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Lembranças do Calabouço - Cap 03

- O senhor Frederico é um homem muito poderoso. Foi herdeiro de um verdadeiro império, por isso pode se dar ao luxo de possuir quantos escravos quiser, até mesmo no dias de hoje.. - disse Ana, enquanto me mostrava a cozinha. - Apesar disso, ele não tem muitos, por achar que eles ocupam muito de seu tempo. Mas me lembro de uma época que ele possuia um para cada serviço. - Serviço? - perguntei, curioso. -Sim. Um escravo só para cuidar de seus pés, outro para massagens e até mesmo um só para torturar, como forma de distração. - Ana falou, enquanto colocava os ingredientes em cima de uma grande mesa de madeira. Notei que a mesa retangular possuia oito buracos, dois em cada extremidade. Não compreendi a utilidade daquilo. Não naquele momento. Ana parecia já conhecer a receita do pão que eu iria preparar. Felizmente, não faltou nenhum ingrediente e eu pude me dedicar totalmente ao seu preparo. Minhas costas latejavam por causa da surra, mas eu tentava não demonstrar isso. - Como você veio parar aqui? - perguntei, querendo conhecer aquela bela jovem. - Sou cigana e minha família morava numa propriedade do senhor Frederico. Logo que descobriram nossa invasão, trataram de nos expulsar. E então recebi o convite para morar aqui. Soube que seria escravizada, mas também soube que aqui poderia ter alguns privilégios se me comportasse de forma correta e submissa. Ana levantou levemente a sua blusa e então pude ver uma marca em sua pele. Um símbolo que seria bonito, se não tivesse sido queimado à brasa. Aquela era a marca que demonstrava que ela tinha um dono. Um mestre. Depois de me mostrar, ela continuou falando: - Sempre quis alguém que me dominasse. Alguém mais forte e que tivesse total controle sobre mim. Sempre fui assim e posso dizer que estou muito feliz morando aqui com o meu mestre. E você? Como veio parar aqui? Dei uma olhada no forno e vi que o pão estava quase assado. - Nunca conheci meu pai e minha mãe morreu quando nasci. Então sempre vivi com meus tios e um primo. O meu tio era uma boa pessoa, mas desde que conheceu uma mulher perversa, passou a me maltratar. E foi ela que o convenceu a me vender, como forma de diminuir o aluguel da loja que alugamos e usamos como padaria. Eu ainda não acredito no que está acontecendo comigo... - confessei. Ana pareceu não se comover com a minha história. Ela olhou para o relógio na cozinha e se apressou em levar queijos, vinhos e alguns salames para a sala. Estava próximo da hora do lanche e o mestre queria sempre ver a mesa servida nesse horário, independente de ter fome ou não. Ajudei na tarefa, até me recordar que o pão estava assando e poderia queimar. Corri de volta para a cozinha e o tirei da forma. Percebi que ele ficou alguns segundos a mais no forno do que deveria. - Onde está o seu pão, escravo? - escutei uma voz grave, gritando da sala. Apressei-me em levar o pão. Estava bastante cheiroso. Coloquei-o em cima da mesa e o senhor, sentado última cadeira da última mesa, sorriu ao me ver tão servil. Acenou para que eu me aproximasse e novamente pediu para que eu ficasse de costas. Obedeci prontamente. Senti sua língua deslizando sob minhas costas, numa sensação de ardência que me fez tremer. Ele estava desenhando com a língua todos os vergões, deixando-os brilhantes com sua saliva salgada. Me controlei para não esboçar nenhuma manifestação de dor, mas deixei alguns gemidos escaparem. - Você tem uma pele muito branca, escravo. - disse, me analisando. - Gosto bastante disso. Posso usar minha criatividade para deixá-la com um pouco mais de cor... O senhor Frederico pegou o pão e retirou um pedaço, com as mãos. Colocou-o na boca e mastigou. Fiquei muito preocupado. Se ele não gostasse, poderia apanhar de novo. E eu já estava tão cansado e fraco que não tinha mais forças para mais nada. Vendo aquela mesa farta, meu estômago fez um estrondo, provocado por todas aquelas delícias. - Vejo que está com fome. - disse o senhor. - Seu pão é saboroso, porém acho que ficaria melhor se ficasse menos tempo no forno. - Perdão, senhor. Eu realmente me distraí e deixei mais do que deveria. Prometo que da próxima vez isso não acontecerá. Por favor, perdoe-me pela distração. - Sente-se aqui no meu colo, escravo. - disse, rapidamente. Me surpreendi com aquela ordem. Fiz o que ele mandou, apesar de estar com vergonha. Nunca havia sentado no colo de um outro homem, muito menos no que há pouco havia me castigado de forma tão cruel. Ele sorriu e, pela primeira vez, não senti tanto medo de seu sorriso. Ele tirou outro pedaço de pão e mastigou demoradamente. Em seguida pediu que eu abrisse minha boca. Então cuspiu para que eu comesse. Tive vontade de cuspir também, mas seus olhos voltaram a ficar rudes e eu obdecedi, engolindo aquela massa já adocicada. Seus olhos eram grandes e expressivos e me olhavam com um olhar condenador sempre que eu não fazia o correto. Depois do pão, comi queijos e salames, sempre da mesma maneira. Era como um beijo, só que sem tanto toque. Meu senhor mastigava e depois me dava a comida, já com outro sabor. Até vinho fui obrigado a tomar, quando o senhor depositava o líquido entre meus lábios. E assim foi minha primeira refeição na casa. Enquanto ele comiga, eu observava. Ele era alto, muito forte. Parecia um deus antigo, tamanha era sua formosura. Alguém como ele não poderia nunca ser contrariado e merecia sempre o melhor. - Você depende de mim. É como um vermezinho que posso esmagar com meus sapatos quando bem quiser, entendeu? - ele disse, me olhando. - Quero ver nos seus olhos o reflexo da sua submissão. Quero que você conheça bem o seu lugar e saiba que sua vida só tem valor se me proporcionar alguma utilidade. E saiba que eu vou te usar muito daqui pra frente... Você será meu objeto e também meu brinquedinho. Obedecerá todas as minhas ordens como se fossem leis. Me respeitará todos os dias e estará disponível para uso quando eu bem quiser... Ana levou um papel e uma caneta até a mesa. Ele pegou-o e disse, ainda me olhando: - Aqui está o seu contrato de escravidão. Ao assinar este papel, você estará concordando em sempre me servir e sempre concordar com o que eu disser. Você perderá sua liberdade, sua vontade e será controlado exclusivamente por mim. Quero que você saiba que não terá mais nenhum valor e não poderá questionar às minhas decisões. Você irá me pertencer. E você não tem escolha. Como parte do contrato que fiz com sua família, você assinará isso. E agora. Peguei a caneta, tremendo. Demorei um pouco para raciocinar e lembrar meu nome, tamanho era meu nervosismo. Eu queria fugir, queria ficar em casa, dormindo. Mas não tinha outra escolha. Um pouco tonto por causa do vinho, eu assinei o contrato. E foi a partir daquele instante que deixei de ser Bruno para ser um escravo do senhor Frederico. - Muito bem, inseto... - disse, olhando o papel. - Você agora é mais uma das minhas propriedades. Te usarei até quando quiser. E sua vida me pertencerá para sempre! Ele gargalhou, enquanto devolvia o papel para Ana guardar em seu escritório. Depois ordenou que me levantasse de seu colo. Eu já estava alimentado e muito cansado. - Agora você está com sono. Quero que você durma. Te levarei para conhecer o seu quarto, escravo. Para minha surpresa, não era uma prisão ou um lugar mal cuidado e sujo. Era um quarto bonito, com uma cama alta e bastante macia. O lugar era bem decorado e eu consegui entender o que Ana quis dizer quando falou que era possível ter alguns privilégios se me comportasse de forma correta e submissa. - Senhor, eu posso tomar um banho antes de dormir? - perguntei, com os olhos abaixados. - Banho? - ele ficou em silêncio por um tempo, o que me deixou bastante tenso. - Sim, você deve tomar um banho. Quero que se limpe bastante para amanhã acordar bem disposto e limpo. Por ser um escravo novo, quero que se conserve para que eu possa usá-lo por bastante tempo. Era uma suíte e o banheiro era muito grande e bonito. A casa toda era linda e cheguei a ter a tola idéia que era um rei, sendo que era exatamente o contrário. Depois do banho, vesti uma roupa branca que estava em cima da cama, semelhante a que Ana usava. Acabei por me acostumar com as dores nas costas, bastava encontrar uma posição que a pele não esticasse que ficaria suportável. E foi por esse motivo que me deitei de bruços. Quando estava pronto para dormir, a porta do meu quarto foi aberta. Ele entrou e levantou uma grande corrente, onde prendeu minha perna. - Quero que saiba que sempre deverá dormir assim, no mínimo com uma perna bem presa. Boa noite. A porta se fechou estrondosamente. Eu fiquei surpreso. Por mais que tentasse entender a situação, cada vez era surpreendido por uma nova descoberta. Apesar de todo luxo e algumas mordomias, eu ainda era um servo. E não podia reclamar da pesada corrente, que pressionava com força meu tornozelo. E foi assim, numa mistura de cansaço e tensão que eu dormi. Aquele havia sido apenas o primeiro dia da minha nova vida como escravo. Senti medo ao pensar no que poderia acontecer no dia seguinte e a lembrança do calabouço, onde fiquei por pouco tempo, me fez estremecer.