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Lembranças de Demoníaca!
O tempo passara desde o dia que Ele a tomara no bar, ela nunca mais voltou. Deixara tudo, sua vida se transformara. Trancada naquele castelo fazia meses nunca sentira falta do mundo exterior. Somente hoje enquanto se penteava em frente ao espelho, nua, a pele fresca e cheirosa, se pusera a recordar da vida que levava antes de sua entrega. Não era afeita a vida social, distanciara-se da família com quem mantinha contatos cada vez mais esporádicos, o trabalho lhe era maçante, enfadonho. Seu prazer se resumia na busca por artigos exóticos e a visitação de exposição artísticas.
Fora assim que o conhecera. Demorara na visita a uma exposição de um escultor desconhecido, pois suas peças tinham algo de deslumbrante e instigante. Lembra-se que não resistira e tocara uma peça que lhe despertara emoções estranhas, era assustadora e ao mesmo tempo hipnótica. Pensava agora o quanto demoraria a afastar-se, se não tivesse sido interrompida por uma recepcionista do evento. Pensou que esta iria lhe chamar atenção, mas ela apenas entregou-lhe um cartão de visitas a mando de um Senhor, que segundo a moça já havia se retirado.
Guardou o cartão na bolsa e praticamente esqueceu-se dele. Porque iria ligar para um desconhecido qualquer, devia ser daqueles tolos que se apaixonam a primeira vista e nada tem a acrescentar a vida de uma mulher. Cansara-se de relacionamentos mornos, temperados a falsidades sociais. Escolhera o celibato, por não encontrar quem a trouxesse de volta as sensações mágicas das descobertas sexuais.
Por algum motivo o cartão ficou caído na sua mesa de computador por uns dias. Já ia jogá-lo fora quando resolveu observar melhor o que estava escrito: Escultor e apenas um email de contato. Abaixo escrito à mão: não demore. Enquanto liberava sua correspondência naquele dia, olhou diversas vezes para aquele cartão. Seria Ele o artista da exposição? Resolveu escrever-lhe um elogio, pois ficara realmente impressionada com suas obras (mal adivinhava que isso a levaria a ser moldada por tão hábeis mãos), seria um estímulo a continuar.
A resposta veio naquela mesma noite: Demorou! Esteja on line hoje, hora marcada. Achou aquilo um absurdo e resolveu encontrar-se com o Escultor para dizer-lhe que era grosseiro e arrogante e que duvidava da sua capacidade artística. Que tola era ela! Seu destino estava sendo traçado e ela lutando contra.
Entrou no horário ordenado. Ele já estava lá. Saudou-a de forma gentil e doce, como se ela fosse a mais perfeita criação da natureza. Suas armas e injúrias caíram por terra. Sentiu-se enrubescer. Ele determinou todo o rumo da conversa, levou-a a revelar coisas sobre si mesma que até ela desconhecia. Ao final, quando Ele abruptamente encerrou tudo com um pedido absolutamente encantador, ela descobriu que nada dissera dEle mesmo.
Desligou o computador e foi se deitar, não sem antes tirar a calcinha, ajoelhar ao pé da cama e agradecer pelo presente que a vida havia lhe proporcionado naquele dia. Riu ao deitar-se, agira tolamente, mas aquilo lhe fizera um bem enorme. Dormiu com as mãos entre as pernas e um belo sorriso no rosto.
Logo cedo encontrou um email dEle: Hoje, mesmo horário. Puxa, Ele nem se dava o trabalho de assinar. O dia foi longo, estivera alheia aos acontecimentos, aguardando o momento de encontrá-lo.
Tudo começou assim, e agora diante do espelho, penteando-se, a pele lisa e sedosa, algumas pequenas marcas no corpo e olhando para a peça na penteadeira (a mesma que ela tocara na exposição), sentia-se plena e bela como nunca. A roupa que Ele determinara para o dia, estava ali na poltrona ao lado, sua vida lhe esperando do lado de lá daquela porta. Era escrava de seu Senhor e senhora de um castelo, achava engraçada essa contradição. Sua responsabilidade era manter tudo ao gosto de seu Dono. Escultor de Almas que havia lhe roubado do mundo mas lhe dera Vida. Sua prisão era sua mais bela liberdade, todos os dias no cair da tarde, saía a cavalo para os campos mais distantes da propriedade, como Ele lhe ordenara. Ao chegar próximo ao lago, apeava, despia-se e corria nua pela relva fresca, sentindo o calor dos últimos raios solares, recebendo toda energia da terra e sentindo o vento trazer-lhe os aromas da flores, das árvores. Sua alma rebelde então amansava, sorvia poucas gotas da água do riacho, passando a língua nos lábios que logo seriam marcados por beijos exigentes e vigorosos. Limpava seus pés naquelas águas, vestia-se, montava e voltava correndo, rosto corado, sorriso aberto, descalça e o aguardava na varanda da frente com o vestido escolhido para o dia, cabelos soltos.
O simples barulho do carro chegando fazia seu coração agitar-se, a respiração ficava entrecortada e os olhos brilhavam de excitação. Perguntava-se se isso um dia iria mudar, já fazia tanto tempo...
Lembrou-se que era dia 22, número mágico para eles. Estivera na exposição no dia 22, foram 22 dias de contatos virtuais, mais 22 dias freqüentando aquele bar sombrio a esperá-lo. Como sofrera por aquela longa espera, mas não chorara, resignara-se. O acordo eram 30 dias, se Ele não aparecesse ela seguiria sua vida e esqueceria sua existência. Imaginava Ele que ela poderia seguir. A angústia dessa possibilidade fora seu tormento. Mas todos os dias quando se vestia seguindo as orientações recebidas e ia caminhando até o bar, sentindo os olhares voluptuosos dos homens e a dissimulada verificação das mulheres fortalecia-se, sabia-se perfeita, única, sensual, elegante, mulher. Por ordem dele, nunca olhava fixamente nenhum freqüentador. O único deslize fora naqueles segundos no dia que ele a raptara do mundo, com o homem do balcão, pois eram cúmplices, ele a acompanhara naquela espera infindável todos os dias.
Quando um dia, algum tempo depois, seu Senhor lhe contou que esteve no bar todos os dias a cuidá-la e que por algumas vezes teve que se indispor com idiotas para que não a incomodassem, sorriu. Estavam na sua torre, onde ninguém tinha acesso, ela sorria e sentia uma alegria imensa, uma comoção enorme e a certeza de que Ele sempre a cuidara, desde o primeiro dia da exposição e que assim seria sempre. Levantou os olhos para seu Amo, beijou-lhe as mãos, Ele a levantou, segurou-lhe o queixo firmemente e tomou-a para si, invadiu-lhe o ventre e a alma novamente. Mais uma vez perdeu-se em sensações...