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Náufrago

Atirei-me à água, lutando alguns minutos com a rebentação. No vale que se formava de cada vez que uma onda ganhava força para se atirar contra a praia, via emergir um nariz e uma boca sôfrega desesperada tentando encher o mais possível os pulmões de ar para sobreviver até que a próxima grande onda cavasse um vale suficientemente profundo para voltar a inalar um pouco de ar. Guiei-me por aquela espécie de farol que espaçadamente energia no meio das vagas. Mal cheguei ao pe dela mergulhei. Uma corda enredava o seu corpo numa enorme pedra, a água tinha feito dilatar a corda pelo que era impossível desembaraça-la, mesmo que achasse, no meio daquela água turva qualquer nó. Ainda bem que tinha trazido uma faça, pensei. Arrastei-a para terra, deitando-a com carinho na areia, desmaiou, estava roxa, fria, exausta, mas respirava, o que era um bom sinal. Fiz-lhe uma festa na cara e estremeci quando vi os riscos largos vermelhos que os meus dedos deixavam ao passar, donde viria tanto sangue? Inspeccionei-lhe o corpo superficialmente, não tardei a descobrir as grandes feridas que tinha feito ao roçar as costas pela pedra que a mantinha presa ao fundo enquanto se debatia para respirar. Nesta altura do ano as praias estão desertas, não havia ninguém que pudesse ajudar, peguei no corpo inerte e transportei-o ao longo dos 400 metros que nos separavam da minha cabana. Deitei-a na banheira para lhe dar um banho quente, isso restituíra-lhe a cor alem de tirar a agua salgada das feridas. Finalmente despertou. - Obrigada. -Shiuuu não fales, disse eu, enquanto a transportava para junto da lareira, felizmente no inverno costumo-a deixar sempre acesa. Ficou em silencio, enquanto eu tratava com carinho de todas as mazelas. - Este unguento é uma maravilha! Vais ver que as feridas vão cicatrizar num instante! Disse eu por fim envolvendo-a num abraço carinhoso. - Ainda me vais matar um dia! Nunca esperei que me deixasses ali tanto tempo amarrada! Julguei que apenas quisesses ver o mar acoitar o meu corpo com fúria na subida da maré. Sorri-lhe perversamente e continuei a abraça-la carinhosamente.