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Pelourinho

Acreditavam-se capazes de viver a relação D/s em sua totalidade. Não houve medo, e quanto vezes ela ouvira dizer que o medo era o principal ingrediente da segurança. O desejo foi maior. A sua fome de vivências foi maior. Ela se entregou de corpo, alma e coração. E nessa entrega absoluta se baseou a relação. Encantadora, sublime e extremamente verdadeira. Eram Mestre e escrava, eram amantes, eram companheiros. A velocidade dos acontecimentos e a diversidade de sensações se avolumavam e disfarçavam as diferenças. Ela se perdeu na delícia de ver seus limites caindo de forma tão natural. Ele poderoso e avassalador, dono de uma cadela desejava e cobiçada pela comunidade que freqüentavam. Ela lhe deu poder. Quando ele tomou consciência disso? Não se sabe nem se isso aconteceu realmente. Mas ela sentia, ele se entregava. O sádico torturador se retraia e surgia um dominador doce que a subjugava como ela queria. Ela não se entregara a esse homem, e sim ao sádico capaz de quebrar seu limites e fazê-la gozar sem um único toque. Sentira o suco escorrer entre suas pernas sendo unicamente torturada. Ela que nunca apreciou a dor. Queria mais, muito mais e ele não permitia. Negava-se a torná-la sua submissa ideal. O conflito interno se avolumou dentro dele e finalmente explodiu. Voaram pedras para todos os lados, que feriram muitos, escorriaram outros e bateram em algumas paredes de pedra sem nada provocar. Ali ao lado, estava ela, absolutamente vulnerável. Atingida de forma brutal! O corpo intacto com alma e coração dilacerados. Sangrava por dentro e desesperada buscava a cura. Precisava aliviar a pressão, deixar sair todo o ardor, todo rancor e mágoa. Foi então que Luanda surgiu. Emergiu do nada ali na sua frente, cuidou da ferida, abrigou, acalmou, abriu a casa e o coração e a recebeu. E ao crepúsculo o Grande Feitor se aproximou. E daquelas feridas, que já não sangravam, mas estavam expostas extraiu o mal. Arrancou do alto da sua experiência e longevidade qualquer raiz que ainda pudesse macular o que havia de sagrado naquela mulher. Equilibrou os eixos, encaixou os ossos, refez a estrutura. Novamente ela se apresentava como uma etíope, portentosa, altiva como o Feitor a havia visto na primeira vez. Quando se mexe no solo, alterando a composição, surpresas brotam. Após a queimada, com o renascimento da fênix, semeou-se a erva que serviu para desacordá-lo. E pela primeira vez ele estava indefeso. Jogado nu na gaiola, trancado a cadeados e grossas correntes, entregue ao destino. Ela em transe, longe de si mesma, incoerente, mas imperiosamente decidida a finalizar a causa. Muniu-se de forças que não possuía, levantou a fronte, endureceu a face e compôs o personagem que nunca sonhou viver. Não era pequena, mas parecia ainda maior, mais forte, mais bela e impassível. Só quem a conhecia, e ele a conhecia, poderia ver por trás dos olhos duros - e olhos não enganam - as lágrimas que gotejavam torturantes em sua alma. Seria um teste, ele lhe oferecia a superação do único limite inimaginável para ela, o outro lado do chicote. Foi levado assim, e por onde passava a carroça todos podiam vê-lo como a um animal. Animal selvagem que é! Ela seguia ao lado a cavalo, aparentemente alheia, mas absorvendo cada reação e cada olhar. Somente eles e o condutor. Os outros já os esperavam no pelourinho, praça central da cidade esquecida no tempo. Já corria a boca pequena o anúncio do acontecimento. As pessoas se reuniam meio ressabiadas e assustadas, pois há muito, muito tempo não se realizavam rituais ali. Os convidados, todos os atingidos na explosão. Alguns se furtaram de comparecer. Os demais estavam inquietos. Havia uma macabra excitação. Chegaram! Ele já acordado, amarrado e amordaçado sem poder esboçar reação se agitava como fera na eminência do abate. O Grande Feitor veio recebê-la. Nem se olharam: ela não via, não ouvia, não estava ali. Sentiu a presença de Luanda e toda aflição contida nela. Olhou-a severamente como a dizer que faria o que tinha que ser feito e nada mais mudaria o rumo dos acontecimentos. Seguiu em frente, sons distantes e vultos embaçados a cercavam. Atrás de si vinha a gaiola. Ela sabia que ele ia enfrentar tudo sem medo. Pois esse nunca existiu entre eles. Seriam duas criaturas nuas de alma, expostas ao extremo a se enfrentarem. Posições invertidas, ambos desacostumados às armas que o destino lhes colocara na mão. Baixaram a gaiola. Mandou que o retirassem e colocassem no tronco. Algemados pulsos e tornozelos, aberto. Grossas correntes. Olhou-o pelas costas, suava. Aquele corpo trazia lembranças que provocam tremores internos. Ela estava se torturando, e sabia disso. Passou por sua mente um breve pensamento de que ele seria capaz de se soltar, se desprender. Para ela o poder que emanava dele não tinha limites. Desejou a fuga em seus braços. Um som na multidão acordou-a. Trouxe de volta a personagem. Empunhou o chicote, deu a volta e olhou-o de frente. Queria que ele visse em seus olhos o turbilhão de sensações conflituosas. Oferecia mais uma vez o prazer de ver e sentir sua dor. Oferecia-se em sacrifício, o maior de todos, castigá-lo. Ele levantou o rosto e seu sorriso estava mais sádico do que ela jamais vira. Olhou e viu seu membro duro, os punhos cerrados, as veias saltando no pescoço, ele estava em delírio. Nunca mais ela esqueceria, era a última marca em seu corpo. Esbofeteou-o. Tantas vezes quanto foram necessárias até que ele lhe oferecesse o rosto, ambas as faces como ela fazia antes. Sentiu a presença do Grande Feitor. Ao lado dos instrumentos para ajudá-la. Cravou as unhas na face dele. A visão do sangue turvou sua mente. Caminhou lenta e tranqüila para o outro lado e passou a usar o chicote. Um desejo lhe consumia, antes que qualquer outro tivesse o direito de castigá-lo, ela queria vê-lo arriar sobre as pernas. Ele nunca pediria piedade. Ela sabia. Mas estava disposta a gastar toda sua energia para isso. O Grande Feitor sorria satisfeito à espera que ela solicitasse os instrumentos que tão cuidadosamente separara. Alguns ela nem conhecia. Havia perfurantes, cortantes, chicotes dos mais diversos materiais e uma enorme diversidade de possibilidades de tortura. Alicates, ganchos, pedaços de madeira enormes, lixas assustadoras, etc. Continuava a bater sem medidas, percebia a multidão ao redor, os comentários, mas não era possível assimilar nada, isso era entre ele e ela. O cheiro do seu suor, que ela tanto amava, a enlouquecia de tesão. As marcas do chicote já visíveis a faziam desejar beijá-las. E aquilo continuou por longos minutos. Mudou de chicote algumas vezes. Ela também suava em bicas. Já exausta não desejava parar. Sabia que esse era seu último momento com ele. Se desesperava, dilacerada por dentro quando percebeu o corpo dele arriar. Estava vencido. Puxou seu rosto e ele já não sorria mais. Ele não a olhou. Não lhe permitiu esse prazer. Vencido, mas não entregue. Ele não é capaz de se entregar, isso os separou. Era suficiente para ela. Não podia mais. As marcas de sangue no corpo dele a queimavam por dentro. A garganta sufocada, os olhos secos sem brilho. Enquanto a multidão urrava pela continuidade daquela atrocidade, e ela gigante bela e altiva empunhando o chicote pedia silencio, sentia sua mente esvaziar-se dele. Chamou Luanda para que tivesse a honra de devolver a pedrada que ele tinha lhe atirado. Pediu ao Grande Feitor que continuasse o espetáculo, que prosseguisse sem ela. Olhou para a vasilha onde estava o mocho, líquido que seria derramado ao final para queimar-lhe as ranhuras, pensou em pedir clemência, mas não se sentia capaz. Desceu as escadas, sentiu o olhar dele no seu corpo. Sabia que havia algo a se dizerem, mas não mais poderia ouvi-lo, sentia-se finalmente liberta. Exausta, sem força, sem coração, sem percepção. Andou pela multidão, sentiu pessoas a lhe falarem, ouviu ao longe palavras sem sentido e seguiu em frente. Alguém lhe tomou a mão e se deixou levar. Naquele momento ela não existia estava destituída de si mesma. Nunca saberá quem era, sabe apenas que aquela mão a carregou para um lugar calmo, havia paz, muita paz. A atmosfera do lugar a fez descansar, não sabe por quanto tempo ficou ali, não sabe como saiu e pra onde foi aquele que amparou. Também desconhece o final da história dele, não quis saber. Luanda, o Grande Feitor e outros que lá estiveram continuaram em sua vida. Mas ele se foi, para sempre.