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Jogos de Adultos
O som da Loreena McKennitt, mais precisamente o álbum Book of Secrets, inundava o ambiente do pequeno apartamento, como se fosse música dos anjos vinda dos céus e se transformando na trilha sonora de toda a terra. Era noite. Eles haviam acabado de chegar. Ela estava linda. Se tinha uma coisa que aquela mulher tinha era estilo ao se vestir para uma saída. Sempre toda de preto, seus cabelos negros, lisos e longos, contrastando com seu rosto pálido. A maquiagem exótica em redor e nos cantos dos olhos lhe davam uma aparência de uma princesa do Egito antigo. Ela também dominava, mas para ele era apenas submissa, e das melhores. Jamais o tinha encontrado sem, antes de qualquer coisa, de qualquer outro cumprimento, beijar-lhe as mãos, estivessem onde estivessem, demonstrando que antes de qualquer outra coisa, vinha a escrava e o seu respeito pelo dono. Poderia haver nela várias outras mulheres, a namorada, a amiga... mas antes destas, estava a escrava. Ele tinha estipulado para si mesmo que tinha duas horas para fazê-la chorar, tocando nela o mínimo possível. Ela não sabia, e isso era parte importante do jogo daquela noite. Ele sabia que tinha que se esforçar. Cada gesto e cada expressão sua seriam fundamentais para o êxito na tarefa de desestruturação que tinha pela frente. Não pretendia que fosse uma mera cena de humilhação, simples e previsível. Com uma escrava tão experiente não teria o efeito desejado duas dúzias de xingamentos e provas de indignidade ou repulsa. Isso soaria falso. Aproximou-se da janela e ficou fitando a rua, perdido em seus pensamentos e planos. Nessas ocasiões, sempre que estava para fazer alguma maldade, iniciar uma cena, ele ficava tenso e em silêncio por algum tempo. Quase não falava. Era como se o demônio estivesse para ser libertado do cativeiro e a tarefa exigisse concentração absoluta, absorção máxima. Ela se aproximou para abraça-lo carinhosamente, como as vezes fazia ao vê-lo assim, calado e com o olhar distante. Ele sentiu seu corpo sendo envolvido pelos braços dela e isto foi o estopim, se lançou imediatamente na empreitada como se tragado com urgência por sua natureza demoníaca. Virando-se, a empurrou e desferiu-lhe um fortíssimo tapa na cara. Ele adorava fazer isso, humilhar, maltratar quem lhe dava carinho e estivesse aparentemente desprevenido, desprotegido. Covardia? Ele não sabia, mas extasiava-lhe. Quando começava, sentia o ímpeto forte de partir para cima e não parar mais de esbofetear, mas sempre se segurava. Domara sua Besta. Tinha prazeres que ela não podia ter, não adiantava insistir. Ela percebeu que era momento de iniciarem uma sessão de torturas, já estava acostumada com aquele sinal, era como apertar a tecla play de um aparelho de áudio. Imediatamente ajoelhou-se na frente dele no chão da sala e abaixou a cabeça, à espera de ordens e à disposição. Ele nada disse. Começou a andar em círculos em volta dela, bem devagar, analisando. E demorou fazendo isso. Queria deixa-la apreensiva. Ela estava muito acostumada a prever as situações. Hoje não a deixaria fazer isso. Hoje a surpreenderia.
Vinte minutos se passaram. Nenhuma palavra. Ela se sentia excluída. Desta vez ele não compartilhava a cena. Desta vez era só dele; não a deixava participar. Ela estava desorientada.
Ele estava estranho, muito estranho. Agora, com sua mais temida chibata na mão, parecia uma constante e silenciosa ameaça para ela. No entanto não dizia nada, apenas circulava. Teria ela feito alguma coisa assim tão reprovável? Ela se perguntava, repassando na mente os últimos dias, as últimas horas. Não encontrava nada que pudesse justificar aquilo, só ficava mais desorientada. Os motivos haviam se escondido dela e isso a incomodava.
Finalmente ele desaparece na direção do quarto e em instantes retorna com suas cordas na mão. Fez sinal para ela se livrar das roupas e, sem dizer mais nada, começou a manipular seu corpo, fazendo amarras ao método japonês antigo de amarrar prisioneiros. Atou os punhos atrás do corpo, com as mãos apontando para a nuca, os tornozelos aos pulsos, com as pernas dobradas nos joelhos, de modo que as solas dos pés também ficassem voltadas para a nuca. Depois disso, passou uma corda em seu tornozelo e pulso esquerdo, pelo pescoço, e desceu pelo pulso e tornozelo direitos, fazendo com que ela ficasse envergada pra trás em forma de arco e ao tentar uma posição melhor quase se estrangulasse. Largou ela num canto, tendo que olhar para cima. Seu olhar ainda era severo. Acusador. Desta vez ela tinha feito algo sério que ainda não descobrira o que era. Não perguntaria. Demonstrar curiosidade seria interpretado como medo e isto significava uma risada de sacarmos, deboche. Não, ela desafiaria o silêncio dele com o dela, pelo menos enquanto agüentasse.
Ele aumentou o som, mudou a música e agora dançava feito um desequilibrado furioso que está tentando se livrar de uma profunda dor. Dor que ela não sabia qual era. Só sabia que ele sentia. Estava estranho. Diferente. Irreconhecível. Talvez o relacionamento deles acabasse hoje, ali mesmo. Aquela seria a última sessão. Mas por que? Ela se perguntava.
Ele permanece dançando, se é que aquilo podia ser chamado de dança. Não olha para ela, não se importa com a sua dor. Aquelas amarras são extremamente doloridas. Estão apertadas. Não lhe dão chance alguma de se mover ou de descansar da posição. No entanto, ele parece não ligar. Esqueceu-se dela. Não liga mais para ela. Ela fez algo tremendo que ele evita tocar no assunto. Mas o que? Ele está demonstrando toda a sua desaprovação, mas ela não sabe o que.
Todos esses pensamentos e dúvidas vão minando as suas forças psicológicas. Já beira uma hora e meia que estão naquele impasse. Sem diálogo, sem chance de defesa, seja lá do que for. É uma pena que tudo tenha que se acabar assim.
Ele dança desengonçado e entoa as músicas como se estivesse sozinho em seu próprio quarto. Tinha tirado a camisa. Ela inexiste para ele e isso a angustia.
É difícil ver isso acontecer e não poder fazer nada. É triste, extremamente triste. Ela pensa em tudo o que eles viveram até ali. Foi bom. Foi muito bom. Esperava continuarem, mas pelo visto não havia mais condições. Tudo estava acabado. Ele era difícil nessas coisas, não gostava de repreender. Isso sempre lhe soava como uma fraqueza, uma coisa de baixo nível. Demonstrava de outras formas, mas achava sempre que se tivesse que ficar toda hora repreendendo, seria ele o escravo. A escrava poderia manipula-lo a repreender, desta forma chamando a sua atenção desnecessariamente. Gostava que a escrava se preocupasse em perceber, que fosse atenta, e ela havia falhado nisso. Os olhos dela se enchem de água. Pensou em falar. E o medo de falar em algo que parecia aborrece-lo tanto? Não, isso teria que partir dele. Já tinha, noutras ocasiões, tentado começar um diálogo sobre um assunto que ele não queria falar e o que fez foi deixa-lo ainda mais furioso. Se havia alguma pequena chance ainda entre eles, se ela abrisse a boca, tinha certeza, seria interpretada como condução e esta chance se desvaneceria para sempre.
As lágrimas começam devagar a lhe escorrer pelos olhos. Primeiro eles se molharam, só agora, quando os apertou com mais força, eles transbordaram, mas ainda timidamente, não chegaram a molhar as faces.
Ele dá a primeira olhada rápida e desinteressada para ela. Ela estava lá, indefesa, perdida em sua confusão. Estava sofrendo. O sofrimento já estava estampado em sua expressão. A visão faz um calafrio de prazer, junto com piedade, percorrer todo o seu corpo, como se seu cérebro tivesse descarregado uma boa dose dele em forma de liquido diretamente na sua corrente sanguínea. Crueldade e compaixão, estes dois sentimentos opostos pareciam causar um curto circuito em seu cérebro e gerava prazer e bem estar como resultado. A ciência explica, a psicologia explica, mas ele sente. Mas ainda era pouco. Ele precisava vê-la aniquilada, totalmente rendida.
Não demorou muito mais e a princesa do Egito antigo tinha desaparecido. Sua maquiagem tinha sido lavada com suas lágrimas. Sua angústia, somada com a dor do corpo, provocada pelas amarras, a haviam finalmente feito perder toda sua dignidade, toda sua compostura. Ela estava emocionalmente abalada de verdade. Aquilo não era fingimento. E exatamente por isso, ele recebia mais e mais do diabólico e viciante liquido cerebral no sangue, a lhe extasiar. Mas era preciso parar. A piedade que sentia já atingira seu cume. E quando ele sentia isso, era hora de parar. Já estava suficientemente marcado com a cena para receber seu suprimento por uma semana, apenas com as memórias. O fluxo no sangue agora era automático e permaneceria assim por algum tempo, como se as faíscas do choque dos dois sentimentos tivessem finalmente gerado uma chama, e o mérito era dela. Agora era preciso parar de dançar e tirar ela do abismo em que estava lançada. Era preciso resgata-la. Excitado. Ele vencera. Mais uma vez ele vencera. Precisava agora ama-la. Precisava agora desfrutar do seu corpo com tanto carinho que ela sentisse sua gratidão e seu apreço em cada poro. Reverenciaria cada milímetro do corpo dela pelas próximas duas horas. Quando atingia este nível, ele sempre se sentia muito grato e o impulso era recompensar, proteger.
Começou a desamarra-la. Carinhosamente a envolveu em seus braços. Não era mais o mesmo homem que dançava. Voltara a ser o homem que ela conhecia, mas ela ainda estava confusa com a mudança. Ainda não entendia. Os beijos dele mostravam a ela que fora tudo uma grande viagem e ela se sentia ridícula, chorava e ria. Foram à cama e... bem... só se sabe que acordaram bem tarde no outro dia, e mesmo assim, não saíram dela, exceto para comerem e ir banheiro.