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Feliz Dia dos Namorados, Amor

A insônia nossa de cada dia Mais uma vez ele se virou na cama. Olhou o relógio, já passava das três da madrugada. Por instinto, tateou na cama e sentiu que ela estava lá, dormindo o seu soninho, como um anjo... Acendeu o seu abajur de cabeceira para observá-la melhor. Seus loiros cabelos longos pousavam sobre o travesseiro de pena de ganso que ela fez uma questão absurda que ele comprasse e ele atendeu ao seu capricho. Nunca entendeu certas necessidades prioritárias da vida dela... E até sorriu com esta lembrança. Estavam juntos há quatro anos, e ele ainda lembrava como se fosse ontem, a primeira vez que teve aquele corpo nu em seus braços. Saíram juntos por três meses até reconhecerem que eram mais que amigos e não conseguiam mais viver um sem o outro. No dia seguinte àquela primeira noite, ela mudou-se para o seu apartamento e desde então dormiu e amanheceu ao lado daquela mulher que tanto amava. As eventuais viagens de negócios davam um vazio... Sentia a falta dela, como se ela já fosse parte dele. Olhando pra ela agora, mirando as suas curvas na penumbra do quarto mal iluminado pela luz difusa do abajur, não conseguia entender o que aconteceu na vida dos dois. O distanciamento, as noites cada vez mais mornas, as imensas lacunas entre uma sessão e outra de sexo... Ela ainda era a mesma mulher sensual, impossível não ter desejo, não sentir ciúme... O que estava acontecendo? Agora, às vésperas do Dia dos Namorados, questionava esse paradoxo. A amava, sem dúvida, mas o desejo sexual havia diminuído. E não sensivelmente, radicalmente. Lembrou que há pouco mais de seis meses, viveu uma experiência sexual com uma prostituta, e apesar do prazer pelo novo (ela era linda), não foi nada excepcional. Impossível não lembrar que o toque da prostituta em seu corpo, apesar de todo o erotismo profissional, causou-lhe prazer na hora, mas também uma grande crise de consciência no dia seguinte. Levantou para beber um pouco de água, e no que se mexeu mais uma vez na cama, ela deu um gemidinho e perguntou: ``Acordado amor?´´ Ele mentiu, dizendo que estava com um pouco de dor de cabeça, pensando na entrega do projeto no dia seguinte. Trabalhavam na mesma empresa, e apesar de equipes diferentes, se cruzavam a todo instante pelos corredores. Ela espreguiçou-se como uma gata na cama, e disse que faria um chazinho pra ele. Ele relutou um pouco, mas ela tinha esse lado super mãe, nem adiantou falar nada, alguns minutos depois estavam ambos esparramados no sofá da sala, com uma fumegante xícara de chá de camomila nas mãos... Ela pousou sua xícara na mesinha, e pegou o pé dele entre as mãos. Ambos adoravam carícias nos pés. Uma massagem de shiatsu na planta dos pés era maravilhosa para relaxar. Com sua voz doce, ela começou a cantarolar ``Acalanto´´ de Dorival Caymi, que ele tanto amava e lembrava a infância. Partilhando esses momentos, ele entendeu que havia muito mais que sexo em uma relação a dois. E talvez por isso fosse uma dor ainda maior admitir que estivesse completamente desinteressado sexualmente por ela. Dos seus olhos rolou uma lágrima pelo canto dos olhos e antes que ele pudesse enxugá-la, ela percebeu... ``Querido, o que aconteceu? Quer que eu pare de cantar? A cabeça está doendo muito?´´ ela perguntou visivelmente preocupada. Ele então veio com uma pergunta que certamente a deixaria chocada. ``Você está satisfeita com a nossa vida sexual amor? Seja sincera, por favor, é muito importante para mim...´´ Ela deu um sorriso meio desconsertado, e perguntou: ``Como assim, você quer saber se eu te amo?`` ``Não! Quero saber se você está sexualmente realizada?´´ ele finalizou. Ali naquele sofá, eles conversaram longamente sobre o que estava acontecendo entre eles, ela disse o quanto o amava, e o quanto estar a seu lado era importante. Ele comentou que algumas vezes após o sexo, precisava masturbar-se ao chuveiro fantasiando algo mais ``interessante´´. Até a relação com a prostituta foi comentada, e ele disse que sabia que aquela não era a solução. Ela ficou chocada e também lágrimas rolaram dos seus olhos. Ele tinha certeza que ela também, muitas vezes, usou seu ``consolo´´ escondida, para compensar o sexo medíocre. Ele comentou que apesar de amá-la imensamente, a vida sexual entre eles era extremamente morna e previsível. Sabia exatamente onde e como fazer para levá-la ao orgasmo e vice-versa. E o que para muitos casais, podia ser uma glória, para ele havia perdido todo o sabor. O sexo entre eles, passou a ser ``burocrático´´ e aquilo o entristecia profundamente e, é claro, a ela também. Em determinado momento, sem mais palavras, eles adormeceram ali no sofá, nos braços um do outro... Sabendo que talvez aquela conversa não tenha levado à lugar nenhum. No entanto, esvaziar a alma era um grande alívio. O dia amanheceu e como em todas as manhãs ela acordou antes dele, preparou o suco de laranja, as torradas, arrumou a mesa... Enquanto isso ele fez o café forte que ela tanto gostava e cortou as fatias de queijo. Evitaram tocar no assunto da madrugada, mas ele estava ali, entre eles... Tomaram o café calmamente, conversando sobre as notícias do dia, se arrumaram e foram pra empresa. Começava mais um dia como outro qualquer. O fantasma da constatação Aquele dia ela não teve um dia normal, em vários momentos percebeu lágrimas em seus olhos e uma enorme sensação de vazio dentro de si. Ele não estava errado, a vida sexual entre eles havia perdido o sabor, e de certa forma ela se sentia culpada. Mesmo o caso com a prostituta, ela encarou como uma tentativa desesperada. Lembrou das palavras da sua mãe, de que cabia à mulher o tempero para um relacionamento dar certo, que mulher sábia... Ela não percebeu o momento em que deixaram de ser namorados para voltar a ser simplesmente amigos. Que passaram a ter uma relação de mãe e filho, irmão e irmã... Ela o considerava frágil e amava cuidar dele, ao ponto de adiar seus planos de uma possível gravidez, para continuar a dispensar uma total atenção. Ele sempre foi ciumento, exigia a todo instante a sua atenção e carinho, desenvolveram uma relação de co-dependência, que não sabiam mais pensar um sem o outro. Quase uma simbiose. Havia amor entre eles, mas um amor quase fraternal. Ela tinha que mudar isso... Subitamente, veio uma idéia... Se ela sentia-se tão responsável por ter deixado a relação esfriar, cabia a ela, reconquistar a mesma chama inicial. Era muito mais forte e decidida que ele, não aceitaria simplesmente que a excitação acabou. Iria atrás do por que, e de como mudar a situação. Pediu dispensa pelo resto do dia, precisava sair pra pensar... Passou na sala dele e disse que precisava sair e o veria mais tarde à noite, em casa. Trocaram um beijo, e ela saiu logo em seguida... Ele ficou intrigado... Aonde ela iria àquela hora do dia? Ela parecia triste. Estava arrependido em ter abordado o assunto na madrugada. Viu o quanto ela ficou triste e, sinceramente, não viu de que maneira aquela conversa poderia mudar suas vidas. O amor que tinha por ela era tanto, que talvez aceitasse uma vida de sexo sem paixão, apenas para estar a seu lado. Lembrou o quanto adorava estar com ela, que cuidava e organizava sua vida a ponto dele sequer preocupar-se com que roupa vestiria na manhã seguinte. Era um dependente daquela linda, inteligente, interessante e bem humorada mulher... Percebeu então, que ela pra ele, era mais que uma namorada, era uma Deusa. Tão próxima e tão distante... Recostou-se em sua cadeira, fechou os olhos, e imaginou-a nua, com os cabelos soltos e esvoaçantes, caminhando lentamente sobre um tapete de homens a seus pés. Com um enigmático sorriso nos lábios e olhando diretamente pra ele, que assistia a tudo inerte, vendo todos aqueles homens adorando e venerando a sua namorada, que deixava todos para trás encaminhando-se na direção dele. Sentiu uma excitação imediata, ao imaginar a cena. De repente foi acordado de seu devaneio com batidas à porta. Era sua secretária, avisando que a reunião começaria em poucos minutos. Ele agradeceu a lembrança, pediu que lhe desse mais alguns minutos, e quando fechou a porta deu um sorriso, ainda estava excitado. Sentia-se como um adolescente flagrado durante uma masturbação. Seu corpo parecia ferver por dentro... Pegou a pasta com o projeto, e resolveu passar os olhos nele mais uma vez. Tentar esquecer a fantasia de minutos atrás, respirou fundo e concentrou-se no conteúdo da pasta. Como chuva de verão O dia transcorreu normal, ela não voltou ao trabalho, mas ligou no fim do dia dizendo que estava tudo bem, e provavelmente já estaria em casa quando ele chegasse. E assim foi. Quando ele chegou a casa, viu seus sapatos de salto preto, jogados displicentemente no canto do quarto. Sua roupa estava sobre a cama e ele ouviu o barulho da água correndo. Deu duas batidinhas na porta e disse que já havia chegado. Ela disse que já estava acabando e para ele esperar só mais um pouquinho... Foi então que o telefone tocou. Ele foi atender na sala, já que o telefone sem fio do quarto estava descarregado. ``Alô?´´ e nada de resposta, perguntou mais uma vez e nada... A impressão que teve é que havia alguém do outro lado da linha, mas estava mudo, podia ouvir uma respiração, e nada mais. Subitamente o telefone foi desligado. Ele voltou para o quarto e ela estava de roupão enxugando os cabelos com uma toalha. ``Quem era?´´ ela perguntou, ele respondeu que não sabia, e comentou o acontecido, indagou se já havia acontecido antes, mas ela disse que não. Talvez fosse um trote... Jantaram uma salada, peito de frango grelhado, e beberam um pouco de vinho enquanto conversavam. Ele comentou a fantasia que teve com ela no meio do dia e o quanto se divertiu em ser flagrado excitado pela secretária. Ela então deu um tapinha nele, que se encolheu divertido... Ela fingia-se ofendida e brincava, dizendo que então era isso? Ele se excitava com a entrada da secretária? Ele ficou todo enrolado, tentando explicar que ela não tinha entendido bem, que a responsável pela excitação era ela, e etc. Riram muito com a situação e quando perceberam estavam se amando sobre a mesa da cozinha, com uma excitação que há muito ambos não sentiam. Com urgência e desejo. Talvez liberados pelo vinho, talvez incentivados pela fantasia, quem sabe? Foi rápido, mas intenso... Como uma chuva de verão. Tomaram outro banho, dessa vez juntos, e deitaram nus na cama, enlaçados. Ele comentou que queria muito que fosse sempre assim. Ela então respondeu sorrindo, que se fosse sempre assim, perderia a graça e passaria a ser normal. E tão ``burocrático´´ (usando uma palavra que ele mesmo já havia citado) quanto seus orgasmos previsíveis, seriam as eventuais sessões de sexo selvagem. Eles precisavam se redescobrir, ousar mais, entregar-se mais... O ser humano é um insatisfeito, e essa busca, teria que ser contínua. Ela olhou-o no fundo dos olhos e disse: ``Eu sei exatamente o que você precisa. O que nós precisamos. O que falta em você é o que sobra em mim, e vice versa. Agora tenho sono, tive um dia cheio, preciso dormir...´´ Virou-se de costas, encostando-se ao corpo dele. Ele então percebeu que em nenhum momento ela havia comentado o que fez durante o dia, ficou curioso, mas... Percebeu que ela tinha algo em mente, e ficou mais uma vez excitado por não saber o que era... Abraçou-a forte e fechou os olhos, seu corpo também pedia cama. Enfim, a conversa tinha valido a pena. Uma pulga atrás da orelha... No dia seguinte pela manhã, durante o café, ele perguntou ao acaso, o que ela havia feito no dia anterior. Ela respondeu que uma mulher precisa ter seus mistérios, e mudou de assunto. A semana transcorreu normal... Depois daquela madrugada tensa, e da noite de sexo quente do dia seguinte, nada de novo ou de mais. Ela estava especialmente misteriosa, respondia sempre com meias palavras, ele realmente achou que estava tramando alguma coisa. E, divertido, passou a fazer o jogo dela, fingindo que nada sabia... Aquela noite, enquanto ele terminava o banho, mais uma vez o telefone tocou, e dessa vez foi ela que atendeu. Ele saiu do banho e displicentemente, foi em sua direção para perguntar quem era, tinham esse costume. Ouviu então um trecho da conversa: ``...eu sei! Mesmo assim não faça mais isso, não ligue para cá. No outro dia ele atendeu. Amanhã eu te ligo e combinamos melhor.´´ Quando ela percebeu que ele estava atrás, desligou apressadamente. Ele então se aproximou e perguntou quem era. Ela disfarçou dizendo que era uma amiga da yoga... E ele intrigado, perguntou por que ela desligou quando ele chegou? Ela disfarçou, dizendo que a amiga era uma chata e teimava em pedir emprestados uns livros dela... Ele não ficou convencido da história, mas enfim, não havia motivo para ela estar mentindo. Jantaram juntos, assistiram depois a um filme em DVD, ``Eyes wide shut´´, de Stanley Kubrick. E de certa forma se viram um pouco naquele casal do filme. Evitaram comentar o filme. Apagaram as luzes e sem nenhuma palavra, fizeram amor. O mesmo sexo de sempre. Ela teve um orgasmo em sua boca, e ele enquanto era cavalgado por ela... Ela por cima dele, proporcionando a visão de seu corpo lindo... Apesar do orgasmo de ambos, ele sentia que faltava algo. Ela dormiu em seus braços, mas o sono dele não veio tão fácil assim. Não conseguia tirar a cena do telefone de sua mente, e de repente pensou: ``E se ela quiser se vingar da história da prostituta? Por que ela alugou justamente o DVD de Kubrick?´´ Depois de muito pensar, dormiu de cansaço e também da leveza que sucede o gozo. Sua mente fervilhava... Aquela noite sonhou com sua namorada fazendo sexo com outro homem, acordou suando e ofegante. Ela percebeu sua agitação, colocou-o no colo e comentou, ``foi apenas um sonho ruim...´´ Pela manhã, durante o café ela perguntou com o que ele havia sonhado, mas ele mentiu dizendo que não lembrava. No entanto, a lembrança do sonho estava nítida em sua mente, e por mais que tentasse esquecer não conseguia... No fim da tarde, ele ligou para ela pelo ramal, dizendo que estaria saindo em alguns minutos e passaria na sala dela para que fossem juntos pra casa... Ela disse que não iria com ele, mas com uma amiga, pois precisava comprar umas coisinhas que ele não podia ver. Afinal de contas o dia dos namorados estava próximo. Ele disse que tudo bem, passaria mesmo assim, apenas para dar um beijo. Ao aproximar-se da sala dela, pelo vidro da divisória, pôde ver que ela estava ao telefone e falava bem baixinho... Ele ficou do lado de fora de onde ela não podia vê-lo, e tentou ouvir a conversa, mas não conseguiu. Viu que ela anotou alguma coisa em um bloco, e em seguida arrancou, guardando na bolsa e desligando logo em seguida. Foi então que ele entrou e ela o recebeu com um sorriso ``Já vai querido?´´ Ele estava apreensivo e perguntou com quem falava, ela disse que mais uma vez era a chata da yoga, ele não se convenceu da resposta, mas não fez alarde. Ela então se levantou e dirigiu-se à estante da sala, ficando de costas pra ele. Comentando displicentemente que queria que ele, por favor, entregasse um livro para a recepcionista. Enquanto ela procurava o livro, de costas para ele, ele não parava de olhar para o bloco de anotações, onde ela havia escrito alguma coisa antes da chegada dele... Sentia que não era certo fazer aquilo, era uma invasão de privacidade, no entanto estava curioso e morto de ciúmes, não conseguia nem raciocinar direito. Num impulso, arrancou a folha do bloco, onde a pressão da caneta havia deixado a escrita marcada e rapidamente colocou no bolso. Ela então encontrou finalmente o livro e com um sorriso pediu que ele fizesse o favor de entregar à menina. Trocaram um beijo e ele saiu. Suava... Estava cego... Louco para parar em algum canto e tentar ler o que estava escrito naquele papel. Se por um lado ele imaginava o pior, por outro ele não aceitava a idéia que ela pudesse estar tendo um caso por vingança. Entregou o livro à menina da recepção, parou ali mesmo e tentou ler algum vestígio do que estava escrito. Havia um endereço na zona sul da cidade, algo que parecia ser um horário, dezenove horas, sexta, daqui a dois dias. No entanto, nenhum nome ou coisa assim. Ficou realmente intrigado, aquele bilhete, não dizia nada e dizia tudo... Ela o estava traindo. Por trás da porta entreaberta Ele resolveu então observar, ver até onde aquilo iria. De certa forma sentiu-se responsável por aquilo. Como uma personagem de Nelson Rodrigues, ``perdoa-me por me traíres´´. Aquele dia ela chegou em casa eufórica, cheia de sacolas com roupas, e outras coisinhas, falando que ele teria uma grande surpresa com o presente, mas que ele teria que segurar a curiosidade. Somente no dia dos namorados, veria o presente e coisa e tal... Ele a observava, mudo, havia uma enorme interrogação em sua mente. A naturalidade com que ela agia, não transparecia uma traição... Os dois dias se passaram. Era sexta-feira enfim, dia dos namorados. Logo pela manhã, ela preparou um café da manhã super especial e levou para ele na cama. Havia uma rosa vermelha, frutas, queijos, geléias, tudo o que ele mais gostava... Ele amou tudo aquilo, e por um instante esqueceu do que o atormentava nos últimos dias, a dúvida da traição. De repente, ela levantou, pegou uma caixa e pediu que abrisse, ele achou estranho, não costumavam trocar presentes pela manhã. Ele comentou isso, e ela disse que teria um imprevisto mais tarde. Teria que levar sua irmã ao médico, e o único horário encontrado foi no fim do dia... Provavelmente demoraria um pouco, mas a noite seria deles. Disse para que ele não se preocupasse... Afinal dia dos namorados é todo dia. Ele achou tudo muito estranho, mas teve uma idéia, agiria como se tudo estivesse bem. Abriu o presente, era uma coleção de CDs de Chico Buarque, que ele amava. Ele então pediu desculpas pelo presente dele estar no trabalho, mas que lá ela também teria uma surpresa... Ela beijou-o com carinho e disse olhando em seus olhos: ``Você não faz idéia do quanto eu te amo´´. No trabalho, ele deu a ela uma pequena caixa de veludo com uma jóia dentro. Era um delicado cordão de ouro com um pingente de rubi em forma de coração. Ele já havia comprado há tempos, mas esperava pelo momento certo de presentear... Certa vez, ela comentou com ele, que o rubi era a pedra do amor e assim que ele viu aquela pedra lapidada em formato de coração, imediatamente comprou. Colocou em seu pescoço, e ela ficou emocionada. Abraçaram-se. Assim ficaram por muito tempo. Nesse momento a secretária dele entrou. Pediu desculpas pela interrupção, mas ele teria uma reunião em cinco minutos com a diretoria. Com os olhos marejados de lágrimas, ela lhe deu um beijinho e disse que estaria em sua sala, se ele precisasse. ``Seus olhos estavam marejados de emoção ou de culpa?´´ ele pensou. Talvez aquele tenha sido o pior dia da sua vida. Metade dele queria acreditar que tudo não passava de uma cisma sua que ela dizia a verdade, tudo o que ele havia visto era apenas uma rede de mal entendidos. No entanto a outra metade, tinha certeza que ela se preparava para uma vingança. Tudo por conta da sua confissão em relação à prostituta. No fim do dia, ela passou em sua sala, deu-lhe um beijo e disse que estava da saída, mais tarde o encontraria em casa, mas que ele não ficasse preocupado. Sentiu um aperto em seu coração, era agora... Ele olhou para o relógio, ainda estava cedo, provavelmente ela passaria em algum lugar pra tomar um banho e se arrumar para ``ele´´, o amante. Ele deixaria que ela fizesse exatamente o que havia planejado, já que não tinha conhecimento que ele sabia. Portanto, ele iria para frente do prédio e esperaria, quanto tempo fosse... Parado à frente do prédio, do outro lado da rua, ele observava o movimento de entra e sai. Não era um prédio sofisticado. Havia apenas um interfone e o porteiro. Prestava atenção a todas as mulheres e homens que passavam. A brisa fria da beira-mar provocava calafrios de vez em quando... Olhando a todo instante para o relógio, que parecia parado tamanha a ansiedade minuto a minuto, ele então a viu. Parou o carro à frente do prédio e calmamente saiu sem olhar em volta. Ele se abaixou um pouco no banco para que ela não o visse, mas ainda assim podia vê-la. Estava linda... Os cabelos soltos, bem lisinhos... Toda de preto, com um casaco de couro que vinha até a altura dos joelhos e botas longas, de bico fino e salto altíssimo. Ao entrar, falou alguma coisa com o porteiro, talvez para perguntar se seu amante estava em casa... Ele deixou passar um tempinho e aproveitando uma distração do porteiro, que conversava com o outro porteiro do prédio vizinho, entrou sorrateiramente e pegou o elevador para o andar desejado. Chegando lá, olhou para a numeração dos apartamentos e imediatamente reconheceu o seu destino. Aproximou-se silenciosamente, a porta estava entreaberta, conseguia ouvir uma música clássica bem baixinha... Mais nenhum som vinha do apartamento, será que ``ele´´ ainda não havia chegado? Por isso a porta entreberta? Tomado de uma repentina coragem, lentamente abriu a porta. A cena que viu era perturbadora... Era um apartamento pequeno, de quarto e sala, a cozinha era do tipo americana, daquelas que tem um balcão que serve de mesa na sala, onde havia dois bancos altos de metal prateado e assento de couro preto. As paredes da sala eram em um tom vermelho com teto claro, incomum e perturbador. Toda a mobília resumia-se a um sofá e dois pufes, e era de couro preto. Estava tudo escuro, iluminado apenas por velas de diferentes tamanhos, acesas dentro de potes. Ela estava de costas para a porta e continuou calmamente a acender as velas restantes. Ele estava mudo não entendendo o que acontecia. Em determinado momento, ela ainda de costas, falou firme, mas calmamente: ``Sente-se´´. O começo sem fim Ele olhou em volta, pensando se havia outra pessoa no ambiente, mas não... Era mesmo com ele que ela falava. Será que ela pensou que ele era o seu amante? Como tudo aquilo já passava completamente da sua compreensão, ele simplesmente fez o que ela mandou, sentou-se em um dos banquinhos altos próximo ao balcão. Ela então passou por ele, olhou em seus olhos e deu um sorriso. ``Você chegou na hora...´´ e fechou a porta com a chave. Naquele momento ele viu tudo... Ela esperava por ele, e não por nenhum outro homem... Olhou para ela com surpresa e admiração. Que estratégia... Que mulher era aquela? Capaz de quase matá-lo de tanto ciúme e medo de perdê-la? A luz difusa das velas, dava um visual mágico àquele momento, o que será que ela estava tramando, afinal? Aquela situação começou a excitá-lo, ela foi para o outro lado do balcão e serviu para ele um copo de uísque, olhou diretamente em seus olhos, séria e seu pedido soou como uma ordem: ``Beba tudo!´´ e assim ele fez, ela serviu-o de outro uísque e fez um sinal com a cabeça para que ele repetisse a dose. Ele então sorriu e disse: ``Você é louca, e eu te amo pela sua loucura...´´ Ela então rodeou o balcão e parou à frente dele. ``Não! Eu não sou louca. Eu sou a Sua Senhora. E como Sua Senhora, só eu sei o que você necessita...´´ Ela dizia isso, baixinho, em seu ouvido, enquanto afrouxava a sua gravata. Afastou-se um pouco dele, e sempre olhando nos olhos, puxou-o pela gravata, forçando-o a levantar-se, e assim ele fez. Mesmo em cima daqueles enormes saltos, ela ainda era muito menor que ele, mas... Naquele momento ela estava gigante em sua majestade. Pela gravata, ela puxou-o até bem próximo da sua boca, e ao invés de beijá-lo como ele imaginava, ela mordeu suavemente o seu lábio inferior, fazendo uma suave pressão até ele dar um gemidinho de dor... Ela parou, deu um sorriso, olhou em seus olhos e falou: ``Não tenha medo! Eu te amo e cuido do que é meu. Se entregue esta noite sem medo. Você não vai se arrepender...´´ E beijou seus lábios enfim. Virou de costas para ele e pediu: ``Me ajude a tirar o casaco´´ E ele obedeceu. Encostou seu corpo ao dela, passou os braços por ele e desenlaçou a tira, amarrada em sua cintura Enquanto beijava a sua nuca. Cuidadosamente segurou o casaco e foi despindo-a. Ela ficou de frente, e ele teve então a mais maravilhosa visão que já tivera até aquele momento... Vestia um espartilho de vinil preto, todo atado por ilhoses prateados e amarrados por um cordão de couro também preto. O espartilho apertava a sua cintura, modelando lindamente o seu corpo e pronunciando os seus seios, tornando-os ainda mais sexies do que sempre foram. E em seu pescoço, a corrente de ouro, com o pingente de rubi que ele a havia presenteado pela manhã. Usava uma calcinha minúscula, preta transparente que proporcionava a visão ``dela´´ completamente depilada como nunca vira antes. As botas de salto alto torneavam ainda mais as suas coxas e bumbum. Ele tentou abraçá-la, mas ela esquivou-se. ``Hoje a Sua Senhora sou eu, respeite as regras´´ ela disse se afastando um pouco. Ela então, com uma voz incrivelmente doce, olhando sempre nos olhos, disse: ``Tire a roupa!´´ Ele então começou a despir-se devagar, adorando aquilo tudo... Estava muito excitado Tirou uma a uma as peças de roupa ficando apenas de cueca. Ela deu um sorriso e finalizou: ``Toda a roupa´´ E ele obedeceu. Sua excitação era evidente e os olhos dela brilhavam... ``Fique aqui!´´ Dizendo isso se encaminhou para o quarto, ambiente que até aquele momento ele ainda não tinha visto. Ela então voltou de lá com uma sacola vermelha nas mãos, deixou em cima do banco de assento de couro e tirou alguma coisa de dentro. ``Tenho um presente pra você...´´ Se aproximou dele e colocou uma coleira de couro preta cravejada com detalhes prateados. Ele ficou surpreso com aquilo, e ela aproximou-se do seu ouvido e perguntou? ``Você me ama?´´ ele ficou ainda mais surpreso com a pergunta e disse: ``É claro que sim!´´ Ela então beijou sua boca, deu um sorriso e disse: ``Confie em mim...´´ e ele então ficou mais calmo. Mais uma vez ela afastou-se dele, voltando à sacola vermelha. Tirou uma delicada corrente prateada e atou à coleira. Deu um delicado puxão para baixo, e falou com voz firme: ``Ajoelhe-se diante de mim!´´ sem compreender muito bem o jogo, ele obedeceu. Curiosamente, todo aquele clima, aquelas ordens, era tudo muito confortável. A grande verdade, é que ela já era a Senhora dele há quatro anos, e a prova disso, foi o pavor que sentiu esta semana com medo de perdê-la para sempre. Toda aquela situação que estava vivendo era muito erótica, e ele em nenhum momento perdia a excitação, pelo contrário, ela crescia ainda mais, se é que isso era possível. Ele ajoelhou-se e abaixou a cabeça em sinal de reverência, estava gostando do jogo, ela então puxou mais uma vez a coleira e disse: ``Eu não mandei que abaixasse a cabeça´´ e ele então voltou seu rosto para ela, que disse: ``Não olhe para mim, abaixe a cabeça!´´ Deixando claro que era ela quem estava no comando. Toda a impaciência e os pedidos fúteis, nada disso o incomodavam. Pelo contrário... Ficava esperando a próxima ordem. ``Você me tratará somente por Minha Senhora e não falará nada se não for questionado por mim. Entendeu?´´ ela disse com voz firme. Ele hesitou em responder e ela mais uma vez puxou sua coleira ``Entendeu?´´. ``Sim, minha senhora...´´ ele respondeu enfim. Ela então se sentou no sofá de couro preto e ele a seguiu de joelhos pelo chão, com a cabeça baixa. Estava extremamente excitado com o que acontecia. ``Tire as minhas botas´´ e ele começou a tirá-las bem devagar... E ela então puxou a corrente, dizendo que ele estava muito lento. Ele foi tirando mais rápido, e ela mais uma vez puxou dizendo que estava com muita pressa, iria machucá-la assim. Conseguiu, enfim, um ritmo que a agradava e tirou as duas botas. ``Preciso de uma massagem, faça com muita suavidade...´´ E ele obedeceu... Sabia que ela adorava aquela carícia, muitas vezes já havia feito depois de um cansativo dia de trabalho... Invariavelmente após a massagem faziam amor, aquilo a excitava muito, e ele imaginou que era o que queria. Foi subindo as mãos pelas suas pernas e coxas, queria arrancar a calcinha dela com os dentes, tamanha a sua excitação. E ela então mais uma vez puxou a sua coleira, e dessa vez com um pouco mais de força. ``Não!´´ ela disse. Ele encarou-a assustado. Ela então sorriu e disse: ``Ainda não...´´ ``Quero que você dê uma lambida na sola do meu pé!´´ ele arregalou os olhos e tentou esboçar alguma palavra, quando ela o interrompeu: ``Vai questionar sua Dona, Sua Senhora?´´ Ele então disse apenas: ``Não Minha Senhora...´´ e dizendo isso, fechou os olhos e passou a língua pelas solas daquela mulher que muitas vezes já havia beijado durante as preliminares do sexo, uma carícia que ele nunca antes havia dado uma real atenção. Curiosamente, aquele ato não lhe causava nenhuma repulsa... Com os olhos fechados, pôde entregar-se mais completamente às sensações. Pôde sentir o cheiro do suor dos seus pés. Tendo seus pés entre as mãos, pôde sentir a maciez das suas solas entre os dedos. E o sabor... Era levemente salgado, como o suor, a sensação era tão agradável, que ele foi mais adiante... Mesmo com medo de ser repreendido. Colocou cada um dos dedinhos em sua boca e sugou-os, como se aquele, fosse o único alimento para a sua vida... Ela estava com os olhos fechados, certamente gostando da sensação, mas repentinamente. Ela ordenou que parasse e assim ele fez. Ainda que o seu desejo fosse continuar aquela carícia e levá-la a um orgasmo inédito em sua vida. Aliás... Ele também, já não sabia mais quanto tempo seria capaz de retardar seu orgasmo. Tudo o que havia acontecido, desde o momento em que colocou os pés naquele apartamento, o excitou ao extremo. Foi então que ela pediu que ele fechasse os olhos. Ela levantou, fez uma leve pressão em sua coleira para cima e pediu que ele a acompanhasse bem devagar, mas sem abrir os olhos. Ele sabia que ela guiava-o para o quarto. E a excitação só aumentava, pois ele, não era capaz de imaginar, o que poderia haver ou acontecer lá dentro. De olhos bem abertos Quando ela enfim pediu que ele abrisse os olhos, ele realmente estava no quarto. Era um quarto simples, as paredes eram do mesmo tom de vermelho da sala, com teto claro, lá a iluminação também era com velas. Havia uma enorme cama tubular laqueada em branco com detalhes dourados. Lençol de cetim vermelho e almofadas da mesma cor. Um enorme armário embutido, que tomava toda uma parede. E uma enorme janela, fechada com venezianas. Ela mais uma vez pediu que ele não saísse do lugar, foi até a sala e voltou com a sacola vermelha, a sua caixinha de surpresas pensou... Ela pediu que ele deitasse na cama e ficou sobre ele. Passou a língua pelo seu pescoço, e chegando à orelha mais uma vez perguntou: ``Você confia em mim?´´ e ele respondeu que sim. Nesse momento ela saiu de cima dele e pegou um par de meias de seda pretas na sacola. Na penumbra ele viu que ela esticava as meias à sua frente. Atou um dos pulsos à meia e o outro à cama. Fez o mesmo com o outro pulso. Ajeitou as almofadas, de modo que ele ficasse levemente sentado. Observar aquela preparação, já estava deixando-o tão excitado, que ele sinceramente não entendeu como ainda não havia chegado a um orgasmo. Neste momento ela ficou de pé na cama. Tirou enfim a calcinha transparente e ele pôde constatar a depilação íntima a que ela havia se submetido, era uma visão linda... Colocou um pé de cada lado dele, e muito devagar, foi desatando os cordões do espartilho. Ele explodiria a qualquer momento, não tinha a menor dúvida. Foi então que ela veio com a maior das surpresas. Desceu da cama completamente nua e mais uma vez foi à sua sacola vermelha. De lá retirou um par de pregadores de metal, ou algo assim, eram prateados e unidos por uma delicada correntinha prata, mais uma vez ela ficou de pé sobre ele. E a visão daquele objeto em suas mãos, causou-lhe medo e excitação. Ela ajoelhou-se sobre ele, evitando aproximar seu sexo ao dele, passou aquele objeto lentamente por sobre o seu corpo, causando certo arrepio. Ela então falou bem baixinho em seu ouvido: ``Sabe o que você gosta tanto que eu faça com a boca? Meus dentes... Seus mamilos... Não será a minha boca dessa vez...´´ e dizendo isso suavemente prendeu um mamilo dele com o pregador, e depois o outro, ele deu um gemido. Ela então, encaixou-se a ele começou a cavalgá-lo como uma louca. E dizer coisas inconfessáveis, humilhações verbais que o excitavam cada vez mais. Ele tinha tantos sentidos conectados naquele momento... Nem saberia explicar. O aroma das velas e do suor de seus corpos. O som da música ao longe, dos seus corpos roçando um no outro, das ásperas palavras pronunciadas por ela. A lembrança do leve sabor salgado de suas solas. O visual de vê-la sobre ele, depilada, cavalgando-o, com seus seios balançando. E enfim, a sensação da dor dos pregadores em seus mamilos unida à sensação de estar totalmente dentro dela. Ele não agüentou mais segurar e explodiu em um gozo nunca antes vivido. Pensava estar tendo espasmos de prazer, tamanha a intensidade, seu corpo tremia... Fechou os olhos, e ainda assim parecia estar cego graças a um clarão que ele acreditou envolvê-lo. Sentiu o corpo ferver até quase explodir. Sobre ele, ela pode ter a visão perfeita do orgasmo intenso que ele vivia. E aquela visão excitava-a ainda mais a ponto dela perder completamente os sentidos e pronunciar palavras que nunca imaginou dizer, rebolava como uma louca sobre ele, sentindo que aquele orgasmo era diferente de tudo que havia vivido, viu que ele fechou os olhos e explodiu em um orgasmo intenso, que parecia não ter fim, vinha em ondas, ela também fechou os olhos e nesse momento, sentiu que ia desfalecer... Era como se sua alma deixasse o seu corpo, quem sabe naquele momento eles fossem uma só alma? E então sentiu seu corpo explodir no maior orgasmo da sua vida, sua musculatura o engolia todo dentro de si, como se o quisesse para sempre dentro dela. Deixou enfim, seu corpo pousar sobre o dele, sem forças. Com os olhos fechados, os corpos suados, completamente exaustos... Eles ficaram ali, por um tempo que não sabiam dizer quanto. Calmamente foram voltando a si. Ela então, desatou suas amarras, tirou os pregadores de seus mamilos e aconchegou seu corpo ao dele. Foi então, que ela olhou em seus olhos, e apesar da penumbra pode ver além do sorriso em seus lábios, também lágrimas pelo canto dos seus olhos. Puxou a corrente do seu pescoço, e aproximou o rosto dele do seu. Deu-lhe um beijo muito apaixonado e disse: ``Feliz dia dos namorados, amor...´´ F I M