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Lembranças do Calabouço - Cap 06
Muitas outras torturas se seguiram naquela mesma noite. Mas se narrasse todas aqui, o texto ficaria deveras longo e eu não poderia conclui-lo em 10 capítulos, como pretendo fazê-lo. O importante a deixar registrado é que um terrível acontecimento me aguardava.
Após a noite de fortes torturas, dormi na meu quarto. Ana ajudou-me a deitar e eu tive dificuldade em pegar no sono. Além da dor, aquele último contato fora mais do que excitante. Ver de perto o rosto de mestre Frederico junto ao meu e sentir seus lábios próximos dos meus... Senti o leve roçar de sua barba fina entre minha boca, seguida da interrupção do meu ar. A sensação do controle total, a verdadeira entrega da vida, tudo aquilo fez com que eu me masturbasse em silêncio, me satisfazendo com lágrimas de alegria.
Quando acordei no dia seguinte, mestre Frederico já havia saído. Ana me contou que ele precisou sair rapidamente, por causa de um assunto particular. Felizmente ele havia me deixado dormir mais tempo, já que sabia que meu corpo não estava acostumado com uma sessão tão forte. Ajudei Ana na limpeza, assim como nos outros afazeres da casa. E foi quando notei que alguém mais estava conosco. Era aquele escravo que havia sido pisado sem dó.
Ele era mais velho do que eu, mas não aparentava passar dos vinte e cinco anos. De aparência calma, ele nos ajudou a varrer todos os quartos. Como a casa era imensa, eu nem conhecia tudo. Aproveitei a oportunidade para conhecê-lo melhor. E descobri que ele se chamava Rodrigo.
- Nunca o vi por aqui, só ontem. Onde você costuma ficar? - perguntei.
- Eu cuido dos jardins e da parte externa da casa. Mestre Frederico gosta de me ver revirar a terra e me deixar queimado no sol, amarrado com uma longa corrente. Ele fica me observando de dentro da casa, enquanto bebe um refresco e lê o jornal. E sei que, de vez em quando, ele confere para ver se estou plantando bem e colhendo os alimentos na hora certa.
- É você que planta e colhe tudo o que comemos aqui? - eu estava surpreso.
- Não só planto e colho, como também rego e cuido de outras plantas como as roseiras. Mas muitas coisas não podem ser produzidas e mestre Frederico manda alguém comprar. Isso vale como uma função para mim e um jeito de fazer com que eu tenha uma utilidade para a casa. Sem contar na fiscalização de Inácio, que sempre me observa... Você é muito novo. Vejo que fica mais com a parte interna da casa.
- Sim, eu entendo um pouco de cozinha e sei fazer pães. - ao dizer isso rapidamente me recordei de minha antiga casa. - Nunca saí daqui e nem conheço como é o outro lado.
Rodrigo perguntou se eu queria conhecer e fiquei tentado a aceitar a proposta. Conversei com Ana, e ela advertiu que Inácio poderia se revoltar com isso. Eu já nem me lembrava de Inácio, mas sabia que ele não sabia respeitar os limites humanos e era capaz até de matar uma pessoa. Recordei da história da escrava que foi estuprada e presa na caixa durante um longo período. Isso me deixou com dúvida se valia mesmo a pena tentar conhecer como era o lado externo da casa.
- Vamos, se Inácio aparecer eu direi que você está para me ajudar. - sugeriu Rodrigo.
Sabendo que eu já possuía uma desculpa, sai com Rodrigo. Fazia tempo que eu não senti a luz do sol em contato com a minha pele. E o mundo me pareceu tão grande e diferente. As propriedades do mestre Frederico eram imensas. O terreno se alongava até o horizonte e havia uma linda área verde, muito bem cuidada. Caminhamos um pouco, enquanto continuávamos a nossa conversa. Vi muitas árvores grandes, plantas bonitas e um jardim com rosas bem tratadas.
- Vou lhe mostrar um segredo. Veja só isso...
Rodrigo sentou no meio da relva e vasculhou alguma coisa entre o mato. Então, puxou uma corda e abriu-se um buraco. Só então eu entendi que aquilo era uma extensão do calabouço. No subterrâneo, havia passagens e corredores longos que levavam a pequenas celas que eram cubos apertados. Alguns escravos eram deixados ali por bastante tempo. Fiquei com medo quando pensei na possibilidade do mestre Frederico se esquecer de alguém ali.
- Só é possível abrir do lado de fora. Quem está dentro não consegue sair. Eu fiquei dois dias preso aqui... - confessou Rodrigo.
Mestre Frederico me pareceu ameaçador, mas não era ele que deixava os escravos lá. Era Inácio. E foi justamente ele que apareceu naquele exato momento. Usando uma roupa marrom e portando um longo chicote, ele nos surpreendeu dizendo:
- Com saudades do calabouço? Se quiser eu prendo os dois nesse mesmo cubo. O que acham? - ele disse, rindo.
- Ele está me ajudando nos afazeres. - disse meu novo amigo.
Inácio deu um tapa em Rodrigo, que caiu no chão. Eu tentei ampará-lo, mas levei um chute que também me fez cair, só que perigosamente perto do buraco. Inácio se aproximou de Rodrigo e pisou em seu peito, com força.
- Se algum dia eu sonhar que você está tentando fazer alguma coisa que não deve, eu irei jogá-lo dentro de um buraco desse e esquecer de você. Está me entendendo? - perguntou, afundando mais o pé.
Ouvi Rodrigo dizendo que sim. Mas Inácio ainda não estava satisfeito. Começou a limpar as botas no corpo do escravo, passando-as com violência:
- Eu direi para o senhor Frederico que você decidiu fugir e ninguém saberá onde você está. E quando eu estiver com vontade de mijar, será na sua nova casa. Você será minha privada, e o meu mijo será sua única alimentação. Depois de um dia eu tenho certeza que você irá implorar para que eu esteja com a bexiga cheia e irá agradecer para beber meu mijo. - Inácio gargalhou. - Se não andar na linha, você está acabado, verme. Não vai sobrar nada de você.
Dito isso, ele deixou de se apoiar em Rodrigo e continuou andando. Eu estava tremendo de medo. Ele era muito maquiavélico, perigoso. A descrição que Ana havia feito foi perfeita porque ele era mesmo um monstro insensível. Quando passou do meu lado, deu uma escarrada, que escorreu pelo meu rosto. Eu continuei parado no chão, torcendo para que ele saísse. E foi isso que aconteceu.
Rodrigo também ficou no chão, mas levantou-se depois de alguns minutos, quando notou que Inácio estava longe. Eu estava quieto, tremendo. Quando Rodrigo estendeu a mão para me ajudar a levantar, eu notei que estava molhado. Havia feito xixi naquele instante de terror. Inácio realmente me assustou. Limpei meu rosto daquele líquido nojento e continuei meu passei com Rodrigo. Mas agora nada parecia bonito. Eu estava preocupado com aquela presença maléfica e volta e meia me virava para saber se ele estava por perto.
Então fomos até uma pequena lagoa, que era próxima da casa. No caminho, Rodrigo entregou-me uma mistura de flores e frutas, que seria bom para que eu me acalmasse. Estava tudo amassado e eu comi, esperando me tranquilizar daquele nervosismo. Mas a medida que eu andava, mais cansado eu ficava e comecei a ficar com sono.
Me senti estranho e relembrei de momentos confusos da minha vida. A imagem de meu primo assando um pão enquanto eu me esforçava em misturar a massa. Depois Ana dizendo que precisávamos trabalhar rápido para deixar a casa limpa. Mestre Frederico me chamando de verme. O cheiro de seu charuto. A estranha figura mumificada naquele quarto. Novamente a minha antiga casa. O barulho dos talheres sendo lavados. O rosto de Inácio rindo enquanto ameaçava a vida de Rodrigo. E o próprio me perguntando se eu estava me sentindo bem.
- Eu....eu... não estou bem...
Caí no chão e Rodrigo me levantou, em seus ombros. Eu não sabia se possuia algum problema no coração, mas a impressão que eu tinha era que ele estava pouco a pouco parando de bater. Vi a casa se distanciando. Eu estava sendo levado para uma direção oposta a da casa. Para onde estavam me levando?
Rodrigo me levou para a margem da lagoa. Perguntou o que eu estava sentindo. E eu tentei explicar, embora a minha língua parecesse estar dormente. Eu não conseguia falar. Pensava algumas coisas, mas era impossível dizer qualquer palavra. Aquele estado de dormência começou a me preocupar quando Rodrigo foi rolando meu corpo para dentro da água. Pensei que talvéz o contato aquático me fizesse despertar, mas notei depois que suas intenções eram outras.
Minha cabeça ficou submersa e eu não pude fazer. Rodrigo virou-me e eu não consegui ouvir muita coisa, exceto:
- Você não vai ser o escravo preferido dele...
Novamente afundei. Prendi a respiração ao máximo, mas não estava mais conseguindo respirar. Meu corpo não respondia meus movimentos e eu estava começando a afundar como uma pedra. Mesmo nessa confusão mental, tentei gitar o nome do meu mestre. Pedi para me salvar, para me ajudar naquele momento de pânico. Mas mestre Frederico estava longe naquele instante. Minhas esperanças evaporaram quando eu não consegui mais segurar a respiração e engoli água...
* * *
A imagem que eu vi em seguida foi a de Ana, tricotando do meu lado. Eu estava no quarto. Chovia muito e ela pareceu surpresa quando me viu despertar. Pronunciou alguma coisa, mas só depois de uns minutos que eu consegui ouvir ela me chamar.
- O que aconteceu? Ana? O que aconteceu? - perguntei, me levantando.
- Deite-se, Bruno. - ela disse, me empurrando e cobrindo. - Você só pode se levantar quando se recuperar totalmente do envenenamento.
- O que? - gritei, assustado.
- Rodrigo te envenenou. Ele sempre demonstrou ser um egoísta e ele tinha inveja de você pela sua idade. - Ana me contou. - Você comeu uma mistura perigosa que envolvia um cogumelo venenoso. Você podia ter morrido. Quando fui estender as roupas, vi um barulho estranho na água e corri até a lagoa, onde vi Rodrigo apenas te olhando enquanto você se afogava. Então eu gritei e tratei de te salvar. Eu teria morrido também, se Inácio não tivesse aparecido depois, por causa do meu grito.
- Eu não estou acreditando nisso, Ana! Onde está Rodrigo agora?
- Inácio o prendeu numa cela enquanto mestre Frederico não chegava. Assim que ele retornou, ficou sabendo do acontecido e o expulsou daqui, para sempre.
Eu estava pasmo com tudo aquilo. Rodrigo parecia ser tão gentil e eu não havia associado o meu mal estar com aquela mistura que ele me entregou. Sabendo que ele cuidava das plantas da casa, eu imaginava que ele soubesse o que era comestível e não. Mas não havia pensado que ele pudesse usar tais conhecimentos para a minha destruição.
- Ele chorou muito e implorou para que mestre Frederico não o abandonasse. Mas assim foi feito. O que ele fez foi realmente imperdoável. Antes de ser despejado, porém, Inácio o espancou. Rodrigo foi jogado todo quebrado... - disse Ana. - Olhe meu braço, foi ele que fez isso.
Vi uma cicatriz grande. Ana me contou que Rodrigo planejara enganar a todos, dizendo que eu havia me afogado na lagoa. Mas mesmo assim estava armado com um canivete, que foi usado para cortar Ana quando ela havia visto meu afogamento. Porém uma coisa me chamou a atenção. A ferida já estava cicatrizada. Perguntei quanto tempo eu havia dormido e a resposta foi surpreendente:
- Quinze dias, Bruno. Quinze dias. Os médicos avisaram que você talvéz nunca mais voltasse para nós. Aquele cogumelo era venenoso, como eu disse. É um milagre você estar aqui de novo. Mestre Frederico ficará feliz quando te ver. Ele ordenou que eu ficasse aqui o dia inteiro, cuidando de você.
Agradeci a Ana. Ela havia sido como uma mãe para mim. E eu estava disposto a pagar qualquer preço para retribuir tamanha gratidão.
- Ele gosta muito de você. Eu não sei bem o motivo, mas pela primeira vez eu vi mestre Frederico preocupado mesmo com um escravo. Se fosse outro eu acho que ele nem mostraria tanta preocupação. O que é que você tem de interessante, hein?
Ana me questionou, colocando a mão por baixo do lençol. Senti seus dedos em contato com meu corpo. E só aí percebi que eu estava sem roupa. Ela deu um sorriso estranho e disse que me conhecia melhor do que eu podia imaginar. Fiquei envergonhado. O barulho forte das portas abertas me fizeram saber de uma coisa. Mestre Frederico acabara de voltar da rua.
continua...