Back to Browse
Just do It I Concurso de Contos e Poesias BDSM - Participante
Como vários pais dos barracos vizinhos, também era um pai de família numerosa. Eram sete filhos ao todo (excetuando-se é claro os "não-oficiais"): os dois caçulas levavam arte às ruas - enquanto um realizava malabarismos, o outro discretamente furtava carteiras da platéia distraída; um terceiro trabalhava como "avião" para uma gangue de traficantes; para a mesma gangue, o quarto filho era um vigilante; duas filhas - a de dezesseis e a de dezoito - se expunham para sorridentes turistas estrangeiros com o dobro da idade delas. Já a mais velha, a de 23, apesar de possuir uma atividade de nível bem diferente da ocupação dos irmãos, era a que dava mais trabalho.
Para desgosto do pai, ela desperdiçava uma parte de seu tempo na escola, parte no mercado do bairro (apenas um salário mínimo como caixa), e a outra parte, há alguns anos, nesse tal de "atretismo".
- Atletismo, pai! A-tle-tismo!
- E por acaso essa porra trás dinheiro? Enche a barriga? Paga aluguel?
- Para os bons atletas, sim!
- Então você tá perdendo seu tempo. Após todos esses anos, você ainda não é boa.
- Ah, é? E os troféus que ganho nos campeonatos das escolas dos bairros?
- E quando é que você vai ganhar dinheiro de verdade, como seus irmãos?
A filha sempre se irritava quando o pai falava assim dos irmãos. Os irmãos e a "ajuda de verdade" deles.
- Pois você vai ver só, pai! Um dia vou me tornar uma grande campeã, ficar famosa, tirar nossa família da miséria, e você vai morrer de orgulho de mim!
Apesar da filha pouco a pouco aparecer com os seios mais firmes, a barriga mais enxuta, as coxas mais torneadas e a bundinha mais empinadinha (ou seja, mais bonita que a mãe, uma baranga de peitos caídos) após ter começado a praticar esse "a-tle-tismo", o pai não via com bons olhos esse troço. Afinal, com o corpinho tesudo que ganhou, a filha podia era tá ganhando bastante dinheiro "por aí", até mais que as irmãs.
Mas, não!
Em vez de estar na rua, fazendo grana, ela perdia tempo na pista, correndo!
Mas que graça havia nisso, meu Deus?
- A graça da liberdade, pai. Quando corro me sinto livre.
- Livre do quê?
Não respondeu, e foi correr.
O pior é que o pai sabia que tinha uma parcela de culpa nisso aí.
Como era a primeira filha, e naquele tempo as coisas não estavam tão difíceis como hoje, concederam-na o luxo de matriculá-la na escola pública do bairro. Burrice braba. Além dela ter-se apegado àquele lugar, anos depois passou também a freqüentar seu complexo esportivo e, por lá, descobriu esse atletismo. Mesmo quando a situação apertou, e ela foi obrigada a ir à rua em busca de trocados, ainda dava um jeito de freqüentar as aulas e participar daquele "exercício ridículo de correr em círculos". Para evitar dor de cabeça, o pai não cometeu o erro de matricular na escola os filhos que foram aparecendo em seguida. E o resultado taí: todos eles ajudando legal com a renda da família. Todos menos ela.
- Eu vou ganhar meu dinheiro de forma digna!
Geralmente, frases assim, ditas com a cabeça quente, no calor do momento, nunca dão bons resultados. E com essa declaração da filha não foi diferente.
- Se essa aí acha que meu trabalho não é digno, - ralhou uma irmã - então não merece a ajuda de meu dinheiro indigno!
- Do meu também não! - rosnou um irmão.
- E do meu também não! - vociferou mais um irmão acompanhado de mais um irmão, de outro e de mais outro irmão.
- Então tá acertado! - cuspiu o pai.
Desse dia em diante, a filha passou a se sustentar unicamente com o salário de caixa do mercado, sem ajuda da família. Comprava os próprios tênis, os próprios uniformes e até a própria comida. Também pagava aluguel para poder dormir e estudar no quarto que dividia com os irmãos (cuja casa era sustentada pelo trabalho suado deles, como o pai gostava de enfatizar). Talvez, só assim, em vez de correr por aí, se tocasse que poderia usar o corpo bonito que tinha pra ganhar dinheiro bom com os turistas, como as esforçadas irmãs faziam. Talvez assim, sem ajuda de Seu Ninguém, ela passasse a valorizar o trabalho dos irmãos.
Por um tempo, a garota resistiu bravamente. Teve de fazer mais horas-extras e, apesar das dificuldades, ainda arranjava tempo para manter os exercícios e treinar para as corridas.
Infelizmente, para a atleta, a força de seus músculos era insuficiente para suportar a pressão financeira, e um dia aconteceu.
Ela pediu algumas dicas das irmãs, comprou maquiagens, vestidos, lingeries, e também foi pra rua. A família comemorou.
- Finalmente! Tomou juízo!
Com aquele seios firmes, aquela barriga enxuta, aquelas coxas torneadas, e a aquela bundinha empinadinha, tornou-se uma das grandes contribuintes da família, quase a principal fonte de renda. O pai empolgado sugeriu que a filha deixasse também o emprego de caixa para dedicar-se mais à nova carreira.
- Vou pensar. - limitou-se a responder.
Impaciente, o pai resolveu pensar por ela. Fez uma ligação anônima para o gerente do mercado onde ela trabalhava, denunciando que uma certa funcionária possuía um segundo emprego incondizente com um local de trabalho de respeito como aquele. O gerente agradeceu o elogio ao mercado, mas informou que a tal funcionária já não trabalhava lá faz um bom tempo.
- Ah, vocês já sabiam disso e demitiram ela, foi?
- Não, ela é que se demitiu.
Peraí!
Se não trabalha mais no mercado, que que ela faz pela manhã todos os dias?
Para evitar mais outra dor-de-cabeça, achou melhor não confrontar a filha e seu gênio ruim. Resolveu seguí-la. Cedo ela acordou, fez o café e saiu. O pai foi junto atrás, sem que ela percebesse. Ele sentiu um frio na espinha ao perceber que o trajeto que a filha seguia era bastante familiar. Em seguida, passou a sentir uma grande decepção antes mesmo de chegar ao destino dela. A decepção se transformou em raiva ao confirmar sua suspeita. Ela rumava para a escola. Mais precisamente, ao seu complexo esportivo, onde se encontrava aquela enorme e horrível pista oval vermelha.
Como pode, meu Deus? Abandonar um emprego pra ter tempo de fazer aquilo? Fazer aquilo enquanto podia estar trabalhando mais e ajudando a família? Tá até na Bíblia! Família em primeiro lugar!
- Mas o que você pensa que tá fazendo, sua malcriada??? - gritou o pai, puxando a filha pelos cabelos.
Não se importava com os olhares perplexos, piedosos e revoltados das pessoas ao redor.
Tinha que dar uma punição exemplar!
Ela tinha que tomar vergonha, e não querer mais voltar ali nunca mais!
- Mister! Mister, calma! Não precisar fazer isso!!! - irrompeu um senhor gordo de óculos escuros e fala esquisita.
- Quem porra é o senhor?!?
- Eu ser empresário de sua filha!
- Quem???
- Meu empresário, pai! E ele vai me ajudar a participar de campeonatos ao redor do mundo, e nunca mais verei vocês! - berrou a filha, girando os pés em seguida, e saindo correndo dali, enquanto tentava conter o choro.
- Hã???
O sujeito explicou com seu sotaque ridículo que era um empresário americano do ramo de esportes. Um "olheiro" à procura de novos talentos. Pensa em patrocinar a garota para participar de corridas internacionais. O pai perguntou como ele a conheceu.
- Here, na escola. Eu ver ela correr very good!
E completou estupefato:
- Essa aí vai longe!
O pai era tudo, menos bobo. Já tinha ouvido várias histórias de garotas sendo levadas ao exterior por empresários estrangeiros, que prometiam mudar a vida delas.
Mudavam sim.
Pra pior.
Deu uma prensa no cara. E por que um empresário americano do ramo de esportes procura novos talentos justo naquela escola pública, igual a tantas outras? O americano disse que estava apenas passando ali quando, por coincidência, viu ela correr. Aí o pai se enfezou. O sujeito tava achando que ele era um idiota em acreditar nessa lorota. Segurou o tal empresário pela gola, deu uma nova prensa, e, quando disse a palavra "polícia", o sujeito se rendeu.
- Ok, ok! Eu conhecer sua filha... uh... na rua.
- Ah.
O tal empresário realmente enganava jovens mulheres convencendo-as de que iriam trabalhar participando em desfiles para importantes agências internacionais de modelos. No fim, o que elas faziam mesmo eram "programas". Mas com aquela jovem seria diferente! Após dois programas com ela, esta havia lhe contado sobre a família, o conflito com o pai, e o sonho de se tornar uma atleta conhecida. Aí ele se encantou, pois ela, além de ter um belo corpo, era uma atleta! Era perfeita para umas corridas que ele já vira.
"Corridas especiais".
- Meu Deus! Essa história de corrida é mesmo sério?
- Yes! Ser very serious!
- Tá bom, tá bom. Vou fingir que engulo essa.
O pai logo deixou claro que não estava se importando muito com o real destino da filha, se ela ia correr mesmo ou fazer programa (afinal, ela já estava mesmo fazendo isso, e o pai até acreditava que isso seria uma boa forma dela se especializar no exterior). No momento, só queria saber de uma coisa:
- De quanto estamos falando?
O empresário deu um valor aproximado.
- Puta merda! Que tipo de corrida é essa pra dar tanto dinheiro assim???
- You know apostar em cavalos?
- Sim.
- Ser parecido.
Para mostrar que a coisa era séria mesmo, o sujeito puxou do bolso uma carteira e sacou um maço de dólares para o pai, e perguntou-lhe se aquilo era o suficiente para ajudá-lo com a papelada e manter segredo da filha, para fazê-la uma "surprise".
Senhor! O pai nunca tinha visto tanto dinheiro na vida. Seus olhos se arregalaram é verdade, mas se conteve. Além de não ser nada bobo, era também muito do malandro. Com voz firme, foi logo avisando ao suposto empresário que, como o negócio envolvia apostas, ele ia querer todo mês uma "comissãozinha aí". Advertiu-lhe que tinha boa memória e já havia decorado seu rosto. Por isso, se ele furasse, o pai iria dedurá-lo a uns policiais "sangue-bom" chegados dos filhos traficantes e ele nunca mais teria paz naquela cidade para agenciar outras garotas para o exterior.
A ameaça era pura lábia, mas o gringo não precisava saber disso.
- Ok!
Os dois foram até o belo hotel onde o empresário estava hospedado. Lá, assinaram vários papéis. Tudo acertado, os dois trocaram efusivos apertos-de-mão.
- Ok?
- Ok!
Naquele dia, a filha não apareceu em casa. Nem pra dormir. O pai explicou que os dois tiveram uma briga feia, mas logo disse que ela estava em boas mãos. Ela havia conhecido um empresário americano (do ramo de esportes) que iria levá-la para os principais campeonatos estrangeiros. E para provar que não estava mentindo, nem chapado, retirou as doletas do bolso. Todos ficaram surpresos. A mãe foi a primeira a se derramar em elogios pela filha. Nunca havia duvidado que um dia ela ia chegar lá! O pai concordou. Já as irmãs a invejaram pela sorte grande.
Os dias passaram, e nenhum sinal da filha. Semanas. Um mês. Nada. Dois meses e necas. A família começou a se preocupar. A situação voltou a apertar um pouco, e a mãozinha da filha no orçamento familiar já fazia falta.
Um mês depois, uma carta do correio. Sem remetente. Sem nada. Apenas um maço de várias notas de dólares. Uma dinheirama!
No mês depois, mais outro envelope. Mais um maço. Mais notas de dólares. A família voltou a ficar mais tranqüila.
Nos meses seguintes, mais envelopes, mais dólares, mais tranqüilidade.
Deixaram o barraco, e passaram a alugar uma casinha. A filhas passaram a freqüentar cursos de modelo para melhor atender os clientes. Com mais grana, os filhos também se especializaram. Alugaram uma quitinete onde cuidam da recepção e distribuição dos "produtos". Todos freqüentavam as boates mais badaladas e caíam na "night". A mãe passou a freqüentar salões-de-beleza com maior regularidade . O pai, bares, jogos e motéis.
Tudo ia às mil maravilhas.
Até que, um ano depois, o envelope não veio. No mês depois, também não. Nem no outro mês. A vida agora estava melhor, mesmo assim aquela graninha extra já fazia falta, sabe? Dava para aproveitar melhor a vida. Ah, mas com certeza era isto que a filha fazia agora. Com certeza, passou a gastar a grana somente pra si! Badalação, bebidas, drogas, sexo. A família logo passou a amaldiçoar a filha ingrata.
Que arda no inferno!
Aí ela apareceu na casa deles.
Era madrugada. Chovia torrencialmente. Batiam forte na porta. Parecia alguém desesperado para entrar. O pai acordou, acalmou a mulher, sacou o revólver guardado embaixo do travesseiro, o escondeu sob a cintura, o coldre coberto pela camisa, e caminhou até a porta, que continuava a receber frenéticas pancadas. Ao chegar à porta, encostou-se na parede e perguntou quem era.
- Sssooouu eeeeuuu, áaaaiii!... - respondeu uma voz débil, ao mesmo tempo assustadora e também estranhamente familiar.
- Quem???
- Eeeeuuuu!...
Por segurança, empunhou o revólver e só então abriu a porta. A visão era sinistra. Tremendo, encharcada sob a chuva, uma mulher de expressão pálida, cabelos ralos e maltratados, quase calva, olhos fundos e atemorizados, vestida de forma maltrapilha. Parecia um zumbi amedrontado.
Era a filha.
Puuuutz!
- Paaaaiii... - sussurrou o farrapo humano, jogando-se nos braços do pai e fazendo um som engraçado com seu andar cambaleante.
Póc, póc, póc.
- Paaaaaiii.... Ô, eeeu Deeuussss...
O pai a abraçou, desnorteado e intrigado. Aquilo ali era sua filha? Que que ela tá fazendo ali? Que houve com ela? Que estranho som é esse que ela faz ao andar? E era impressão ou ela estava mais alta?
- Tá tudo bem aí? - adentrava à sala a mãe assustada acompanhada do resto da prole assustada.
- Mãããeee!... - murmurou a filha ao vê-la, caminhando trôpega até ela.
- Aaaaii!!! - assustou-se a mãe com aquela figura bizarra que cambaleava fazendo póc, póc, póc.
Ao afastar-se dele, só então o pai reparou. A filha calçava o sapato... não, péra, não era um sapato, era um tamanco... não, também não era um tamanco. O salto desse... dessa coisa, parecia que ficava sob a ponta dos pés dela... enfim, com certeza aquilo ali era o calçado mais estranho que ele já viu.
Principalmente porque os pés (só então reparou nos pés maltratados e feridos) não estavam necessariamente calçando aquilo. Eles estavam nús. A filha caminhava apoiando a ponta de cada pé naquelas coisas. Pareciam dois cilindros de madeira, de cerca de dez centímetros de altura, um em cada ponta do pé, e suas bases era ligeiramente mais largas que seus topos. Ela levantava o pé, e o cilindro da ponta do pé ia junto. Como se estivesse grudado. Como se fizesse parte. Como se fosse uma extensão natural.
- Óoia! - berrou chorosa apontando para os pés, ao notar a atenção do pai a eles - Óia o que izeeeraam co igo!!!
Logo o pai notou que em cada pé havia uma tira que passava por cima das pontas dos pés e cujas extremidades se prendiam aos cilindros em lados opostos. Mais ou menos como a tira de uma sandália. Só que aquela tira parecia ser de metal (?), e parecia haver uns rebites, também de met... Nossa. Aquilo ali eram parafusos?
- Mas que porra que fizeram contigo?
- Eleeess... Eleeesss...
Soluçou mais algumas vezes e em seguida a filha desatou a chorar convulsivamente.
- Eeeuu naauuummm sssou um bisshh-chô. Auum sô! AAAUUUM SÔ! Eleess é que saaauumm unsss aniaaaaiisss!
E protestava fazendo póc, póc, póc pra lá, póc, póc, póc pra cá.
- NAUUUMM SÔ! BISSSHHH-CHO, NAUUUM!! AAAUUM SÔ! AUUUM! ÂO! ÃO!!!
E em seguida, tal qual um boneco de trapo, desabou ao chão, desmaiada.
- Aaaaii!!! - gritou a mãe.
Todos rodearam o corpo da filha, procurando socorrê-la. O pai e alguns irmãos ajudaram a tirar os trapos encharcados que a vestiam. Tentaram tirar aqueles calçados estranhos, mas não conseguiram. Estavam firmemente presos aos pés (sabe Deus como! E parecia haver duas letras - "P.G" - encravadas nelas). Enxugaram seu corpo (Seu corpo debilitado ainda se mantinha razoavelmente belo, mas suas coxas estava beeeem grossas e... com vergões??? E os seios firmes... ué, ela curtia piercing?), deitaram-na na cama do quarto da empregada (pelo estado da filha, ninguém da família queria arriscar a possibilidade dela morrer - isola! - na cama deles) e a cobriram com vários lençóis. Depois a deixaram só e se reuniram na sala.
Silêncio tenso.
O que houve? O que fazer?
Chamavam a ambulância?
Não, é melhor não. Ela só está desmaiada, só isso. Não deve ser grave.
(Tomara que não)
Mas... o que exatamente aconteceu???
O pai sentava na poltrona, mãos apoiando o queixo, olhos preocupados. Percebeu então a família fitando-o, provavelmente esperando pelas mesmas respostas.
- Ah, por que não vão dormir?
Entreolharam-se. Expressões interrogativas. Em seguida, um dos filhos caçulas voltou-se para o pai.
- Então... acabou? Acabou... tudo? Ela não vai mais poder ajudar a família?
O pai não soube bem o que responder.
- Não sei. Vão dormir, vão!
As filhas tiveram uma noite cheia, os filhos terão um dia cheio, a mãe ia sair cedo com umas amigas, e como não havia mais nada a se fazer naquela hora, foram se deitar. Mas a pergunta do filho continuou martelando na cabeça do pai.
"Acabou? Ela não vai poder mais ajudar a família?"
- Ah, saco!
Tentou dormir, mas não teve jeito.
Horas depois o telefone tocava.
- Carái!!!
Só depois de seis toques, atendeu.
- A... alô?
Do outro lado, uma voz de sotaque estranho. Não, não era daquele americano gordo. Era outro sotaque estranho. Parecia ter um ovo na boca.
Fez três perguntas.
À primeira, o pai respondeu "sim" no mesmo instante. À segunda, hesitou um pouco, mas também logo confirmou. Já à terceira, fez uma pausa. Só então percebeu a família novamente ali reunida no canto da sala, fitando-o. O pai olhou para ela. Expressões interrogativas e preocupadas. Suspirou. Voltou-se para o fone e respondeu "sim".
Desligaram do outro lado.
O pai guardou o fone, e mandou que todos fossem se deitar.
Ninguém fez perguntas.
Poucas horas depois, voltavam a bater na porta. O pai, que já estava na sala, atendeu logo. Do lado de fora, três sujeitos. O do meio trajava um impecável terno e se protegia com um guarda chuva. Os outros dois, homenzarrões mal-encarados, que pareciam ter saído de um ringue de luta-livre, tinham vestes mais modestas, não portavam guarda-chuvas, e não pareciam se importar com o toró. Um deles carregava uma grande sacola.
- Brazilian Dream está? - perguntou o senhor bem vestido.
- "Brazi" o quê???
- O belo espécime do cliente que represento. - respondeu sacando do bolso uma foto e mostrando ao pai.
Era o interior de um estábulo. Em um pequeno cercado, deitada sobre o chão coberto de feno, de coleira (?), guia preso a um poste de madeira, uma mulher nua, de expressão aterrorizada, usando botas de cano alto (nos bicos, cilindros similares aos que tinha visto horas atrás), mãos aparentemente presas atrás da cintura.
Era a filha.
- Ela está?
- Hã... sim.
- Eles podem ir buscá-la?
- Hã... sim, sim.
Indicou a direção do quarto da empregada. Sob o olhar curioso e sobressaltado da família (ela se reunira novamente na sala), os dois grandões entraram e sumiram pelo corredor da sala, deixando o senhor bem vestido acompanhado do pai à porta.
Silêncio tenso.
E constrangedor.
O pai não sabia se, numa ocasião como essa, oferecia àquele distinto senhor uma cadeira, um café, os dois ou se o melhor mesmo era não abrir a boca. De repente, gritos da filha lá no quarto. Barulho. Agitação. O grito tornou-se abafado. Arquejos. Pausas esparsas. Mais agitação.
Que diabos estavam fazendo?
Minutos se passam. Volta o "póc, póc, póc". Gradualmente, junto com os gritos abafados e os gemidos, se tornam mais audíveis. Aproximavam-se da sala, pelo corredor. Aparecem os dois brutamontes. Um deles puxava, com uma certa dificuldade, uma extremidade do que parecia ser uma rédea (???), totalmente esticada, que sacudia para um lado para o outro.
Quando a filha surge (ou melhor irrompe) na sala, a família, perplexa, fica em dúvida. Agora não sabe o que é mais estranho: o estado da jovem antes ou o estado dela agora.
Parecia estar pronta para algum tipo de festa à fantasia erótica.
Erótica e bizarra.
A outra extremidade da rédea terminava em um cabresto... fixado no maxilar da filha! Com um freio de metal entre seus dentes! Aliás, mal se viam os dentes, a boca toda babada, bem como a metade inferior de seu rosto. Ela usava o que parecia ser uma focinheira! Também mal se viam seus olhos marejados de lágrimas. Havia duas pequenas "viseiras", uma em cada lado do rosto, instaladas bem no canto dos olhos, o que devia lhe impedir a visão das laterais. E um grosso colete em seu pescoço também a impedia de virar a cabeça para os lados.
Nos seios, que sacudiam a cada passo, pequenos sinos pendurados nos piercings. E pareciam ser pesadinhos, pois, com a gravidade, puxavam os piercings para baixo e conseqüentemente os mamilos também. Nos quadris, um corset. Um corset dos mais apertados. O pai nunca vira mulher alguma na vida com uma cintura tão fina como aquela!
Dando um toque todo pitoresco ao conjunto, um penacho sobre a cabeça, e um sininho pendurado na altura da testa, um pouco acima da linha de visão. E além disso... aquilo ali era uma corda entre as pernas???
Ela e o brutamontes disputavam uma espécie de cabo-de-guerra. Ela se contorcia, fazia força para trás, tentando resistir a ser arrastada daquele jeito. Porém, era um cabo-de-guerra covarde. Além do brutamontes ser bem mais forte que a garota, esta só conseguia realizar uma força contrária forçando a cabeça para trás e o corpo pra baixo. Não conseguia usar as mãos, pois elas estavam algemadas a uma espécie de cinta em volta dos quadris. Sem poder usá-las, sem poder virar a cabeça, as vistas laterais prejudicadas e se equilibrando precariamente apenas nas pontas dos pés enquanto era arrastada à frente, a impressão que se tinha é que ela iria levar um belo de um tombo a qualquer instante. Mas não! A cada forte puxão da rédea, a filha se desequilibrava por uns instantes, mas em seguida recuperava habilmente o equilíbrio. Parecia estar bem habituada a caminhar daquele jeito.
E logo voltava a resistir vigorosamente, se debatia, se dobrava. Fiapos de baba e lágrimas escorriam do cabresto. Já não gritava mais, apenas soluçava e ofegava profundamente, obviamente já perdendo o fôlego (com aquele corset, ninguém podia culpá-la por isso). E aqueles gemidos, aqueles soluços, o tilintar dos sininhos em seus seios, e o "póc-póc-póc" de seus pés produziam uma cacofonia que realçava sua força de vontade indomável e selvagem.
Infelizmente, ser indomável e selvagem cansa. Principalmente quando se é assim contra alguém que tem o dobro de seu tamanho e possui mais músculos que um atlas do corpo humano.
Pouco a pouco, a jovem já não oferecia tanta resistência. A força que ia sobrando parecia agora ser gasta em gemidos e choro.
Enfim, o brutamontes a arrastou até à porta, deixando-a próxima de seu pai e o senhor bem vestido.
- O pé. - o senhor falou-lhe como se tivesse dando uma ordem.
A garota protestou com mais um grito abafado.
O outro brutamontes aplicou-lhe na panturrilha direita um açoite com uma vara. A jovem gritou e imediatamente dobrou o joelho direito, expondo a sola do pé direito àquele senhor. Este examinou aquela estranha coisa na ponta do pé e sorriu.
- O outro.
Desta vez, a garota fez o mesmo com o pé esquerdo. O senhor repetiu o exame e tornou a sorrir.
- Ótimo. Podem levá-la.
A garota voltou a se debater enquanto era arrastada pra fora.
Póc, póc, póc!
Apenas nesse momento, ao dar as costas ao pai, é que ele percebeu que, as mesma letras inscritas naqueles cilindros esquisitos, também estavam marcadas numa das nádegas da filha. Percebeu também que, aquela "corda" que pendia entre as pernas dela, mais lembrava uma espécie de cauda animal, um rabo. Era bastante peludo e saia do cuzinho da garota.
(!!!)
O senhor bem vestido enfiou a mão no bolso.
- Desculpe o triste espetáculo, mas... você sabe, às vezes precisamos dar uma punição exemplar.
O pai demorou um pouco pra responder.
- É... eu sei - disse observando a filha sendo levada até próximo a uma van estacionada na rua.
- Geralmente, não nos preocupamos com as desgarradas, principalmente aqui, onde ninguém acredita no que elas dizem.
Pra não fazer desfeita, e não deixar aquele distinto senhor falando sozinho, resolveu dizer alguma coisa.
- É?
O sujeito sacou uma carteira.
- Sim, mas como ela estava com um dos nossos protótipos, tivemos de vir buscá-la.
- "Protótipo"?
- É. De um calçado. Um calçado "especial".
- "Especial"?
- Exato. Para corridas. Corridas "especiais". - disse sacando um maço de notas, e começando a contá-las. - E esse promete. Brazilian Dream escapuliu de nossa pista de provas a quilômetros e quilômetros dessa cidade, foi andando até a antiga casa de vocês, e depois veio parar aqui na nova. E mesmo assim continua em bom estado. Tanto ela, como os protótipos.
Separou várias notas e as entregou ao pai.
- Essa aí vai longe.
O pai olhou aquelas várias notas sem dizer nada.
- Pelo incômodo e pela discrição. Boa noite.
O senhor caminhou até os brutamontes que o esperavam com a garota. Abriram as portas traseiras da van, a jovem fez mais um derradeiro "póc, póc, póc" sendo arrastada para o interior do veículo, que deu a partida e dirigiu-se noite adentro.
Sumindo na rua sem fim.
O pai entrou em casa, fechou a porta e percebeu os olhares perplexos e confusos da família. O pai balançou a cabeça.
- Vamos dormir. Acho que agora... tudo voltou ao normal. - disse guardando as notas de dólares no bolso.
A família se entreolhou e depois foi se deitar.
Felizmente o pai estava certo. Após o susto, tudo aparentemente se normalizou. No final do mês, mais um envelope com notas em dólares. No mês seguinte, mais um envelope. No outro, também.
Só que depois, a coisa mudou de figura.
Não veio um envelope. Veio uma pequena caixa. Em vez notas, Maços. Vários maços com várias notas de vários dólares. Junto, uma foto e um panfleto.
Na foto, a filha naquele traje esquisito, com uma expressão exausta, no meio de outras duas mulheres, também "vestidas" de forma parecida e com expressões exaustas. Só que as três estavam num pódio. E a filha no patamar mais alto. Em volta de seu pescoço, um ramalhete de flores em forma de ferradura. Ao lado da filha, segurando-lhe a rédea, um sujeito sorridente exibia um cartaz em forma de cheque. Por estar em uma língua que não conhecia, o pai não soube o que estava escrito nele, mas pelo sorrisão do cara, parecia ser algo muito bom.
Já o panfleto parecia um daqueles anúncios com produtos espalhados, letras garrafais, números miúdos e cores vibrantes, tudo parecendo explodir na cara de quem o lesse. Os produtos, distribuídos pelas margens do panfleto, eram várias botas com cilindros nas pontas, similares àqueles estranhos que já vira antes. No meio do panfleto, em destaque, com os braços presos às costas, uma mulher de focinheira, arreios, cabresto, rédeas, banco-de-montaria, um par daquelas botas estranhas.
Era a filha.
(Reconheceria aqueles seios firmes, a barriga enxuta e as coxas bem torneadas em qualquer lugar).
No canto do panfleto, também em destaque, as mesmíssimas letras que tinha visto meses antes.
O pai olhou para os maços de dólares, olhou para o panfleto, olhou para a foto da filha sobre o topo do pódio, e então sorriu.
A garota havia se tornado uma campeã, ficou famosa, tirou de vez a família da miséria e agora enchia o pai de orgulho.
É, tinha de dar o braço a torcer. No fim, a filha realmente cumpriu a promessa.
Garota de fibra.
Essa aí vai longe!