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Private Business

Ela me foi apresentada como uma publicação. As filigranas douradas de seus cabelos pendiam, em suave desalinho, ocultando parte do frontispício alvo. Em meio aos títulos e notas introdutórias – Muito prazer. Leda Alcaraz, gerente de marketing – dois rasgos no papel deixavam escapar a luz de seu olhar. Não entusiasmou-me a leitura, à princípio. Em vez disso, divertia-me em passear os olhos no tremor imprudente de seus lábios e em contar, sem despertar suspeitas, o número de vezes que as costas de seu pequeno indicador roçavam levemente a base de seu nariz. Três, anotei! Ainda a tempo de ver, nervosas, suas unhas tingidas de um escuro quase negro tamborilarem e apertarem o tecido da mesa. Um almoço de negócios implica interessante vigilância cênica. Como em um jogo de xadrez, os movimentos são maquinalmente planejados com resoluta antecedência. Pequenas perturbações desconcentram-no e expõem o seu ventre indefeso à cobiça do adversário. Quatro! E a cada vez que sua mão atingia aquele ponto exato em seu nariz, como se atingida por invisível força, apoiava-se no salto do escarpin e retesava as costas, observando manter a mais ereta postura possível. Impressionava-me, porém, como tudo isto era imperceptível ao senhor que a acompanhava, cuja eloquência em apresentar os elementos de sua proposta comercial impediam qualquer outro comentário. Cinco! Na vida profissional encontravam-se enlaçados pela linha hierárquica entre chefe e subordinada. Justapostos lado a lado, porém, pareciam tão díspares como o calor e o frio. Enquanto seu chefe entretinha-se com meu colega em caloroso embate, preferia auscultar aquele gélido coração descompassado. Ensaiou um sexto gesto mas deteve-se, súbito, quando meu olhar atravessou o seu, provavelmente em condenatória sentença. Descoberta e vendo-se sub-judice, disfarçou o nervosismo apertando o guardanapo com a mão que permanecia livre sobre a mesa. De minha parte, mantive a constância do olhar até que os dela não mais resistiram a esse contato áspero e, enfim, se inclinaram na direção de suas mãos. Ato contínuo, segui a direção de seu olhar e mantive-me atento a seus dedos mesmo quando estes ganharam o espaço e encontraram prazer em passear nos claros fios de seus cabelos. Parou! Quando o movimento cessou, busquei um motivo ajustando o foco de minha visão. Por trás de seus dedos, encobertos pela tênue resistência de uma mecha de cabelo, uma chama de seu oceano de luzes traspassou as barreiras que o continham e feriu meu olhar. Pisquei! Tremi levemente a cabeça. Desconcertei-me. Olhei para o lado, buscando recompor-me. Apenas para ver uma coreografia de gestos, caretas e movimentos exaltados, do qual não conseguia apreeder o menor som. Fiquei admirando aquele incompreensível cinema mudo, imaginando sobre o que discursavam, com tamanha ênfase. A tarde sonolenta daquela sexta-feira já entrava em sua segunda hora e um certo desejo de ter os cabelos acariciados pelo vento que via mover as árvores além das vidraças embaraçava meus reflexos. A paz em meio ao caos. Receava girar minha cabeça e confrontar-me com os olhos dela. Uma sensação perturbadora me incomodava. Uma sensação de que agora era eu o alvo da justiça invisível. E para mim dirigiam-se todos os flashes. Minhas têmporas denunciavam esse estado. Contraídas eram segundo o ritmo de meus temores. Raptado de meu vagar pelo primeiro ruído que ouço após minutos de impenetrável silêncio, dirijo, instintivamente, meus olhos para a fonte da perturbação e encontro as unhas dela transferindo para a toalha de mesa o indisfarçável incômodo em estar ali. Gostaria poder erguer os olhos, mas algo os impedia. Enquanto pensava no que os impedia, surpreendi-me ao registrar que os dedos dela abraçaram, delicados, uma caneta e com esta imprimiram em um pequeno pedaço de papel caracteres que não podia decifrar. Tome nota! Quando ouvia esta expressão, como autômato, munia-me do bloco de anotações e passava a registrar neste tudo o que via, ouvia, sentia e ressentia. Depois, percebi a importância que as outras pessoas dão ao fato de pensarem que os demais registram tudo o que elas falam e opinam, recurso que passei, habilmente, a empregar. Agora envergonhava-me perceber-me sem agenda, bloco de anotações ou caneta, feito um homem nú perante a platéia de inquisidores. Um arrepio eriçou os pelos de meu braço e me fez tremer. Um pequeno filete de suor maculou a pele da minha têmpora. Sinais que não passariam despercebidos a um olhar atento. Teria ela esse discernimento? Antes que pudesse meditar a cerca disso fui acordado de minhas divagações por um ruído agora já conhecido. As unhas dela arranhavam a lateral da mesa, escondidas do olhar dos demais comensais. Movi-me, fingindo fadiga em permanecer na mesma posição, e observei em seus dedos um pequeno pedaço de papel que neles se enrodilhava. Sem ousar tocar em sua mão apanhei o papel e, disfarçadamente, apreciei seu conteúdo: ``Eu sei o que você sente!!´´ Como?! Como poderia sabê-lo? Justifiquei amassando nervosamente o bilhete entre meus dedos. Como?! Que insolência! Meu rosto enrubesceu e contraiu-se, destacando as delicadas marcas que o tempo lá deixou. Tomei fôlego como se fosse iniciar um longo discurso mas as palavras estancaram e meus lábios permaneceram apertados, mudos. Extravasei a torrente de sentimentos mexendo-me nervosamente na cadeira, revelando a ela minha incapacidade em gerir o descontrole emocional que a situação propunha. Pelo canto dos olhos observei o sorriso dela. Os dentes claros em contrastante assinergia com a cor de seu batom. Feliz em seu intento, ela comemorou inclinando e girando delicadamente a cabeça para trás, fazendo os dourados fios desobstruírem a linha de seus olhos. Manteve, impassível, o sorriso e a posição altiva da cabeça, golpeando-me paulatinamente com a luz que escapava de seu rosto. Magnetizado, meu corpo não dava mais ares de resistência e sucumbia lentamente àquele poder misterioso. Fecho os olhos aliviado. Finalmente ouço o ruído das cadeiras arrastando-se contra o piso. Apertar de mãos, gestos efusivos, sorrisos e promessas lançadas no ar. Meu colega dirige-se a mim e condena-me: - Vou agora visitar o local das obras com o Dr. Armando, por favor, leve a Leda até o escritório deles, sim?. Aquiesci com a cabeça, enquanto minha mente gritava: ``Não! Não! Não posso...´´ O ruído em meus pensamentos era tão elevado que mal distingui a voz do Dr. Armando instruindo-a: - Leda, não me espere. Não retornarei ao escritório hoje. Caminhamos em silêncio até o estacionamento. Tateei meus bolsos em busca da chave do carro e deparei-me com o bilhete. Nervosamente, destravei as portas e assumi a direção do veículo. Ela permaneceu imóvel. ``Droga!´´ - pensei - ``Além de insolente obriga-me a agir com refinamento!´´ Suspirei e guarneci-me de forças para caminhar até a outra porta, abri-la e, com um gesto, convidá-la a entrar. Seu rosto alterou-se da indignação à satisfação em apenas um segundo. ``Notável atriz´´ – refleti. Dentro do veículo, olhos fixos no painel, resumi o necessário e a inquiri sobre qual percurso desejava fazer. Não desejava mais ser torturado pelo peso de sua presença e apreciaria se tudo terminasse o mais rapidamente possível. Longos segundos de silêncio seguiram minhas palavras. Não teria ela ouvido? Esperei mais alguns instantes, a mão impaciente, pronta para girar a chave de partida. Silêncio. Perturbado, girei o olhar para a direita e encontrei-a, compenetrada, retocando o batom no pequeno espelho de cortesia à sua frente. Deveria ficar irritado. Deveria perder o controle. Deveria esmurrar a direção liberando a tensão. Mas não, não o fiz. Em vez disso, fui envolvido pela atmosfera cândida da cena. Suas formas foram como que assoladas pelo espectro de um anjo brilhante que capturou meu olhar e levou-me a atentar que, exceto a sua pele alva e o dourado reluzente de seus cabelos, tudo nela era escuro e provocador. Todos esses pensamentos foram interrompidos quando ela girou seu rosto em minha direção e interrogou-me: - Gostou? O seu questionamento mergulhou minha percepção na água cálida onde repousam os desejos. Já não mais me sentia dono de mim. Meus órgãos reclamavam independência e o chão parecia fugir sob meus pés. Ouvia a sua voz repetindo frases desconexas: ``Gostou?´´ , ``Eu sei o que você sente!!´´, ``Gostou?´´... Saí de meu transe quando senti seu rosto se aproximar do meu. E seus lábios, quase tocando meu ouvido sussurrarem: - Eu posso continuar a jogar com você, mas as apostas vão crescer. Você está disposto a correr riscos?? Todos as frases mixavam-se em uma sinfonia dissonante: ``Eu posso continuar a jogar...´´, ``Gostou?´´, ``As apostas vão crescer´´, ``Eu sei o que você sente!!´´, ``Gostou?´´... Ela recuou, então, o corpo, deixando seu rosto a poucos centímetros do meu, na expectativa de poder testemunhar as palavras saírem de minha boca. Mas nada escapou dela, exceto a minha língua, nervosa, que buscava umedecer meus lábios febris. Seus olhos buscaram os meus, ora fixando-se em um, ora fixando-se em outro, alternadamente, questionando-os sobre a verdade. Então eu vi um brilho sagaz escapar de sua boca, um raio que iluminou o seus olhos. Sua mão deslizou pelo meu peito, apoderou-se da minha gravata e a puxou firmemente. Meu corpo estremeceu. A respiração e a circulação sanguínea dificultadas logo ruborizaram meu rosto e ejetaram meus olhos. Tomando a gravata ainda mais firmemente, ela arremessou seus lábios contra os meus, não sem antes condenar-me eternamente à sujeição de seus prazeres: - Você agora me pertence e irá pagar muito caro por tudo isso! Fim