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A Compra
Chego pontualmente, era um lugar lobrêgo, em dias idos, estes armazéns das docas tinham sido locais movimentados, com constantes entradas e saídas de mercadorias, hoje já são poucos os barcos atracados e mesmo esses apenas fazem escala. Aportam para uma manutenção ligeira, metem combustível, e partem sem grandes demoras.
A maior parte dos armazéns já foi transformada em bares ou restaurantes, os que restam cumprem a sua função espaçadamente, guardam sobretudo restos esquecidos, caixas que encerram recordações do passado que o tempo apagou da memória.
Estranhei terem-me chamado! Locais assim são páreo de ferros-velhos, ou traficantes de todo o tipo de lixo químico ou bélico. Interesso-me por antiguidades, sobretudo relógios de bolso mas recuso-me a comprar tudo o que possa ter proveniência escusa pelo que naquele local muito dificilmente compraria alguma coisa.
Depois de uns pontapés valentes na porta, dados por falta do costumeiro botão da campainha convidam-me a entrar.
De sem delongas e de forma seca aponta para a frente e diz: Queres comprar aquilo?
Fiquei surpreendido, mas expirei um melancólico vamos ver!
É um modelo de Junho de 69, apressou-se a explicar, tem algum uso já mas ainda o podes explorar um pouco, a parte de trás está quase nova.
- Tem nome? Perguntei, enquanto iniciava a inspecção.
- Chama-lhe o que quiseres, respondeu prontamente.
Os dentes parecem bons, apesar de carecerem de uma boa escovadela. Só olhei para os dentes visíveis os outros que não contribuem para o aspecto não me interessam.
De um modo geral era um animal agradável, farta de carnes é certo mas parecia robusta, pena não ter mamas maiores! Em compensação tem uns quadris fartos e costado largo.
Até que podia ser útil, há alturas em que me faz falta algo para passar a mão acarinhar dar mimos enquanto penso, outras vezes bem podia ter besta onde descarregar o stress e as frustrações.
- Faz com que se deite de pernas abertas, quero fazer-lhe uma pequena inspecção. Não sabia ao certo o que fazer mas apeteceu-me! Meti-lhe dois dedos dentro mas logo me apercebi que podia meter sem qualquer dificuldade mais um. Tem uma boa lubrificação mas já tem muito uso, não teria dificuldade em meter a mão inteira. O cu dizes que tem menos uso?
- Juro-te que tem! Vais ter de perder muito tempo para lá conseguires enfiar a mão!
- Bolas dá-me boas notícias! De um lado tem mais de duzentos mil quilómetros do outro tenho de perder muito tempo para Pô-lo como gosto! Alem disso já tem umas marcas o que a desvaloriza um pouco. Quanto queres por isto?
- Não quero muito! Olha fazemos assim: leva-a!! Se gostares dás-me o cachimbo em espuma de rocha que te tentei comprar da outra vez.
- Estás doido? respondi escandalizado. Aquele cachimbo é uma obra de arte, até te o posso dar como prenda de anos mas por troca por isto nunca! Uma coisa é amizade outra são negócios!
- Ok! Ok! Não te queria ofender! Olha vou ser franco contigo! Tinha-a lá em minha casa mas já quase não lhe dou uso, antigamente divertia-me com ela mas agora estou mais pacato e já não tenho paciência para a educar, leva-a pois que um dia destes acertamos contas.
Apertamos as mãos e esperei que ele a embrulhasse numa espécie de oleado antes de pegar na trela para me ir embora com mais uns dos trastes com que encho a casa, espero pelo menos dar uso a este, até porque é volumoso! Ou lhe dou uso ou será difícil arruma-lo.
- Tens uma casa de banho? Perguntei, antes de sair pela porta. Estranhamente ele tinha ficado no mesmo lugar como se estivesse pena de ver partir mais um bocado dos bons momentos de tempos antigos. É estranho como nos apegamos a alguns objectos, pensei. Tens casa de banho ou não tens? Gritei eu para o despertar daquele torpor.
- Não! Não tenho, a que havia foi deitada a baixo há muito por um condutor bêbado de um camião que entrou desgovernado por aqui a dentro e só parou quanto tentou enviar a cabine pela porta a dentro da casa de banho. Faz ai em qualquer canto!!
- Não te vou deixar isto a cheirar a mijo! Por que me tomas??? Não fiquei à espera de resposta, virei-me, dei um puxão na trela deixando-o absorto. Percorri os poucos passos que me separavam da porta, ao lá chegar uma senti de novo aquela pontada própria de quem tem a bexiga cheia e quase a rebentar, tinha de ser, não ia aguentar até casa.
- Olha já que fiquei contigo o melhor é dar-te uso, disse olhando para a minha nova aquisição, enquanto a obrigava a ajoelhar, abrir a boca e me preparava para desapertar a berguilha.