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A Perversão de Abigail
Ela era casada, sem filhos. Sua aparente timidez, sua pele muito clara, seus cabelos longos e levemente cacheados, davam a ela uma expressão vitoriana, ou talvez de uma dama da Belle Époque, uma espécie de personagem foragida das páginas de Balzac.
Também a Balzac se referia sua idade já próxima dos 30, sua imagem nobre contrastava com seus trejeitos de menina. Passava em sua maneira de ser certa impressão de pureza que lhe dava talvez menos cinco ou seis anos.
Na infância, foi criada segundo a escola positivista, em que quase tudo é permitido, e em que experimentar, seja o que for, é muito incentivado. E ela experimentou, na sua adolescência, quase todas as experiências que podem interessar a uma adolescente - passeios, namoros, novas substâncias, novas possibilidades. Pintou o cabelo de cores inusitadas como azul e laranja. Conheceu outros países e culturas. Viveu seis meses em Dublin, em um intercâmbio, onde namorou um irlandês de trinta e poucos, um bibliotecário magro e sardento, que conseguia ser ainda mais calado que ela, mas era fã do John Coltrane - e tinha apenas 17 anos.
Em resumo, Abigail era uma pessoa de mente livre, culta, sem superstições, inteirada do mundo ocidental. Tudo, ainda que não lhe apetecesse, lhe parecia possível.
Ainda assim, era fiel e dedicada ao marido. Recatada por natureza, não podia sequer imaginar ter que explicar uma situação "comprometedora" a ele. Afinal, era o homem que escolheu para partilhar sua vida, ele a tratava bem, não tinha muito do que reclamar. Era, em última observação, razoavelmente feliz em sua vida e seu casamento.
Mas Abigail sentia certa sensação de vazio. Algo, não sabia ao certo o quê, lhe faltava.
Durante a pós-graduação em Londres, passou a se interessar sobre temas como vigilância, prisões, sistemas de controle. Sentia-se estranhamente atraída por todos os sistemas de vigília e repressão desenvolvidos pelo homem, mais proficuamente no séc. XIX. A idéia da dominação, de certa pessoa ser entregue aos comandos absolutos de alguém, lhe intrigavam.
Logo ela, que sempre teve toda a liberdade do mundo, sentia falta de um pouco mais de controle! Talvez por esse motivo mesmo, sua mente e seu corpo buscavam o que nunca teve. A idéia de estar perdidamente entregue as mãos de quem lhe impusesse todo tipo de sensação, lhe dava arrepios que desciam pela barriga até o sexo. E, intimamente ela sabia, não eram arrepios de medo...
Com o tempo, algumas coisas foram fazendo ainda mais sentido, dentro de sua mente. Tal como o fato de que uma das suas maiores fantasias de menina era ser a mocinha raptada, amarrada e violentada por um pirata tão cruel quanto irresistível, típico dos filmes da Sessão da Tarde. Violentada não sedutoramente corrompida, devassada. Muitas leituras, muitas reflexões, e as coisas pareciam ficar cada dia mais claras...
Até que conheceu Xavier, um jovem chileno, de seus 25 anos, em um congresso literário. Xavier surpreendia por sua impressionante maturidade e concisão de idéias, que ficavam evidentes em seu semblante sério, e também por sua vasta cultura literária.
Ele contou que veio ao país completar seu mestrado, por ter ganhado uma boa bolsa de estudos. Diferente de outros rapazes de sua idade, que normalmente não interessariam uma mulher culta e casta como Abigail, esse a intrigava. Parecia penetrar-lhe a mente com os olhos, desvendar-lhe a vida com suas perguntas. Era gentil e sedutor, mas ao mesmo tempo lhe parecia alguém de personalidade muito forte.
Ele lhe era atraente, sem dúvida, não tanto pela aparência, mas por parecer ter o poder de controlá-la sempre que estavam juntos. Era como se, se ele simplesmente lhe pedisse algo, ela não tivesse como recusar fazer.
Ela se sentia cada dia mais presa, mais dominada por aquele rapaz. E ruborizava, quando percebia que o rapaz se dava conta disso.
Por seu lado, o rapaz não se furtou a mostrar que percebia seu controle. Na verdade, tudo indicava que ele sabia exatamente o que estava fazendo. Parecia ter lido a mente de Abigail, furtando-lhe seus desejos mais íntimos, descobrindo seus segredos mais reservados. Logo ela descobriria que ele era seu pirata...
Foi na última noite do congresso literário, em que todos foram para um happy hour, se confraternizar, que o inevitável aconteceu. O marido de Abigail tinha viajado, e ela não tinha hora para voltar para casa. Levantou-se num momento para ir ao banheiro, que ficava ao fim de um corredor em "L", nos fundos do restaurante. A lâmpada do corredor estava queimada, deixando o mesmo ainda mais soturno, quase completamente escuro.
Ao sair, ela não teve tempo de reagir, pois foi fortemente agarrada pelos pulsos, e empurrada de costas contra a parede, por alguém que forçou imediatamente o corpo contra o seu, imobilizando-a. Ela demorou uma fração de segundos para perceber que era Xavier, que a tinha seguido, e agora empurrava seu sexo contra sua virilha. Ela sequer se surpreendeu ao perceber que estava gostando, muito menos que sua vulva tinha se encharcado com aquilo...
- Eu sei do que você precisa Abigail. Sei o que mora escondido na sua libido, no seu desejo. E sou eu que vou te dar.
Ao contrário de um beijo, como parecia natural naquela situação, ele lhe deu um pequeno tapa na cara, olhando fundo nos seus olhos, como se ela fosse sua puta, sua propriedade. Ela, que nunca recebeu sequer um puxão de orelha nem mesmo de seus pais, se viu diretamente afrontada com aquilo e, estranhamente, com imediato tesão. Esboçou uma reclamação, tentou libertar seus punhos, mas ele apertou-os ainda mais forte, e a apertou ainda mais contra a parede. E o tesão foi ainda maior. Não satisfeito, ele levantou levemente seu vestido, e ainda olhando diretamente nos seus olhos, sem sequer mostrar hesitação, disse:
- Abra as pernas, putinha.
- Putinha! Esse garoto me chamou de putinha!... Antes que pudesse esboçar qualquer reação, ele enfiou a perna entre suas coxas, forçando seu sexo e sua bunda ainda mais contra a parede, e roçando seu clitóris que a esse momento já se encontrava intumescido. O tesão já controlava suas reações, não tinha como se defender. Relaxou as pernas e pulsos, permitiu ser usada. Estava entregue.
- Já que está com sua bolsa, sequer vamos voltar à mesa. Já paguei a conta por nós dois, vamos sair pelos fundos.
Levou-a para o apartamento que tinha alugado. Naquela noite, fez dela sua cativa, sua prisioneira, fazendo todo tipo de uso dela até o amanhecer. A dor e o prazer caminharam juntos, a humilhação e o gozo se tornaram irmãos. Ordenava-lhe, e ela simplesmente obedecia. Se referia a ela como "minha putinha", e ela, transtornada pelo tesão, e pela loucura que realizava, não conseguia se ver de outra forma.
Perdeu a conta de quantas vezes gozou. Em um momento, de bruços sobre a cama, com os braços amarrados para trás, e o sexo bem exposto, foi penetrada vigorosamente pela mão do anteriormente gentil rapaz, agora muito mais semelhante ao pirata bruto de suas fantasias. Ele lhe meteu os dedos, de forma que quase toda a sua mão ocupou sua vagina com exceção do dedão, que foi devidamente enterrado em seu cuzinho, sem dó. Jamais tinha sentido penetração como aquela, como se estivesse plenamente preenchida, como se mil membros a estivessem usando ao mesmo tempo. Somente nessa situação, gozou quatro vezes.
Em outros momentos, foi ordenada a chupar-lhe o membro, enquanto o mesmo lhe açoitava as costas e lombo com uma espécie de "chicote de tiras", feitas de camurça, muito suaves ao tocar a pele devagar, mas ao mesmo tempo muito ardidas quando impingidas à pele em conjunto, e com força. Mais uma vez surpreendeu-se obedecendo por puro instinto animal, como se a dor lhe incitasse a não ousar desobedecer. E surpreendeu-se ainda mais ao sentir que a dor aumentava seu prazer.
Na alta madrugada, adormeceram juntos na cama, e juntos também acordaram. Ela olhou para ele, e imediatamente se viu muito envergonhada, como a Eva ao se aperceber nua no Éden, pois se lembrou imediatamente de tudo a que tinha se sujeitado naquela noite. Ele a acarinhou os cabelos, sorrindo ternamente, e imediatamente os segurou com força, forçando-a a se ajoelhar ao lado da cama. Ameaçou dar-lhe um tapa na face, como tantos que ela recebera naquela noite, e ela fez menção de se esquivar. Ele sorriu com certo ar de sarcasmo, e disse:
- Agora você é minha escrava, Abigail. Minha putinha particular. Não preciso te forçar a cometer toda lascívia que quero, por que sua natureza de vadiazinha não a deixa resistir, e você acaba fazendo, por sua livre e espontânea vontade.
- Vou te mostrar ainda muito mais, fazer usos de você que julgaria impensáveis. Vou te seviciar a cada momento que eu desejar, e te infligir dor ao meu simples desejo. Vou te ensinar a ser a mais devassa das prostitutas. Será submissa a mim, cada momento, cada dia. Agora você me pertence, e isso é inevitável.
Ordenou que ela lhe mostrasse a face, ao que ela relutantemente obedeceu, e bateu-lhe como desejara antes, puxando-a em seguida pelo cabelo e dando-lhe um profundo beijo na boca, para em seguida empurrar sua cabeça de forma que ela entendesse que deveria mais uma vez lhe dar prazer oral. Ela sentia seu membro já semi-duro enrijecer-se por completo em sua boca, e sentia seu próprio "pequeno membro", ou clitóris, enrijecer-se junto. Não agüentou o tesão, e começou a gemer.
Foi a dica para que Seu Senhor-Pirata lhe jogasse de bruços sobre a cama, e com ajuda de mais alguma lubrificação, lhe penetrasse o cuzinho, até o fundo. Puxando seus cabelos bem junto à nuca, passou a cavalgar-lhe furiosamente, como se não tivesse gasto nenhuma energia na noite passada, e continuou a usá-la, por boa parte da manhã...
Muitos dias se seguiram. Dias que transformaram Abigail. Ela foi submetida as maiores devassidões, com outras escravas e escravos sexuais, com outros homens e mulheres dominadores, e se tornou a mais devassa das servas.
Aquele garoto, depois ela veio entender, não era exatamente um garoto. Ainda que jovem, era um Senhor de escravas, um Mestre na arte da Dominação. Era seu futuro Senhor e Mestre, aquele por quem ela esperou tanto tempo ser aprisionada. Era Seu Dono e Seu Algoz, o corsário que a perverteu.
Era, em contradição, seu salvador, que veio para arrancá-la de uma vida sem sal, aquele que a libertou pondo-lhe grilhões, que mostrou a ela mesma o que ela definitivamente era.
O que ela definitivamente nasceu para ser: Abigail, "fonte de prazer".