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Lembranças do Calabouço - Cap 4
Amanheceu e continuei dormindo. Estava muito cansado e minha mente não tinha processado todos acontecimentos da noite anterior. Fui acordado por Ana, que mexeu nas minhas correntes, libertando-me com uma chave. Eu abri os olhos e pensei estar em casa. Mas a visão daquela jovem me fez recordar de tudo.
- O senhor Frederico está lhe aguardando para tomar o café da manhã. Você tem sorte, menino. São poucos os escravos que tiveram esse prazer...
Senti uma ponta de inveja naquelas palavras. Me lavei apressadamente e vesti umas roupas que estavam em cima da cama. Então fui até a sala. As cortinas estavam abertas e meus olhos ficaram sensíveis com a claridade. No fundo estava a grande mesa. Sentado na cadeira da ponta estava o senhor Frederico. Sua silhueta era escura e fazia contraste com a luz.
- Vamos, sente-se ao meu lado.
- Sim, senhor. - respondi, já automático.
Assim que puxei a cadeira vi uma coisa assustadora. Sem acreditar no que via, olhei para o senhor Frederico, que soltou uma imensa gargalhada. Era uma cadeira adaptada e nela havia uma protuberância num lugar estratégico. Eu não queria sentar naquele lugar.
- O que está esperando? Eu já mandei sentar, escravo!
Ainda sem acreditar no que via, sentei na cadeira. Tive uma sensação estranha. Não era uma protuberância grande, mas uma elevação que se adaptou em mim. Provocando um desconforto que não era doloroso, mas vergonhoso. Meu mestre sorriu e continuou a comer. Falou que eu poderia me servir a vontade. Quando me estiquei para pegar um pão, ele puxou a toalha da mesa, fazendo com que ele ficasse mais distante. E a medida que eu esticava meu corpo, sentia aquele objeto me incomodando mais.
- Não se levante! - ele disse, prevendo a minha atitude. - Você tem dez minutos para comer.
Eu me esforcei e consegui comer. Mas parecia que aquilo se tornava maior a cada minuto. Só então compreendi que havia um pedal naquela cadeira. E mestre Frederico pisava, controlando a profundidade que aquele tronco se levantava da cadeira. Eu comecei a suar e estava me sentindo muito mal. Entretando consegui me alimentar bem. Me observando, ele fumava um charuto, enquanto sorria na minha situação. E no final do café da manhã, eu já estava cinco centímetros violado.
* * *
Mais tarde, mestre Frederico saiu. Depois eu descobri que ele era muito ocupado e fazia viagens, algumas muito longas. Quando isso acontecia, quem ficava no comando da casa era Inacio. Eu ainda não o conhecia, quando Ana o descreveu:
- Ele é um homem péssimo. Não entende que todos temos um limite e é capaz até de matar uma pessoa! Mas não se assuste, Bruno. Sempre que o mestre Frederico descobre que ele passou dos limites, ele o pune. O problema é que ninguém tem coragem de dedurá-lo. Lembro que uma vez uma escrava tentou dizer para mestre Frederico que ele havia a estuprado durante todo seu período de viagem...
- E o que aconteceu, Ana?
- Continue limpando as vidraças. Você pode ouvir enquanto trabalha. Se não terminarmos isso rápido não poderemos limpar o resto da casa. - disse, enquanto esfregava as imensas janelas. - Antes que ela pudesse dizer a verdade, Inacio a trancou na caixa.
- Caixa? O que é essa caixa? - perguntei, sem parar de trabalhar.
- É uma caixa de tortura. Ela é de ferro, pequena e a pessoa fica presa dentro dela. Só tem espaço para colocar a cabeça do lado de fora. E depois nem pode se mover porque ela é fechada. Inacio a prendeu lá por três dias. Ela estava vendada e algemada dentro da caixa. Eu a visitava apenas para levar comida e água para ela...
- Que coisa horrível!
- Inacio colocou a caixa próxima do sol, então de dia esquentava muito e ela se debatia por causa do calor. E eu vi as várias vezes que ele se aproximava da caixa e urinava em seu rosto, perguntando se assim ela estava mais refrescada.
Aquele depoimento me fez tremer. Inacio parecia ser realmente uma pessoa ruim. Ele era essencialmente malvado e parecia não ter escrúpulos. Eu não conhecia a caixa e nem fazia idéia dos outros instrumentos e objetos de tortura que haviam naquela casa. Para mim, muitas coisas ainda precisavam ser descobertas.
Pensei um pouco na minha família. Lembrei do meu primo, que sempre implicava comigo. Acho que ele tinha inveja. Naquela hora eu deveria estar assando pães, no entanto estava limpando vidraças. No final das contas não parecia ter sido tão ruim assim. Perdi a minha liberdade, mas pelo menos era por causa de um homem bonito como o senhor Frederico. A sua beleza era o que me conformava, afinal poderia ser muito pior...
Depois de limpar as vidraças, encerei o chão de todo o primeiro andar, menos de um quarto. Ana me disse que só o mestre Frederico poderia entrar lá. Minha curiosidade foi despertada naquele instante e, assim que me vi sozinho, tratei de olhar pela fechadura da porta.
Então vi uma pessoa totalmente amarrada, vestida dos pés a cabeça com uma roupa preta de couro. Era uma silhueta escura e apertada, que demorei para identificar como humana. Na cabeça, havia um cano longo, que terminava mais ou menos no chão. Estava imóvel como uma estátua. Me perguntei mentalmente se era mesmo uma pessoa que estava confinada daquele jeito.
Mestre Frederico só voltou para casa de noite. Nesse tempo, eu fiquei apenas limpando a casa. Eu já estava muito cansado quando ele retornou. Abriu a porta com força e rapidamente sentou-se na poltrona. Estalou os dedos e um escravo apareceu e ficou de quatro. O senhor Frederico esticou os pés, usando-o como apoio.
Ana surgiu com uma taça com conhaque. Ele pegou bruscamente e tomou num só gole. Em seguida me olhou com um olhar flamejante. Fiquei sem saber o que fazer, apenas olhei para baixo. Ele parecia nervoso e exaltado. Ordenou com uma voz grave e séria:
- Está esperando o que para retirar meus sapatos e massagear meus pés, escravo? Será que terei que te ensinar sempre a fazer isso?
- Não, senhor. P-perdão! - disse, me abaixando e fazendo o serviço.
Me ajoelhei e pus a tirar os sapatos. Eram pretos e de couro. Puxei os grossos cadarços, já sentindo um forte cheiro masculino. Então tirei o primeiro pé, seguido do segundo calçado. Olhei para cima e o vi me encarando. Seus olhos estavam pequenos e ele tinha uma expressão tão austera que me fez desviar o olhar e continuar meu trabalho.
O outro escravo que estava de quatro estava imóvel como um objeto. Eu não o conhecia ainda, mas pude perceber que ele era mais velho e experiente. Puxei lentamente as meias e comecei a massagear seus pés. Eles estava suados e com um forte odor. Imaginei que ele tivesse feito muitas coisas. Olhei-o novamente e, mais uma vez, ele me observava com o rosto fechado.
Levei um susto quando ele se esticou, empurrando-me com o pé. Cai no tapete, surpreso. Ele então mandou o escravo deitar-se no chão e subiu em cima dele. Fiquei sem reação, enquanto via o escravo ser pisoteado sem dó. Ele gemia, se contorcendo e parecia perder o fôlego toda vez que mestre Frederico pisava.
Pisoteou seu estômago, seus braços e sua cintura. Mesmo assim o escravo continuava imóvel. Escutei uma risadinha irônia, quando ele pisou no rosto do escravo, colocando seus dedos no nariz do submisso. Ele agora respirava seu chulé e nada mais. Mestre Frederico olhava para baixo e pude sentir o que ele pensava da situação:
- Você não vale nada, serve para mim apenas como um capacho. Uma diversão para que eu me sinta melhor enquanto te humilho. Vermezinho que posso matar quando quiser...
Ele então colocou o pé no pescoço do escravo. Se equilibrou de uma maneira diferente, o que fez o escravo emitir alguns sons estranhos e ficar com a cabeça vermelha. Mas meu senhor era experiente e sabia bem até onde ir. Continuou sufocando o escravo, até pisar novamente em seu peito, fazendo com que ele recuperasse o fôlego a tempo. Escutei uma nova risada, então ele pisou no chão.
- Quer tentar, escravinho? Aposto que você nunca foi pisado...
Eu fiquei mudo e ele parece ter enxergado o terror refletido em meus olhos. Ele era muito alto. Sentado no chão, eu o olhei, levantando minha cabeça. Aquela figura imensa, forte, vestida elegantemente com um terno preto, queria me pisotear. Estava com planos de me esmagar com os pés. Estremeci somente com a idéia.
- Deite-se agora. - disse, rapidamente.
Não acreditei no que ouvia. Ele era muito grande e devia ser pesado. Senti que poderia até morrer caso ele fizesse o mesmo comigo. Deitei com medo. Agora ele parecia ainda maior. No chão, fiquei o observando e vi o brilho de seus dentes, num meio sorriso cheio de maldade. Ele perguntou se eu estava preparado e levantou o grande pé em cima de mim.
Senti aquele imenso pé em meu peito. Ele só estava pisando, não estava apoiado. E lentamente foi transferindo seu peso em meu corpo. Uma sensação dolorosa, sufocante, surgiu quando ele começou a me pisar. Fechei os olhos com força e tentei respirar. Mas sabia que não podia aguentar aquela situação por muito tempo. Ele era pesado e imenso. Escutei sua risada de novo:
- Está confortável, verme? Está gostando de ser esmagado pelo seu dono?
Não pude responder, meus pulmões estavam sem ar. E senti que ele me esmagava como quem apaga uma bituca de cigarro no chão. Estava me esvaziando, perdendo as forças, quando senti ele retirando o pé, inesperadamente.
- Vamos nos divertir de outra maneira, venha! - disse, com uma voz animada.
Com dificuldade, me levantei e o segui. No trajeto, pensei como aquele outro escravo era forte. Com apenas um pé, meu mestre quase me tirou a vida. O outro escravo havia sustentado todo o seu peso. Devia ser muito experiente. E foi pensando que nem prestei atenção onde estava indo. Mestre Frederico pegou uma chave e abriu uma porta.
Era justamente o quarto onde só ele poderia entrar.