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Chineladas da Tia - A Saga

Parte 1 - 'Por amor ou pela dor' Esta semana foi marcada por algo especial. Uma lembrança, que suscitou outras tantas, de um jovem casal, do qual não tenho notícias há uns 8 anos, pelo menos. Tais lembranças me vieram à mente a partir de algumas leituras em comunidades 'pitorescas', digamos assim, do site de relacionamentos orkut. Primeiramente, devo dizer que ainda sou novata no orkut, msn, essas coisas; pra mim, email era o máximo de interatividade virtual até agora, vejam só. Recém criei meu perfil, e ainda estou descobrindo, maravilhada, todas as potencialidades dessa nova 'rede de relacionamentos'. Pois bem, não sei ao certo se foi a lembrança do meu sobrinho e sua esposa que me remeteram a essa comunidade ou vice-versa, mas isso não importa. Só sei que as lembranças vieram com tal intensidade que, realmente, mexeram comigo. A comunidade da qual falo reúne adolescentes que apanham dos pais. Lá, eles trocam idéias e sentimentos sobre o assunto, e relatam as surras sofridas, algumas com incrível riqueza de detalhes. As faltas cometidas, os castigos, os instrumentos usados nas surras (chinelo, cinta, vara, etc), a freqüência das mesmas, quem surrou, tudo está lá, pra quem quiser ler. E utilizar da forma que quiser. Não pude me furtar a dedicar boas horas à leitura dos depoimentos. Fiquei bastante interessada, confesso. Impressionada, talvez. Isso tudo me fez lembrar do Carlos (Carlinhos para os mais íntimos), meu sobrinho, e da forma totalmente atípica pela qual nos conhecemos. Contava ele 14 anos quando tivemos o primeiro contato. Recém chegara eu da França, onde passei alguns anos estudando. Mesmo antes de partir, já não mantinha muito contato com Sofia, minha irmã e mãe do Carlinhos, pois ela morava em Porto Alegre, e eu, num município do interior gaúcho. Carlinhos, até os 10 anos, morava com o pai em Mato Grosso. Eis o caráter atípico do nosso primeiro contato: na realidade, momentos antes de me conhecer, ele conheceu o meu chinelo; isso mesmo! *risos... meu chinelo!; mais especificamente, o efeito dele no seu pobre traseirinho. Lembro bem, era uma rasteirinha preta de tiras, mais pesada, compacta e dura se comparada às tradicionais havaianas. Pobrezinho... *risos. Eu não a usaria contra meus pimpolhos (tenho um casal de gêmeos, um menino e uma menina), com certeza. Foi assim: na primeira visita à casa da minha irmã, depois de anos, ela, apesar de feliz por me rever, estava naquele dia bastante irritada com o Carlinhos. O garoto estava negligenciando todos os seus deveres e não desgrudava do videogame. Já tinha sido chamado várias vezes, pra recepcionar a tia, mas não descia. Até que, uma hora, Sofia chegou ao seu limite. Pediu licença e foi até seu quarto, mas voltou logo em seguida. Gritou pro seu marido, que tomava banho: - Renato, meu chinelo ta aí? - Tá, mas não posso te alcançar agora! Então ela veio até mim. - Débora, tu podes me emprestar teu chinelo um pouquinho? Eu já devolvo. Já adivinhando para que fim ele seria usado, não consegui disfarçar meu constrangimento. Devo ter corado, com certeza. Achei melhor não contrariá-la, dado o humor em que ela se encontrava, e descalcei o pé direito. Meio sem graça e sem saber o que dizer, entreguei o calçado a ela. Sofia pediu-me um instante e calmamente dirigiu-se ao quarto do filho, já com o chinelo em punho. Putz, agora não tinha mais volta... Logo ouvi os gritos dela com o garoto, mas não distinguia bem as palavras. Um momento de silêncio e os primeiros 'PAF's se fizeram ouvir, produzidos obviamente pela minha rasteirinha nas nádegas do menino. Estes, sim, ouvi bem, e pela intensidade do som, mesmo com a porta fechada, deduzi que ela não estava de brincadeira com o garoto não. E eu ali, na sala, esperando aflita, me sentindo meio que responsável por aquilo. E se eu me recusasse a emprestar o chinelo, será que teria 'salvo' o Carlinhos? E novos 'PAF's vieram, uns 10 ou 15, seguidos de um intervalo em que ela continuava o sermão. Mais uma sonora série de chineladas e mais xingamentos se seguiram, o que totalizou umas 4 seqüências, de acordo com o que consegui contar. No mínimo umas 40 enérgicas chineladas, todas acertando em cheio a pele nua, o pobre bumbum do menino recebeu. Não ouvi sequer um soluço dele. Fiquei com pena do Carlinhos, imaginando como estaria a pobre bundinha dele depois daquela sova. Cruelzinha a mana, né? O estrago causado pela minha querida rasteirinha de estimação.... Sentia-me culpada por isso. Nunca imaginei que o meu primeiro contato com ele fosse desta forma. Que ocasião para se conhecer alguém... Terminado o suplício, a porta se abre e surge Sofia, calma e de semblante tranqüilo, como se tivesse executado tarefa das mais triviais. - Tive uma 'conversinha' com o Carlos e ele já vem. Obrigado, Débora - completou, ironicamente, com voz calma. Seu aspecto era de quem acabava de vir de um spa. Nada lembrava o nervosismo e irritação de alguns minutos atrás. Entregou-me o chinelo, que eu timidamente calcei. Ainda estava acanhada e sem jeito. Ela deve ter notado um certo tremor na minha mão. - Bom esse chinelo! Onde o compraste? - Em Paris, faz uns anos. Tá velhinho já. - Que pena! Se eu soubesse, teria te encomendado um par. Parece que as minhas havaianas não 'convencem' mais o Carlinhos. As surras estão cada vez mais freqüentes, mas ele não se endireita! A cada vez que ele apanha, meu braço é que acaba dolorido...- sorriu, maliciosamente. Incrível como a mana consegue ser irônica. Isso desde criança. Não falei nada, apenas tentei disfarçar meu embaraço. - Ficou assustada, Dé? Pobrezinha... eheh... Você sempre foi mais meiguinha, né? Mas o meu temperamento é outro, você bem sabe. Aqui em casa, escreveu não leu... Os teus não 'entram na chinela' de vez em quando? - Olha, não vou dizer que não, já bati sim, mas apenas quando a falta era muito grave. Por enquanto a conversa tem resolvido, na maioria das vezes. - Mas eu também converso antes, digo o que ele deve ou não fazer, explico direitinho as razões e dou meu voto de confiança. Mas ele prefere desobedecer. Fazer o quê? Se a conversa não adiantou, vai conversar com meu chinelo, oras! Sempre digo pro Carlos que, quando peço pra fazer algo, ele tem 2 opções: ou faz de bom grado ou com o traseiro ardendo. Não tem outra. Se ele prefere a segunda, problema dele, pra mim é indiferente. Bato mesmo, sem dó. E não é palmadinha no bumbum não! Faço ele arriar as calças, a cueca, e o chinelo 'canta' pra valer, até ele pedir arrego. 'Chineladas não vão te faltar, isso tu podes ter certeza!', sempre digo. Mais birra, mais surras, é a minha lógica, que expus claramente a ele. Tem funcionado, por enquanto. Pelo menos se comparando o comportamento do Carlinhos ao dos colegas dele, que têm pais muito permissivos, até que estou conseguindo controlá-lo bem. - Nessa idade é assim mesmo, eles competem com os pais, testam os limites. Ele já é adolescente, não? - foi o que consegui dizer, ainda desconfortável com aquela conversa. - Sim, mas pra mim é indiferente. Ele apanhou quando criança, apanha agora e, enquanto depender de mim, receberá a disciplina que eu achar adequada, não importa a idade. Ele me desafia sim, mas, a cada vez que levanta a crista, eu a abaixo rapidinho. Se ele questiona a minha autoridade, eu o faço senti-la. É o regime aqui em casa: ele escolhe se quer aprender por amor ou pela dor. - E o Renato, o que acha disso? - Ele não acha certo, assim como você, mas não se mete muito. Ao ver que o método dele, de deixar de castigo, não surtia muito efeito, deixou a disciplina do Carlos por minha conta. Até admite que eu sou bem melhor do que ele nisso, pois sei impor respeito. Só pede para que eu não o surre na sua presença, pois fica nervoso. Acho que ele tem uma pontinha de medo também! Ha ha ha. - ela realmente se divertia contando isso - Às vezes, ele esconde algumas traquinagens do menino, coisa que eu já disse pra ele não fazer, pois não admito mentiras. Depois, se descubro, é pior pro Carlinhos. A surra é em dobro, já estipulei. Às vezes, ao chegar em casa, só pelos olhares eu já sei que eles estão me escondendo algo. Apenas pergunto a cada um, calmamente, o que aconteceu. Sabendo que é inútil tentar me enganar, além de que homem não sabe mentir, sempre acabam se traindo. Apenas dou a ordem costumeira: 'Carlinhos, pro quarto agora, e me espera lá! E nada de videogame!'. Vou cuidar dos meus afazeres, janto, tomo banho, assisto minha novelinha e depois acertamos nossas contas. Ele já sabe que não tem negociação. Mentiu, apanhou. Simples. Pobre menino, nas mãos dessa generala que se tornou a mana... Como ela foi ficar malvadinha assim? Pelo que me lembro, ela não apanhava tanto dos pais. Deixar o menino esperando por horas, no quarto, na expectativa da surra... aff! Ouve-se o abrir de porta do quarto do Carlinhos e o menino desce, de cabeça baixa. Nota-se que ele havia chorado, pela vermelhidão ainda perceptível no seu rosto alvo. Que menino lindo, de feições angelicais e cabelos áureos e encaracolados! Tinha um ar encantador, apesar do compreensível abatimento. Parecia um daqueles anjinhos das pinturas Renascentistas. - Cumprimenta a tua tia, que ficou esperando todo esse tempo desde que eu te chamei! - ordenou a mãe - Isso é coisa que se faça? O menino veio até mim, ensaiou um tímido sorriso e me abraçou, em silêncio. Todo o meu constrangimento voltou naquele exato instante. O que estaria ele pensando de mim? Estaria com raiva? Sabia ele que o meu chinelo fôra o algoz do seu recente sofrimento? Por certo sabia, já que notei o olhar insistente dele pros meus pés. Acho que foi a situação mais constarangedora pela qual passei em toda a minha vida... Não sabia o que falar, onde pôr as mãos... Arrisquei algumas perguntinhas, que ele respondia com monossílabos, até que a mãe ordenou: - Agora arruma a mesa do chá, que eu já tinha te pedido, e vai ver se teu pai precisa de alguma coisa. Seja obediente! Ela insistia em dizer que o Renato era o pai dele, em vez de padrasto. Continuamos a conversar sobre outros assuntos. Apesar do 'incidente' (pra mim, pelo menos), o decorrer da visita foi tranqüilo e harmonioso. Eles agiam como se nada de anormal tivesse acontecido. Conversamos bastante, rimos, matamos a saudade. Não pude tirar muitas conclusões acerca do Carlinhos. O que me chamou a atenção, além do olhar quase indiscreto dele pras minhas pernas e pés, foi o respeito e reverência que ele tinha para comigo. Sempre que me dirigia palavra, era de cabeça baixa, e era muito solícito e prestativo, mais até comigo do que com seus próprios pais. Não sei se foi por causa do que ocorrera ou era da personalidade dele mesmo. Só sei que raiva, definitivamente, não era o que ele estava sentindo por mim. Muito pelo contrário, aliás. Quando nossos olhos se encontravam, eu notava uma certa ternura. Terminada a visita, após combinar outros encontros, tanto na casa da Sofia quanto na minha, nos despedimos. Carlinhos chegou até mim: - Estou muito feliz por ter te conhecido, tia Débora. Vou sentir saudades. Quando eu vou conhecer meus primos? - Logo, logo, Carlinhos! Vamos combinar num fim de semana desses, lá na minha casa. Também adorei o nosso encontro, viu, meu fofo! Você é muito querido! Tive vontade de mencionar o incidente e me desculpar de alguma forma, mas achei melhor ficar calada. Dizer o quê? Ele fez uma quase imperceptível reverência, com a cabeça, beijou-me afetuosamente no rosto, lançou uma última olhadela pros meus pés, calçando as fatídicas rasteirinhas, e regressou ao seu quarto. Senti que o que nascera naquele dia, entre nós, era algo que não morreria jamais. Era como o entalhe na pedra. Irreversível. Não saberia explicar. Apenas sentia. E sequer sonharia a que isso ia levar.