Back to Browse

A Entrevista1º lugar no II Concurso de Contos e Poesias BDSM - Votação dos Jurados

- A que ponto você chegou! – eu dizia a mim mesma, baixinho enquanto conduzia aquele estranho para dentro de casa. - Disse algo? – Ele perguntou. Não respondi. Girei as chaves rapidamente. Fazia frio. Vi que ele fechava os botões do sobretudo e examinava as paredes cinzas e descascadas do corredor. - É um prédio antigo. – me desculpei. - Sim. Eles não são maravilhosos? – ele disse. Moro temporariamente em um apartamento de aluguel barato no centro da cidade. Vivo aqui por opção. Aos dezessete anos vim à capital com a desculpa de estudar jornalismo. Na verdade, vim estudar a própria capital. Vivia em um mundo cor de rosa que me protegia e aprisionava. Queria ser livre. Precisava ser livre! Chegando aqui, envolvida com os projetos estudantis e a dura rotina acadêmica a que fui exposta, acabei me acostumando. Há alguns meses terminei a faculdade e caí finalmente no tédio dos dias chuvosos de São Paulo. Mas eu tinha um objetivo. Queria escrever sobre pessoas. Não falo de mim mesma, ou meus colegas, todos beges, e professores medíocres. Falo de pessoas que se destaquem. Falo de seres de fato alternativos e inusitados. Comecei as entrevistas. Contaram-me suas vidas pessoas com quem nunca imaginei conversar. Prostitutas, um ex-presidiário, um senhor que ganhara na loteria. E eu apreciava o tempo com eles, mas a sensação de tédio e enfado me perseguia. Era uma maldição que me tornava cada vez mais cinza e parecida com os prédios da cidade. Contatei o M. após uma pesquisa sobre tribos urbanas. Tinha em mente entrevistar um desses punks adolescentes, mas o nickname “M de Sade” me chamou atenção. Ele escrevia textos sobre Sadismo e como o assunto sempre havia me interessado, escrevi para ele. Expliquei o meu projeto e ele aceitou me encontrar para um café. Se gostasse de mim, se me achasse confiável, me daria a entrevista. Como se passa confiança a um Sádico? Parecendo frágil, talvez? Na dúvida pus meu vestido preto, puxei a jaqueta, mais longa que o vestido e fui imediatamente ao encontro de M de Sade. Ele chegou às onze da noite e foi muito gentil. - Confia em mim? – eu perguntei – Me dará a entrevista? Ele riu e acenou que sim. - Mas não aqui. Preciso de um lugar tranqüilo. Tem alguma idéia? Vinte minutos depois ele entrava em meu apartamento. M. observava tudo. Viu o tapete gasto da entrada. Viu as flores de plástico, os cadernos, os livros jogados. Pedi a ele que sentasse e liguei o gravador. Ele sorriu. - Que quer saber de mim, Michelle? Era incomodo ouvi-lo pronunciar meu nome. Baixei o olhar e brincava com a caneta e o bloco de notas enquanto respondia. - Tudo. Conte-me tua história. Quando se descobriu sádico? Fale dos teus relacionamentos, das mulheres que conheceu... Ele parecia pensativo. - Minha história é comum. Quando me descobri sádico? Acho que sempre soube, ao menos desde que tenho lembranças. Mas não importa quando, Michelle. - E o que importa? – perguntei, desconcertada. - Importa quem cruzou meu caminho... Sim, temos uma essência. Mas se ela vai ou não ter qualquer importância em nossa história depende de quem cruza nosso caminho. Ele arrumou mais uma vez o sobretudo. Limpou a garganta. Os olhos vagos percorriam o apartamento. Então continuou. - Meu primeiro capítulo tem um belo nome. Chama-se “Clarissa”. Eu o encorajei com uma olhar e ele seguiu com sua história: - Tive minha primeira escrava na faculdade. Eu era veterano. Ela acabara de entrar. Clarissa era uma garota divertida e simpática. Minha missão era cumprir com ela o ritual de passagem conhecido como “trote”. Deixamos os outros estudantes com as brincadeiras infantis e eu a levei ao meu apartamento. Tínhamos comprado cordas para as brincadeiras com os calouros. Eu a deixei nua por completo. Ela não ofereceu nenhuma resistência. Eu a amarrei. Passei a corda por seu sexo, separando os lábios grossos. Ela gemia e se contorcia. Achei interessante a reação. Perguntei se sentia medo. Ela moveu a cabeça, sinalizando que não. Passei a puxar as cordas, violentamente, ferindo a pele delicada. Ela gritava e eu não sabia ao certo quando era dor, quando era prazer. Era como se isso libertasse em mim pensamentos que ficaram guardados, esperando a hora certa. Eu puxava as cordas, cada vez mais forte. Clarissa suava. Deitei-a no chão e me pus sobre ela. Meu peso pressionando as cordas contra seu corpo. A dor aumentando gradativamente. Ela me olhava. Em seus olhos eu via dor e desafio. - Desafio? – perguntei. - É incomum, mas certas mulheres têm orgulho de serem tão abertas ao novo. Talvez um dia você venha a entender melhor o que digo, mas não ainda, Michelle. Sinto que você e Clarissa não tem muito em comum. – ele disse, sorrindo sarcasticamente. Eu o odiei por isso. Ele continuou. - Sentei e a puxei Clarissa para o meu colo. Batia nela com as mãos, como quem pune uma criança. Ela olhava para trás, desdenhosa. Lembro que usei as costas da escova de cabelos. Ela gemia, apertava os olhos, depois os abria novamente como quem ironiza. Clarissa era muito resistente a esse tipo de dor. Vi que em breve ia precisar me equipar melhor. Mas cada dor é única e a mesma pessoa que resiste bem a uma delas pode ter uma deliciosa intolerância à outra. Nesse momento, M. parecia divertir-se fazendo pausas longas para observar minhas reações. Eu me esquivava. Ele continuou. - Mandei que ficasse de quatro. Ela estremeceu. O olhar agora era de quem implora por redenção. Despi-me, implacável. Deixei que meu sexo mergulhasse no dela por poucos segundos. Ela gemeu aliviada. Então a segurei firme pela cintura e me forcei impiedosamente na entrada de seu ânus. Clarissa se lançava para frente na tentativa de diminuir a dor. Eu então apoiei as mãos em seus ombros e a empurrei contra meu corpo para que ele a invadisse mais rápido e profundamente. Gozamos os dois, enquanto a exuberante Clarissa chorava como uma menina indefesa. Foi incrível. Tanto que por três anos ela foi minha escrava. Ela morava com uma colega, Samantha, nossa cúmplice, dando desculpas esfarrapadas para os pais de Clarissa quando ela precisava me servir e não podia recebê-los. Com o tempo, Sam passou a ser parte de nossas brincadeiras. Loira, pequena, frágil... Samantha era o sonho de qualquer Sádico. Sofria belíssimamente. Entregava-se por pura submissão. Ela não desejava a dor. Apenas a aceitava pela coerência de sua entrega. Já a entrega sim, era completa, verdadeira. Fui Dono das duas por um tempo. Gostava de ver a Sam se entregar a Clarissa, às vezes em prantos, apenas para me agradar. Com o tempo, me envolvi com Samantha e a Clarissa passou a ser dispensável. Fui honesto. A dei a um amigo de quem comprava chicotes. Aquelas palavras me fizeram estremecer. - Você a deu? Ele riu. - Relacionamentos terminam. É preciso dignidade para perceber e aceitar o fim. Não se preocupe com Clarissa. Ela está muito bem. Talvez até melhor que antes. Mas, Michelle, em toda essa história é só essa parte que te inquieta? Eu procurava disfarçar meu constrangimento. - Bem, nunca tinha ouvido falar de coisas assim. Mas tento não julgar a quem eu entrevisto. – eu disse, querendo mudar logo de assunto. -Enquanto Samantha ainda morava comigo, freqüentávamos grupos fechados de sadomasoquismo que organizavam pequenas reuniões. Aprendi novas técnicas, adquiri meu próprio material. Testei novos chicotes e palmatórias. Conheci aparelhos de eletroestimulação, velas, aprendi a aplicar agulhas, fiz mumificações e tudo aquilo de que me falavam. Buscava o aperfeiçoamento na arte de causar a dor com precisão. Nesse contexto conheci muitas mulheres. Algumas se tornaram minhas, por certo tempo. Outras apenas me serviam esporadicamente. Sempre tive curiosidade quanto a grupos fechados. Minha curiosidade traiu a imparcialidade que busco, tentando não dirigir a entrevista. Perguntei: - Grupos fechados... Alguma vez chegou a ver algo que o incomodasse? Algo que fosse além do que considera aceitável? Ele pensou por um tempo. - Já aconteceu. Mas não posso falar nos detalhes. Apenas digo que quem se portou de forma inconveniente ou quebrou os limites do consensual não permaneceu. Existem regras. Poucas, mas existem. Em todo grupo, pessoas inadequadas acabam por eventualmente conseguir um espaço. Mas não permanecem. O tempo desvenda as intenções. Suspirei sem saber se o discurso de “M. de Sade” era mais do que apenas um discurso. Duvidei. - Teu nome, “M. de Sade”... A obra de Sade não tem preocupação nenhuma com o consensual. – Disse, com o objetivo de irritá-lo. - Não. Não tem. É importante separar a fantasia da realidade. Eu nunca disse que todas as minhas fantasias respeitam as regras. Nem as tuas, eu aposto. Mas isso não quer dizer que você tenha realizado tudo o que passa em sua mente, como fantasia, como desejo incerto, não é? Engoli seco. Pensei em minhas fantasias. Lembrei-me quantas vezes disse não a meus colegas de faculdade que se interessaram por mim. Eles jamais poderiam me ter. Em mim, havia um sonho de ser tocada por alguém que despertasse coisas que eles jamais despertariam. Eram meninos! Eu buscava em meus sonhos um homem, capaz de confundir-me, dominar-me. Alguém que pudesse se fazer entrar em minha mente a ponto de romper minhas barreiras e tornar-me sua. Eu, Michelle, uma pessoa elogiada e premiada por sua inteligência, bela a ponto de atrair mais olhares do que a maioria das mulheres, segura, independente e bem nascida, queria sim, sonhava com um homem que me fosse um concorrente a altura, ou quem sabe me derrotasse, reduzindo-me, e então, amparando-me em seus braços. E eu saberia. E diria: Você é forte. Você é digno de mim. - Michelle? Está tudo bem? – M. de Sade perguntou. - Sim, eu só... Eu preciso que saia. - Mas não terminei o que vim fazer aqui. - Não. Verdade... Eu sei, mas... Por favor, saia. Ele não parecia surpreso. Apenas me olhava calmamente. - Saio. Apenas diga-me porque quer assim. Combinado? - Sim. Quer dizer... Eu não sei... Minha voz saia fraca e tremula. Não sei se teria forças para me explicar. Nem sei se me entendia. Apenas o queria longe. Eu precisava dormir. Era isso. Estava exausta! Ao mesmo tempo não queria ficar só. Aquela presença forte me incomodava. Eu precisava elaborar uma resposta. Não conseguia. Ele esperava, tranquilamente. Aquela tranqüilidade em um homem me irritava. Eu era bela... Será que ele não achava isso? Será que meu pedido para que se retirasse não devesse ter sido atendido prontamente? Será que eu não tinha mais nenhuma influencia sobre um homem? Ele não me achava atraente... Só podia ser isso. Eu estava humilhada. E confusa. “M. de Sade” levantou-se. Tocou minha mão levemente, virando minha palma para fora. Seus dedos empurraram a jaqueta para cima e percorreram meu braço em toda sua extensão, tocando de leve os cortes ainda aparentes. Os cortes que me faziam companhia nas noites mais difíceis. Eu os fazia em minha pele, lentamente. A dor era, às vezes, minha mais apreciada companhia. Eu me cortava, sim. Era meu segredo e meu prazer. Ele não tinha o direito de penetrar nesse mundo só meu. O olhei com raiva por alguns instantes. - Menina... Você não precisa dominar a si mesma. Meus olhos molharam. Ele caminhou lentamente, passando pela porta e saindo, deixando-a ainda entreaberta. Essa foi uma das poucas vezes que me lembro de ter chorado. Um choro sentido de quem se quebra sem saber como refazer-se sozinha. Eu chorava de dor e de alegria. Talvez... Talvez eu houvesse me encontrado nas palavras de um estranho. O homem que caminhava para rua e saia definitivamente da minha vida. Era como se as portas da percepção se abrissem para depois fecharem-se, deixando-me em minha prisão, mas agora com a tortura do conhecimento de que não pertencia àquele lugar. Ele não podia ir embora. Não agora. Eu pela primeira vez precisava de alguém e eu sabia, dentro de mim, que era ele. Corri para a janela. Ele esperava para atravessar a rua, sem olhar para trás... Saí em um ímpeto, seguindo um instinto que me movia as pressas pelas escadas. Descia em disparada em direção à rua fria. A chuva molhando meus cabelos, o vento me sendo hostil. Olhei envolta. Ele estava do outro lado da rua de casa. Havia esperança. Eu o via ali, caminhando lentamente! - Senhor... Senhor... Gritei. Ele me ouviu e virou-se. Eu sabia que ele me ouviria. Atravessei a rua e joguei-me a seus pés. A calçada úmida ferindo meus joelhos. Olhava para cima, as mãos apoiadas em seu sobretudo, tentando garantir que ele não fosse embora. Estava sem fôlego. Não conseguia me expressar. Apenas disse: - Por favor... Por favor! Ele me fez sinal para que me calasse... Enfraqueci. Lembro apenas que me pegou no colo e então tudo escureceu. ** A dor em minhas costas me acordou. Sentia todo meu corpo estranho e incomodo. Abri os olhos e o vi. Ele estava lá. Nada mais importava. Ele sorria. Tentei levantar-me e não consegui. Eu não estava em minha cama. Estava nua, deitada sob a mesa de madeira. Meus pulsos e tornozelos separados, amarrados nos quatro cantos da mesa. - Senhor? – disse, confusa. - É necessário. – ele me confortou. - Mas por quê? Indaguei. - Para o meu prazer. Ele terminava de amarrar meu tornozelo esquerdo. - Michelle, quero que preste muita atenção no que te direi agora. Uma de suas mãos está presa por um nó simples e frouxo. Se você fizer força, poderá facilmente libertar um braço, e assim, desfazer com alguma dificuldade os nós que prendem a outra mão e suas pernas. Eu não a impedirei. Tive medo... De mim mesma. Temi que eu me libertasse. M. acariciou meu corpo, a sua maneira... Passou os dedos entreabertos por meus seios. Entre o indicador e o anelar, prendia meus mamilos e os apertava com força gradativa, observando minhas reações. Eu me movia um pouco para frente, oferecendo meu corpo em êxtase. Absorvia a dor como um presente. No momento seguinte, apenas sofria, e a dor e o prazer se alternavam em mim. Meus olhos permaneciam fechados. Então senti a dor aumentar insuportavelmente. Abri os olhos assustada. Dois objetos metálicos prendiam meus mamilos, unidos por uma corda que M. puxava impiedosamente. Lágrimas corriam pela minha face. Ele continuava com o olhar sério, e com seu meio sorriso, observando, absorvendo. Eu sempre buscara um dominador. Isso eu agora compreendia. Mas percebi que pagaria um alto preço por ter encontrado aquele capaz de me dominar, apenas na figura de um sádico. M. explorava meu corpo de várias maneiras, nenhuma delas completamente indolor. Tocava meu sexo profundamente, os dedos se alternando e às vezes juntos, forçando a entrada, me fazendo gritar. Levava-me do gozo ao choro em poucos segundos, dependendo da força com que seus dedos me violassem. Não haviam reservas ou lugares proibidos. Meu corpo era dele e isso, mais do que as práticas que se seguiram, me fazia sentir bem. Não tive medo ou arrependimentos. Nem quando senti o frio de uma lamina passeando em mim. Nem quando senti os cortes superficiais sendo feitos. - Teus cortes agora são meus. Obra minha. Entende? - Sim... Um tapa ardido atingiu meu rosto. - Sim, Senhor. - me corrigi. M. então se deitou sobre mim, e me usou para seu gozo, pela primeira vez. Depois, ele tirou as cordas que me prendiam à mesa. Eu sorria. Jamais soube se era verdade que um dos nós estava frouxo. Creio que sim. Mas quando me lembro desse momento, em minhas fantasias, muitas vezes, ele blefava e não haveria como eu me libertar se assim o desejasse. Estava feito. Eu encontrei o que vim procurar na capital. Abandonei o projeto das entrevistas. Nada poderia me surpreender mais do que eu mesma. Hoje, meu Dono, M. de Sade quer que eu esteja em seu apartamento às 3 da tarde. O farei. Mais uma vez vou me sujeitar a suas vontades, às vezes simples, às vezes extravagantes. Sou dele. Eu o sei. Ele o sabe. E quando me contestam dizendo que ele um dia pode cansar-se de mim e ir embora, eu não respondo. Apenas sinto e confio. Sei que se um dia ele me libertar será porque é chegada a hora. Não faço exigências. Não faço planos. Eu simplesmente pertenço.