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Da Série "O Mundo Maravilhoso dos Erotomaníacos e suas Fábulas Apócrifas" Enquanto vestia-se com um belíssimo terno Valentino, preto, ele esqueceu-se completamente do tempo e deixou o seu pensamento viajar no tempo, para uma época distante e muito especial de uma São Paulo que infelizmente não existe mais... Os motivos pelos quais, fizeram com que a sua Tia Irina viesse morar na casa dele, saindo do casarão da Avenida Paulista onde morava o seu avô alemão, Paulinho, na inocência de seus nove anos de idade nunca entendeu muito bem. Só sabia que seu avô Sandor era um homem grande e bravo que vivia insistindo para que ele aprendesse a falar alemão. A única coisa que ele sabia é que a sua tia, embora fosse irmã de sua mãe era muito diferente dela. Era mais nova. Tinha 26 anos e ainda não havia se casado. Por esse e mais outros motivos ela e a mãe do Paulinho viviam discutindo. O que não adiantava muito porque quase sempre ela pegava a sua maleta nécessaire e ia para a sala da casa deixando a mãe do Paulinho falando sozinha. Sempre que chegava na sala encontrava o menino Paulinho brincando no carpete da sala com os seus carrinhos de metal. Ela então parava em frente dele, curvava-se, abaixando para dar-lhe um carinhoso beijo no rosto. Fazia isso todas as vezes que encontrava o menino e ele adorava o calor daqueles lábios tocando-lhe a face. Gostava mais ainda quando a Tia Irina limpava com o polegar a marca de batom que ela deixava em seu rosto. Ela tinha uma mão macia, lisinha e a suavidade de seu toque era incrível. Depois caminhava pela sala até o lugar onde ficava a poltrona de couro, que era o lugar preferido do pai do Paulinho. Sentava-se, abria a maleta e tirava um pote redondo, grande, de um dos vários cremes que compunham aquela maleta. Em seguida, ela enchia as mãos com o tal creme, esfregava primeiro, uma na outra e em seguida iniciava o ritual de passá-las por sobre as suas pernas, lentamente no começo e com um pouco mais de velocidade depois. Paulinho a observava durante essa atividade sem que ela o nota-se. Era uma mulher linda! Loira, de olhos azuis, pele clara. Tinha seios fartos e firmes, bem empinados. Cintura fina, quadril largo e pernas maravilhosamente bonitas, grossas e bem torneadas. Um verdadeiro espetáculo de mulher. Mas até aí... Não era esse um fato totalmente incomum ao Paulinho. Afinal de contas os seus avós maternos eram alemães e todas as suas três tias haviam saído assim, todas muito bonitas, inclusive a mãe do Paulinho que também era uma mulher muito bonita. Só que nenhuma delas tinha o diferencial que a sua Tia Irina tinha; A classe... Era uma mulher extremamente elegante. Usava vestidos importados de grifes famosas como YVES SAINT LAURENT, mas preferia modelos mais justos como GIVANCHI. E esses ressaltavam ainda mais a bela silhueta de seu corpo que sem o menor esforço, já era escultural. Estava sempre maquiada e todos os dias freqüentava um salão de beleza, onde lavava, tratava e cuidava dos belos fios de ouro que pareciam os seus cabelos. De lá saía com os mais mirabolantes coques e penteados modernos armados à base de laquê. Nas ruas, tinha um andar único; Empertigado, de passadas firmes, imponentes e uma classe, uma elegância, que casavam perfeitamente com o ar de superioridade natural que ela possuía. Andava de cabeça erguida e sua personalidade forte simplesmente desprezava a presença dos outros pobres mortais comuns que ousavam caminhar ao seu lado. Que pretendiam ou achavam (coitados) que poderiam habitar o mesmo Cosmo que a sua Tia. Impossível! A Tia Irina era uma deusa. Parecia uma daquelas divas do cinema americano. O Paulinho ficava todo orgulhoso ao perceber que todos a olhavam com admiração. Muito embora os homens a olhassem de outro jeito... Também com admiração, mas com um olhar diferente que o menino Paulinho não conseguia decifrar. E como a sua Tia nem sequer lhes dava atenção ele nem perguntava nada. Apenas algumas poucas vezes, ela respondia a esses olhares com um sorriso. Mesmo assim, seguia o caminho sempre de mãos dadas com o seu sobrinho predileto. Sempre que ela saía à tarde, lá pelas três horas, ela levava o Pulinho com ela. Pegava o táxi na Haddock Lobo, onde moravam. Ela pedia ao taxista para dar uma volta pelo bairro do Pacaembu para só depois descer no centro da cidade. Andavam pelas Ruas Sete de Abril, Barão de Itapetininga, até chegar a Livraria Francesa onde ela comprava a revista Vogue e um livro do Paul Verlaine para ela, um livro do Proust para a mãe do Paulinho, mais a revista Cahiers du Cinema para o pai do Paulinho que apesar de ser Juiz de Direito, amava o cinema, a música, as artes plásticas e também a literatura. Só que a sua Tia dizia que o que o seu pai gostava de ler não se encontrava ali naquela livraria: - Ele gosta de escritores russos, Paulinho... – Explicava ao menino, que achava aqueles nomes muito complicados... Depois caminhavam até o largo do Arouche onde a Tia Irina gostava muito de ir. Entravam em uma tabacaria e ela comprava cigarros king size franceses, bem maiores que aqueles que o seu pai fumava e saiam caminhando por aquela região cuja beleza ainda resistia ao desenfreado crescimento urbano que sofria a cidade. Faziam isso até às seis da tarde. Depois pegava o táxi e voltava para a casa trazendo as revistas, os livros e o menino... para o alívio da sua irmã e nem jantava; Ia para seu quarto e levava mais de uma hora para escolher um vestido, mais outras duas horas no banheiro e de lá, saía toda arrumada com aquele ar de diva que lhe era peculiar. Pela fresta da porta do seu quarto, de pijama, o menino assistia a cena toda: Primeiro ela se despedia do pai do Paulinho. Em seguida, em meio a uma série de broncas e recomendações, dava um beijo no rosto da irmã que quase sempre ficava aflita após a sua saída. Então o Paulinho corria para a cama, cobria-se e fingia um sono profundo. Pouco depois, a Tia abria a porta com cuidado, andando lentamente carregando nas mãos o belíssimo Scarpin para não acordá-lo com o barulho do salto. Lentamente puxava um pouco o cobertor e com uma ternura comovente, beijava-lhe a testa seguida de um afago nos cabelos e dizia baixinho em seu ouvido: - Durma bem, meu anjinho... E só então, depois disso ela saía. E quando ouvia o barulho da porta do táxi, sendo fechada começava o calvário de Dona Katherine, mãe do Paulinho. Era compreensível. Afinal de contas era o início dos anos 60. A São Paulo daquela época era extremamente provinciana, ainda atrasada e careta. E o crescimento vertical de seus primeiros arranha-céus, não ajudava os seus moradores a entender e acompanhar as outras mudanças que estavam acontecendo no mundo. Era uma época em que as mulheres ainda eram tratadas como empregadas domésticas e escravas sexuais de seus maridos e a sociedade de então, era extremamente conivente com esse estado de coisas. Certas liberdades básicas não eram admitidas por essa sociedade. Havia uma espécie de engessamento de padrões e convenções sociais e comportamentais. E convenhamos; A Tia Irina não era nem um pouco convencional... Era uma mulher muito culta e bem educada. Como todas da família, teve uma formação cultural e intelectual de altíssimo quilate. Mas diferente das irmãs, usou a sua rica formação para ela própria, tirar as suas próprias conclusões e impressões do mundo. O que sempre causou sérios conflitos entre ela e o seu pai. O velho Sandor era um imigrante que chegou em São Paulo sem nada e em pouco mais de trinta anos, tornou-se um dos mais ricos e respeitados empresários de São Paulo. Portanto o comportamento de sua filha mais nova, não era considerado o “adequado” para uma rica herdeira e dama da alta sociedade. Ela não estava nem aí! Freqüentava museus e teatros. Adorava Touloise-Lautrec, Bosch, Reinbraint e Dali. Conhecia as melhores montagens de Ibsen, Tchecov, Goethe, Sheakspeare e Jean Genet. Esse último se tivesse o nome proferido por alguém perto do velho Sandor, esse tal, era sumariamente expulso para bem longe... Também nunca se recusava a tomar a terminar a noite tomando um bom uísque escocês com seus amigos ou com quem quer que fosse, no Jongo Bar, na Sputinick ou em qualquer boate refinada da Rua Major Sertório no Centro de São Paulo, que era a Meca da bossa nova paulistana; Lugar onde passaram músicos que viriam a se tornar os melhores do mundo. Não se fazia de rogada. Era totalmente independente. O que era um escândalo para a época. O marido tentava acalmá-la dizendo que a irmã era nova, solteira e bonita e que tinha mais é que se divertir mesmo. Que ficasse tranqüila, que era um ciclo natural da vida e que uma hora isso acabaria, naturalmente. Em vão; Enquanto a irmã não chegava à mãe do Paulinho se recusava a dormir. Sentava no sofá e esperava o tempo que fosse necessário, para dar-lhe uma bronca cobrando maior responsabilidade da irmã mesmo que isso não adiantasse nada; Era a irmã dela, ela a amava demais e jamais deixaria de dizer a ela o que pensava e principalmente o que sentia. Acontece que naquela madrugada ela esperou um pouco mais... A empregada a acordou às seis e quinze da manhã. Seu Fernando, pai do menino, já havia trocado o Paulinho para levá-lo ao colégio. Ela se levantou, perguntou pela irmã e quando descobriu que ela ainda não havia retornado, entrou em pânico... Queria ligar para Polícia, avisar o pai, falar com o secretário de segurança, procurar no IML, só que tudo ao mesmo tempo: - CHEGA! Não vê que está assustando o menino? Procure se acalmar Katherine! De fato. O Paulinho estava realmente assustado. Muito mais pelo fato de sua mãe estar chorando, do que pelo descontrole. Embora fosse a mãe uma mulher de muita classe e muito reservada que quase nunca alterava o tom de voz, vê-la chorando, foi o que mais o chocou. Ela parou imediatamente ao ver o menino a olhando. Trouxeram água com açúcar para ela beber e quando ela sorvia o segundo gole talvez, escutou o barulho de um festivo carro parando em frente à sua casa. Pouco depois o barulho que ouviu, foi o do trinco da porta. Jogou o copo com água na pia e partiu em direção ao corredor. Briga feia: Quando ela encontrou a irmã chegando em casa cambaleante, com os cabelos desgrenhados, completamente bêbada, alegre e feliz, cantando um samba do Ismael Silva, enfureceu-se! Gritava e esbravejava coisas que o Paulinho não sabia o que siguinificava. Algo como, responsabilidade, caráter, ingratidão, falta de juízo... A Tia Irina nem ligava. Continuava cantando o samba feliz da vida. Depois tentou agarrar a irmã tirando-a para dançar e diante da veemente recusa trancou-se no seu quarto, ainda cantando. Deduziu-se que foi dormir: - Pára de dar risada, Fernando! – Repreendeu o marido, que procurou ser discreto: - Vamos filho. Senão perderemos a hora. E o Paulinho entrou no Sinca do seu pai deixando que as duas se resolvessem. No carro o Paulinho perguntou: - Papai, porque que a mamãe e a Titia brigam tanto? - Porque elas se amam muito, meu filho. - Ah bom... E diante do sorriso do pai o menino contentou-se com a resposta. Naquele dia a impressão que ele teve foi de que a hora passou mais rápido do que de costume. Quando o táxi o trouxe de volta do colégio às duas horas da tarde ele deixou o Joel que era o jardineiro pagando o taxista e entrou correndo para a casa, em direção ao seu quarto. Pegou os seus carrinhos depois foi até a cozinha onde se encontrava a sua mãe, que estava ensinando a empregada, como devia ser o procedimento correto para limpar as taças de cristal. Foi até o seu encontro e ganhou dela o mesmo abraço caloroso e o mesmo beijo de sempre. Mas percebeu que a mãe ainda estava brava. Ele a deixou e foi para a sala. Reparou que vinha um barulho do banheiro, portanto a sua tia já estava acordada. Quando chegou na sala, escutou a mãe esbravejando novamente contra a tia. Novamente não adiantou. Ela saiu do banheiro, Divina! Não perdia a classe nunca! Repetiu todo o ritual de sempre; Foi até a poltrona do pai do Paulinho sentou-se e começou a passar creme em suas pernas. Cansada, a sua mãe desistiu. A tia Irina continuou. E o Paulinho daquela vez abandonou os carrinhos e começou a prestar atenção no que ela fazia, com um ar de curiosidade um tanto quanto intrigado. Determinado momento, a Tia percebeu: - Que foi Paulinho? - Nada... - Então porque você ta me olhando com essa cara estranha? Ele tomou coragem e perguntou: - Titia, a senhora passa esse negócio na perna para sarar os machucados? - Machucados?! Que machucados Paulinho?? - É que toda vez que a mamãe e a senhora brigam, a senhora passa isso... - Não meu anjinho... – Respondeu com um sorriso meigo – A sua mãe não seria capaz de fazer mal a uma mosca! Ela é assim meio chatinha, mas é porque a sua mamãe me ama muito e eu amo muito a ela também. - É, o papai me falou. - Pois então, fica sossegado que a sua mamãe jamais fará mal a que quer que seja. E isso (falou segurando o pote) é apenas um creme que a Titia usa para ficar com as pernas mais bonitas. Você quer ver como é que é? - Quero. - Então vem aqui. O Paulinho abandonou definitivamente os carrinhos e foi em direção da poltrona onde a tia estava sentada, pulando em seu colo: - Olha, você primeiro põe na mão; Depois esfrega uma na outra e passa nas pernas entendeu? - Entendi. – Respondeu o menino com as mãozinhas todas lambuzadas com o tal creme, olhando e analisando-as de maneira estranha: - Quer terminar de passar para a Titia? Ainda falta passar em um pé. A Titia já te ensinou e você passa, enquanto eu tiro um cochilo. O que você acha? - Ta bom. - Ótimo. Então puxa aquele banquinho e vem até aqui. O Paulinho puxou. Era um daqueles descansos para apoiar os pés. Para o Paulinho era o tamanho ideal. Ele fez como orientou a Tia. Aproximou-o de suas belas pernas, sentou-se com as pernas bem fechadas e nesse momento, ele recebeu o pé da sua Tia, aconchegando-o em seu colo, bem no meio das suas pernas. Nessa hora sentiu algo estranho que ele nunca havia sentido e que não sabia direito o que era. Mas estava gostando. Iniciou a tarefa: Primeiro, foi passando na parte de cima do pé, esparramando lentamente o creme, por toda essa parte de cima. Sua tia, provavelmente de ressaca e cansada cochilou e ele continuou seguindo as suas orientações; agora esparramava o creme por entre os dedos, de unhas pintadas de rosa claro, bem discreto, com muito gosto. Fez minuciosamente, dedo por dedo. Começou a sentir calafrios estranhos, porém deliciosos se espalhando por todo corpo. Uma coisa boa que o fazia intensificar ainda mais a massagem. Depois foi para a sola, esfregando com vontade, pressionando o pé da sua tia contra a sua barriga. Sentiu que era macio. Tanto quanto as mãos dela. E quando lambuzou as mãos para continuar com mais vontade ainda, a massagem na sola do pé da Tia Irina, ela que cochilava, começou a pronunciar sons estranhos: - Ai, ui, ui, ai, ui... Pára! - Que foi Titia? Fiz coisa errada? - Não meu anjinho. É que isso dá cócegas... - Aonde? Aqui? E começou a fazer cócegas no pé da tia achando engraçado vê-la tendo crises de riso. Era uns risos altos, gostosos, que parecia prazeroso e o contagiava. Então ele continuou: - Pára menino... Pára... E ele dava risada e continuava. - Se você não parar eu vou revidar... – Ameaçou o menino. Ele a desafiou: - Pode vir. - Vem cá menino... Nessa hora, ela o imprensou com as pernas derrubando-lhe do banquinho, fazendo com que o menino caísse perto dos seus pés. Depois ela enfiou o seu pé por baixo da camisa do menino e começou a esfregá-lo com a sola de seu pé, massageando-lhe a barriga apertando-a com os dedos em fricção. Isso causou uma enorme e desenfreada crise de risos no Paulinho: - Ta vendo? Ta vendo como é bom fazer cócegas nos outros? Toma mais! E a Tia Irina afundava os dedos com vontade na barriga do menino. Esfregava freneticamente a sua barriga em movimentos rápidos e alternados. Não sentia apenas cócegas. Aquele pé macio, massageando-lhe a barriga, causava-lhe uns calafrios gostosos, uma sensação muito boa que ele estava adorando. Ria a altos brados e isso chamou a atenção da sua mãe: - Mas o que é isso Paulinho?! - Nada Katherine. Ele só está brincando... – Explicou a tia do menino. - Pois que vá brincar lá fora, no quintal. Deixe a sua tia em paz. Ele foi. Mas depois daquele dia, descobriu que os pés da sua Tia eram brinquedos muito mais agradáveis que os seus carrinhos. Recusava-se peremptoriamente a deixá-los; Na hora do jantar entrava debaixo da mesa e favorecido pelas cumpridas toalhas de linho que enfeitavam a mesa, aproveitava a ocasião para se esfregar nas canelas da tia que sempre aceitava a brincadeira, retrucando-o com mimos feitos pelos pés em todo o seu corpo, divertindo-se até a hora em que a sua mãe o descobria, quase sempre devido as suas incontroláveis crises de riso; No meio da noite passou a acordar para correr até o quarto da tia. Quando chegava lá, dormia agarrado aos seus pés; Durante a exibição da novela das seis, o Paulinho sentava-se no chão cedendo gentilmente o seu colo para a Tia descansar os pés... Mesmo causando uma certa estranheza no Seu Fernando e na Dona Katherine, ambos concluíram que aquelas manias do menino não eram nada demais. Portanto não levaram a sério; “Coisa de menino. É que é filho único, não tem com quem brincar...” concluíram. E o Paulinho se esbaldou tranqüilamente até o dia em que foi avisado que teria um jantar em sua casa do qual ele não poderia participar, porque não se falariam coisas de menino. O Paulinho jantou cedo e já de pijama, teve tempo de conhecer o tal convidado do pai para o jantar. Era jovem. Bem mais que o seu pai. Vestia-se muito bem, com um terno de lã cinza muito adequado para o frio daquela noite, camisa branca e gravata de crochê preta. Era moreno como o seu pai tinha um bigode bem aparado e os cabelos esticados para trás com gomex: - Então esse é o herdeiro Meritíssimo? - Me chame de Fernando, Dr. Sérgio; É sim. Esse é o Paulinho. - Tudo bem Paulinho... - Papai ele é o “homem do VENTO LEVOU?...” Todos sorriram. O Dr. Sergio era bem bonito mas não era o Clarck Gable. Foi dormir, mas não por muito tempo. Quarenta minutos depois, ele se levantou e em uma manobra audaciosa conseguiu arrastar-se até debaixo da mesa. O assunto parecia ser sério demais para perceberem a sua chegada. Parecia que o pai aconselhava o jovem advogado recomendando cuidado com que esse negócio de se ligar a comunistas porque isso seria reprimido com violência... O Paulinho não tava nem aí para essa história. Nem sabia o que era. Ele só queria fazer uso de seu brinquedo. Só que daquela vez teve uma surpresa... Enquanto seu pai falava dos tais cuidados e precauções que deveriam ser tomados para o seu amigo, percebeu que a sua Tia Irina estava usando o bico de um de seus pés para livrar-se dos sapatos de salto que usava naquela noite, sutilmente. Depois esticou o pé já despido até que seu pé conseguiu alcançar o tornozelo do amigo do seu pai e começou a roçar-lhe as meias com os dedos, para cima e para baixo. O cara afastou um pouco o pé, mas ela não desistiu; Voltou a tocar-lhe com o mesmo movimento. Agora ela esfregava-lhe o tornozelo com um pouco mais de força, arriando as meias do sujeito com os dedos e continuando com esse movimento por mais algum tempo. Intensificou. Tirou o pé de dentro da barra da calça do cara e com a parte de cima do seu pé, Tia Irina passou a acariciar-lhe à parte de trás da canela do homem. Paulinho se irritava, mas prendia a respiração e observava tudo: O cara não tirava mais a perna. Ela voltou a acariciar-lhe por dentro da barra da calça só que agora, subindo seu pé até os joelhos do homem. Depois subiu por fora parando bem no meio de suas pernas. Nessa hora o tal sujeito até se engasgou... Ela continuou; depois de alguma resistência o cara finalmente abriu o meio das pernas deixando que o pezinho da Tia Irina o fizesse uma gostosa massagem bem no zíper de sua calça. Aquela era inédita para o menino; Ela esfregava pressionava, alisava com a sola deslizava os dedinhos para cima e para baixo levando o sujeito ao delírio. Tanto que ele também enfiou a mão por baixo da mesa para acariciar o pé de sua Tia também. O Paulinho não agüentou: Movido por um sentimento de raiva, traição e decepção ele mordeu a perna de sua tia que gritou. A sua mãe ouviu: - Eu não mandei você para o quarto dormir, moleque? Nem adiantava falar nada. O Paulinho estava a quilômetros de distância da sua mãe e de toda aquela bronca que estava levando, mas estava bem próximo da sua Tia Irina. Ele a fulminou com um olhar de raiva e de decepção. Sentia-se traído, mas não entendia porque não conhecia aquele sentimento ainda. Na sua cabeça de menino funcionava assim; Ele tinha um brinquedo preferido e de uma hora para a outra, apareceu outro e tomou esse brinquedo dele. E o pobre do Dr. Sergio estava quase roxo de tanto constrangimento... Enquanto isso sua Tia percebeu que estava mal e olhou com tristeza e pena. Só piorou. Quando a sua mãe o trancou no quarto, colocando-o de castigo, ele não dormiu; Passou aquela noite toda chorando baixinho... O tempo passou. Paulinho que tinha nove anos fez dez, onze, doze, treze, catorze anos. Crescera bastante e manteve a tradição das famílias que o geraram; Já tinha mais de um metro e oitenta. Herdou os olhos azuis da mãe, o corpanzil do avô e da família do pai que era Catalão, de Barcelona, ganhou a pele morena e os belos cabelos pretos de Seu Fernando. Era um belo adolescente. Ia bem nos estudos, manifestava interesse pela construção civil e avisou ao pai que iria fazer algo relacionado a essa área. Lia muito. Era fã de Lucacks, Max Weber, André Gide, Breton, Nietzche, e para desespero da mãe, tinha verdadeira idolatria por um tal de Burroughs e mais outros cientistas malucos que foram expulsos de Harvard; Aldous Huxley e Timoth Leary. Pegou gosto do cinema francês, mas era entusiasta de Humberto Mauro e Glauber Rocha. E graças à insistência de seu avô Sandor, aprendeu a falar além do alemão, o inglês e o francês. Com relação a sua Tia Irina, claro que não ficou mágoa alguma. Até ficou de bico uns três dias na inocência que tinha aos nove anos. Mas os anos se passaram e tudo ficou no passado. Ele a amava demais e isso era recíproco. Também se tornou amigo do Dr. Sergio. Com ele o Paulinho travava longas e acaloradas conversas onde manifestavam o total repúdio que tinham pela ditadura militar e os seus abusos cometidos. Até o dia em que o receio do pai do Paulinho se fez presente de fato; O Dr. Sergio foi preso e barbaramente torturado... E com toda a influência e respeito que tinha o Pai do Paulinho, levaram-se três meses até que fosse conseguido um hábeas corpus, que o liberasse. Quando a sua Tia viu o estado do noivo ela não suportou; Ele estava tetraplégico! A alegação dada no dops foi um “tombo tentando fugir...”. Ela decidiu que largaria tudo e que iria embora do Brasil. No aeroporto, pouco antes do embarque para a França, em meio a lágrimas despediu-se do sobrinho dizendo que voltaria a se dedicar a Pintura e que retornaria ao Brasil quando morresse o último dos generais. E em fevereiro de 1969 o gesto daquele aceno de sua tia empurrando o noivo na cadeira de rodas foi uma das mais doloridas de toda a sua vida... ... – Benhê! - ESPERA!! – Gritou para a sua esposa que lhe interrompera as lembranças. Ele não a agüentava mais. Renata era uma garota linda, inteligente e articulada que ele conheceu quando fazia mestrado em Berlin, na Alemanha em 1977. Com o tempo rendeu-se; Agora não passava de uma pessoa fútil, convencional e vazia. Ele já não suportava mais tanta futilidade. Mas era inevitável que aparecesse os convites infames dos aduladores de plantão. Passaram-se 30 anos e Paulinho, agora era PAULO RAFAEL KLEIN. Renomado arquiteto, de talento mundialmente reconhecido e preferido dos milionários do Brasil e do exterior. E foi com um desses estrangeiros aduladores, que a sua esposa resolveu aceitar um convite para que eles jantassem com o fulano e a sua esposa, no Fasano sem consultá-lo. Aquela mesma conversa fiada, aquela burrice, aquele papo furado de “sou seu fã...”, ausência total de conteúdo. NÃO! Dessa vez, não! Ele saiu de seu closet feito um raio e passou pela mulher arrancando a gravata e procurando as chaves do seu carro: - Aonde você vai Paulo?! - Aonde a vida é útil, Renata. - Não... Você não vai fazer isso comigo! - Não. Com você eu não vou fazer nada, vou fazer COMIGO! Por mim. - Paulo se você sair pode ser que você não me encontre aqui quando voltar e você vai se arrepender amargamente... - Talvez Renata (finalmente achou as chaves do carro). Ao perceber o que eu fiz nos últimos 22 anos de minha vida pode até ser que eu tenha algum tipo de arrependimento. Mas eu prefiro ficar com as lembranças boas... - VOCÊ NÃO VAI ME ENCONTRAR AQUI, PAULO! - Faça o que quiser Renata. Cansei de te dizer o que você deve fazer. Bateu a porta e saiu. Quando o elevador da sua mansão no Morumbi chegou até o estacionamento ele entrou no seu BMW novo, zerinho, de última geração e dirigiu até a AVENIDA Angélica, no bairro de Higienópolis onde ficava o loft de sua tia Irina. Ela quase cumpriu a promessa feita no aeroporto; quando voltou ao Brasil em 1990 faltava só o Figueiredo para ir para o inferno. Dedicou-se de fato a Pintura. Tanto que agora era uma renomada artista plástica muito conceituada na Europa e agora, também no Brasil. Depois que seu marido morreu em 1984 decidiu que ficaria sozinha em sua residência/ateliê. O “Paulo” tocou a campainha e ela o atendeu à porta: - Oi meu anjinho! Entra... Ele entrou e a abraçou dando-lhe um beijo em seguida. Era um homem de mais de dois metros de altura que quase a “engoliu” com os braços. Ela perguntou: - Cadê os meninos? Ele tinha um casal de filhos; Um garoto de 21 anos e uma menina de 18: - O Sandor foi para a casa de Ubatuba e a Catarina inventou de ir para Barcelona com aquele punk que ela inventou que agora é seu namorado, para conhecer a “família paterna...” - E a Renata? Ele não respondeu. Ficou cabisbaixo depois andou até o lugar onde estavam os quadros que seriam expostos na próxima vernissage de sua Tia e começou a observá-los sem atenção. Ela notou: - Eu sempre te disse que o problema que deveria ter a sua atenção não era a vida da Catarina, Paulinho (ela jamais deixou de chamá-lo assim). Você e a sua esposa precisam conversar... - Tia... Eu não vim até aqui para falar disso! - Ta. Tudo bem, me desculpe. O que eu posso fazer para te ajudar então, filho? - Deixa eu massagear os seus pés, Tia? Eles se olharam por alguns segundos. Depois sorriram e ela fez um afago em seu rosto e então respondeu: - Claro, anjinho... MARCELO MENDES