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A Entrega I Concurso de Contos e Poesias BDSM - Participante

“O Senhor é um Dono maravilhoso. Sou Sua porque sou. Não é escolha, é mais forte que isso.” Ao ouvir essas palavras, Kraven sabia o quanto aquele ser lhe pertencia. Sabia que ele a tinha por completo, de corpo e alma e que nada iria mudar aquela situação. Parecia que tinha sido ontem que ela o havia conhecido. Algo tão inesperado, mas ao mesmo tempo tão certo quanto o dia dá lugar à noite. Bastou um olhar para que ela soubesse que tinha encontrado o seu Dono. Aquele Dono que tanto desejou durante sua vida toda. Sabia que naquele instante, havia encontrado alguém para se entregar e se submeter totalmente, como sempre sonhara. As horas se fazia dias... Os dias, semanas... As semanas, meses. Ela precisava falar com Ele, precisava encontrá-lo novamente, precisava sentir todo aquele poder, todo aquele domínio que Ele exercia sobre ela. Durante muito tempo ela ficou ali, calada, ansiosa, aflita, implorando que Ele a notasse por um instante, que percebesse o quanto ela Lhe pertencia e O desejava. A cada encontro seu coração disparava e não podia se conter. Precisava Dele, de qualquer forma, o quanto antes. Seus encontros nem sempre eram regulares. Muitas vezes Ele não aparecia, outras ela não podia ir, e isso a estava corroendo por dentro, afinal ele era o Dono dela, aquele a quem ela tinha que se entregar, aquele a quem ela tinha que servir. Mas então, algo lhe ocorreu, uma idéia. Iria procurá-lo. Por mais que isso parecesse absurdo, por mais que Ele a recusasse, ela o faria. Pensou em várias formas de acontecer, mas nenhuma delas lhe parecia plausível. O medo de ser rejeitada por Ele era enorme e qualquer falha da parte dela poderia resultar em Seu afastamento. - Não posso perdê-lo, dizia pra si mesma. Demorei tanto para encontrá-lo, não posso perdê-lo. Preciso Dele tanto ou quanto preciso do ar para respirar. A cada dia, sua angústia era maior, pois sua submissão gritava por Ele, seu desejo de servi-Lo mais e mais intensamente, era algo que a sufocava, pois não podia fazê-lo como queria. Numa manhã, depois de muito pensar e ponderar respirou fundo e disse: - É hoje! Tomou um banho demorado. Enquanto se banhava, imaginava como seria esse encontro. O que diria a Ele, como Ele reagiria ante sua presença. Pensou em desistir da idéia, mas o desejo de estar ao lado Dele era muito mais forte e intenso. Escolheu uma roupa apropriada, uma roupa que certamente despertaria a Sua atenção, uma roupa que ela sabia que O agradaria e saiu. - Onde Ele estará? Será que irei encontrá-Lo? Será que estou do Seu agrado? Ela sabia os lugares onde ele freqüentava e, decidida, resolveu ir até um desses locais. Escolheu um barzinho que freqüentavam. Não tinha nada de especial nesse bar, mas foi lá que ela O viu pela primeira vez. Chegando, sentou-se em uma mesa onde pudesse ver o movimento das pessoas entrando e saindo. Mal se continha na cadeira, tamanha essa a ansiedade e o medo de que Ele não pudesse aparecer. Quanto mais o tempo passava, mais ela ia ficava aflita. Seu coração quase disparava cada vez que alguma pessoa entrava naquela ambiente. O tempo, sempre cruel, avançava sem dó. A tarde se fora e a noite começara a dar seus primeiros sinais. Algumas estrelas já podiam ser vistas e suas esperanças de encontrá-Lo iam, a cada minuto, diminuindo. Por vezes ela parecia sentir seu perfume por perto. Em outras jurava estar ouvindo-O ao longe. Rapidamente se virava na direção da voz, apenas para constatar que não era Ele. - Devo estar ficando louca. Ah meu Deus, o que está acontecendo comigo? Que domínio é esse que me faz estar aqui, contra tudo e contra todos? Cinco horas se passaram desde que chegara ali. Parecia uma eternidade. O choro contido dentro do peito aos poucos começara a dar sinais que iria vencer aquela batalha. Não conseguindo mais se segurar, abaixou a cabeça e começou a chorar. Um choro intenso, um choro doído. Não se arrependera do que havia feito, tanto que faria tudo novamente, quantas vezes fosse preciso, mas daria seu mundo para que Ele estivesse ali para consolá-la. Nada mais importava. Não ligava que as pessoas passassem e a vissem naquele estado. Estava triste sim, e sem forças até para se levantar. Queria que o tempo parasse, queria que todos sumissem, para que pudesse ficar ali, sozinha, chorando por Ele. Estava tão entregue em seus pensamentos que não percebeu quando uma pessoa se aproximou de sua mesa. - Camilla, é você? Ela deu um pulo. Mal podia acreditar no que seus olhos a estavam mostrando. Ele estava ali, ao seu lado. Seu olhar era tenro e ao mesmo tempo forte. Ela tremia, suas mãos suavam e mal conseguia se conter na cadeira. As palavras não saíam tamanha era a mistura de sentimentos naquele momento. Procurou se acalmar, embora fosse humanamente impossível naquele instante, se ajeitou na cadeira, enxugou seus olhos discretamente, olhou-O rapidamente nos olhos abaixando a cabeça em seguida. - O que está acontecendo? O que faz aqui sozinha?E por quê está chorando? - Não é nada Senhor. - Como não é nada?! A começar pelo fato de você estar aqui, sozinha e, se não bastasse, chorando! Com certeza algo aconteceu. Camilla estava apavorada. Como dizer a Ele, que o motivo dela estar ali, o motivo do choro se resumia a Ele, ao fato dela O desejar acima de qualquer coisa em sua vida? - Camilla, qual é o problema meu anjo? “Meu anjo”. Se Kraven soubesse o efeito que essa frase causa cada vez que a pronuncia. Se Ele soubesse o quanto ela “ama” ser chamada assim. Seu corpo e sua mente reagem instintivamente a isso. É algo que foge totalmente ao controle dela. Como se fosse mágica. - Camilla... - Sim, Senhor. - Me diga o que está acontecendo. O que você está fazendo aqui, sozinha?! - Senhor... É que... Camilla não conseguia dizer. Por mais que desejasse, as palavras não saiam. Queria dizer-Lhe o quanto O venerava, o quanto precisava Dele, o quanto ela Lhe pertencia, mas simplesmente não conseguia. Começou a chorar novamente. Kraven se sentou ao lado dela e a abraçou. - Calma minha criança... Acalme-se. Por um breve instante, Camilla se deixou levar por aquele abraço. Um abraço tenro, carinhoso, cheio de conforto e proteção. Sim, proteção, algo que há muito tempo não sentia. Desejou ardentemente que aquele momento não acabasse, desejou que o tempo parasse para poder ficar ali eternamente. Sentia o coração do seu Dono amado batendo no peito, sentia sua respiração calma e serena, seu cheiro delicioso que conhecia tão bem. Aos poucos ela foi se acalmando. Suas mãos já não tremiam mais e seus pensamentos, embora fossem muitos, estavam se tornando mais claros. O choro já não existia. Em seu lugar, um misto de paixão, entrega e submissão. Ela sabia que precisava dar uma resposta, só não sabia o que dizer. O medo de dizer a verdade e Ele ir embora era tão grande que a fazia se calar. Seria tão bom se ela pudesse apenas ficar ali, quietinha, em Seus braços, se sentindo protegida, amparada, querida. - Você está melhor? - Sim, Senhor. Estou um pouco mais calma. - Vai me contar o que está acontecendo? - Senhor, eu quero, eu preciso, mas... - Mas...? - É difícil pra mim. Tenho medo, receio. - Medo? Receio? - É Senhor. Medo de não me fazer entender. Receio de ser mal interpretada e tornar as coisas mais difíceis do que já são pra mim. - Camilla, eu até posso entender esse seu receio, mas se você não me contar, como poderei lhe ajudar? - Eu sei Senhor, mas é que... O pânico estava novamente tomando conta de Camilla. Estava chegando num ponto onde só teria duas opções: Contar a Ele tudo que sentia ou simplesmente levantar-se e ir embora. Sua vida passou diante dos seus olhos, como num filme. Estava ali, com Ele, nos braços Dele, algo que ela não pensou ser possível. E agora tinha que tomar uma decisão. E essa decisão poderia mudar totalmente o rumo da historia. - Senhor... - Diga Camilla. - Senhor, por favor, não me julgue ou me interprete mal. Desde pequena tenho um sonho. Jamais pensei que um dia esse sonho se tornaria realidade, e por conta disso, o mantive esquecido, guardado dentro de mim, mas de um tempo pra cá, pude sentir claramente esse sonho ir se tornando realidade... - Mas o que isso tem a ver com você estar aqui? - Tudo Senhor. - Como assim “tudo”? - Senhor, ah meu Deus, como é difícil! Não sei por onde começar... - Por que não tenta começar desde o início? - Está certo. Desde menina, sempre soube qual era meu papel. Sempre soube que era submissa e sempre busquei por Aquele que me fizesse viver isso em toda minha essência. Mas o tempo foi passando, fui crescendo e aos poucos entendendo que tudo não passava de um sonho, que jamais iria encontrar esse “alguém”. Estava, digamos, conformada em viver uma submissão que na verdade era nada se comparado com tudo que sempre sonhei. Então um dia, eu conheci uma pessoa. E desde esse dia minha vida mudou completamente. - Você quer dizer que encontrou essa pessoa? - Sim. - Não consigo ver ainda onde está o problema que tanto lhe aflige. - Senhor, esse alguém que sempre procurei, é o Senhor. - Eu? - Sim. Não sei explicar, apenas sei o que sinto. Senhor, desde o primeiro momento em que olhei para o Senhor, tive a certeza de que meu sonho havia se tornado realidade. - Camilla, mas... - Senhor, me deixe terminar, por favor. Durante muito tempo eu mesma não quis acreditar nisso. Tentei de várias formas tirar isso da minha mente, mas quanto mais eu queria deixar de pensar, mais e mais eu pensava. Acordo pensando no Senhor, durmo pensando no Senhor e tudo o que eu faço, faço pensando no Senhor. Nada mais me importa. Kraven estava surpreso. Jamais pensou que um dia, fosse ouvir algo assim de uma submissa, principalmente de Camilla. Ele podia sentir o quanto Camilla estava aflita, mas também o quanto estava sendo sincera em suas palavras. Começou a lembrar de quando a conheceu e dos encontros que aconteceram depois. Tudo fazia sentido agora. A dedicação que ela tinha por Ele, a forma como O cumprimentava, como O olhava, como se sentava à mesa. Sempre associou essas atitudes e comportamentos como sendo algo natural dela, não pensou que toda aquela submissão e entrega eram dirigidas à Ele. - Senhor? - Sim Camilla. - Me perdoe! Não devia ter dito nada. E dizendo isso, começou a chorar compulsivamente. Kraven olhou para ela, não com um olhar de reprovação, mas com um olhar de quem estava orgulhoso e se sentindo extremamente lisonjeado. Ficou em silencio, apenas observando-a e imaginando o que estaria passando na mente dela. Como se ela pressentisse esse olhar, se levantou e se pôs a caminhar no sentido da saída. Kraven a segurou pelas mãos. Esse contato a fez estremecer dos pés a cabeça e sem pensar nas conseqüências, se ajoelhou aos pés Dele e beijou Suas mãos carinhosamente. A reação no bar foi automática. Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para aquela mulher ali, ajoelhada, chorando, aos pés de um homem até então como outro qualquer. Kraven nada dizia, apenas a olhava com ternura. Ele sabia muito bem o quanto aquilo significava pra ela. Sabia exatamente todo o contexto e simbolismo que envolvia aquela atitude dela. Ele a admirava enquanto ela acariciava sua mão com o rosto, de olhos fechados, como se ali não existissem mais ninguém além deles. - Camilla... Ela não o ouvia. Não queria ouvir. Na verdade Camilla não estava ali, estava em outro lugar. Como num transe ela simplesmente não se movia. Seu mundo estava ali, diante dela. Seu sonho se tornando realidade. Kraven percebeu isso e, ao invés de chamá-la uma segunda vez, a pegou pelos braços e a fez sentar novamente. Camilla estava de cabeça baixa, olhos fechados. Não queria abrir os olhos, não queria acordar desse sonho maravilhoso, não queria quebrar o encanto do momento. Kraven segurou seu queixo com a mão e a fez olhar pra ele. Embora tenha levantado seu rosto, os olhos dela permaneciam fechados. - Camilla, olhe pra mim. - Não posso Senhor. Não me atrevo a olhá-Lo. - Abra os olhos e olhe pra mim! Camilla estava com medo de abrir os olhos. Não sabia qual seria a reação Dele, não sabia o que Ele iria dizer, mas embora com medo, não podia deixar de acatar, afinal Ele era o Dono dela, Ele era aquele que tinha total e pleno controle sobre a vida dela. Se Ele desejasse que ela fosse embora, ela iria, sem argumentar, sem dizer uma única palavra. Então, respirou fundo, e foi abrindo os olhos lentamente. Quando seus olhos se encontraram com os olhos Dele, sentiu uma paz, uma tranqüilidade como nunca sentira antes. Ele sorriu e disse: - Não tema minha criança. Se acalme. Não há motivos para tanto choro. - Como não Senhor?! - Shhhhhh... Apenas escute. Relaxe. - Sim Senhor. - Você entende o significado de tudo isso? Entende exatamente o quão intenso é o que acaba de fazer? - Claro Senhor. E faria quantas vezes fosse necessário. - Camilla, posso imaginar o quanto teu coração possa estar pequeno e apertado nesse momento. Sei o quanto deve ter sido difícil pra você sair da sua casa, vir até aqui na esperança de me encontrar e me dizer tudo o que disse, sem contar com teu ato de submissão na frente de todos. Você foi muito corajosa e isso é algo que eu levo muito em consideração. Confesso que por várias vezes eu olhei pra você, assim como muitos já olharam, mas não pensei que um dia iríamos ter uma conversa como essa. Sempre olhei pra você e a imaginava em sua casa, no seu trabalho, na escola e, claro, imaginei você servindo a um Dominador, servindo a mim na verdade. Agora era Camilla quem estava surpresa. “Ele pensava em mim? Ele me olhava? Ele me imaginava servindo-O?”. Aquilo era algo totalmente novo pra ela. Jamais, em sua inocência, ela imaginara que aquele Dominador a olhava, seja de qual maneira fosse. Uma explosão de adrenalina começou a correr em suas veias. Sua respiração começou a ficar acelerada, suas mãos suavam e mal podia se conter na cadeira. - Sempre te observei Camilla, embora nunca tivesse dado a entender. Você é como poucas que conheço. É algo raro de se encontrar hoje em dia, mas sempre achei que era você quem não me notava. Você é uma pessoa que desperta o interesse de todos por aqui, haja visto que muitos já tentaram se aproximar de você. É verdade que, embora muitos já tivessem mostrado interesse em tê-la, você sempre os recusava e isso pra mim era como que um aviso de “Não se aproxime”. Então você deve imaginar o quanto fiquei surpreso com tudo que ouvi hoje. Saber que eu sou aquele a quem você sempre procurou me faz sentir como alguém privilegiado por ter tão bela pessoa. E não falo de beleza exterior, falo da beleza em sua submissão e entrega, mas tenho que te perguntar: Por que eu? Dentre tantos Dominadores por que eu? - Não sei Senhor. Apenas sei o que sinto desde o instante em que O vi pela primeira vez. Não foi nada que o Senhor tenha feito ou dito. Apenas O olhei e tive essa certeza dentro de mim. Camilla sorria e chorava, mas seu choro não era de tristeza e sim de felicidade. Todo o medo que até então estava sentido se fora como se nunca tivessem estado com ela. Seu amor por Kraven era mais do que notório e Ele sabia e entendia isso agora. - Senhor, me sinto como se tivessem tirado uma muralha de cima de mim. Me sinto a mulher mais feliz do mundo, a submissa mais completa que existe. - E deve se sentir assim mesmo Camilla, pois a partir deste instante você não sentirá mais nada a não ser alegria, carinho, zelo e proteção. - Mas, o Senhor está dizendo que... - Sim Camilla, estou dizendo exatamente o que você está pensando. Estou tomando posse daquilo que é meu. Estou tomando posse de você! Desde momento em diante serei, de fato e de verdade, um Dono zeloso, um Dono justo, serei Teu Dono. - Senhor... - Diga minha menina. - Adoro quando me chama assim Senhor. Me sinto mais do que Sua. - Vamos pra casa minha criança. Vamos viver o nosso sonho.