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Cárcere PrivadoII Concurso de Contos e Poesias BDSM - Participante
Há tempos que Saulo a observa, pelos corredores frios da faculdade, no bar, na parada de ônibus. Aquele coturno preto, as meias das mais inusitadas cores, saia de couro negro, jaqueta idem (ou não), sombra carregada nos olhos, cabelos arroxeados e a tez pálida formam um conjunto que torna Daphne única aos olhos dele. Baixinha sim, de aspecto frágil, modesta bunda e quase nenhum peito, mas o rapaz não liga pra isso. Adora seus olhos. De todas as garotas das quais gostou, desde o primário, nenhuma era do tipo "disputada".
Algumas bem feinhas, aliás, do que ele só se tocava tempos depois de terminadas as efêmeras e platônicas paixões. O que as tornava atraentes para
Saulo? Quase sempre o olhar, ou um jeito diferente de sorrir, talvez a própria ausência de atrativos, ou mesmo, vai saber, algum defeito. Que fosse obra da natureza, providência divina, isso não tem a menor importância agora.
Se tem alguma coisa que Saulo sabe sobre Daphne é que ambos, cada um a seu modo, são diferentes, não se encaixam em certos meios onde são obrigados a estar - a faculdade, por exemplo. Não têm amigos; não lá. Ele, na verdade, não tem quem possa chamar de amigo em lugar algum. Mas na faculdade eles são iguais. Dois fantasmas se cruzando por aqueles corredores, suportando aulas
chatíssimas depois de um dia de trabalho, à custa daquele café ruim do bar.
Pior são os trabalhos em grupo, onde têm de fazer caras e bocas e ares de inteligentes. Apesar de cursarem algumas cadeiras em comum, ainda não
trocaram palavra e sabem que cedo ou tarde o farão. Saulo está decidido a tomar a iniciativa, até porque tem certeza de que ela não mostraria qualquer interesse em conhecer um cara tão 'sem sal' como ele, que certamente não freqüenta bares underground, não ouve o que não toca no rádio e jamais pensou em se vestir diferente ou sequer mudar o penteado.
A oportunidade surgiu numa aula de psicologia. Discutia-se a dependência emocional e o amor perverso, após a apresentação do filme "Lua de Fel".
Saulo, numa discreta euforia causada pelo filme, apesar da ressaca da noite anterior, sentiu uma vontade inexplicável de saber a opinião de Daphne.
- Bastante intenso o filme, não? Penetra a fundo a alma dos personagens.
- Sim, a crueza dos sentimentos, a perversidade... Polanski é um gênio!
- Crueldade da mulher, tratar o cara daquele jeito, né?
- Ele mereceu.
Saulo se excita com a resposta.
- Você já se imaginou no papel da Mimi?
- Claro! E te digo que faria igual.
- Sério?!
- Faria! Talvez até pior! Com o amor de uma mulher não se brinca.
- Nossa... mas... e num contexto diferente?
- Como assim?
- Supondo que o amor não estivesse envolvido, não o teu, pelo menos. A perversidade pela perversidade.
- Por qual razão? Por que eu seria perversa com alguém que não merecesse?
- Se um cara quisesse experimentar sensações novas e profundas, ao mesmo tempo permitindo que você experimentasse outras de igual intensidade; que quisesse se submeter incondicionalmente, servindo como o objeto sobre o qual você descarregaria seus demônios internos.
- Você fala dos sadomasoquistas?
- Não gosto de rótulos.
- De que sensações você fala? O que eu e o suposto cara ganharíamos com isso?
- Vamos colocar em outros termos: e se vocês quisessem 'viver' o que acabamos de ver no filme? Não fazer um simples teatrinho, mas tentar trazer
à tona os mesmos sentimentos e sensações que se apropriaram dos personagens? Seria consensual, claro, mas sem perder a seriedade. As humilhações e o sofrimento seriam reais. Uma experiência intensa, um mergulho profundo, como no filme, enfim.
- Eu, hein! Nunca pensei nisso.
- Mas você nunca sentiu, de leve, uma vontadezinha de encarnar a Mimi?
- Isso já, mas nunca gratuitamente, sem motivos fortes.
- E se surgisse uma oportunidade tal qual te falei?
- Olha, não sei, Saulo, não sei mesmo. Interessante a situação que você imaginou, seria algo realmente intenso, mexeria com instintos, limites, mas não sei se embarcaria. Quem sabe? Preciso ir agora. Até mais!
A semente fora lançada. A partir daí eles começaram a conversar com mais freqüência, procurando se conhecerem melhor. Ainda que tivessem personalidades bem diferentes, sua relativa igualdade naquele ambiente acadêmico foi o elo de ligação. Introduzindo o assunto do filme em doses homeopáticas, sempre que pintava oportunidade, Saulo despertou em Daphne um
certo interesse pelo bdsm. Não demorou esta a associar aquela "insistência" a um desejo (nem tão) secreto do rapaz em encarnar o suposto "cara" da
conversa no auditório. Mas não revelou sua suspeita. Restringia-se a demonstrar uma inocente curiosidade:
- Vi que tu entende desse lance de sadomasoquismo. Sempre associei à perversão e putaria.
- Nunca é tarde para mudarmos nossos conceitos, não?
- Concordo. Mas rola sexo depois, entre a dominadora e o escravo, né?
- Não necessariamente. Só se a dominadora ou o dominador quiserem. Na maioria dos casos que conheci não rolava; era como um contrato de trabalho, hehe!
- Mas que é estranho, isso é... veja bem, é um coisa íntima, não dá pra imaginar sem algum tipo de envolvimento.
- O envolvimento é o desejo de ambos de realizarem suas fantasias, não é necessariamente afetivo. Se existe o amor ou qualquer ligação, melhor, claro, mas não é imprescindível.
- Pode ser feito entre dois estranhos, então?
- Perfeitamente! Se ambos têm os mesmos interesses e combinaram as regras do jogo, por que não? Alguns, inclusive, fazem questão que seja assim.
- Ainda acho estranho... só experimentando mesmo, pra ver qual é...
- Pelo que conheço de ti, Daphne, tenho certeza de que curtiria. Não é qualquer uma que sabe ser dominadora, tem que ter personalidade, e você tem!
- Hahaha! Assim tu me deixa sem-graça, Saulo!
Surgiu entre ambos uma bonita intimidade. Daphne descobriu que Saulo enxergava com clareza o que era tão profundo nela que nem ela própria
entendia; Saulo, por seu lado, acreditou enfim que uma garota "daquelas" poderia olhar pra ele sem fazer cara de enfado. Conversavam diariamente, e
os assuntos eram cada vez mais "liberais"; Daphne já falava abertamente sobre seus secretos desejos e confiava muito na experiência do amigo. Este,
sempre solícito, não deixava de oferecer-se para o papel que conviesse na realização das fantasias dela.
Três meses foi o tempo necessário para que a garota se sentisse suficientemente segura e disposta a experimentar as sensações que Saulo lhe
propunha. Combinaram, então, o seguinte: durante um período de dois meses, Saulo passaria os sábados e domingos no apartamento de Daphne, sujeitando-se a todas as ordens, humilhações, privações e castigos físicos que esta tomasse por correto lhe infligir. Acertaram antecipadamente os limites desses castigos, além da cláusula principal, que dizia: "uma vez interrompido o jogo, por qualquer uma das partes e por quaisquer razões, ele
não reiniciará". Daphne advertiu o rapaz, por fim, de que sua nova rotina seria dura, e que ele deveria se preparar física e (principalmente) psicologicamente durante a semana.
- Se eu fosse tu não faria festa na sexta, viu? Hahaha!
O primeiro estágio estava vencido. O que viria a seguir seria uma nova realidade, imprevisível, intensa, crua. Dois seres explorando os recônditos
de suas almas.
Sábado. Saulo chega à morada de Daphne, situada num prédio antigo do centro da cidade, às oito da manhã, conforme determinado. O apartamento é pequeno, de um quarto, sombrio, típico de estudantes que vêm do interior e precisam
economizar. Está bastante desarrumado, com pilhas de livros, roupas, sapatos e as mais diversas bugigangas espalhadas por toda parte. A recepção é
sucinta:
- Bom dia. Você está ciente de tudo o que combinamos?
- Estou. - responde Saulo.
- Aqui dentro é 'sim senhora'! Está ciente de que qualquer recusa da tua parte significa o fim irrevogável do nosso acordo?
- Sim, senhora.
- Perfeito! Você vai recebendo as determinações conforme elas se fizerem necessárias, nada será explicado antes. A você não será permitido
planejamento ou preparação. Você estará ao meu comando até as vinte horas de domingo, e só aí poderá ir pra casa. Entendido?
- Sim, senhora.
- OK. Tua primeira tarefa será lavar minhas roupas e passar as que já estão secas. Tem uma pilha delas no tanque. Espero que as duas tarefas estejam concluídas até o meio-dia, para que tenhas o direito de almoçar. Bom trabalho!
Saulo inicia a tarefa e Daphne vai assistir tv. O trabalho é bastante penoso, ainda mais pelo fato do rapaz não ter prática nas lidas domésticas. Mas estar ali, com a mão dentro daquelas meinhas multicoloridas que ele tanto conhece, vendo as marcas dos pezinhos 33 dela, cheirando-as pela
primeira vez, é algo que ele sequer imaginava iria um dia acontecer. O frio deixa suas mãos roxas, mas ele não troca esse momento por nada. Cheira uma calcinha por longo tempo, tomado de intensa volúpia.
Pelas dez horas, Daphne começa a preparar o almoço. Um delicioso aroma espalha-se pelo ambiente. Ao meio-dia, terminada a tarefa das roupas, Saulo vai dar o 'ok' à Daphne, que já se encontra almoçando. Não vê outro prato à mesa, o que o deixa confuso. Ela repara.
- Com fome?
- Sim, senhora.
Daphne levanta, verifica o serviço, volta e autoriza:
- Pode comer.
Ao verificar que ele se dirige ao armário dos pratos, censura:
- Nãnãnão! O teu prato já está servido, e tu vais usar os talheres que eu usei! Não tolero desperdício de comida e nem sujar louça à toa! - Daphne
repreende, apontando o prato que acabara de usar.
Saulo olha pra ela, desconcertado.
- Algum problema?
Ele baixa a cabeça, em silêncio, e senta-se no lugar antes ocupado por ela.
Retira o guardanapo usado de cima do prato e passa a destrinchar as carnes de galinha que restaram nos ossos. Tem de apelar às peles e cartilagens, ou ficará com fome. Engole rapidamente o arroz e a polenta fria, disfarçando seu desgosto. Do suco de uva sobrou apenas um restinho no fundo do copo, mas Daphne, prestativa, completa até em cima com água da torneira. Observa-o
durante toda a refeição, escorada no marco da porta, com um olhar divertido.
Está curtindo a cena, sem dúvida. Saulo não tem coragem de encará-la; engole em seco a sua raiva.
- Está gostoso?
Ele não responde. Daphne pega o copo de suco e despeja na pia.
- Mais uma regrinha: toda a vez que você não responder a alguma pergunta minha, será privado de alguma coisa. Agora você vai ter de esperar duas
horas pra poder beber algo. Fique feliz que nesse caso é só o suco. Entendido?
O rapaz murmura afirmativamente, de cabeça baixa.
- Agora lave a louça e passe um pano no chão da cozinha, enquanto eu tomo um banho. Espero que você não tenha a infeliz idéia de mexer em alguma comida. Será muito pior pra você. Considere-se avisado.
Saulo não faria isso, de qualquer forma. Seu prazer só pode ser completo se ele se submete inteiramente e sem subterfúgios, de corpo e alma aos desígnios da dominadora. Nada mais vazio de significado do que a dominação puramente física, na qual ele acreditava quando iniciante, relembra.
Se porventura considerara o episódio do almoço exagerado, Saulo não tinha idéia do que viria a seguir. Ao sair do banho e se arrumar, Daphne perguntou se ele precisava usar o banheiro. Diante da negativa, disse que iria ao supermercado. Saulo ofereceu-se para a tarefa, ao que foi esclarecido:
- Não, não, meu amor! Você não poderá sair do apartamento até amanhã à noite, quando voltará pra casa. Esqueci de avisar, desculpe.
Chamou-o ao seu quarto, pegou um par de algemas, prendeu um lado no seu pulso direito, mandou ele ir pra debaixo da cama e prendeu o outro elo numa madeira da parte inferior do marco da cabeceira da cama. Questionada, ainda que com humildade, explicou:
- É só pra garantir que você não vai ficar passeando pela casa enquanto eu estiver fora, não vai mexer em nada e nem deitar na minha cama. Espero que não ache ruim. Estou errada?
- Não, senhora!
- Perfeito! Coloquei um colchonete aí pensando justamente no teu conforto. Pra passar o tempo, você pode fazer uma limpeza nesse sapato que eu vou usar hoje à noite, que tal? Vai me poupar tempo. - sugere, empurrando um par de scarpins pretos pra junto dele, embaixo da cama.
As emoções que Saulo experimentou, naquele período de quase uma hora, foram algo difícil de exprimir em palavras. Enquanto retirava o pó e a sujeira dos pequenos scarpins de Daphne, com movimentos frenéticos da língua, relembrava sua vida de submisso até então, e todas as diferentes humilhações e castigos que sofreu nas mãos de diferentes mulheres. Deliciava-se ao recordar as
peculiaridades das maldades de cada uma, o que as tornava únicas e inesquecíveis, assim como o delicioso aroma das suas calcinhas, de suas
meias, dos scarpins. De todas as mulheres que o tiveram, nenhuma judiou dele do mesmo modo, ainda que no aspecto físico os castigos se assemelhassem. Mas na maldade psicológica, essa sim, cada mulher é um universo infinito, inexplorado e complexo, muito além da compreensão dessa pobre raça masculina. A estes só lhes resta temer e se subjugar. Pelo que experimentou nessas poucas horas sob o jugo de Daphne, Saulo tem certeza de que jamais vai esquecê-la.
Retornando do mercado, Daphne elogia o brilho em que ficou o sapato, solta o rapaz, oferece-lhe um pouco de água e passa-lhe novas tarefas:
- Quero esta sala limpa e arrumada, assim como o banheiro, em duas horas. Vou receber amigas esta tarde e não quero passar má impressão. Entendido?
- Mas... senhora, não tenho muita prática em limpeza, sabe...
- Quer desistir?
- Não é isso, é que...
- Quer ir embora? É só dizer, e eu te libero agora mesmo!
- Não, senhora!
- OK! Espero não ficar ouvindo essas lamúrias a toda hora. Tu sabes muito bem do nosso trato, não sabes?
- Sim, senhora!
- Melhor! E pra que tu saibas que eu odeio ponderações - Daphne vai até o roupeiro e volta com uma minissaia em mãos - vais trabalhar usando isto!
Saulo pensa por uns dez segundos antes de perguntar, quase num balbucio:
- A senhora... acha realmente necessário?
Daphne volta ao armário e retorna com um objeto em mãos, o qual exibe ao rapaz, sorridente. Saulo não demora a reconhecer um plug anal, de
aproximadamente quatro centímetros de bitola.
- Tudo bem, senhora, eu vou usar a saia.
- Ora, mas disso eu tenho certeza!
Saulo retira a calça e veste a peça, constrangido. A saia não chega a cobrir os joelhos; termina uns quatro dedos acima.
- Venha cá! - chama Daphne - Recoste-se na cama, joelhos no chão!
- Mas, senhora... eu vesti a saia! - protesta, lábios trêmulos, ao perceber o intento dela com o famigerado objeto.
- Ponderaste duas vezes, meu anjo, sem contar esta terceira, e eu já expliquei que odeio isso. Se tu preferes aprender da forma mais dura, fazer o que? Agora recosta na cama e relaxa.
Daphne levanta a sainha de Saulo, baixa sua cueca, dá uma cuspidinha no plug e começa a introduzi-lo no ânus do rapaz. Um grito se segue à introdução completa. Daphne manda-o recompor-se e levantar.
- Viu como é simples? Dói menos do que injeção, né? Nunca foste 'plugado' por nenhuma garota? - Daphne brinca.
- Não, senhora. - as palavras saem quase inaudíveis.
- Tirei tua virgindade, então? Hahaha! Fica bem firmezinho, não fica? Não vai atrapalhar em nada teu serviço. Pensei até em te fazer usá-lo na
faculdade, todos os dias, mas vamos ver se vai ser necessário. Agora tu já sabes que odeio esses 'mas...mas...mas', né?
- Sim, senhora!
- Então... ao trabalho!
Recostada numas almofadas em cima da cama, Daphne diverte-se a valer com a figura afeminada e atrapalhada de Saulo no desempenho das tarefas
domésticas. Melhor do que um humorístico da tv. O prazer dela consiste não apenas em vê-lo em trajes femininos, mas principalmente em reparar no quanto
ele se sente constrangido com aquilo. A vergonha de Saulo a excita; o soluçar seco dele seria o clímax dela; as primeiras lágrimas do rapaz, o gozo de Daphne. De tempos em tempos, pede pra ele interromper o serviço e levantar a saia, mostrando o traseiro, pra se certificar que o plug ainda está lá. Ri muito. Faz questão de assisti-lo recolher o lixo do banheiro, limpar o interior e o exterior da privada (é exigente nesse ponto), esfregar o chão de bunda empinada, exibindo o plug. Ela adora isso.
- Viu só? Não fosse o plug, esse trabalho não te traria nenhum prazer! Hahaha!
'Bom que ela ache isso', pensa Saulo. Na verdade, prefere ficar exibindo o plug a que ela note seu pau latejante debaixo daquela saia. Um dia ela vai entender como é possível que o prazer dele, naquela situação humilhante, seja equivalente ao dela.
Terminadas as limpezas e arrumações, nova surpresa para Saulo: ele não poderia aparecer nem se fazer notar pelas amigas de Daphne. Até aí tudo bem, pois ficar preso debaixo da cama não é algo assim tão penoso. A surpresa, porém, era o local onde ele deveria permanecer dessa vez: escondido no interior do sofá da sala. Até então ele não sabia que o móvel de dois lugares tinha o interior oco. Era um modelo antigo, herança da avó, com franjas de tecido por toda a volta. Para ficar mais segura de que seu escravo iria permanecer lá encolhido e quietinho, Daphne determinou que ele deveria continuar com a minissaia e o plug enfiado no rego.
- Não quero ouvir o mínimo ruído teu enquanto elas estiverem aqui, viu? Não se esqueça que uma delas é minha colega da faculdade!
O encontro das amigas transcorreu normalmente. Durante três horas Saulo conseguiu ficar encolhido e estático, controlando até mesmo sua respiração, apesar de um sarrafo do móvel ficar pressionando suas costelas. Ainda assim, ficou excitado o tempo inteiro, masturbando vagarosamente seu membro pra não produzir ruído. Este sim era seu martírio: a privação do movimento frenético que o levaria ao gozo. Ficar ouvindo aquelas quatro garotinhas clubber ridicularizarem os homens por três horas, Daphne principalmente (até Saulo foi achincalhado), e ele ali, encaixotado, vestido de travesti e com um troço metido no rabo, e ainda impossibilitado de se masturbar, era uma
maldade que ele não imaginava Daphne fosse capaz de idealizar. E pensar que apenas o acolchoado do sofá o separava de dois deliciosos cuzinhos... Por que ela estava fazendo aquilo? Qual o prazer em mantê-lo escondido ali? Lembrou-se do filme que outrora discutiram. Estava tal qual o protagonista, inválido, sendo surpreendido a todo momento pelas insaniades de Mimi.
Muitas fofocas e galinhagens depois, lanches terminados (Saulo previa que dali sairia sua janta), as amigas foram embora e ele pôde sair do aperto.
Daphne liberou-o da saia e do incômodo objeto, mas proibiu-o de tocar nos restos do lanche. Prendeu-o novamente debaixo da cama e foi pro banho. Tinha combinado com as amigas irem a uma festa.
Pouco antes de sair, Daphne permite que Saulo use o banheiro; após, prende-o novamente, coloca o que sobrou do lanche das amigas (uns pedaços de
torradas, restos de frutas, massas não-identificáveis, provavelmente mascadas e cuspidas por alguma delas) num pote de cachorro e deixa-o junto ao rapaz; junta os restos de suco em outro pote; ante a reclamação da escassez do líquido, completa-o com a água que estava bochechando,
advertindo que na próxima reclamação encheria o pote com sua urina. Coloca uma colcha comprida na cama, que vai até o chão, e explica que possivelmente retorne acompanhada de alguém, e que a recomendação é a mesma da tarde.
- Você quer desistir?
- Não, senhora!
- Tenho observado que você vem reagindo bem às minhas insanidades. Até me impressionei. Pergunto porque o que eu vou exigir de ti a partir de agora é um pouco mais pesado. Sei que tu escondes um coração puro detrás dessa máscara de entendido em libertinagem, e sei que eu sou uma louca varrida que sempre passa dos limites. Não quero te machucar mais seriamente, enfim.
Daphne reparara numa certa susceptibilidade de Saulo no decorrer das humilhações, diferente daquela prevista. Temia que ele estivesse se
apaixonando. Ainda mais considerando o que ela tinha em mente...
- A senhora não precisa se preocupar com isso. - esclarece Saulo - Eu estava bem ciente quando aceitei o acordo, e não me arrependo de nada.
- Ok! - responde, ainda não aliviada.
Deixa uma meia usada, para seu escravo se divertir, e sai.
No meio da noite (Saulo fora privado do relógio) chega Daphne. Acompanhada, como prevenira ao seu 'hóspede'. Por um minúsculo furo na colcha, Saulo reconhece uma das amigas da tarde. A essa altura, nada o impressiona verdadeiramente. Contempla, incrédulo, um lascivo e apaixonado beijo das duas; gemidos, mãos percorrendo peitos, costas, bundas... Logo, ambas já estão na cama, tocando-se, contorcendo-se, gemendo. Saulo nunca imaginou estar naquela situação, ouvindo os gritos e gemidos de prazer de sua amada, arrancados por outra. E se fosse outro, seria pior?
Sim, ele estava amando. E estava sendo cruelmente machucado. Ela tinha sacado e advertido, mas ele não quis tirar a máscara. Restava, agora, chorar em silêncio, estático, consolando-se com um par de scarpins e outro de
botinhas, recém descalços pelo casalzinho apaixonado e já confiscados, assim como as meias da amiga. Lavou novamente o scarpin, dessa vez com lágrimas, ao som do trepidar da cama e dos gemidos de gozo intenso das duas. Sobre ele, duas lingüinhas lascivas excitando clitóris intumescidos, extraindo néctar e arrancando gritos insanos, de ambas; sob as duas, um coitado, completamente ignorado, tolhido de qualquer manifestação, chorando mas também excitado, ainda que por outro tipo de calor e odor. A energia das amantes era tanta que o contaminava, e sua língua percorria aqueles scarpins e aquelas botinhas com o mesmo frenesi. E assim transcorreram quase duas horas. Cessado o tremor da cama, Saulo sabia que deveria devolver os calçados, discretamente. Secou as lágrimas com as meias daquela que arrebatou-lhe a amada, devolveu-as ao seu lugar e restringiu-se à sua insignificância. Enquanto a amiga usava o banheiro, Daphne levantou o colcha e elogiou a discrição do escravo:
- Parabéns, meu amor! Você me surpreendeu, sabia?
Mergulhou seu dedo médio na chana encharcada e ofereceu-o ao rapaz, que o chupou em toda a extensão, mas disfarçando o soluçar. Foi um esforço sobre-humano fingir que tudo estava bem, que ele não estava destruído por dentro. Manter a máscara era, agora, uma questão de honra. Iria até o fim, honraria o acordo. O sofrimento agora era de outra dimensão, não o que ele previra; sua intenção sempre foi um mergulho profundo, o rompimento de barreiras, a fuga da realidade; ou melhor, a própria realidade, nua e crua.
Iria até o fim. Ainda faltavam algumas horas.
Saulo jamais esqueceu dos episódios daquele fim de semana. Tivera, enfim, a experiência crua e intensa que buscava. Sabia dos riscos, mas os procurou. Em resumo, no domingo que se seguiu àquela foda lésbica, Saulo passou por humilhações ainda piores. Teve de lavar os lençóis repletos de gozo, claro que depois de tê-los esfregados na cara por Daphne; seu almoço foram os restos do lanche que as amantes fizeram na madrugada, devidamente mastigados e cuspidos por Daphne no pote de cachorro. Ela realmente se excitava vendo o
rapaz comer aquilo. O outro pote tinha tanta água quanto cuspe dela, e ainda fora usado para limpar o dedinho do néctar que oferecera ao rapaz. Àquela
altura, Saulo já aceitaria a própria urina da amada, o que esta pressentiu e fez questão de oferecer-lhe, à tarde, direto da fonte. O ponto culminante do
domingo foi a submissão sexual de Saulo, com um consolo que ele nem suspeitava que a outra possuía. Foi cavalgado por cerca de uma hora, ouvindo de Daphne, às gargalhadas, que aquela inocência dela durante as conversas sobre o filme era pura encenação. Nunca estivera Saulo sob o domínio de uma mulher que soubesse 'acabar' com um homem tão magistralmente. Para fechar
aquele domingo insano, a língua do rapaz ainda teve um trabalhinho extra.
Daphne tinha um buraquinho que ainda não estava devidamente, digamos, anestesiado. E recomeçou a gemeção; Daphne, de quatro, rebolando
freneticamente pelo efeito daquela lingüinha, soltando gritos medonhos. Era impressionante o fogo daquela garota, desde a trepa com a amiga. Chegada a hora de ir embora, Saulo se entrega, aos prantos, dizendo que não mais cumprirá o acordo, e sai de cabeça baixa. Daphne apenas sorri,
maliciosamente, e fecha a porta. Suas suspeitas se confirmaram. Ela mesma arrancou a máscara do "libertino".
Quem mandou se meter com aquela clubber, dark, gótica, punk ou sabe-se lá o quê? Logo ele, um nerd esquisito e solitário que, morando num estado frio e deprimente, só se consola com seus pensamentos bizarros, até que um dia se revolta e sai atirando em todo mundo. Serviu de simples brinquedo pra ela, por escolha própria. Agora, é baixar a cabeça e agüentar o risinho irônico de Daphne, a cada vez que se cruzarem; e torcer para que o mesmo risinho não apareça nos rostos das amigas. Poderia a maldade dela chegar a isso?