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G E W Ü R G T (1ª parte)
Depois de várias horas descordado, ele entreabre os olhos. A luz, mesmo fraca, os fere. E eles doem quase tanto quanto sua cabeça. Parece que está ressaca, mas não lembra de ter chegado à boate. Não lembra de quase nada depois que saiu da pensão. Tudo é muito confuso. As coisas não se encaixam em sua mente nem em seus olhos. Ele está em um lugar escuro. Toda pouca luz vem de uma lâmpada no teto e das frestas de uma porta fechada. Não sabe onde está ou como foi parar ali. Lembra-se apenas que a dona da pensão alugou seu antigo quarto e vendeu tudo que estava nele. Não era muita coisa. Uma dúzia de roupas velhas e bem sujas e uma mochila remendada.
Vagabunda!, pensa, sentindo o corpo dolorido. Dormiu mal e pesado. A boca seca e dolorida. Com sede, ele tenta se levantar para beber um pouco de água, mas não consegue. Algo prende seus movimentos. Abaixando os olhos devagar para não aumentar a dor de cabeça, ele se descobre sem roupa e amarrado. Os pulsos atados bem firmes aos tornozelos e os cotovelos, aos joelhos. Está deitado em um colchão jogado no chão. E de pernas bem abertas. Uma espécie de cano preso entre seus tornozelos, os mantêm afastados. Suas costas estão curvadas e também fortemente amarradas.
MMMMMMMFFFFFF!, ele geme, tentando gritar. Algo enche sua boca, mantendo-a aberta e amordaçada. É algo macio, porém firme. O gosto e o odor são de borracha. Assustado, ele morde este objeto com força e consegue deformá-lo um pouco. Mas isso só faz doer ainda mais seus maxilares e o objeto não cede o suficiente para ser cuspido. O que parece ser uma bolinha do tamanho das de tênis está preso à sua boca por duas tiras de couro que ferem os cantos de seus lábios e circulam sua nuca, bem apertadas e afiveladas. Ele sente o gosto de borracha na boca e também o quanto ela está dolorida e ressecada. Grunhindo forte, ele se desespera por não conseguir emitir qualquer som compreensível.
Aflito, ele geme alto e força as amarras na esperança de afrouxá-las e de que alguém possa ouvi-lo e ajudá-lo. Mas o cansaço, os nós bem apertados e o excesso de silêncio lhe fazem desistir depois de poucos minutos. A pressão e o atrito das cordas queimam sua pele e adormecem seus músculos. Um suor frio brota do seu corpo esgotado. E este esgotamento tão forte e rápido indica que ele está preso já há algum tempo. Mas desde quando e por quê?
Ele é um homem de trinta e quatro anos. Não é rico nem tem família importante. Não tem nada. Já foi auxiliar de escritório, entregador e mecânico em um desmanche fora da cidade, que a policia fechou. Não foi preso por sorte. Estava de folga. Escapou, mas ficou queimado no meio. Agora está desempregado e faz o que aparece.
Há poucas semanas, começou a fazer fotos pelado para um fotografo do subúrbio. Viu o anúncio no jornal e foi tentar. Não ganha muito, mas também só tinha que tirar a roupa e ficar de pau duro. Isso na primeira vez, agora tem que comer o fotografo e pegar no pau dos outros modelos e beijá-los na boca. Eles também pegam no seu pau e beijam sua boca e, então, fica tudo igual. Ninguém pensa mal de ninguém. Além das fotos, ele dá proteção para umas putas no centro e sai com uns caras que o fotografo arruma mostrando suas fotos. Nenhum destes serviços rende grande coisa e estão bem concorridos. Sempre tem alguém oferecendo o mesmo mais barato ou de graça. Então por que alguém o seqüestraria? E para quê?
Por mais que se esforce, ele não consegue pensar direito. Seu corpo e sua cabeça doem. Tem fome e sede. O lugar que está preso é um cômodo fechado, cheio de sacos de cimento, canos e rolos de fios elétricos amontoados. Não tem janelas e a única porta está fechada. Como não ouve barulho de trânsito, de gente conversando, de televisão ligada, imagina que esteja em um lugar afastado da cidade.
Reunindo suas forças, ele tenta se levantar, mas tudo o que consegue é sentar-se, apoiando as costas numa parede áspera. Sentado, sente um desconforto menor. O cano preso às amarras de seus tornozelos, obriga suas pernas a ficarem bem abertas e seu sexo, completamente exposto. Aos poucos, seu corpo vai descobrindo um jeito de ficar menos incomodado. Relaxando os pulsos e os tornozelos, as cordas deixam o sangue circular melhor e diminuem a sensação dormência. Nada, porém, diminui a angústia da mordaça e da sede. Sem saber o que fazer e descobrindo que não pode fazer nada, ele volta a gemer no desespero que de alguém possa ouvi-lo. E, desta vez, alguém o ouve.
Fora daquele cômodo escuro e abafado, um outro homem acorda. Ele também dormiu em um colchão jogado no chão e sente o corpo levemente dolorido. Ouvindo os gemidos amordaçados do homem seqüestrado, sorri. Há horas ele estava desmaiado. Nada o acordava por mais que o sacudisse. Parecia morto. É o clorofórmio!, explicou um dos rapazes que o capturou no centro e o trouxe para esta casa.
Ggggggmmmmmgoodmmmm, ele geme baixo e irregular. Para conseguir ouvi-lo é preciso muita atenção e silêncio. Se um rádio estivesse ligado ou duas pessoas conversado, ninguém o ouviria. A mordaça é mesmo boa. Na Alemanha, o vendedor fez questão de se auto-amordaçar para demonstrar, mas não era uma situação real. Como também não foram as com os garotos de programa. Em nenhum dos casos, a vida deles dependia de alguém ouvi-los. Então, gemiam de qualquer jeito. Alguns, rindo. Agora, porém ele ouve um gemido que luta para ser ouvido e isso lhe causa uma excitação inigualável.
Em silêncio e saboreando aqueles grunhidos, ele se levanta. Tem sede. Numa torneira sem pia, bebe uma água com gosto de plástico que lhe embrulha o estômago e quase o faz vomitar. Comprar um galão de água!, ele pensa, enquanto abre a geladeira e pega uma lata de cerveja. Seca-a de um gole só. O enjôo diminui. E seu tesão só aumenta.
Há mais de um mês preparava-se para este final de semana. A primeira parte parecia também mais difícil: encontrar a vitima certa. Teria que ser alguém que pudesse desaparecer por alguns dias sem que ninguém se importasse. Nisso, como em tudo mais, teve sorte. O dono de uma sauna prive lhe mostrou umas fotos que um fotografo de bairro havia enviado. Fotos ruins e amadoras de homens pelados. Com uma máquina digital, ele os fotografava em seu apartamento e tentava agenciá-los. Não eram modelos nem garotos de programa profissionais, apenas desesperados de todos os tipos. Gente que fazia qualquer coisa por qualquer dinheiro. Por essas fotos, ele o escolheu.
Gostou dele pelo modo contrariado como beijava os outros modelos e pegava em seus paus. Via-se que não gostava daquilo, mas que não tinha escolha. Era um homem comum como tantos outros. Nem alto nem baixo. Com mais de trinta anos. O corpo firme, mas sem músculos fortes. O rosto quadrado. Os cabelos escuros e encaracolados. O pau, normal. E a bunda, boa. Não devia fazer muito dinheiro como michê nem com nada. Soube, depois, que ele estava para ser despejado da pensão ordinária que morava e que tinha dívidas em toda cidade. Todo mundo sabia que logo ele iria sumir. Se não fosse por iniciativa própria, pela dos outros.
Escolhido a vitima, o resto foi só dinheiro. Pagar para alguém vigiá-la alguns dias, para arrumar um lugar seguro para o cativeiro e para capturá-la e entregá-la onde ele combinasse. Nada muito complicado e novamente teve sorte. O rapaz que seguiu a vítima sabia de uma casa fora da cidade e tinha um amigo que poderia ajudá-lo a fazer o seqüestro.
A casa escolhida está em obras. Há canos, madeira e sacos de cimento por todos os lados. Não tem nenhum móvel. Nem mesmo uma cadeira. Mas tem uma geladeira, um fogão de duas bocas e o mais importante: é segura e afastada da cidade. Não muito, mas o suficiente para ser um lugar quase deserto. Não há vizinhos perto. A água e a luz são roubadas. Vêm por mangueiras enterradas nos terrenos vazios. Mesmo tendo calculado tudo muito bem, ele esqueceu da água. Nada muito difícil de resolver. E depois, tem cerveja, suco e leite na geladeira. De sede, eles não morrem. E mesmo que tivesse o dobro de trabalho que teve, aqueles gemidos já pagaram todo esforço.
Em cima de uma tábua sobre dois cavaletes que serve de mesa, está a mochila com as roupas do homem capturado. A dona da pensão a vendeu sem perguntar nada e ainda deu desconto. Ela se achava muito esperta, mas não era. Ele teria pagado quanto ela pedisse. Estava com aquela mochila há quase dois dias. Ela guarda quatro calças jeans surradas, oito camisetas puídas, umas blusas de frio, algumas meias furadas e seis cuecas brancas de listras, destas vendidas em pacotes de três, e duas diferentes, que ele devia usar para trabalhar. São as peças mais novas. A preta é toda transparente e a vermelha tem um zíper na frente e, atrás, é fio dental. Todas estão muito usadas e cheiram forte o sexo dele e o de seus clientes.
Na pensão, ele não tinha onde lavar suas roupas e também não parecia muito preocupado em arrumar um. Ele é imundo!, a proprietária avisou quando abriu a porta do quarto 20 para pegar as roupas dele. O quarto era um quadrado úmido, fedendo a mofo e com uma pia encardida e sem água. Na parede, tinha um pôster do Rambo segurando uma metralhadora e outro do Bruce Lee dando um golpe de karatê no ar. Todos dois sem camisa, musculosos e voltados para a cama dele. Deitado, ele podia olhá-los até dormir ou, se quisesse, baixar a cueca e bater uma sem muito esforço.
(continua)