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Podólatra
Quantos, no meio desse aperto, dessa agitação, dessa música ensurdecedora, buscam o mesmo que eu? Mais de um (além de mim mesmo)? Um? Talvez, observando bem, perscrutando os cantos escuros desse lugar, eu identifique algum companheiro de aventura, aquele com o objetivo específico, singular, incompreensível para a gleba dominante nesse micro-universo de maquiagens pesadas, álcool e abordagens grosseiras. Nunca encontrei. Quer dizer, encontrei uma vez, mas não por acaso. Na verdade, fui conhecê-lo, tamanha a fama do rapaz, no seu posto debaixo da escada de uma casa noturna, pronto a "dar o bote" nos pezinhos femininos que subiam e desciam, por toda a noite. Fora isso, nenhuma vez. Talvez eu seja o único, ou melhor, minha forma de agir seja única, mas com certeza existem outros; se não com o mesmo modus operandi, com o mesmo fetiche, disso não tenho a menor dúvida. Se existem, e sendo tão discretos (ou mais) quanto eu, é compreensível que eu nunca os tenha identificado. Nem eu nem eles queremos isso, aliás. Ademais, minha vigília está sempre focada em alvos definidos, os pezinhos femininos, e não em supostos e imagináveis concorrentes.
Recostado ao balcão ou em algum local onde eu possa ficar incógnito, com uma long neck na mão, observo. Minha missão, na noite, resume-se a observar, e atacar no momento oportuno. Não o tipo de ataque que o leitor, creio, está imaginando. Quanto a este, não nutro esperanças há tempos. Simplesmente descobri, bastante tarde, admito, que não existem algumas situações e alguns tipos de garotas que eu idealizava, a partir de escutas eventuais de conversas de pseudo-amigos "garanhões". Ou talvez não tenha aprendido o "segredo", ou não tenha talento pra coisa mesmo, sei lá. Mas é certo que um cara sozinho não tem muita chance. Ficar com uma garota na balada, embora já tenha acontecido, hoje não ocupa uma ínfima parte nas minhas preocupações. O coração endureceu um pouco, está mais protegido. Além de que 'Balada não é lugar pra arranjar namorada', não lembro onde nem de quem ouvi isso. Atualmente, quando saio, concentro todas as minhas energias num objetivo específico, que é satisfazer meu fetiche podólatra.
As que calçam scarpin, mules e tamanquinhos são as minhas favoritas, pois elas sempre dão uma "tiradinha" durante a festa, principalmente ao final, quando sentam para descansar. Isso quando não dispensam num canto esses adoráveis objetos de fetiche, para dançar. Esse é o tão esperado momento, a coroação do meu esforço, a possibilidade de "ganhar a noite". Ao mesmo tempo, porém, o momento de maior tensão, que me exige estratégia, raciocínio rápido e muita observação, em frações de segundo. A possibilidade de "raptar" um desses sapatinhos, se surgir será por um curtíssimo espaço de tempo, em que a garota e todas as pessoas que a acompanham estejam distraídas, além do local precisar estar razoavelmente cheio e não ter nenhum segurança muito próximo. Meu movimento precisa ser rápido e preciso, e o afastamento do local, idem. Em outras palavras, um ataque surpresa, ou um ataque terrorista, como preferirem. A diferença é que, neste caso, não tenho intenções maléficas.
No que consiste esse ataque? Consiste em chegar bem perto do alvo (o scarpin que a garota descalçou, por exemplo) e, chegado o momento propício e único, satisfeitas todas as condições, abaixar-se, passar a mão no calçado, levá-lo às narinas e aspirar profundamente; tocar o interior dele com a língua, enquanto isso, também é uma delícia; após, recolocar o sapato no lugar em que o pegou, levantar-se e sair, calmamente. Tudo muito rápido, questão de cinco segundos, pra não dar tempo da "vítima" recuperar-se do susto. Sempre tomo o cuidado de observar se a garota não está com um ficante ou namorado; caso contrário, é confusão na certa. Também, após o inocente "ataque", afasto-me do local por um tempinho, torcendo pra que a garota não seja "esquentada", chame os seguranças e faça um escândalo.
E quanto aos pezinhos? Embora seja uma operação muito mais difícil e delicada, já "ataquei" alguns na balada sim. Foram ocasiões raríssimas em que elas puseram os pezinhos descalços para o alto, numa cadeira ou mesmo na mesa. Vendo uma cena dessas, não tive dúvida: aproximei-me, como quem não quer nada, e 'SMACK!'. As reações foram quase sempre de gargalhadas, pelo que me lembro, ou de espanto mudo. Felizmente.
Frações de segundo de um prazer intenso e proibido. Uma intimidade e cumplicidade absolutas. Ínfimos momentos no nirvana, sentindo o cheirinho inebriante do pé daquela garota, com o nariz enfiado no scarpin dela ou com os lábios colados nos seus dedinhos, num rápido e inesperado beijo. E tudo acaba, tão rápido como começou, sem transição, sem compreensão, como mágica. Para quem observa de fora, desprovido de tal fetiche e imparcial, um ato patético, absurdo. Mas quem nunca fez papel ridículo e absurdo na tentativa de satisfazer algum instinto? Ou mesmo movido pelo amor, a paixão, simples e "normal"? Os instintos... ou os reprimimos, e eles manifestar-se-ão em direções perigosas, ou fazemos papel ridículo. Na nossa cultura. Pensar nisso é uma merda. Na nossa cultura...
E depois? Falar com ela, tentar me explicar, pedir desculpas? Falar que eu sou podólatra e tal, e a história toda até o meu ato insano? Acho que não faria grande diferença. Encontrando-a em outro lugar, na rua, posso até puxar conversa, me desculpar e meio que explicar a coisa toda, de preferir uma compensação de frações de segundo àquela lenga-lenga falsa, não-original e alcoolizada que eu acreditava quando tinha o coração jovem e puro.
Hoje a noite já deu o que tinha que dar. Não encontrei outro scarpin dando sopa, como esse que acabei de inalar. Aliás, essas situações estão cada vez mais raras. Estranho... tenho a impressão de que hoje elas estão mais precavidas contra podólatras (mas que podólatras?); não desgrudam a atenção de seus scarpins e mules um segundo sequer. Mal os descalçam. Mas valeu, foi delicioso. Meu entorpecente. Hora de ir embora. Essa "pegação" e essa "fazeção" me dão nos nervos. Não é meu habitat.