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Lembranças do Calabouço - Cap 2
Acordei quando senti o gelado toque da água acertando meu rosto. Demorei um pouco para reconhecer onde estava. Olhei para os lados e só depois para cima, onde o vi com uma expressão séria. Ele não parecia contente por eu ter dormido e foi exatamente isso que havia acontecido.
-Hoje você aprenderá que não pode dormir sem a minha autorização. - disse, sério como quem lê um discurso. - Você está aqui apenas para me servir. É como um objeto, não muito diferente da minha poltrona ou do meu tapete. Se ordenei que massageasse meus pés era para tê-lo feito até segunda ordem. Está entendendo o alcance de minhas palavras, escravo?
-S-sim, senhor! - balbuciei, assustado.
Ele deu um breve sorriso, mas depois sua expressão voltou a se tornar austera. Levantou-me com um forte puxão de cabelos e me levou até um quarto. Lá havia um gancho no teto, de onde caia uma grossa corrente de ferro. Meus pulsos foram amarrados nas pontas das correntes e o mesmo aconteceu com os pés, que ficaram presos com as correntes acopladas no chão.
Eu estava muito assustado e não imaginava o que iria acontecer. Ele foi até a parede e puxou uma alavanca, que fez a corrente se esticar, fazendo com que meu corpo ficasse totalmente ereto. Notei que ele puxou mais do que meus braços aguentavam, o que me fez dar um gemido de dor. Uma risada sarcástica ecoou pelo quarto escuro. Era como se ele manipulasse um jogo, numa engenhoca malvada de ferro onde eu era a peça principal de seu divertimento.
Me deixando completamente esticado e imóvel, ele saiu por alguns instantes. Ouvi o som de uma porta sendo aberta. E então ele retornou com um objeto preto que, mais tarde, descobri se tratar de um chicote simples, de uma ponta apenas.
-Não, senhor! Por favor, eu prometo que não irei mais desobedecê-lo! Eu prometo!
Era inútil tentar suplicar. Ele já estava decidido. Eu merecia ser punido e o momento se aproximava, quando ele puxava a grossa tira de couro, como se testasse sua resistência. Confirmada e escolhida a arma, ele aplicou o primeiro golpe.
Um agradável som cortou o ar, seguido de uma ardente dor que estalou em minhas costas. Tentei me movimentar, fugir, escapar, tentar sair daquela situação. Mas antes que qualquer outro pensamento fosse elaborado em minha mente, o segundo golpe me acertou, seguido do terceiro, do quarto, do quinto... Senti como se minhas costas tivessem sendo divididas em pedaços, em cortes profundos.
-Senhor, por favor... - implorei, em lágrimas.
Meus cabelos já estavam grudados na testa e eu me recolhia nos intervalos entre um golpe e o outro, como se essa atitude fosse amenizar minha dor. O quarto logo tornou-se abafado e pude ouvir sua respiração ofegante, enquanto me acertava sem nenhum esboço de culpa. Perdi a conta da quantidade de chicotadas, quando percebi que passaram de vinte...
Escutei novamente o barulho da corrente em movimento. Ele estava abaixando. Cansado e sem forças, não consegui sequer ficar em pé. Meu corpo ficou apoiado pelas correntes das mãos e minhas pernas dobraram um pouco, como se estivessem mortas. Ainda sem me soltar, ele se aproximou por trás e sussurrou em meus ouvidos:
-Espero que tenha aprendido, escravinho...
O roçar daquela pequena barba arranhando minhas bochechas, juntamente com o hálito quente e ofegante, me fez estremecer. Não precisei ficar de olhos abertos para sentir que ele estava excitado. E eu, sem compreender nada.
Ouvi alguns passos e a porta sendo fechada e trancada.
Fiquei no escuro.
***
Fiquei no quarto por algumas horas até que senti um toque suave em minha nuca. Acompanhado de uma voz feminina que me perguntava se eu estava bem, pensei que fosse alguma alucinação. Uma jovem de cabelos longos e negros se aproximava de mim, libertando-me do castigo.
-Ele pediu que eu o soltasse agora. - disse, num tom sério. - E ordenou que se apresentasse agora em sua sala.
-Q-quem é você? - perguntei, enquanto observei a garota me soltar das correntes.
-Meu nome é Ana. Eu também moro aqui. Desculpe, mas não estou autorizada a conversar com você neste momento. - respondeu, quase que mecanicamente. - Venha, ele o aguarda.
Só depois de liberto que pude perceber que minhas mãos estavam dormentes. Meu peso estava apoiado nos pulsos, que estavam vermelhos e inchados. Sem citar minhas costas, que estavam em brasas. Notei também que minha blusa havia sido rasgada pelos golpe. Acompanhei Ana até a sala. No caminho, pude observá-la. Ela usava uma roupa branca e simples e aparentava ter no máximo vinte anos.
Depois de caminharmos um pouco, cheguei até a sala. Ele estava sentado na poltrona, fumando um charuto. Quando o olhei daquele jeito, sentado e tranquilo, demorei para acreditar que aquele mesmo homem havia, horas atrás, me punido sem dó. Ele olhou-me dos pés a cabeça, e, com um sorriso, disse:
-Vire-se e retire a blusa.
Concordei e fiz o que me foi ordenado. Escutei sua risada novamente. Ele estava observando minhas costas. Fortes e vermelhos vergões eram como a tela de uma sádica pintura. Eu era sua obra de arte, um painel que ele, com o chicote, havia desenhado no meu corpo. Senti uma baforada quente do charuto nas minhas costas, mas não ousei me mexer.
Creio que que fiquei parado por cerca de dez minutos. Imóvel e estático. Um forte sentimento de humilhação e medo percorreu meu corpo. Esperei que ele dissesse alguma coisa e não tardou para que acontecesse:
-Sendo filho de padeiros imagino que você saiba cozinhar alguma coisa. - disse, estendendo o braço e depositando a cinza do charuto no cinzeiro, que Ana segurava. - Quero ver se você sabe mesmo fazer um bom pão...
Havia maldade e desafio naquelas palavras. Mas não me intimidei. Concordei em fazê-lo e ele se mostrou surpreso com a minha boa vontade. Ordenou que Ana me acompanhasse até a cozinha e disse que queria experimentar assim que ficasse pronto.
-Vá sem a blusa. - disse, como uma recomendação.
-Sim, senhor. - respondi.
Ana levou-me até a cozinha. E foi lá que pude conversar mais com ela. Eu tinha tantas perguntas em mente e a impressão que Ana poderia me explicar melhor o que estava acontecendo. Que casa era aquele e quem era o meu senhor...