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Chineladas da Tia - A Saga - Parte 2
Parte 2 - Eu mereço, tia...
Pois bem... Dois anos se passaram desde aquela visita à casa da Sofia, ocasião em que conheci Carlinhos daquela forma, digamos, 'incomum', que eu relatei na primeira parte. Tínhamos combinado, lembro, fazermo-nos visitas mais freqüentes, mas nossas vidas atribuladas, minha e da mana, não permitiram concretizá-las. Até que surgiu uma oportunidade, num feriadão, e convidei sua família pra me visitar em Santa Maria. Eu estava divorciada e morava com os meus filhos, Diego e Bruna, ambos com 12 anos. Sofia e Renato, infelizmente, não puderam, pois já estavam agendados com o casamento de um amigo em Caxias do Sul. Propuseram, porém, mandar o Carlinhos de ônibus; do contrário, teriam de deixá-lo na casa da avó durante o final de semana, coisa que o garoto não gostava. Carlinhos ficou radiante com o convite pra visitar a tia Débora e conhecer seus priminhos. Não podia se conter de tanta alegria. Em poucos minutos estava com sua mochila pronta. A mãe nem precisou mandar.
Carlinhos chegou à minha cidade num sábado pela manhã. Busquei-o na rodoviária. Cumprimentamo-nos com alegria e entusiasmo. Fiquei impressionada com o encanto daquele rostinho angelical ao me ver. Não esperava aquilo. Abraçou-me por longos instantes, com ternura, e encheu-me de beijos. Era como se ele estivesse numa espectativa crescente de me reencontrar, desde o momento que nos despedimos, naquela visita de dois anos atrás. Por uma fração de segundo, as estranhas sensações daquele momento passaram pela minha cabeça.
- Como você cresceu, hein, Carlinhos! Agora nem é mais Carlinhos, vou começar a te chamar de Carlos!
- Tudo bem, tia Débora, como a senhora quiser. Tô muito feliz de estar aqui, tava com saudades. Mal dormi essa noite!
- Sem essa de me chamar de senhora, viu? - censurei - Oras! Sou tua tia!
- Certo, tia! Eh eh!
- Como estão tua mãe e o Renato?
- Estão bem.
Não era de falar muito. Também, não esperava que ele mudasse tanto desde a última vez que o vi, há apenas dois anos. Na volta da rodoviária, no carro, surpreendi-me com uma pergunta repentina do menino:
- Lembra o dia que nos conhecemos, tia? Que mico, né? - sorriu.
- É, foi estranho... Fiquei meio constrangida com aquela situação, sabe? Não esperava... Eu...
As palavras não saíam com facilidade. Fui pega de surpresa, fiquei sem-graça. Carlinhos não esquecera da surra recebida com o meu chinelo. Lembrei do que gostaria de ter dito a ele naquela ocasião, na despedida, e não tive coragem.
A segunda pergunta foi ainda mais inesperada e incisiva:
- A senh...ops!... a tia ainda tem aquele chinelo preto?
Corei imediatamente.
- Acho que tenho guardado lá, sim. Mas... por que você quer saber? - fiz questão de demonstrar meu estranhamento.
- Por nada...
O resto da viagem transcorreu quase em silêncio, afora uns comentários amenos que eu consegui articular. Aquelas indagações do Carlinhos me deixaram meio confusa, não sei por quê. Um pressentimento de que aquele final de semana não transcorreria exatamente como eu imaginara invadiu o meu espírito. As sensações daquela despedida insistiam em reaparecer, como flashes. O tipo de ligação que nascera entre mim e Carlinhos, naquela ocasião, era algo que desde aquele dia eu procurava entender.
Logo que chegamos, Carlinhos ligou pra sua mãe, conforme combinado. Falou que chegara bem, ouviu instruções e me passou o telefone. Sofia queria me falar.
- Oi Dé! Tudo bom? E o Diego e a Bruninha? Manda um beijo pra eles, tá! Olha, eu já dei todas as instruções ao Carlinhos, espero que ele se comporte. Ah... e ponha esse menino no trabalho! Recomendei que ele ajudasse na comida, na limpeza e arrumação. Em caso de qualquer desobediência ou desleixo, te autorizo a puni-lo, do seu modo. Não dê muita confiança a esse menino não; quando tá longe de mim, ele costuma tomar muitas liberdades, sei como é. Tu estás lembrada do método que melhor funciona com ele, né? *risos... Tu és tia e tens toda a liberdade de fazer igual. Ou então me liga que eu resolvo aqui, quando ele chegar, tá? Promete? OK, beijão.
O dia transcorreu tranqüilo. Ele adorou conhecer os priminhos, e divertiram-se a valer, apesar dos meus serem quatro anos mais novos. Carlinhos tava com 16. Dedicamos o sábado a conhecer os pontos turísticos da cidade. À noite, fizemos um super lanche, divertimo-nos com jogos de tabuleiro e rimos a valer. Ele fez questão de lavar toda a louça da cozinha e limpar o chão, apesar da minha insistência de que não precisava. Resolvi ir tomar banho enquanto ele trabalhava. Se foi ordem da mãe...
Meus filhotes recolheram-se cedo, como de costume. Calcei minhas pantufas e fui pra sala assistir tv. Carlinhos acabara o serviço.
- Não precisava ter limpado tudo, Carlinhos! Eu cuidava disso, te falei!
- Não tem problema, tia, foi um prazer. Além disso, já tô acostumado; a mãe me põe no trabalho direto.
A Sofia não é fácil... Pobre menino!
- Quer assistir ao finalzinho da novela comigo?
- Vamos - disse o garoto.
Sentei-me no sofá e ele sentou-se no chão, aos meus pés. Disse que estava acostumado a assistir tv assim. A atitude servil que ele sempre mostrava para comigo, já verificada anos atrás, inclusive, continuava a me intrigar. No intervalo, ele me surpreende novamente:
- Tia, a senhora disse que ainda tem aquele chinelo. Posso ver?
- Mas eu não te entendo, guri! Por que você tanto pergunta do tal chinelo? Pensei que tivesse trauma dele! - brinquei.
Ele sorriu, meio sem-graça. Não consegui interpretar suas feições.
- Ele tá lá no fundo do armário, empoeirado; faz tempo que não uso.
Notei, pelo seu olhar, que ele estava com vergonha de refazer o pedido, mas a vontade era muita. Levantei-me e fui até o quarto. Voltei com o famigerado par de rasteirinhas pretas, e entreguei-lhas em mãos. Seu olhar se iluminou, ele segurou ambas e delicadamente tirou o pó das palmilhas com a ponta da camisa. Fiquei observando com o canto do olho o estranho ritual dele com o calçado, enquanto assistia à novela. Comentei, uma hora:
- Bom, é a oportunidade delas te pedirem desculpas agora, né? - gracejei.
- É mesmo!- ele riu - Agora entendo porque doeu tanto...
Ele passava delicadamente o dedo sobre o relevo feito pelo meu pé na palmilha. Mantinha as rasteirinhas bem perto do rosto. Examinava-as minuciosamente.
- Elas realmente são pesadas - continuei - Olha, se eu adivinhasse o que ia acontecer, naquele dia, teria ido com outro calçado, viu? Ou não teria emprestado. Mas... aconteceu.
Ensaiei um risinho nervoso, que ele não reparou.
- E são número 38, a área é maior. As havaianas da mãe são 35, mas ela põe uma força naquele braço que faz doer pra caramba! Levanta o braço lá em cima a cada lambada. Não é brincadeira não, a mãe bate sem dó! Ela já usou vários tipos de chinelo e sandálias pra me bater, mas quando descobriu que as havaianas doem muito mais, agora só usa elas.
- Ela te bate muito seguido?
- Ultimamente tem batido bastante, mais do que no ano passado. Nos últimos meses, tá uma média de uma surra bem dada por semana, hehehe! Mas eu admito que também tô aprontando pra caramba! - sorriu.
- Carlinhos, Carlinhos... Tu também não toma jeito, hein! Você não faz por merecer?
Ele manuseava as minhas rasteirinhas com o encantamento de uma criança ao ganhar um brinquedo novo. Calçava-as com as mãos, esfregava uma na outra. Depois começou a cheirar toda a extensão das palmilhas. Fiquei meio sem-jeito com aquilo.
- E ela bate muito forte? Confesso que aquele dia eu fiquei com uma peninha de ti...
Bastante aflita, sabe. Quase fui pedir pra ela parar.
- Eheheh! Aquele dia foi fichinha perto das surras atuais, apesar de ter doído pra caramba. - bateu com a rasteirinha na palma da mão, depois na coxa - Digamos que recebo agora três vezes mais chineladas que aquele dia, e ela ainda bate com mais força. Diz que eu já tô grandinho, eheh! Agora, quando eu apronto mesmo, daí a parada é sinistra: a mãe bate até cansar o braço. Fica possuída, ninguém faz ela parar. Fico meia hora apanhando. Depois não posso nem sentar. Isso sem falar nos castigos, corte da mesada e o aumento das tarefas domésticas.
- Eu já falei pra ela, daquela vez, que esse não é o melhor método. Uma boa conversa quase sempre resolve.
Ele continuava cheirando as rasteirinhas. Temendo que ele resolvesse lambê-las, ia ficando cada vez mais aflita.
- É, ela conversa comigo até, mas o problema é que é muito nervosa. Quando tá na tpm, então, o meu traseiro é que sofre; e os ouvidos do Renato...
- O Renato não conversa com ela sobre as tuas surras?
- Ahah, o Renato? Acho até que a mãe bate nele também! Várias vezes já ouvi ela xingando ele no quarto, de tudo que é coisa, e o barulho de tapas. Dela, obviamente. Uma vez ela cuspiu nele na rua, e ele não fez nada. É um bundão!
- Carlinhos, não fale assim! Tua mãe não gostaria de ouvir isso de ti!
- Desculpe, tia, mas é verdade...
- Sendo verdade ou não, não deves falar essas coisas por aí! Bom, vamos dormir? Já tá tarde. Tua cama está arrumada.
- Posso pedir uma coisa, tia?
- Peça.
- Deixa eu calçar esses chinelinhos no teu pé? Queria ver como fica.
Descalcei uma pantufa e ofereci meu pezinho direito a ele. Carlinhos tomou-o delicadamente na mão e calçou-o com a rasteirinha.
- O pezinho da tia é lindo...
Não respondi. Estava ainda mais sem-graça que antes. Reparei que ele tencionava beijá-lo, mas puxei o pé. Naquele momento caiu a ficha.
- Já está tarde, Carlinhos.
- Tia, a senhora me daria esses chinelinhos de presente?
- Ué?! Pra quê? Vai usá-los, por acaso?
- Não, só de lembrança.
- Não acho uma boa idéia não, querido! Tem lembranças bem melhores pra você levar daqui, de mim e dos priminhos. Depois, e se tua mãe acha esses chinelos na tua bagagem, já imaginou? Ia ficar embaraçoso pra nós, não acha? Pior se ela resolvesse usá-los 'daquela forma' que você conhece, né? Não, não...
Estendi a mão e ele entregou-me a outra rasteirinha.
- Boa noite, tia!
- Boa noite, querido! Dorme com os anjos.
No domingo à tarde, o Diego e a Bruna combinaram com o Carlinhos de levá-lo pra conhecer uns pontos turísticos de Santa Maria. Recomendei-os bastante e pedi pra que não chegassem muito tarde, e que me ligassem durante o passeio. Pedi especial atenção ao Carlinhos, por ser o mais velho.
Aconteceu que as horas foram passando, o dia escurecendo, e eles não apareciam nem telefonavam. Naquele tempo o celular era luxo de poucos. Comecei a ficar bastante aflita, e ao mesmo tempo zangada com a desobediência deles. Há muito tempo que o Diego e a Bruna não apanhavam, mas eu estava achando que naquele dia eles mereciam. Mereciam mesmo. Tinham prometido chegar às 6 da tarde, e já eram 7.
Até que às 8 da noite eles aparecem, com aquelas carinhas de sapecas. Eu, numa pilha de nervos e irritadíssima, já ordenei:
- Diego e Bruna, pro meu quarto agora!
- Mas mãe...
- Agora, e podem se preparar!
Só pelo meu olhar eles já pressentiram o que viria, mas, com cara de choro, obedeceram. Fui até o banheiro, apanhei meu par de sandálias e estava me dirigindo ao quarto, quando Carlinhos me deteve.
- Tia, se for pra bater em alguém, bata em mim, a culpa foi minha. Eu é que quis alongar o passeio e conhecer outros lugares.
- Você não tem culpa nenhuma, Carlos, você é visita! Fique aqui na sala, tá?
- Mas não é justo, tia! Eu é que mereço!
- Depois nós conversamos, Carlos! Espere um pouco, a tia já volta.
Entrei no quarto, mandei-os recostarem-se ao pé da cama, despi-os e apliquei-lhes umas boas chineladas, como há tempos eles não recebiam. Após, dei-lhes um demorado sermão e mandei cada um pro seu quarto, de castigo até o dia seguinte. Cheguei a pensar ser o método da mana o melhor mesmo. Confesso que fiquei leve e tranqüila após fazer isso. Teria sentido prazer, naquele momento? Me deu um frio na espinha só de pensar nessa possibilidade...
Voltando à sala, percebi que Carlinhos acabara de pôr o fone no ganho. Havia telefonado.
- Para quem tu ligaste, Carlinhos?
- Pra minha mãe. Contei a verdade a ela. Ficaria muito mal sabendo que meus primos apanharam por minha causa, e eu saí ileso.
- Não devias ter feito isso! Tua mãe vai te bater, agora!
- Preferia apanhar da senhora, porque a mãe exagera. Mas...
- Mesmo que eu te batesse, agora que você já contou, apanharia em dobro, de qualquer jeito!
- E se eu dissesse que não liguei pra mãe? Ainda.
Fiquei sem saber o que dizer.
- Como assim, o que você pretende? Por que mentiu?
- Se a senhora resolver o problema comigo, não precisamos contar, né? Do contrário, eu que não vou ficar com a consciência pesada...
Fiquei realmente desconcertada com a artimanha do garoto. Não sabia o que dizer, e não era a primeira vez que ele me deixava nessa situação. Nunca passara pela minha cabeça, até então, surrar o meu sobrinho. Reparando na minha insegurança, ele se dirigiu ao meu quarto, em silêncio. Tinha o sentimento de vitória no espírito, certamente. Fiquei uns instantes ali, parada, confusa, tentando entender a situação, até que, instintivamente, busquei novamente a sandália e me dirigi ao quarto. Ele já estava recostado na cama, de bruços, com a bunda exposta. Planejara tudo, o danadinho. Aproximei-me e dei-lhe dez chineladas, de média intensidade, ao fim das quais mandei-o se vestir. Ele protestou:
- A senhora pode me bater da mesma forma que bateu no Diego, tia! Afinal, a culpa do atraso foi minha.
Ainda mais atônita com esse último pedido, e sem pensar direito, ministrei-lhe maquinalmente mais dez chineladas, com mais força, e disse-lhe que era o bastante. Mandei-o ir para o seu quarto, que a janta seria servida em uma hora, e saí, ainda a tempo de ouvir um discreto "muito obrigado, tia".
As idéias começavam a clarear na minha cabeça. Estava montando o quebra-cabeças. Era esse o maior desejo do Carlinhos: apanhar de mim! E isso nasceu há dois anos atrás, com toda a certeza. Isso eu apenas sentia, e agora estava compreendendo. Que inocência a minha... E no que a Sofia transformara o menino... num fetichista de chineladas de mulher... Passaria o resto da vida apanhando na bunda, das mais variadas mulheres, com os mais variados modelos e tamanhos de chinelos, sandálias, rasteirinhas, tamancos... Era isso que você queria, maninha? Realmente, "chineladas nunca vão faltar" ao Carlinhos, como tu dizias. Tá aí o resultado da tua tpm... Mas, ao mesmo tempo, eu notei que começava a me sentir diferente em relação a tudo isso. Operava-se em mim uma metamorfose, que me levaria a caminhos nunca antes sequer sonhados. Não tinha volta.
No dia seguinte, segunda-feira (era feriado), levei Carlinhos à rodoviária, pra tomar o ônibus de volta. Na hora da despedida, após abraçá-lo e agradecer a visita, ele me falou:
- Tia Débora, adorei demais ter vindo na sua casa, conhecido os primos e tudo o mais. Eu sempre quis ter um maior contato com a senhora, que é minha tia mas não nos conhecíamos, não tínhamos intimidade. Confesso que o que aconteceu ontem só ajudou a estreitar nossos laços, pois daí senti a senhora realmente como minha parenta, responsável pela minha educação e com autoridade sobre mim. E demonstrando essa autoridade com competência e amor. Admiro-a mais agora do que antes.
E me beijou carinhosamente. Quanto a mim, não sabia se ria ou chorava, mas acreditei no menino e emocionei-me com suas palavras. Apanhar para estreitar os laços? Esquentar o traseiro do próximo como sinal de amor? Que seja...
Despedimos-nos. Na volta, fiquei pensando em tudo que acontecera e nas palavras do Carlinhos. Naquele fim de semana, uma mudança se iniciara em mim, definitivamente, e era pra sempre. Sequer sonhava eu que a nossa, digamos, 'história' não terminava ali.
Algo que não contei: enquanto ele arrumava sua mochila, notei que estava escondendo minhas rasteirinhas entre suas roupas, sem saber que eu o estava espiando. Quando cheguei em casa, da rodoviária, liguei pra Sofia e relatei o fato, mas dizendo que não me importava, afinal, elas estavam velhinhas mesmo, eu nem usava. Mas a mana ficou furiosa com o Carlinhos e disse que logo logo me enviaria as chinelas pelo sedex. Ai... por que fui falar? Acabara de condenar o menino a mais uma surra, além de 'tirar o docinho da boca da criança'. Brinque bastante com elas durante a viagem, Carlinhos, pra compensar. Deguste-as. Comecei a rir, inexplicavelmente. Será que estava ficando cruelzinha, igual à mana?
* Final da parte 2 *
Continua...