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Ah, Aquelas Mãos Brancas...!
As mãos da mulher ao meu lado, no estreito espaço das poltronas do avião, são de uma brancura impressionante. São mãos longas, finas e delicadas feito porcelana. As unhas, pintadas com esmalte cor de vinho eu ia dizer cor de sangue coagulado são perfeitas e toda a sua presença incomoda, por parecer perfeita demais, etérea demais, impossível demais. Ela dá a impressão de que se o avião caísse poderia flutuar no ar enquanto os demais nos estatelaríamos lá embaixo. Só isso já faria dessa mulher uma companhia desagradável: ela nos esfrega na cara nossa própria mortalidade.
Seu perfume, que invade minhas narinas por mais que tente virar-lhe o rosto, é puro feromônio animal, atordoa e atrai ao mesmo tempo. A sensação de estar ao seu lado é a mesma que deve sentir a vítima imobilizada pela serpente pronta para o bote. A atração que exerce é irresistível, mas são suas mãos, essas mãos improváveis que prendem meus olhos como se me acenassem com segredos irresistíveis. Mas ela nem se move!
Engulo uma e outra vez em seco, gostaria de perguntar-lhe algo, puxar assunto para saber mais dessa criatura etérea, anjo caído de outra dimensão. Tudo nela, por algum motivo, grita morte, mas pressinto que por um toque dessas mãos eu daria minha vida. Quando a aeromoça passa, oferecendo bebida, ela recusa com um aceno de cabeça, apenas e eu tento dizer o que a garganta não chega a emitir:
- Não, obrigada...
Me sinto apanhada em flagrante, enrouquecida pela presença dessa mulher impressionante e, entretanto, ainda não lhe vi o rosto. Melhor não ver. Melhor não sabê-la mais que o necessário. Olhos confessam coisas demais à nossa revelia. Sei que os meus revelariam meu desejo mais urgente: o de ajoelhar-me a seus pés e beijar-lhe reverentemente as mãos, essas mãos irreais. Nada além disso. Nada?
Quando o vôo finalmente chega ao nosso destino, ela não se levanta e, sentada, impede-me a passagem para longe de seu poder. Escorando-me no tumulto ao nosso redor, armo-me de coragem e tento me levantar. Sua mão esquerda me impede, apoiando-se em minha perna.
- Espere diz uma voz que apenas sei ser a sua, mas que vem de algum ponto indefinido do ar a nossa volta. Ela sabe que eu vou esperar.
Quando todos já desceram, ela finalmente se levanta e sai caminhando pelo corredor sem olhar para trás, com apenas uma pequena bolsa na mão. Eu, com mala, bolsa e computador, me sinto desajeitada como um elefante, e praticamente corro atrás dela batendo minhas coisas por todas as poltronas do caminho. Ela não reduz seu ritmo, nem olha para trás sabe instintivamente que eu a sigo, pois não tenho escolha. O aeroporto, à luz mortiça e esverdeada do final de tarde, revela muitos cantos escuros e é para um deles que a mulher se dirige, seguida por mim, que esqueci meus compromissos, minha pressa, minha vida no mundo real. Entrando por um corredor deserto, ela finalmente se vira, mas meus olhos se abaixam com medo de reconhecer um ser real. Quero-a fantástica, etérea, fantasmagórica. Concentro-me em suas mãos. Ela solta a bolsa no chão e me oferece a ponta de seus dedos, cujo perfume me atordoa. Deixando minhas coisas escorregarem ao chão ao meu redor, ajoelho-me como imaginara e com todo o cuidado e tremendo de emoção levo essa mão aos lábios, fechando os olhos para melhor e mais intensamente usufruir esse momento.
O toque de sua pele queima meu peito e do respeito dos lábios deixo escorrer a volúpia da língua. Beijo-lhe as unhas, as palmas, testo-lhe os limites e, nada encontrando, vou além e chupo os dedos, um a um, brincando com minha língua entre eles, sentindo o desejo aumentar e entrecortar-me a respiração. Ela, nada acusa, mas também não foge de meus avanços. Da língua, passo aos dentes e mordisco de leve a carne branca, que a nada parece reagir. Esse é o seu único erro: cravo-lhe então com força os dentes na palma molhada, já, com minha saliva, arrancando um pedaço de sua carne e com ele um grito insano, de reconhecimento, afinal. O choque a paralisou e me permite sugar o sangue que escorre do corte feito por meus dentes afiados. O gosto salgado e acre deflagra finalmente o orgasmo contido por toda a viagem. Ela, anjo caído do pedestal, chora assustada e nada mais pode me dar.
Mas foi ela que começou...