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Feliz Aniversário
Estou em um lugar desconhecido, nem muito claro, nem muito escuro, estou nua, ou melhor, estou de meias pretas 7/8, só isso.
Há uma mesa de madeira à minha frente que naquele momento sei que foi construída, foi pensada... pra mim. Ele vem e me olha sem um sorriso, sem nada que demonstre simpatia, eu não sei o que existe dentro Dele naquele instante e fico assustada. Me deita de costas por sobre a mesa e cada membro meu é atado à uma perna da mesa, ela não é nem alta, nem baixa, nem curta nem comprida, nem larga nem estreita, ela é do tamanho certo pra acomodar o meu corpo e agora eu faço parte dela.
Fico lá pernas e braços abertos, arreganhados como a mesa, cabeça pendida para trás, desconfortável. Ele, ainda sem me dirigir a palavra, trás objetos às mãos firmes e ágeis, mãos nas quais eu confio, mãos que eu respeito, mãos que sempre me surpreendem.
Diz num tom quase impessoal, como que pensando alto, mas sabendo que a dúvida me humilharia:
- Será um bolo bom?
Ele chega pra perto de minha cabeça pendida e diz:
-Vc queria me dar um presente, tem certeza que ainda quer?
Respondo que sim.
Ele ainda questiona, meio malicioso:
- Tem certeza??
Eu busco um sorriso de afirmação em qualquer lugar dentro de mim e oferto a Ele. Ele sem se comover com meu sorriso entende.
Me mostra o objeto em suas mãos. São velas estrela de prata, Dezenas delas, mas são diferentes um pouco das que são encontradas em supermercado, o cabo foi encompridado e substituído por agulhas, não sei como Ele manufaturou isso, só sei que foi Ele, um calafrio me percorre o corpo ao imaginar as intenções Dele, eu ali desprotegida e nua, eu o bolo, Ele, o aniversariante com suas 41 velinhas.
Após desinfetar meu corpo, vagarosa e doloridamente Ele vai colocando as velas sobre o bolo, do modo que Ele julga mais belo aos olhos dele, mais prazeroso para Ele, grandes lábios vaginais são atravessados, vulva, toda a porção interna das coxas, ancas, ventre, seios, e a cada vela que é espetada em mim Ele me olha e espera atentamente uma lamentação, um gemido de dor, uma lágrima, um suspiro ou respiração mais forçada, algo que demonstre meu sofrimento e agonia. Eu me concentro na dor. Nas mãos que fazem doer mais forte o que poderia ser menos dolorido se Ele assim quisesse.
Não sinto prazer na dor que Ele faz aumentar com batidinhas ou com comentários humilhantes, mas firme em meu propósito de ofertar um bom presente, agonizo com dignidade... uma dignidade ambígua pq sei que Ele deseja ver meu sofrimento mas eu tento a todo custo esconder, agüentar, acho que no fundo com isso o que tento é prolongar o prazer Dele em me flagelar.
Todas as 41 velinhas postas, Ele vem e trás agora em suas mãos o isqueiro e sinto uma angústia inigualável. Nada se compara ao desespero ao ver o fogo vindo, sei que ele nunca me machucaria mas sinto medo e de medo eu me entrego e perco a dignidade e choro... Ele me olha demoradamente e eu apenas choro, gordas lágrimas silenciosas descem rumo aos meus cabelos pendidos. Ele sabe que deve continuar.
Acende as velas e elas espocam no ar como lindos fogos de artifício, eu ali toda iluminada qual Baía de Guanabara em noite de Ano Novo e chorando agora sem pudor, chorando copiosamente. As velas não me queimam, Ele pensou em tudo, estão na altura certa e então me deixo chorar de vergonha por ter temido, de vergonha por num átimo de segundo ter fraquejado em minha confiança, de vergonha por me ver reduzida a um objeto, apenas choro de vergonha associada à dor (se é pra chorar, choremos por tudo e em alto e bom som), e Ele fica feliz... e aos poucos essa felicidade Dele vai se transformando em genuína comoção, as velas se apagam e é hora de comer o bolo.