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K mora numa vila escura. O aspecto todo é triste e lúgubre. As casas são cinzentas e acanhadas. Os carros que estão estacionados ou que passam pela rua estão caindo aos pedaços. Há uma balbúrdia de crianças e de brigas que deixam o lugar ainda mais melancólico. No começo, tive uma aversão imediata pelo lugar. Aos poucos, fui entendendo a melancolia de K. Não só pelo lugar, mas pela sua família. K mora com os pais, a avó e mais três irmãos. A casa é muito pequena e por isso K não tem um quarto próprio. É obrigada a dormir com a avó. Quando quis conhecer a sua família, notei que K se envergonhava dela. Ela fez de tudo para não se parecer com eles. Era até muito mais educada do que muita gente que eu conhecia e que tinha freqüentado bons colégios e faculdades. K insistia em dizer que tinha descendência francesa, o que para ela, era garantia de que sua família teria um toque de refinamento, mesmo que mínimo. Ela ficou atordoada quando eu quis conhecer a sua família. Confesso que também fiquei um tanto constrangido quando conheci os brutamontes dos irmãos de K. O mais velho era Tó, simplesmente Tó, um tipo rústico, grosseiro e briguento. O do meio era Alex, magrelo, confuso nas idéias, melancólico, mas também com seus acessos de violência. O mais novo era Nico, sempre de olhos vermelhos, a barba mal feita, mal vestido e também grosseiro e antipático. O pai de K era um homem magro, de braços peludos, sempre silencioso, mas às vezes, saía do seu silêncio e também esbravejava com todo mundo. A mãe era o retrato da melancolia e passividade. Sempre fazendo a imagem da "boa senhora", mas que era capaz de dizer sonoros palavrões. Me tratava com excesso de cortesia e sempre se referia a mim como um homem "muito educado". A avó era uma velhinha, dona Elzinha, de quase noventa anos. A primeira vez que fui na casa de K, me vi diante da velhinha, sozinho enquanto K tomava banho. Conversamos como dois velhos amigos. Depois deste dia, a velha tem verdadeira adoração por mim, segundo o que me contou K. Enfim, mais uma vez chego na casa de K e toco a campainha. A mãe de K abre a porta e me estende a mão ossuda e gordurosa. Está evidentemente constrangida. Antes, eu me perturbava com ela e com todos os outros. Hoje em dia, sou capaz de ficar horas lá dentro, observando o espetáculo melancólico que a família de K me oferece. Tenho um prazer quase cruel de ver o ambiente familiar de K para saber exatamente como agir com ela. O que sou de cordato com a família, sou rude e grosseiro com K. É como se na intimidade eu assumisse também um aspecto brutal do meu ser e acabasse me tornando igual àqueles tipos. Mas com eles, eu era sempre extremamente fino e educado e diante deles, tratava K como uma verdadeira princesa, que fazia a sua mãe se comover até as lágrimas. Ah, se ela soubesse como eu realmente tratava a filhinha dela! Quando entro na casa, não encontro K. Ela ainda não chegou da loja. Sento na poltrona, que eles reservam sempre para mim. Alex está sentado nela e logo se levanta quando me vê. Apertamos a mão e eu me sento. Alex tem a fama de não falar com ninguém, mas se sente a vontade comigo e sempre trocamos algumas palavras. Desta vez, conversamos sobre voleibol e esportes em geral, já que na televisão, está passando uma partida de vôlei. O pai, seu Antenor, aparece na sala e fica constrangido quando me vê. Ele procura alguma coisa ao redor: - Você viu meu jornal, Úrsula? Dona Úrsula, a mãe de K, aturdida, diz que está embaixo da televisão, no cesto de vime. O pai de K pega o jornal e sem o menor constrangimento, entra no banheiro. Ficamos em silêncio. A porta se abre violentamente. É Tó. Mal me cumprimenta e grita para a mãe: - Estou com fome! A mãe, que estava na cozinha, entra na sala. Está cada vez mais envergonhada com os modos da família. Pergunta para Tó se ele me cumprimentou. Tó não responde nada. Simplesmente levanta o braço num gesto de desprezo. Ele se joga no sofá e solta um sonoro arroto. A mãe quer morrer. Eu sorrio, friamente. Desde que Tó entrou, Alex ficou completamente mudo. Impossível tentar tirar qualquer palavra dele agora. Ele se afunda na poltrona e fica imóvel, como um animal acuado. Ninguém diz nada. Dona Úrsula se sente na obrigação de me dizer que K não vai demorar. A porta se abre novamente, mas não é ela. É Nico. Está com o olhar brilhante dos bêbados e drogados. A roupa está toda amarfanhada. Quando ele me vê, se mostra extremamente cortês. Corre até mim e aperta minha mão com força. Diz que está muito feliz em me ver. De cara, percebo tudo. Ele vai dar uma "mordida" no meu bolso. K fica furiosa quando dou dinheiro para Nico. Mas eu sinto um prazer perverso em dar grana para ele. Eu sei que nunca vou conseguir "comprá-lo", mas eu gosto de vê-lo servil. Quando não está precisando de dinheiro, ele me trata de uma maneira indiferente. Conversamos um pouco. Seu Antenor sai do banheiro e se junta a nós. Estão todos na sala, menos dona Elzinha, que fica enfiada no quarto de K, numa escuridão atroz. A coitada está ficando quase cega e a família acha desperdício gastar luz com ela. Quando a pobre acende um simples abajur, é motivo para discussões intermináveis. Por um ou dois minutos, tudo parece ameno e tranqüilo, mas bastou Nico dizer alguma coisa sobre o que está passando na televisão para a discussão começar. É algo bobo, algo do tipo, "mulher que trabalha na televisão é tudo puta". Tó sai na defesa das mulheres, mas não porque se interessasse pelo assunto, mas porque este é um motivo para brigar com Nico. Em menos de dez minutos, a discussão é feroz. Parece que os dois irmãos vão se atracar a qualquer momento. A mãe de K faz questão de lembrá-los da minha presença, que eu sou "muito educado" para presenciar tais discussões. Finalmente, eles dão uma trégua. Neste momento, K abre a porta e estranha aquele silêncio. Mas é apenas o silêncio que, numa guerra, se escuta entre dois bombardeios. Ela me olha por um segundo. Consigo perceber tudo naquele olhar: a sua solidão, o seu tédio, o seu desespero. Depois abre um sorriso. Tudo se paralisa por um momento. Apenas Tó não se faz de rogado: mete o dedo dentro do nariz. K se aproxima lentamente de mim. Nada mais existe entre nós. É como se a força invisível que sempre nos uniu conseguisse nos arrastar um para o outro, sem que ninguém conseguisse nos deter: - Oi, Paul! – ela diz e me beija no rosto. Sinto seu perfume. Sinto que sua pele se arrepiou. Quando se volta para os outros, ela envelhece dez anos. Todo seu rosto está tenso e perturbado. O pai, indiferente, crava os olhos na televisão e não lhe dá sequer um olhar. Cada irmão se fecha no seu mundo. Apenas dona Úrsula, com a sua velha aflição, pergunta para K: - Já comeu, filha? K sorri: - Não se preocupe. Estou sem fome. Eu olho para a televisão. Eu me desligo de K e crio uma espécie de comunhão com os outros homens. Estamos com os olhares cravados na bunda de uma dançarina na TV. Estreitamos nossos laços, trocando um olhar misterioso e cúmplice. Cada um com um pensamento: o que eu faria com esta bunda? (Eu a espancaria, até vê-la dolorida e avermelhada...) K, num gesto imperceptível, toca minha mão. Eu levanto minha cabeça e a olho. - Eu preciso tirar esta roupa. Você me espera? Dou um sorriso indiferente, mas faço uma cara entediada. K fica perturbada e se apressa em responder: - Eu não vou demorar. Fico em silêncio. Num gesto espalhafatoso e teatral, Nico se levanta e coloca a mão intimamente no meu ombro: - Deixe ele aqui! Nós cuidaremos bem dele. K olha preocupada para o irmão. - Tudo bem, eu te espero –digo e sorrio. Depois vejo K se afastando e ouço sua voz ao acender a luz do quarto: - Oi, vó! Depois me volto para Nico. Ele tenta iniciar uma conversa complexa comigo. Ele me toma por um intelectual e acha que vai causar uma boa impressão se começar um assunto com algum tema estapafúrdio. Uma vez, ele falou longamente sobre logística, mas achando que se tratasse de um tema filosófico ligado à lógica. Desta vez, Nico resolve criar a sua própria miscelânea de temas. Está exaltado. A abstinência está lhe deixando o cérebro doente. No meu íntimo, eu me divirto e lhe dou toda a corda do mundo. Ele se torna prolixo e verborrágico. Mistura os sentidos das palavras. Me puxa pelo braço, cospe em mim, quer se meu amigo de qualquer jeito, quer minha cumplicidade. Ele monta um número e o exibe para mim. Tudo para conseguir me arrancar alguns trocados. Finalmente, K surge na sala. Está de calça jeans e uma blusa branca, flutuante e transparente. Parece uma garotinha. Nico interrompe a sua conversa, mas não sai do meu lado. Está decidido a grudar em mim. Quando estendo a mão para me despedir dele, Nico diz: - Eu também vou sair. K o olha com um misto de piedade e ódio. Eu me despeço de todos. Aperto a mão de cada um deles e tudo que me oferecem é um galho seco. Não há sangue, nem calor naqueles cumprimentos. Sinto até mesmo que a mão de Alex não é mais quente que a mão de um réptil. Aliás, o seu olhar, a sua pele e até mesmo a sua língua me lembram um lagarto, nojento e asqueroso. A rua parece mais agitada quando saímos. Nico está ao meu lado. Espero ver qual direção que ele vai tomar ao sair da vila. Ele também espera pela minha decisão. - Então, Nico... Começo. Ele se apressa em me interromper: - Vocês vão na direção do metrô? K fica impaciente. Decido prolongar a agonia de ambos: - Acho que vamos pegar um táxi... Nico fica desconcertado. Está decidido a me pedir dinheiro na frente da irmã. Vejo sua agonia e decido brincar de gato e rato com ele: - Pensando bem, vamos de metrô. K não percebe o jogo cruel que estou fazendo com o irmão. Ou, ela simplesmente já está acostumada com minha crueldade e já não lhe dá importância alguma. Nico vem para o meu lado: - Eu também vou para o metrô. - Mas, Nico... K se apressa a falar, mas eu a interrompo: - Deixe seu irmão nos acompanhar. Ele estava me falando de um assunto muito interessante. Como é mesmo? Um trauma pode se resolver com um choque? Nico se ajeitou e discorreu sobre algo a respeito de curas de traumas psicológicos através de um tratamento de choque. Como por exemplo, dizer toda a verdade repentinamente para alguém que sofreu um trauma qualquer na infância. Ou coisa parecida. Alguma coisa que ele leu numa dessas revistas de consultório de dentista. K não presta atenção no que Nico diz. Ela me agarra e anda grudada em mim. Finalmente chegamos no metrô. Com a desculpa de prosseguir o assunto, Nico desce as escadas rolantes conosco. Entramos na fila de bilheteria. K se volta para ele: - Você não vai pegar o metrô, vai? Nico fica embaraçado mais uma vez. Vai dar a sua mordida de qualquer jeito. Tiro-o do embaraço: - Preciso ir no banheiro – digo. Nico responde: - Eu também. No banheiro, no meio do mijo, ele ataca: - Sabe o que é? Estou sem nenhum trocado. Eu precisava de algum prum negocinho meu. Será que você podia me fazer um empréstimo? Prometo que pago assim que puder. - Da mesma maneira que você me pagou os outros? A minha ironia abre uma cratera sob seus pés. Nico fica vermelhíssimo que nem um tomate: - Não é bem assim. No momento, estou descoberto. Eu não sabia que ia te encontrar. Te procurei na semana passada e... Interrompo: - De quanto você precisa? Depois de me responder, enfio uma nota na sua mão. Tão logo se vê com o dinheiro, Nico abandona a atitude servil e se torna arrogante. Não perde mais um segundo comigo. Me deixa sozinho na porta do banheiro sem se despedir. - Cadê o Nico? – K pergunta. - Foi embora. - Você deu dinheiro pra ele? - Vamos, o trem já está chegando. K me segura e me impede de dar um passo sequer. Ela me olha nos olhos: - Paul, você deu dinheiro pro Nico? - Ele estava precisando... K suspira e me olha, desiludida: - Eu já não te pedi pra não dar dinheiro pro Nico? - Esquece o Nico. Vamos. O próximo trem já está chegando. Descemos até a plataforma. Ouvimos o metrô ao longe. Um vento forte espalha alguns papéis. Os cabelos de K esvoaçam misteriosamente. A sua expressão me lembra Joana D’Arc do filme de Carl Dreyer. Esperamos o trem parar. Entramos. O longo silvo anuncia que as portas vão se fechar. Ouvimos o estrondo delas se fechando. O trem começa a andar. A velocidade nos une num abraço quente e cheio de ternura. K treme, como um pássaro assustado. Eu beijo o lóbulo da sua orelha. Ela sorri e se aconchega ainda mais nos meus braços. Descemos no centro da cidade. A tarde continua quente e agitada. Caminhamos por algumas ruas estreitas do Centro Velho. K me abraça ainda mais, aperta meu braço, como se fosse uma tábua de salvação no meio de um naufrágio. Fico frio e indiferente. Finjo que estou olhando para as fachadas dos prédios. K suspira. Sabe o que está lhe esperando e anseia por isso. Eu lhe ofereço um oásis de dor e prazer. Ela se refugia nele de uma maneira urgente. Sabe do que eu gosto e acaba sendo o que eu quero que ela seja. Entramos por uma rua mal afamada. Vemos drogados, putas e traficantes. K olha horrorizada para a miséria humana ao seu redor. Com certeza, se lembrou de Nico. Ela tem uma expressão perplexa no rosto. Gosto de levá-la para lugares assim. Gosto de lhe mostrar o tipo de mundo miserável que criamos e fazemos questão de esconder. Quero lhe dar uma parcela medíocre da vida para depois lhe dar o júbilo de sensações extraordinárias. Depois que atravessamos a ruazinha, eu a seguro nos braços e lhe dou um beijo ardente e apaixonado. O nosso primeiro beijo naquele dia. Sinto suas pernas tremerem, mas o beijo lhe dá confiança. Ela se torna um pouco coquete. Sorri e brinca comigo. Casualmente diz: - Tem um feriado semana que vem. A gente podia ir pra praia... - É, podemos. – digo. Eu sempre digo este "podemos" para tudo que ela sugere: praia, cinema, passeio ao ar livre. Mas nunca a levo a lugar nenhum. Sempre a levo, isto sim, para os mesmo hotéis decadentes do centro. Eu a levo no mesmo hotel várias vezes até ela se sentir entediada com o lugar. Não quero lhe dar amplidão alguma. Eu quero matar a linha do horizonte no olhar de K. Quero lhe dar a penumbra de um quarto, a parede descolorida de um ambiente fétido. Eu quero prendê-la, não libertá-la. Ela entende o seu destino e aceita aquele "podemos" como uma criança que aceita uma desculpa qualquer. Finalmente paramos no mesmo hotel de sempre. K suspira diante da porta envidraçada com grandes letras amarelas anunciando o nome do hotel. Empurro a porta e entramos. A recepcionista está atrás de um outro vidro. Tem medo de assalto. Não conseguimos distinguir o seu rosto com exatidão. Ela nos pede os documentos. Enfio as nossas carteiras de identidade por um vão do vidro fosco. Ela coloca uma chave com uma enorme placa de madeira com o número do quarto. Sorrio. É quase sempre o mesmo. K suspira entediada. Não tem coragem de pedir outro. Poderia fugir daquele lugar, de mim, mas pra onde? Subimos as escadas lentamente. K, rebolando, assume o papel de putinha vulgar. E eu, começo a ficar silencioso e possuído por uma força estranha. Eu sou agora simplesmente o Dominador e K, a submissa. Quando entro no quarto, sinto que estou completamente tomado. Imediatamente K curva o corpo e depois de uma olhada indiferente no quarto abaixa a cabeça e espera pelas minhas ordens. Está pronta para satisfazer a minha mínima vontade. Como se K não existisse, entro no quarto como se estivesse sozinho. Tiro meu blaser, que já estava me deixando extremamente acalorado. Fecho a janela e ligo o ar condicionado. Depois me concentro na televisão até encontrar o canal de filmes eróticos. K olha para a tela e vê uma cena perversa: uma loira com dois negros. Ela suspira e parece hipnotizada. Lavo as mãos como se fosse fazer uma cirurgia. Depois fico diante de K. Ela desvia o olhar para mim. Olha nos meus olhos, mas não consegue sustentar o meu olhar. Como se estivesse examinando um par de frutas, aperto seus seios. Abro a sua blusa e puxo seu sutiã. K suspira mais uma vez. Os seus seios estão nus. Eu os apalpo, belisco, brinco com os biquinhos. Depois eu a viro. Ela se deixa virar como uma boneca sem vida. Afago o seu traseiro, calmamente, lentamente. Já tenho idéia do que vou fazer e ela sabe o que é. - Abaixe a calça! K tem uma expressão vazia no olhar quando abaixa a calça. Ela tem uma marca enorme de queimadura que pega parte da sua bunda e da sua coxa direita. Mesmo sabendo que já estou acostumado com aquela visão - a queimadura parece o mapa dos Estados Unidos - ela procura escondê-la. Em vão. Eu a viro e a exponho ainda mais. K olha pra frente. Mando que estenda as mãos e as repouse no batente da janela. Aliso o seu traseiro com extrema delicadeza e da maneira mais fria possível, começo a lhe dar várias palmadas. Começo de uma maneira fraca e depois vou aumentando a intensidade. Quando termino, estou com os punhos doloridos. K ficou imóvel a maior parte do tempo, mas logo a excitação tomou conta do seu corpo e ela começou a rebolar de uma maneira perversa. Eu me afasto. Ela volta a ficar imóvel, me esperando. Tiro o cinto da minha calça e o dobro em dois. Começo a distribuir cintadas pelas suas coxas. Bato com muita força. K geme e dá um pequeno grito. Eu paro. Aliso a queimadura: - Quem te fez essa queimadura? Ela olha para trás, atônita. Nunca tocamos neste assunto. Repito a pergunta. Ela fica angustiada, balança a cabeça de um lado para o outro, como se não quisesse responder. Enfim, mando que ela tire toda a roupa. K se senta por um momento na cama, para tirar as botinhas. Depois ela me olha, parece cada vez mais apaixonada. - Para a janela! – ordeno. Ela volta a ficar na mesma posição. Vou até meu blaser e tiro do bolso interno, um lenço de seda. Depois me volto para K e amordaço a sua boca. Passo os dedos delicadamente nas suas costas. Beijo-a por inteira. Chego até mesmo a me ajoelhar para beijar a sua queimadura. Passo a língua por ela como um cão. Então, me levanto e distribuo cintadas pelas suas costas. Nunca consegui entender este meu prazer. Nem o dela. Estamos unidos por uma sensação estranha. Eu sou o carrasco e ela, a vítima. Bato até me cansar. Todo seu corpo está marcado. Ela tem lágrimas nos olhos. Mando que se ajoelhe. Tiro-lhe a mordaça e lhe dou a minha mão para ser beijada. A mão que a castigou. Ela beija e a lambe com uma extrema devoção. Eu a empurro para o chão: - De quatro! – eu digo. Ela se coloca na posição. Mando que ande pelo quarto. Volto a distribuir cintadas no seu traseiro. Minha excitação está no auge. Tiro meu sexo de dentro da calça. K continua rastejando pelo quarto. Eu a puxo depois de um tempo. - Pra cama! K sobe na cama e fica de quatro. Não tenho pressa. Olho para o filme da TV. A cena é de sexo grupal. Muitos homens e uma só mulher. K está ansiosa. Afasto suas pernas. Depois tiro minha roupa e subo na cama. Eu a penetro e ela não consegue se conter. Começa a gozar de uma maneira desvairada. Ela se desgruda de mim e contorce o corpo. Eu olho pra sua agonia. Espero até que acalme. Sem a menor delicadeza, faço com que meu sexo suma dentro da sua boca. Eu me deito todo em cima dela, usando a sua boca como se fosse uma vagina. Ela não consegue respirar. Os seus olhos estão esbugalhados. Eu me controlo e me deito ao seu lado. Estou ofegante. K também. Ficamos lado a lado. Ela se torna um corpo que eu posso usar de todas as maneiras. As palmadas e as cintadas a deixam extremamente dócil. Mando que continue me chupando. Eu lhe dou uns tapas no rosto enquanto executa o ato. Depois eu me canso novamente e me deito. Mando que pegue água para mim no frigobar. K parece uma simples criada. Abre uma garrafa e me entrega. Eu bebo bons goles e depois devolvo a garrafa. Ela também sacia a sua sede. Voltamos a nos atracar como dois animais ferozes. Já não sou mais o Dominador. Sou apenas um corpo devorando outro. Estamos numa simbiose total. Eu entro nela e ela entra em mim. Ela grita, goza, se comove e chora. Sempre chora quando estamos nesta profundidade que poucos se atrevem a ir quando fazem sexo. Nossos corpos queimam, vibram, exalam calor. No meio deste inferno, eu grito: - Quem te feriu? Quem te queimou? K luta bravamente. Estou totalmente dentro dela. - Quem foi? K se cala. - Responde! Estou muito excitado. Não há mais palavras. Estou quase gozando. Grito. Grito bem alto. K também dá um grito atordoado e tremendo: - FOI NICO. FOI ELE. Começo a explodir num gozo total. Entro numa escuridão atroz. Sinto frio e medo. - Desligue o ar condicionado. – já peço, quase humildemente. K se levanta e desliga o ar. Depois abre a janela. A última luz do sol ilumina seu corpo nu e branco. Ela já não chora. A sua expressão é serena como de uma mártir indo para a fogueira. Ela continua olhando por um momento para a rua e depois se volta para mim. Tem um sorriso melancólico no rosto. Depois ela corre e se atira nos meus braços. Não sinto vontade de protegê-la. Não sinto vontade de nada. Eu me levanto e acendo um cigarro. - O que foi, Paul? - Nada. K fica em silêncio. - Aquele desgraçado. – falo depois de um tempo. - Ele não teve culpa. - Sei. Fico em silêncio. - E o que mais ele fez? K me olha assustada: - Ele não fez mais nada. - Nem tentou? - Não. - Por que ele se droga? - Eu não sei. - Você sabe sim. Ela fica aflita: - Eu não sei. - Vocês... K se levanta: - Não fala nada. - Eu não preciso dizer. Faço uma pequena pausa: - Agora entendo porque você precisa da dor. - Você não entende nada. - Você e Nico. Vocês se sentem culpados. É por isso que ele se droga. É por isso que você quer a dor. K me olha com ódio: - Eu já disse pra você não falar nada. - Quando foi? - Cala a boca, Paul! - É simplesmente repugnante. Dois irmãos. Juntos. - Não diz mais nenhuma palavra, Paul. - A putinha e o drogado. K me dá um tapa no rosto. O som estala por todo o quarto. Ela me olha perplexa e abraça minhas pernas: - Perdão, Paul. Perdão. Ela começa a chorar. Eu a levanto e nós nos beijamos. - Vamos, garota. Já está na hora de te levar de volta. K me abraça bem forte. Depois se veste melancolicamente. Não trocamos mais nenhuma palavra até chegarmos na entrada da vila. Já é noite. K fica me olhando. Eu também a olho. Há apenas o silêncio entre nós dois. Um silêncio que pesa e corrói. Ela ainda sorri de uma maneira patética e depois vira as costas e entra para dentro da vila. Vai voltar para a jaula junto com as feras. Eu não tenho mais o que fazer ali. Estendo a mão para o primeiro táxi que passa e entro no banco detrás. Fico ausente por alguns segundos. - Pra onde vamos, chefia? – o taxista pergunta. Eu continuo em silêncio. Ele aguarda de uma maneira impaciente. Finalmente consigo responder: - Pra qualquer lugar, mas desde que seja bem longe daqui...