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Conto de Verão I Concurso de Contos e Poesias BDSM - Participante

I Fim de tarde de um dia de verão. Nas ruas, a noite chega devagar e os carros andam lentamente. Vou repassando os próximos passos: chegar em casa, tomar um longo banho frio, escolher uma roupa e ir para a festa. Odeio festas cheias de gente que não conheço, com conversas insossas e homens metidos a engraçado. Ah! E mulheres com toneladas de silicone, circulando como se estivessem se exibindo numa vitrine, em busca de um possível comprador. A dona da festa é amiga de infância e fazem alguns anos que não nos vemos. Meu estoque de desculpas se esgotou ano passado, agora o jeito é enfrentar esse aniversário - e conseguir sair de fininho, tão logo seja possível. A água fria caindo no corpo causa uma sensação agradável, relaxa e excita simultaneamente. Faz tempo que não faço amor, faz tempo que as únicas mãos que percorrem meu corpo são as minhas. Às vezes, é tão mais cômodo...Sei os caminhos, reconheço os tempos que pedem o toque suave ou as mãos mais firmes, numa fricção ágil e vigorosa. Acabo me acostumando a me bastar e fica cada dia mais difícil dividir, ensinar e me deixar explorar por outros toques e carícias. O banho me deixou muito excitada. O corpo pede mais do que as mãos foram capazes de proporcionar. Isso se reflete na roupa que escolho: um vestido leve, estampado, não muito curto, bastante decotado. É preciso escolher uma calcinha que não marque - uma calçola larga, de seda lilás, que combina com a estampa. Sutiã não é necessário, o decote não pede e os seios soltos, roçando o tecido, me excitam ainda mais. Sandálias altas - altíssimas para contrastar com o dia-a-dia - e perfume. Não preciso de mais nada... Ou preciso de muito mais, mas isso não se veste. De certo modo está na minha pele, no cheiro impreciso que meu corpo exala por cima do aroma do perfume. Já é noite quando chego. Fora um abraço rápido e dois beijinhos, não tenho mais nada da tal amiga. Muita gente, novos amigos. A casa lotada, o jardim cheio, o som alto. Circulo sem destino, sozinha, olhando as pessoas, recriando as lembranças daquele lugar onde, na juventude, vivemos tantos sonhos. Copo de champanhe na mão deixo os olhos vagarem em busca de um rosto antigo, que parece não existir. Dois olhos negros - firmes e atrevidos - cruzam meu olhar. Tento vagar os olhos em outras direções. Teimam em voltar aquele ponto e os olhos negros ainda estão lá, me fixando. Me mexo, ando sem rumo. Viro de costas, finjo ignorar. Alguns segundos depois os olhos se transformam em mãos - tão firmes e duras quanto o olhar dos olhos negros. Mãos que me seguram o braço e fazem virar em direção ao seu corpo. Corpo moreno, maior e mais velho que o meu. Um corpo que parece emitir, junto com poucas palavras, uma só ordem: vem comigo. Subimos as escadas, sei exatamente para onde se dirigia: o quarto de hóspedes. Abre a porta, coloca-se de lado, me dando passagem. Enquanto observo as mudanças que ocorreram na decoração, ouço a fechadura ser trancada. Por algum tempo, que não sei quanto, ele rodou lentamente ao redor de mim - me senti na tal vitrine, só que dessa vez eu era o produto que estava sendo avaliado para o consumo. Ao invés de me irritar, me excitou. Ele se aproximou, puxou uma das alças do vestido, fez o decote ceder, deixando a mostra um dos meus seios. Veio como eu gosto, pronta para usar. Isso me irritou. Fiz menção de dar meia volta, sua mão novamente segurou meu braço e o impulso me fez desequilibrar, acabando por cair sobre seu peito. Aproveitando a pequena indecisão que se seguiu, ele me empurrou contra a parede. Você não vai fugir de alguma coisa que quer e eu posso te dar. Colada à parede, aquele corpo grande me mantendo meio imobilizada, senti ele se esfregar lentamente. Primeiro o peito contra meu seio nu. Depois, o vestido caindo, deixando o outro seio exposto. Seu quadril colado ao meu, senti o volume dentro da calça. Duro e forte, ainda crescendo. Você não vai desprezar isso, vai? Senti suas mãos se fechando sobre meus seios, os dedos apertando os mamilos já endurecidos. Boa menina, responde rápido.Vamos ver se é toda assim... Uma das mãos desceu, levantou o vestido e ao encontrar a calçola larga, de seda macia, parece ter se animado ainda mais. Uma puta de luxo era mais do que eu esperava. A mão entrou por dentro da calçola, sem nenhum esforço encontrou a entrada úmida. Os dedos abriram caminho entre os pêlos, chegaram a origem de todo o calor e umidade. Muito bom...um caminho bem marcado. Vamos ver se está pronta para me servir... Dizendo isso e seus dedos entrando em mim. Um dedo, enfiado até o final. Dois dedos. Três dedos. Já não estava confortável e reclamei. Vou te ensinar o meu gosto... Com os pés afastou os meus, fazendo minhas pernas se abrirem. Dois dedos começaram a rodar e brincar dentro de mim. Esfregavam, beliscavam e novamente invadiam. Com as pernas afastadas ficou mais fácil receber seus dedos e ele forçou a entrada, os enfiou mais fundo. Três dedos. Aprenda: para me servir deve estar sempre disposta a receber o que eu quiser te dar... Ficou assim muito tempo. Quando eu ia explodir num orgasmo senti sua outra mão me segurando o rosto com força... Não se atreva a gozar sem o meu consentimento! De repente, me virou de costas, apoiou minhas mãos na parede. Senti puxar minha calçola para baixo, levantar um pé e depois o outro, para retirá-la completamente. Pegou o pedaço de seda e o esfregou no meu nariz...Sente o cheiro do teu tesão! Senti que novamente se esfregava em mim. Seu corpo vestido, o membro volumoso dentro da calça roçava contra minha bunda nua, exposta pelo vestido levantado, preso apenas na cintura. Suas mãos em concha nos meus seios apertavam os mamilos entre os dedos. Tamanho exato, encaixe perfeito, você já é minha... Seu corpo se afastou. Senti as mãos largarem os seios, descerem pela lateral do meu corpo, em direção às nádegas. Segurou-as com força. Apertou até que eu reclamasse. Puxou-me para trás, fazendo o corpo deslizar e a bunda ficar empinada. Estou apenas explorando... reconhecendo cada possibilidade de encaixe. Uma das mãos soltou a nádega, a outra continuou segurando. A mão livre se insinuou entre elas. Foi em direção à frente. Deixou-se molhar bem, esfregando, penetrando dois dedos. Depois, deslizou para trás. Insinuou-se. Não aprendeu a lição, não vai se abrir para mim? Só ensino uma vez, só falo uma vez... Não sei se era medo ou vergonha da situação, mas não conseguia relaxar. Nem tampouco protestar. Ele não se intimidou com o silêncio, seu dedo penetrou meu ânus sem nenhuma cerimônia ou aviso, com força e violência. Vai ser meu agora! De qualquer jeito. E entrou. Primeiro um dedo, depois outro. Depois disso, se afastou. Soltou o vestido, levantou as alças, deu-me a calçola. Componha-se e esteja aqui amanhã, às 21h. Estarei esperando no portão de entrada. Você vai ser minha escrava e vai aprender a me servir. Abriu a porta e saiu. Eu fiquei lá parada, durante um longo tempo, tentando entender o que tinha acontecido. II O relógio no painel do carro marca 9h. Estou mais atrasada que o normal. O trânsito parece que não vai ajudar, tudo parado. E o calor... infernal, já a essa hora. Olho meu rosto no retrovisor: estou horrível! Olheiras, pele sem brilho, cabelos elétricos. Culpa de uma noite insone. Culpa daquele sujeito atrevido. Culpa minha, por ter dado corda. Melhor esquecer, ignorar, tirar a noite de ontem da memória. O dia se arrasta. O calor deixa meu corpo mole. As idéias meio perdidas, vagando entre o delírio e a realidade. No meio da tarde, o café, o cigarro. Um minuto, o olhar perdido pela janela. Lá embaixo, centenas de pessoas se esbarram na rua, apressadas, no meio dos carros parados. Minha imagem reflete no vidro: será que ELE iria gostar de me ver agora? Sorrio por dentro, engraçado, não há nem mesmo um nome para chamá-lo. Não há nada. Nome, endereço. Afinal, quem é aquele homem? Culpa. Para que você quer saber? Já não basta o que aconteceu? Já não basta o papelão? Vergonha. Por um momento, o pensamento vaga com a idéia de ir ao encontro dele essa noite. No portão da frente, 21h. Você não sabe nem quem é. Liga para a amiga e pergunta. Ficou maluca de vez, só de pensar nisso. Volto para casa. Odeio o trânsito de sexta-feira. Calor, carros, monte de gente aos pares, aos bandos, indo para algum lugar. Eu vou para casa, sozinha. Minto para mim: sozinha e feliz! Abro a porta e os olhos buscam a luz vermelha do relógio: 20:11h. Ainda dá tempo de tomar um banho, me arrumar, chamar um táxi e ir. Sair, para o não sei onde, com não sei quem. Para fazer exatamente eu sei o quê... Desiste. Culpa, vergonha e medo se juntam para reforçar o não. Banho morno, isso que preciso. Ou seria melhor um banho frio? Banho, seja lá como for, é isso que preciso. A água cai... morna... me deixa mais zonza. Os olhos fechados, as mãos acompanham os caminhos da água descendo pelo corpo. A pele se arrepia... a lembrança da noite anterior desperta. Na sala, o telefone toca. Desperto do transe, olho o relógio do banheiro: 21h. Susto. Medo. Vontade. É ELE. Corro, molhada, para atender. O telefone pára. Nua, pingando água no tapete da sala, fico olhando o aparelho, paralisada. O coração batendo forte. Vontade. Será tarde? Termino o banho rapidamente. Os cabelos vão molhados, escorrendo água, fazendo o vestido grudar nas costas. Calcinha de renda, perfume, sandália de salto, batom. O carro sai da garagem: 21:23h. Corro apressada por ruas escuras - ou estariam iluminadas e os olhos não viam mais nada? Chego ao portão: 21:37h. Não há ninguém lá. Paro, olho, espero. Nada. Hora de voltar para casa. Deito no sofá. Uma garrafa de vinho. As sandálias me olham de cima da mesinha de centro. O telefone toca: 22:43h. Não quero falar com ninguém. Dúvida. Atendo. Ninguém responde. A ligação cai. Volta a tocar. Repete tudo de novo. Terceira, quarta, quinta vez. Delírio. É ELE, quer me enlouquecer. Você não vai conseguir me atormentar, eu não quero você, não quero saber quem é você. Bato o telefone. Arrependimento. O vinho, o choro, a sexta-feira, a solidão. O corpo dói. A pele se arrepia pelo toque que não veio. As mãos brincam de apertar, de arranhar, de deixar marcas. A brincadeira vira castigo: a razão ganhou e o corpo perdeu. Raiva. Aplausos para a razão. Tesão. O corpo desperta. No transe, o telefone toca: sou tua, digo com a voz meio rouca, meio mole. Silêncio do outro lado. Quero você... aqui, aí, preciso apenas que me ouça. A ligação não cai. Do outro lado alguém respira. Me ouça. Estou me tocando, correndo as mãos pelo meu corpo como corri ao teu encontro. Não te encontrei. Vou encontrar o meu prazer e te dar. Aqui, agora. Diga o que quer que eu faça... Silêncio do outro lado. Um sopro de respiração mais profunda. As mãos abrem o decote, libertam os seios. Contornam o volume macio e param nos mamilos. Os dedos brincam ao redor. Molho no vinho: vem chupar. O corpo se estica no sofá. As pernas descansam sobre o encosto. O vestido escorrega, mostra a calcinha, a barriga. O resto de vinho do copo vai parar na barriga. As mãos o espalham: vem chupar. Do outro lado, a respiração acelera. Silêncio. As mãos descem, molhadas de vinho. As mãos se agitam, molhadas pelo suco do tesão. Vou te dar o que você me deu... Um dedo. Dois dedos. Três dedos. Não há mais silêncio, dos dois lados se ouve a respiração pesada, forte, intensa que termina num "ai". Depois, a ligação cai. O silêncio volta. A minha cabeça está zonza. Olho para o fone, ouço o sinal de ocupado... Sinto o cheiro doce do gozo ainda nos meus dedos. Mas é apenas o meu cheiro. Do outro lado continua não havendo nada. III A manhã de sábado chegou. A noite insone, o vinho, pesadelos acordada. Ouvi passos no corredor, corri para a porta. Delírio. As primeiras luzes me trouxeram um pouco mais de tranqüilidade. Tiro o fone do gancho, deito no sofá e durmo. Acordo tarde. Banho, café, cigarro. Fico sentada olhando o telefone, de novo no gancho. Ligo do celular para ver se funciona. Toca, atendo e sou apenas eu mesma na linha. O dia passa e não saio dali. A noite chega e continuo sentada esperando. Já passava da meia-noite quando toca. Fico parada um tempo, olhando. Atendo. Alô. Nenhuma resposta. Alô, por favor, fale. Desliga. Fico com o fone no ouvido, esperando. Uma hora depois nova ligação. O mesmo silêncio. As ligações se repetem a intervalos regulares até o amanhecer. Cessam com a luz do sol. Eu não durmo. Preciso sair, ver gente, andar. Vou dar uma volta, um mergulho. Uma sensação incomoda me acompanha. Os olhos negros. Olho ao redor, procuro, encaro cada homem que cruza o meu caminho. Mergulho na água fria, sento na areia. Tento limpar a alma e o pensamento. Fecho os olhos e sonho. Uma voz me desperta: moça, isso aqui é pra senhora. Abro os olhos, um jovem camelô me apresenta uma garrafa de champanhe. Quem mandou? O homem do carro cinza. Aponta. Olho a tempo de ver uma caminhonete cinza saindo devagar. A placa. Não dá para ver a placa. Volto para casa com a garrafa na mão. Coloco na pia da cozinha, fico olhando. Tomo banho, volto, continuo olhando. Abro a garrafa, entorno o líquido na pia. Jogo no lixo a garrafa vazia. Guardo a rolha, como um amuleto, ao lado do telefone. Já quase cochilava quando tocou. Corri para atender: alô. Silêncio. Fala desgraçado, você esta me seguindo. Desliga. Alguns minutos depois, toca de novo. Filho da puta, desgraçado, vou chamar a polícia. Desliga. Lágrimas. Não agüento mais. Já está anoitecendo quando toca de novo. O que você quer de mim? Silêncio breve e a voz grave: Quero exatamente isso que tenho agora. Vista-se e desça. Desliga. Demoro um pouco para entender. Hesito. Preciso acabar logo com isso, não vou agüentar essa tortura durante a semana. Vestida, em alguns minutos desço. O carro cinza parado na portaria. A porta aberta, entro. Os olhos negros de novo, as mãos no volante. O carro sai. Silêncio. Roda pela orla, em círculos. A praia cheia ainda. Está de calcinha? Tire. Não consegui dizer nada. Levantei o vestido e tirei. Guarde na bolsa. Sua mão deslizou pela minha coxa, levantou o vestido, afastou as pernas. Seca. Não é assim que te quero. Queria gritar, dizer que não poderia estar de outro jeito, que fiquei acordada a noite toda. Não disse nada. Paramos. O carro na garagem de um edifício. Ele desceu, abriu a porta. Passou a mão na minha bunda. Levante o vestido. Seu dedo entra no meu ânus, a seco. Reclamo. Perdeu o direito de falar. Não gosto de mudanças de planos. Está dois dias atrasada. Encabulada, me deixo conduzir. Vou levar essa puta pelo rabo. Subimos pela escada de serviço. Dois andares. Cada movimento das minhas pernas o dedo vai mais fundo. Ele parece se divertir. Entramos pela cozinha. Música, vozes, ruídos de festa vindos do outro lado da parede. Olho para ele assustada, estou sem calcinha, há mais pessoas no apartamento. Ele tira o dedo do meu ânus. Lambe, deixa limpo para entrarmos. Surpresa, querida. Olhe quem eu fui buscar. Que tal convida-la para ser nossa madrinha de casamento? No dia seguinte ao aniversário de minha amiga, ele pediu-a em casamento. Hoje, era uma comemoração informal entre amigos. Não sabia o que dizer, fazer, sorrir. Beijei-a, falei da minha surpresa. Ela contou que viveram juntos um tempo, se separaram e reencontraram naquele dia. Havia me contado pelo telefone, quando eu liguei no dia seguinte. Não lembrava. Estava zonza outra vez. Estavam abraçados, se beijando. Parabéns! Queria sumir, pular pela mureta da varanda. Contar a ela quem era ele. Mas quem era ele? Eu nem sabia seu nome. O que dizer... O que passei... O que ele fez comigo. Fui eu que fiz comigo. Ele foi buscar champanhe, três taças. Vamos brindar a nós! Ela se foi, abraços de outros amigos. Ele ficou. Chegou a boca perto do meu ouvido: você vai ter que esperar mas, a partir de agora, você é minha. FIM