- Ótimo! Você topa, então, ciente de que eu poderei ser bastante dura, até mesmo cruel com você, durante o tratamento?
- Sim, senhora.
- Perfeito! Ao final de um mês, você vai entender que valeu a pena tudo pelo que passou. Será outra Bete, livre e confiante para retomar o rumo da sua vida!
- Não tenho palavras pra lhe agradecer, dona Bárbara!
- He! He! He! Não precisa, minha filha. Agora, que tal limpar esse suco e farelos de biscoito? Daqui a pouco chega o Carlos!
- Sim senhora!
E começa o trabalho, serena e tranqüila.