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A Carcereira
Às sextas- feiras sou sempre o primeiro a abandonar a empresa, na hora da saída. E que pressa eu tenho de sair! Como sou solteiro, passo o fim de semana ausente de casa e volto sempre às segundas com o rosto repleto de olheiras, a barba de três dias, pouca vontade de trabalhar, e sem quase me poder mexer, meus colegas partem do princípio que passo aqueles dois dias de folga transando como um coelho, e até se costumam meter comigo por causa disso. As suas suspeitas ainda mais se acentuaram quando há poucas semanas atrás dois deles me viram entrando no final da tarde, num Pólo branco, conduzido por uma morena alta e vestida de couro, que eles perceberam bem ser muito bonita. É certo que eu entrei pela porta traseira apesar de o lugar ao lado da condutora estar vago, e me deitei de imediato ao comprido no assento, como ela me determina, o que os deveria fazer suspeitar que aquele relacionamento não era um relacionamento convencional. De facto, como vêem, é uma mulher a responsável pelo meu desaparecimento de circulação todos os finais de semana, é por causa dela que regresso às segundas cansado e com cara de quem passou dois dias sem dormir (três se o fim de semana é prolongado), assim como é verdade que é na velha quinta isolada dela que passo aqueles dias, há já vários anos. E no entanto não posso dizer que somos namorados pois nunca lhe dei nenhum beijo na boca, nunca me pus nela, nem nunca sequer a vi nua. E mais do que isso. Conheço a casa rural que ela me disse ter herdado de seus pais onde me conduz nos fins de semana e nas férias, sem saber onde fica, e nem sei quantos anos ela tem embora deva rondar os trinta e muitos, (agora me dou conta que desde há muito sua aparência é sempre de trinta e muitos como se a idade por si não passasse) nem onde mora no dia-a-dia, nem sequer como se chama. Para lhes ser franco já nem saberei dizer como nos conhecemos, nem como aceitei desempenhar com ela o papel que há tantos anos desempenho: o de seu prisioneiro nos meus tempos livres. Se me atrevesse perguntar-lhe-ia se ela se lembra ainda de como tudo começou, ou se além de mim tem outros prisioneiros espalhados por outras casas rurais, mas não o faço porque me lembro que desde que nos conhecemos ficou estabelecido que nunca a questionaria em nada, apenas lhe obedeceria em tudo. E tudo o que tenho a fazer todas as 18 horas de todas as sextas feiras, é dirigir-me a pé ao local que ela me fixa para a esperar, e por ser sempre diferente é-me comunicado por e-mail uma ou duas horas antes, e ali chegado esperar o tempo que for preciso completamente imóvel. Já esperei uma, duas, três, quatro horas. Nunca me atrasei. Fui aliás logo de inicio avisado que o menor atraso de minha parte implicaria passar todo o fim de semana sem comer ou beber e uma surra a dobrar. Confesso que não é o medo do castigo que me faz ser pontual, pelo contrário, o poder provocar mais a sua fúria é algo que me excita sobremaneira, e já muitas vezes estive tentado a atrasar-me para lhe dar motivo a castigar-me mais duramente. Se continuo a ser pontual é apenas para lhe provar que quero sempre obedecer-lhe por mais que me custem suas ordens.
E as suas ordens são sempre as mesmas. Quando chega, devo baixar a cabeça para não a fitar no rosto, e abandonando minha postura imóvel entrar no assento traseiro. Após lhe agradecer o ela consentir-me passar o fim de semana no seu retiro, e expressar minha alegria pelo nosso reencontro, devo tirar toda minha roupa o que lhe provoca logo os primeiros comentários sarcásticos sobre minha pessoa. Como venho directamente do trabalho, não posso passar em casa a fim de tomar banho, ela começa chamando-me porco dizendo que o cheiro que exalo dos sovacos, dos pés e dos genitais é incomodativo, e que logo chegados ao seu sítio me castigará com a correia de couro por causa disso. Eu não vejo horas de ela o fazer, e aquelas suas palavras provocam-me o primeiro tesão da semana. Depois de me despir, e tirar o relógio para não poder contar o tempo, dobro cuidadosamente minhas roupas (na segunda feira seguinte será com elas, cuecas e meias incluído, que me apresentarei no local de trabalho), enfio-os numa saca que levo comigo e que ela guardará, e de seguida meto o comprido saco de sarja que ela traz propositadamente no carro para aquele fim pela cabeça abaixo, até com as pernas na posição fetal meu corpo ficar todo dentro dele. Não faço assim a mínima ideia do caminho que conduz à quinta que ela herdou dos pais, e que me serve de prisão. Mas também confesso que prefiro assim. Também julgo que ela não faz sempre o mesmo percurso, pois a viagem não demora sempre o mesmo tempo ainda que pelos meus cálculos nunca a tivéssemos feito em menos de hora e meia, mas já chegamos a demorar mais do dobro, o que é muito penoso para mim, pois além de viajar dentro do saco estou sem comer desde o almoço, e a fome àquela hora começa a importunar-me.
Quando chegámos ao destino é noite cerrada, e eu só sei que o sítio fica num local ermo. O pó ou a lama, dependendo da estação do ano, que cobre a viatura indicia que o caminho que ali conduz é de terra batida, e o aspecto da casa de lavrador muito desconjuntada deixa transparecer que já nela não habita ninguém há muitos anos, há mais anos do que aqueles que ela, a misteriosa, me leva ali. No entanto o portão que dá acesso ao terreiro, e que me manda fechar assim que chegámos e saio do saco onde viajei, está bem cuidado, como bem cuidada está a porta metálica da cela minúscula onde irei ser trancafiado nos próximos dias, mesmo por baixo das escadas que dão acesso à entrada principal, e que no passado julgo ter sido utilizada como galinheiro ou coelheira. Ao vê-la, como acontece sempre, volto a ter uma erecção. Como estou nu ela vê o pau levantar e goza-me mais uma vez:
- Vais ter muito tempo para ficares de pau feito nos próximos dias. Não vais é poder aliviar-te.
Suspirei. É, eu já o sabia. Mas também assim é que aquilo nos dá mais pica a ambos. Preparei-me então para ser torturado. Apesar de tantas vezes ser chicoteado com a tira de couro, acho sempre que aquele é o primeiro momento excitante do dia após uma semana de trabalho e nunca me canso de ouvir o silvo que o açoite faz vibrar no ar antes de ser descarregado no meu corpo, empunhado por aquelas lindas mãos que na segunda de manhã irei beijar antes de ela me devolver à civilização. De joelhos, enquanto ela empunha a tira comprida de couro com que me vai chicotear, começo por lhe beijar os pés e os sapatos de tiras de salto alto brancos, mas sem lhes tocar com as mãos pois o único contacto com a sua pele que me é permitido, é apenas o de meus lábios e de minha língua lambendo-a. E como eu adoro beijá-los e lambê-los! Depois, na posição de gatas, deixo que ela me espanque. A minha carcereira começa por me passar a tira pelo corpo, acaricia-me os tomates e o pilau com ela só para eu tomar contacto com a carícia do couro, e após algum tempo principia a descarregá-la em mim, por vezes meia dúzia de chibatadas seguidas que quase me cortam a respiração, outras vezes compassadas como se não tivesse pressa nenhuma de o fazer. Nas costas, nas nádegas (é onde gosto mais que ela me bata), nas pernas e nos braços, nas solas dos pés, até no saco e na pila. Às vezes manda-me abrir o rego do cu com as mãos e descarrega-me meia dúzia de vergastadas bem aplicadas naquele canal aberto. Eu contorço-me todo mas sabe-me bem receber aquela dor, tão bem como se me pusesse nela e a fodesse. Outras vezes manda-me deitar no chão, de barriga para cima, e açoita-me o peito e o ventre de modo a vergastar meu pau. Eu gemo de dor e suplico-lhe que pare, mas de facto não quero que ela pare, por mim queria que ela não parasse nunca de bater, de tal modo os seus espancamentos me deixam tão louco que muitas vezes me venho ali mesmo, e tenho de limpar com a língua a esporra que verti.
Finalizada a sessão de chibatadas, que por vezes apesar do frio ou do calor é sempre ao relento e chega a ultrapassar uma hora, sou então amarrado. Nem sempre me ata da mesma forma e isso é que é tão maravilhoso e faz de cada sessão algo único e inesquecível. Eu nunca sei como vou ser imobilizado, e passo a semana toda sonhando com aquele momento muito embora não me seja permitido fazer-lhe nenhuma sugestão quanto às minhas preferências. Por vezes apenas me prende as mãos atrás das costas, e me liga os tornozelos um ao outro. Noutras contudo prende-me com mais imaginação, e é nestas alturas que aprecio mais ser amarrado. Uma das posições que me faz ficar de pau feito todo o tempo, é quando me flecte as pernas para cima, dobradas pelos joelhos, por trás das costas, enquanto simultaneamente me estica os braços para baixo e mos amarra a elas. Outra é quando me faz dobrar o tronco para a frente e me amarra os pulsos nas tíbias, pois em qualquer uma daquelas posições não me posso mover e me deixam o corpo muito mais dorido do que sobre a acção das chicotadas. Outra das suas formas preferidas de me prender é colocar-me as mãos por trás da cabeça, os pés na mesma posição, e atá-los em conjunto. Numa destas sextas feiras, vi que no cubículo onde ia ser encerrado tinham sido fixadas nas paredes quatro sólidas argolas, duas numa, e outras duas na parede em frente. Fui amarrado a elas pelos pulsos e pelos pés, as pernas completamente abertas. Foi uma das minhas melhores experiências pois passei todo esse tempo fantasiando que ia ser castrado por ela, e foi fantástico. E é claro a posição fetal, a mais frequente, os joelhos quase encostados ao meu queixo, as mãos fortemente manietadas aos tornozelos. Ou ainda a do gato dormindo, dobrado para a frente, voltado sobre mim mesmo, feito uma bola, que é a que mais me faz doer as costas. Mas seja qual for a posição em que me amarre, sou sempre atado de pés e mãos, e nem consigo imaginar a frustração que sentiria se passasse um fim de semana ou um período de férias sem os meus membros superiores e inferiores assim presos. Ou o que seria voltar à segunda- feira ao trabalho sem caimbrãs no corpo, e não me sentir totalmente encadeado pela luz.
Sim porque minha prisão além de diminuta e baixa muito se assemelha com uma masmorra medieval. Mesmo que não estivesse amarrado pouco me poderia movimentar dentro dela, e nunca levantar-me, com apenas uma pequenina brecha por cima do postigo que lhe serve de porta, permitindo a entrada de um fino raio de luz e de algum oxigénio para não me deixar asfixiar lá dentro. O chão é cimentado mas está todo tapejado de palha que quando chego noto ter sido mudada, embora ainda o sinta molhado de ter sido lavado. Talvez por isso nunca lhe tenha encontrado ratos, embora não possa dizer o mesmo no que respeita a baratas e centopeias. É ali que passo meu final de semana, meu feriado e meus períodos de férias. É para ser depositado ali depois de ter sido bem açoitado e amarrado que me apresso a ser o primeiro a sair do trabalho cada sexta- feira ou cada véspera de folga, porque não vivo cada dia de semana senão a pensar naqueles momentos breves, sempre muito breves, em que minha anónima carcereira fecha sobre mim, à chave, o postigo metálico daquele espaço que já deve ter sido um galinheiro e eu fico ali isolado, amarrado, cego e surdo a qualquer ruído, pois ela, aquela que eu não sei quem é, fechando-o desaparece no seu Corsa. O barulho do motor é o ultimo ruído que ouço a partir do momento em que sou ali encerrado, com excepção das aves no tempo quente. Dir-se-ia que estou no Fim do Mundo, num local sem humanos, e devo estar no Fim do Mundo efectivamente. Sei já desde há muito o local da parede onde está uma tina com água, e no local oposto onde se encontra uma terrina com comida de porcos. Tanto uma quanto outra terão de durar o tempo todo que ali estiver amarrado pois ela só voltará a abrir a porta quando me fizer sair. Esta é uma das razões porque meus períodos de férias nunca excedem uma semana, além de me permitirem distribuir mais vezes ao longo do ano tais sessões de clausura. Tenho de me rebolar todo para chegar à água e à comida, ou esticar ao máximo meu pescoço, para um lado ou outro, como aconteceu quando me acorrentou às argolas da parede. Para fazer minhas necessidades é que não há problema. Basta-me descarregar por mim abaixo, e deixar-me estar ali, sobre minha merda e meu mijo. Quando faz muito frio o calor dos meus dejectos até me sabe bem porque me aquece. O que me custou mais a aguentar nos inícios da nossa relação, foi o cheiro de minhas imundícies misturadas na palha por o achar insuportável logo ao fim do primeiro dia, em especial nos meses de Verão. Há muito porém que já deixei de atentar nele. Nada já me incomoda naquela clausura que eu nem sei dizer se começou por iniciativa minha ou dela. Já há muito igualmente que deixei de me tentar guiar pela variação de nesga de luz por cima da entrada ajudando-me a contar os dias e as noites. O fantástico daquilo está em alhear-me de tudo, alhear-me até do tempo, deixar-me estar-me acorrentado, que ela cuidará de mim e virá buscar-me no momento que estiver marcado, como sempre fez. Chego a passar todos os dias em que estou preso de olhos fechados para que nada me alheie daqueles instantes, nem que o tempo me perturbe. Quando volto a ouvir o barulho do motor da Dama Desconhecida, meu estômago está doendo de fome, a água choca que fui bebendo cai-me mal, eu não preguei olho em todo aquele tempo, e então sei que é segunda-feira, ou final de férias, que dali a poucas horas, depois de me ter desatado e me ter voltado a chicotear ferozmente com a tira de couro, estarei de novo no trabalho com as roupas que já me terá devolvido, e a barba de sexta, pois apenas um banho ela me concede com a água fria do poço. Fico contente porque vou vê-la, ser chibatado e tomar banho. Mas ao mesmo tempo que raiva por ter vindo e me ter roubado aqueles momentos mágicos e breves de minha reclusão, que seriam sempre breves mesmo que durassem a vida inteira, de novo adiados até ao próximo final de semana. Nunca pensei o que aconteceria se ela um dia não aparecer, se lhe acontece alguma coisa e não puder vir, nem me preocupou nunca a certeza que se isso acontecer eu morrerei ali abandonado, talvez porque o mistério com que ela se me revela me faça imaginar estar na presença de uma força sobrenatural e eterna, divina ou demoníaca mas imensamente bela e poderosa, que aparece para me prender e me libertar, e me punir nem eu sei porquê, talvez só por eu ser homem, e é esta a razão que mais gosto de acreditar, mas que aparece sempre. E nunca pensei nisso porque não é esse o meu maior receio. O meu maior receio é uma sexta- feira ela não aparecer para me levar consigo ao seu sítio que não sei onde fica para me amarrar na sua cela e me fazendo fugir ao tempo fazer-me fugir a tudo.