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Stefano sempre foi assim, desde criança. Para ele, nenhum 'fato sobre a vida' que viesse de fora, na forma de conselhos dos pais ou educadores, merecia muita consideração. Ele tinha de comprovar, experimentar, sofrer se fosse o caso. Foi um menino muito precoce, e, como era de se imaginar, os maiores conflitos com seus familiares giravam em torno de assuntos da sexualidade. Crescera em uma cidade do interior gaúcho, no seio de uma família 'católica de fachada', ainda que conservadora, e somente os avós maternos tentaram incutir algum sentimento religioso no garoto. Em vão. Stefano chegou, certa vez, a provocar a ira de um padre a tal ponto que este quase se jogou ao seu pescoço, com o fito de esganá-lo. Influência das muitas leituras de Carlos Zéfiro e Nelson Rodrigues? Provavelmente. Certo é que ele gostava de provocar, colocar as pessoas frente a seus próprios preconceitos. O interesse pelas práticas sexuais ditas 'não-ortodoxas' surgiu já na puberdade, e por muito tempo isso foi uma frustração para o garoto, que não tinha como pô-las em prática. Stefano tinha uma inclinação submissa, e suas fantasias envolviam um tipo de dominação violenta e crua. Ao atingir a maioridade e se mudar para a capital gaúcha, para estudar, as coisas começaram a melhorar. Stefano ampliou seu conhecimento de forma considerável, e passou a fruir de experiências que só a cidade grande proporciona. Com o auxílio da internet e das salas de bate-papo, então, o rapaz libertou-se de vez dos fantasmas do preconceito que sempre o atormentaram. O que escandalizaria os seus conterrâneos, que não hesitavam em taxa-lo de louco, aqui era discutido (e praticado) com a maior naturalidade. Descobriu que certas coisas que sentia e tinha vontade de fazer tinham nome, e não só nome, mas também uma vasta gama de adeptos. Logo já estava discutindo com propriedade sobre bdsm, top, botton, spanking, trampling, bondage e uma infinidade de termos. Não só trocava idéias, mas começou a vivenciar esse novo mundo também, inicialmente com garotas de programa, depois em plays organizadas por grupos aos quais se filiou. Apesar da mudança de ares ter expandido incrivelmente os horizontes de Stefano, ele ainda não se sentia totalmente integrado aos grupos e círculos que freqüentava. Não restava dúvida de que era adepto do bdsm como submisso, mas a submissão que ele idealizava não era aquela formal, cheia de regras, cerimônias, acessórios e parafernálias; as cenas que ele imaginava eram o mais próximas possível da realidade, a violência nua e crua que todo cidadão da grande metrópole já está acostumado a ver. Nessas cenas não existia a escuridão de um castelo, nem uma domme vestindo couro reluzente e saltos altíssimos, e muito menos um escravo nu e preso por duzentos nós a uma estrutura de madeira ou coisa que o valha. Stefano queria apanhar, simplesmente; queria uma mulher que batesse nele sem cerimônia, sem xingamentos ensaiados, nem falsa cara de má e muito menos medo de machucá-lo; queria sentir a dor real, e não aquela prevista e dosada. Não queria ser surrado com chicotes coloridos, chinelo de florzinhas, chibata ou palmatória com tachinhas; queria sua carrasca munida apenas dos próprios punhos e do seu ódio; de armas, apenas o solado duro dos seus sapatos e algum objeto que achasse à mão e julgasse útil para a surra. Como uma briga de rua entre um assaltante desavisado e uma campeã de karatê, por exemplo. Stefano delirava só de pensar nisso, mas não achava meios de realizar tal fantasia. Com as prostitutas só encontrou decepção: aquelas medrosas não chegavam aos pés da espancadora dos seus delírios; nos grupos de bdsm sua sorte não foi diferente: conseguiu, isso sim, palavras e olhares de reprovação por menosprezar as leis primeiras do bdsm (são, seguro e consensual). Nas suas incansáveis andanças virtuais pelas salas de bate-papo, Stefano conheceu Bárbara, com quem muito discutiu sobre o seu insólito fetiche. Garota de 25 anos, divorciada, foi uma das poucas que não o recriminou ao conhecê-lo por este lado. Encontraram-se pessoalmente e tudo. Ao mesmo tempo em que o advertia dos riscos de tentar pôr tal fantasia em prática, Bárbara contou um fato que as palavras de Stefano a fizera lembrar. Era sobre uma amiga dela que, voltando de uma festa, furiosa pelo pé-na-bunda que levara do namorado, descontou sua raiva num mendigo que dormia na rua: Afrodite/RS diz: "De repente, sem mais nem menos, ela desceu do carro, correu até lá e começou a chutar o cara. Chutou muito, na barriga, no peito, até no rosto. O coitado nem sabia o que tava acontecendo, só tentava se proteger" Durcet diz: "E vcs, não fizeram nada?" Afrodite/RS diz: "Nós ficamos paralizadas, pasmas. Não sei como não fomos segurar a Mauren..." Durcet diz: "E como acabou?" Afrodite/RS diz: "Depois de tomar muitos chutes, em todo o corpo, o mendigo se encolheu, protegendo a cabeça, e implorou pra Mauren parar. Parecia chorar. Não sei por que não se levantou, acho que ficou com medo. Cuspia sangue, o coitado; deve ter perdido os poucos dentes restantes com um chutão que ela deu" Durcet diz: "E depois?" Afrodite/RS diz: "Ela atendeu suas súplicas e parou, mas ainda não estava satisfeita. Catou uns sacos de lixo que tinha perto, rasgou-os e derrubou toda a imundície em cima do coitado, enquanto o xingava de tudo que é palavrão. Uns três sacos, acho. Um deles tava todo melecado, arrgh!" Durcet diz: "Deusulivre... acabou com o infeliz..." Afrodite/RS diz: "Terminada a balbúrdia, ela apagou a fogueirinha que o aquecia e voltou pro carro, e saímos rápido de lá, com medo de que aparecesse alguém. Ainda em choque, só ouvimos da Mauren: 'Agora tô mais calma. Desculpem a minha explosão, gurias. Sei que exagerei um pouco, mas ele tava no lugar errado, na hora errada e no caminho da pessoa errada. É a vida na cidade grande...'. Prosseguimos caladas. Demorei até conseguir dizer algo" Durcet diz: "Confesso que essa história me excitou bastante..." Afrodite/RS diz: "Credo, Stefano..." Durcet diz: "É a natureza humana, querida. Ela leva alguns a praticar esses atos insanos, e outros a se excitar com eles, inexplicavelmente. Não temos como fugir dela. Não significa que eu esteja defendendo tua amiga" Afrodite/RS diz: "Só sei que essa tua natureza humana não age em mim não! Achei horrível o que ela fez!" Durcet diz: "A natureza humana age em todos nós; pode se manifestar de outra forma em vc, só isso. Para viver em sociedade, alguns devem reprimi-la mais, outros menos." Afrodite/RS diz: "Sei lá..." Durcet diz: "Você ainda é amiga da Mauren?" Afrodite/RS diz: "Sou. Por quê?" Na mesma hora em que apertou o Enter, Bárbara se deu conta da burrada que cometera. Conhecendo Stefano como conhecia, já podia imaginar sua reação. E foi dito e feito: Stefano queria reviver o episódio do mendigo, com a mesma protagonista e ele como a vítima, obviamente. Todas as tentativas de Bárbara de dissuadi-lo foram em vão. Stefano estava decidido. Começou a armar um plano meticuloso, com mil variantes que precisavam se conjugar perfeitamente, sem margem de erro, tal qual uma orquestra. Stefano vestir-se-ia de mendigo e ficaria esperando em determinado local; Bárbara convidaria Mauren para uma festa e, na volta, passariam onde estava Stefano; Mauren não poderia desconfiar de nada, mas deveria estar no mesmo estado de espírito daquele dia em que surrara o mendigo, para assim ter vontade de repetir a experiência; Bárbara deveria permitir (ou mesmo ajudar) que Mauren extravasasse sua personalidade violenta e levasse a cabo seu perverso intento; ao final, leva-la-ia pra casa, tal qual o episódio relatado. O plano estava repleto de dificuldades, algumas superáveis, outras dependendo unicamente do acaso e da sorte. O mais difícil não seria convencer Bárbara a passar por cima do seu sentimento ético e agir, nesse enredo, como uma perfeita atriz. Stefano era mestre na arte da persuasão, e contava com o apreço de Bárbara e seu desejo de vê-lo feliz, ainda que isso dependesse dessa bizarra fantasia. A verdadeira dificuldade seria em relação à Mauren. Sem saber, ela seria a personagem principal, e toda a responsabilidade pelo perfeito desfecho do plano estaria assentada nela. Bárbara deveria certificar-se do estado de humor de Mauren, que deveria estar deveras sombrio, convencê-la a sair e contribuir para o agravamento desse mau-humor, mas sem que a outra percebesse. Nesse programa noturno, as coisas deveriam dar errado para Mauren, mesmo que, discretamente, Bárbara precisasse contribuir para isso. Não ter conseguido ficar com nenhum rapaz, na festa, seria uma boa situação. 'Bárbara, confio em você' era como Stefano respondia às inúmeras indagações da amiga. Só observou que seria melhor que Mauren estivesse na tpm, não só por facilitar o desfecho almejado, mas também porque fazia parte da fantasia do rapaz. Outros detalhes também foram acertados, como o local (ermo e desolado) em que se travaria o covarde embate, o sistema de comunicação codificada que Stefano e Bárbara usariam, para que tudo corresse no tempo certo ou esta pudesse comunicar eventual necessidade de abortar a operação, entre outros detalhes. Se algo desse errado, como, por exemplo, Mauren não estar 'a ponto de bala', ou um simples transeunte que aparecesse na hora, tudo teria de ser cancelado. A parte de Stefano também não era nada fácil: teria de se vestir de mendigo, maquiar-se, arranjar vários trapos sujos, cobertores, e assim dirigir-se ao seu posto, com sua moto, torcendo para que não fosse interceptado por nenhum policial. E que eles não aparecessem durante nem depois da 'cena', era o motivo da reza de Stefano. Seria uma judiaria se tanto empenho resultasse em fracasso... Até o último momento, Bárbara o advertia dos perigos: Afrodite/RS diz: "O que eu mais temo, Stefano, é que Mauren te machuque de verdade, te quebre algum osso, algum dente, te acerte o olho... Ela é estúpida, eu conheço" Durcet diz: "Não se preocupe com isso, querida, eu tô preparado, e não há como evitar esses perigos, não no tipo de experiência que eu quero ter. Só o realismo total, imprevisível, pode me trazer o prazer que busco" Afrodite/RS diz: "Mas vou me sentir culpada se algo de ruim te acontecer..." Durcet diz: "Te absolvo nesse momento de qualquer culpa. Assumo todos os riscos. Você já viu alguém, nesse mundo, atingir o nirvana sem precisar atravessar um lago apinhado de crocodilos, por uma ponte de tábuas podres?" Chega o dia. Desde a manhã, Bárbara ia comunicando Stefano das tratativas com Mauren. Conseguira convencer a amiga a sair, a muito custo, pois ela estava furiosa com um professor que a reprovara numa disciplina. 'Isso ajuda!', vibrou Stefano. Toda a paupérrima indumentária já estava pronta; o local, perto da casa de Bárbara, definido, e o sinal para que ele fosse para lá, combinado. O rapaz estava radiante. A tão almejada experiência, enfim, aconteceria. As conseqüências? Ignorava. Sua ponte de tábuas podres o esperava, não havia atalho. Na danceteria, Mauren ficou boa parte do tempo de cara amarrada. 'As coisas vão bem', pensava Bárbara. Uma hora, Mauren começou a observar um rapaz. Pediu conselho à amiga, que disse para ela esperar uma iniciativa dele. Mauren vai ao banheiro, sozinha. Bárbara, que tinha reparado outra garota olhando pro mesmo rapaz, vai até este e fala de uma 'certa garota' interessada nele. A outra (a desconhecida), lógico. Ao voltar, o casalzinho já está formado, e Mauren não consegue disfarçar sua fúria. Seus olhos faíscam. - Vamos embora, Bárbara, antes que eu destrua tudo aqui! - Já?! Bárbara manda a mensagem pra Stefano. A partir de agora, haja adrenalina... Bárbara pede um tempinho e as duas saem da casa noturna. No caminho de volta (previamente combinado), no carro, só se ouve as infâmias de Mauren: - Que ódio, que ódio, que ódio!!! Nada dá certo pra mim, eu só me fodo! Te juro que por pouco não avancei no pescoço daquela piranha! Ia amassar aquela cara feia de tanto bater! Ia descontar minha raiva dela e daquele professor viado! Aaah, menina, não subestime a minha tpm! À medida que vão chegando ao local combinado, Bárbara fica mais nervosa. Já nem abre a boca, pra não ser traída pela voz. Sua frio. Não consegue acreditar que compactuou com toda essa loucura. Enfim, avistam o mendigo, deitado na calçada e com as pernas estendendo-se para a pista. Bárbara freia o carro e buzina. O homem apenas olha, faz um gesto de desdém e volta a recostar a cabeça. Mauren não pensa duas vezes. - Espera aqui com o carro ligado, Bárbara. Vou ali falar no ouvidinho dele. - Mauren, não! Advertência inútil. Mauren já desceu do carro e corre até o sujeito. - Não ouviu não, seu verme? E senta violento chute na canela do homem. Stefano solta um urro surdo, e Mauren já começa a desferir outros pontapés. Acerta sua coxa, sua bacia, barriga, desce o salto no seu peito, quase o deixando sem ar, enquanto esbraveja: - É essa a linguagem que tu entende, seu merda? Tu te acha no direito de atravancar nosso caminho, hein, seu nojento? Tenta chutar seu rosto, que Stefano protege com o braço. Agora ele acredita no que Bárbara dizia. A garota é realmente violenta e estúpida. Suplica: - Pare, dona, por favor! Não me bata não! Já saio daqui! - Aaah... agora resolveu sair? Deixa que eu ajudo, eu tenho jeito em remover lixo do caminho! E volta a chutá-lo, com fúria, em todo o corpo. Stefano protege-se como pode, com os braços, com as pernas, encolhendo-se. Ainda consegue se lembrar do relato de Bárbara, e procura fazer igual ao outro mendigo; quer sentir o que ele sentiu. Experimenta cada golpe intensamente, de corpo e alma; não quer se furtar a nenhuma sensação proporcionada, e sim receber cruamente toda a dor que Mauren lhe deseja e inflige. Aceita cada chute como uma benção. A dor vai cedendo lugar ao prazer. Ao volante, Bárbara assiste, aflita, ao horrendo espetáculo. No lugar de Stefano, ela é quem vê flashes de toda sua vida pregressa, em frações de segundo. Relembra seu início no bdsm, as histórias que viveu, os rolos, as situações inusitadas. Pensa se tudo valeu a pena, se não estaria passando dos limites e se corrompendo ao colaborar com esse plano doido do Stefano. Volta à realidade. Apesar dos pedidos insistentes de Stefano para que não fizesse isso, decide dar um fim àquilo. Grita: - Mauren, tem uns vizinhos espiando! Acho que chamaram a polícia! Vem logo! Mauren não mais chutava Stefano, que rolara para a calçada, desobstruindo a pista. Apenas o xingava. - Um minuto, Bárbara! Ofendeu-o mais um pouco, com todos os palavrões possíveis e imagináveis, catou um saco de lixo a uns dez metros dali (detalhe igualmente planejado) e regozijou-se novamente ao cobrir o infeliz com todo o seu repugnante conteúdo. Sorria enquanto fazia isso. Quanto a Stefano, estava em estado de glória, todo dolorido e cheio de hematomas, mas gozando do nirvana que alcançara. Assim como os chutes, recebia com amor a clara de ovo que escorria pelo seu rosto, a erva-mate molhada que penetrava sua roupa e as nojeiras várias que impregnavam todo o seu ser. Sendo o desejo de Mauren, isso o excitava. - Assim tu fica melhor! Combina contigo! Espero que tenha aprendido! Dispensa-lhe um último cuspe no rosto e volta ao carro. - Tchau, lixinho querido! Bom apetite! Passar bem! E o carro parte, em alta velocidade. Stefano leva uns segundos até se levantar. Todo o seu corpo dói. Avalia seu estado geral, pra ver se não tem nenhum ferimento mais grave, limpa-se um pouco de toda aquela imundície, cospe o sangue que enche sua boca e vai buscar sua moto, escondida ali perto. Manda a mensagem de ok à Bárbara, que tanto implorara por isso, e toma o rumo de casa. A brisa noturna ajuda a dissipar o fedor que o impregna. Stefano ainda está anestesiado por um prazer que nunca experimentara em toda sua plenitude. Apenas o ronco de sua moto quebra o silêncio da noite. A metrópole não mais ilude o rapaz. Aqui, todos usam todos, e todos são usados, sabendo ou não, para a satisfação dos mais diversos desejos e instintos. Nos rostos e nos modos, apenas dissimulação e sorrisos amarelos; nos espíritos, instintos bizarros, monstros buscando uma saída. Stefano sempre soube, sempre foi assim.