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O Presente
Ele dissera que queria ser surpreendido... ela queria surpreender. A madrugada estava muito fria, a lareira em frente à cama não havia sido acesa. O chalet era no ponto mais alto da pequena cidade... mil e seiscentos metros de altitude e a neblina, densa e baixa. Eles haviam chegado há pouco de um giro pelos arredores, era o aniversário dele.
Ela programara tudo com cuidado, preocupada em não esquecer detalhes. Champanhe seca para o brinde, bolo de chocolate com velas longas, daquelas que acendem como estrelinhas... pequenas lembranças dentro de uma caixa.
De joelhos, à sua frente, ela entregou uma a uma todas as lembranças... um cachecol preto tecido por ela mesma, um perfume, um jogo milenar da escandinávia, com soldadinhos de metal protegendo seu rei, trufas diversas, um canivete francês com a chaira... e, junto, um cartão onde não conseguira escrever nada, porque nada lhe parecera ser suficientemente bom para dar a ele. Então, ali, diante dele, subserviente e nua, pegando rápido o punhal que ele deixara sobre a mesa, ela cortou a palma de sua mão esquerda e deixou cair no cartão as gotas de seu sangue. Dava a ele sua vida. Ele sorriu, os olhos extremamente brilhantes, disse que aquele era o melhor presente que ganhara em toda a sua vida e guardou o cartão na carteira.
Os brinquedos estavam todos lá. Ela levara chicotes, uma chibata longa, uma palmatória, canne, uma tala com tampinhas de garrafa, presas por ela mesma a um dos lados de uma das tiras. E, ainda, varas de bambu, muitos metros de corda para que ele a amarrasse, se assim fosse de sua vontade. Afinal, a vontade seria sempre dele. Em uma das divisões da bolsa de viagem, velas de cores e tamanhos variados, prendedores para os mamilos e grandes lábios, um jogo de agulhas hipodérmicas, uma ballgag, pulseiras, tornozeleiras, vendas e uma máscara de couro negro, que a fazia tremer de medo. Mesmo assim, ela a levara para que ele a usasse se fosse do seu agrado. Com ele, haviam apenas um par de algemas e o punhal deixado sobre a mesa.
Ele pareceu não se interessar por nenhum dos brinquedos. Atou-lhe ao pescoço uma coleira grossa de couro, bem apertada, prendeu suas mãos com as algemas e mandou que dormisse nua, no chão frio, sem nada para se cobrir, numa temperatura de menos 10° centígrados. As algemas foram colocadas bem apertadas e, quando ela reclamou que as mãos doíam, ele nem se importou e apertou-as ainda mais, ordenando que permanecesse quieta e em silêncio para não incomodá-lo. Feito isso, apagou a luz, deitou, fechou os olhos e dormiu, deixando-a sozinha na noite escura e fria.
Ela tentou adormecer, mas não conseguiu. O frio cortava sua pele e as mãos doíam muito. Fechou os olhos e tentou todos os métodos para fazer o sono vir... de nada adiantou. Do chão gelado, podia ouvir o ressonar leve e ritmado dele, amparado pelos cobertores.
Ela se perguntava que importância teria para ele e não entendia um ponto: ele amava tanto os animais, estava certa disso, porque então não se preocupava com a integridade de sua cadela? Os pulsos inchados pela pressão das algemas doíam muito e ela chorou baixinho... muito mais, porém, pela indiferença dele do que pela dor causada pelo sangue impedido de circular livremente. Ela sempre amou ser uma cadela... ele sabia disso. Mas, nem uma cadela deveria ser deixada num chão de pedra, numa temperatura tão baixa...
Madrugada avançada, o corpo gelado, coração dolorido, os pulsos já anestesiados, ela suplicou que ele a deixasse dormir na cama. Ele acordou irritado, levantou, acendeu a luz e ordenou que ela fosse para cama, mas ela nem conseguia mais levantar sozinha. Então, ele a puxou com força e a jogou na cama como se jogasse um fardo e voltou a dormir. E ela pensou: o que fizera de errado?
O dia clareou, ele se virou na cama e olhou para ela. Estava na mesma posição. Ele levantou, foi ao banheiro, depois abriu a porta do chalet para respirar o ar puro das montanhas. O dia estava lindo. Frio, sim, mas um céu muito azul, sem nenhuma nuvem para atrapalhar. Andou um pouco, olhou a paisagem, fez exercícios de alongamento e voltou para dentro. Ela estava ainda na mesma posição, deitada sobre o lado esquerdo, voltada para fora na beiradinha da cama, as mãos azuladas na região dos pulsos.
Ele a tocou de leve no ombro direito para que acordasse, mas ela não se mexeu. Insistiu algumas vezes, seu corpo estava frio... muito frio... e parecia não respirar. Procurou todos os vestígios de vida nela e não achou nenhum.
Ele andou de um lado para o outro, no pequeno chalet e a odiou por tê-lo colocado naquela situação. Entrou e saiu várias vezes, procurando ver se havia alguém por perto, mas não havia uma só pessoa num raio de mais de dois quilômetros. Qualquer coisa a ser feita teria que ser rápido. O tempo estava contra ele.
Sentou-se por alguns minutos nos degraus da entrada do chalet, cabeça entre as mãos, tentando encontrar uma saída. Pensou em chamar a proprietária, ou um médico, diria que ela morrera dormindo, tendo o cuidado de antes guardar no carro todos os brinquedos. Não daria certo, nos pulsos estavam as marcas das algemas e no pescoço o vinco feito pela coleira apertada. Não daria certo, tinha que ser um plano perfeito, ou teria o futuro aniquilado.
De repente, uma calmaria tomou conta dele. Entrou, colocou no cd player o Concerto nº2 para Piano seguido da Rapisódia com o Tema para Paganini, de Rachmaninov. Pegou na valise dos brinquedos um cutelo que a mandara comprar para destroçar as mandíbulas de um peixe e retirar os dentes afim de usá-los como objeto de tortura. Ajeitou o corpo dela na cama e tentou levantar as pálpebras para ver, uma vez mais, o verde amarelado de seus olhos... elas não obedeciam mais.
Quando ele começou a cortar, separando as articulações uma a uma, o frio que vinha do corpo dela foi aos poucos tomando conta dele. A Sinfônica de Budapest, reproduzia sem parar o concerto, muito alto... a música entrava em seus ouvidos e ia se acumulando em sua mente. Lembrou-se então de um comentário dela, na noite anterior, sobre algo que Woody Allen dissera em um de seus filmes: é impossível para qualquer mulher resistir a qualquer homem sob o som de Rachmaninov.
E ele pensou que ela teria sido uma boa escrava submissa... no pouco tempo que estiveram juntos, desde quando se conheceram, nenhuma ordem sua fora deixada de ser cumprida. Ela estava sempre pronta a seu dispor, parecia viver para o prazer de servi-lo. Se empenhava muito e ele a achava por demais determinada. Isto o agradava... e também a maneira como se mostrava aberta e interessada em quebrar barreiras e romper limites... e, ainda, o espírito de sair do comum e de se aventurar... também, o jeito alegre e, ao mesmo tempo, doce e delicado. Era uma fêmea vivendo a essência da submissão, o que a tornava ainda mais feminina.
Ele balançou a cabeça para afugentar os pensamentos e seguiu cortando com delicadeza. Não era um homem rude, não era um qualquer. E fora exatamente isto que a atraíra nele: a maneira refinada e elegante de ser, além da inteligência que o fazia sobressair acima dos demais. Seu rosto era por demais harmônico, as linhas dos traços eram nobres, pareciam ter sido desenhadas com cuidado. Os olhos, extremamente vivos e brilhantes, tinham-na hipnotizado de imediato.
Pés e pernas interceptados nos tornozelos. As coxas em duas partes... mãos, desvinculadas nos pulsos ainda com as marcas das algemas... braços cortados na articulação dos cotovelos e dos ombros... e o tronco em duas partes... a cabeça, separada do corpo no vinco deixado pela coleira.
Todas as partes foram colocadas em sacos plásticos, amarrados cuidadosamente, embalados em sacos de lixo que ela mesma levara... rs... todos os sacos hermeticamente fechados e guardados dentro da valise que viera com os brinquedos. Estes iriam bem, soltos no porta malas. A valise, do seu lado no assento do passageiro, até que encontrasse um local onde tudo pudesse ser desovado sem problemas.
Terminado o trabalho, restava limpar cuidadosamente o sangue deixado na cama e no chão. O que não pode ser retirado foi coberto com os lençóis, a cama feita, os travesseiros no seu lugar. Roupas e sapatos de ambos guardados numa outra valise. Na geladeira ficaram as garrafas de vinho, sucos, pães, os frios e o bolo, ainda com as velas que acendiam como estrelinhas... restos do aniversário... tudo que ela levara para o prazer dele.
Ele olhou a sua volta, procurando vestígios que pudessem incriminá-lo, puxou a porta do chalet e deixou atrás de si os planos de Dominar aquela escrava. Dela guardaria apenas o cartão assinado com sangue... era o que precisava para acalmar a mente... afinal, fora ela mesma quem lhe dera a vida de presente.
18/06/06