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As Lâminas de Carmem

Os seios carnudos apertavam contra o meu peito. Podia sentir sua respiração suspensa, enquanto prensava seu corpo contra a parede de seu quarto. As unhas afiadas de Carmem fodiam minha pele, com fúria. Os olhos de castanho-oliva coagulavam sangue em suas diminutas veias dilatadas. Fechei minhas mãos com mais força em torno de seu pescoço. Suas unhas me arrancavam pedaços de pele ensangüentados e corriam cada vez mais fundas pelas minhas costas. Estava sendo retalhado pelos gumes de unhas. Eram lâminas cirúrgicas. Ela tentava respirar, meu rosto se aproximou ao dela, nossas bocas se tocaram levemente, pude sentir sua boca seca e pálida precisando de algum centímetro cúbico de ar. A pressão de minhas mãos ao redor de seu pescoço fez sua traquéia se fechar, nessa hora ela exalou um quase inaudível gemido de alguém entrando no efeito de asfixia por estrangulamento. Por um segundo, seus olhos se esconderam sob as pálpebras, e voltaram a refletir meu rosto banhado em suor. Ela sem ar, eu sangrando. Nenhum de nós iria parar. Projetei meu corpo contra o dela, e senti seus pulmões encolhidos, implorando por um pouco de oxigênio. Carmem, a um passo da respiração de Cheyne-Stokes, cravou as unhas entre minha escápula e a espinha dorsal, com todas as suas forças. Pude sentir um pedaço de unha quebrar dentro de mim. Ela sorriu, tomada por um semblante de orgulho, quando fechei meus olhos para canalizar a dor. Fechei minhas mãos com mais força, outro gemido agudo e baixo e os olhos reviraram outra vez. Sabia que o pior problema com o estrangulamento era a sobrevivência da vítima. Sabia que enquanto ela estivesse viva seu cérebro pararia de receber oxigênio, ela teria alucinações, taquicardia, sangramento nasal, homeptise, pleurisia, convulsões e espasmos lhe explodindo pelo corpo. Era questão de minutos sem ar para náuseas, vômitos, incontinência fecal, tenesmo vesical e noctúria. Não queria vê-la morta, todavia, sabia que se hesitasse perderia o jogo. A regra inviolável e implícita naquilo tudo era Nunca Parar. Aquilo era sexo, mas não era a porra de um papai-e-mamãe, não era uma bucólica e nauseante lua-de-mel-romântica. A vértice orgástica daquilo tudo era o domínio sobre si. Não era sexo-seguro, não havia pudor, medo ou qualquer outra regra, a não ser - Nunca Parar. Nós estávamos sobre a turva linha que separa prazer e tragédia. As veias de seu pescoço estavam grossas e inchadas, Carmem estava com um tom vermelho rubi no rosto, os olhos de oliva voltaram a mostrar a parte branca. Ela tentou outra vez me destrinchar como um peru de natal, mas já não havia forças. Seus braços caíram entre nós, senti o peso de seu corpo nas minhas mãos, seus olhos fecharam e não voltaram a me lançar aquele olhar blasé e penetrante. Passei algum tempo lhe fitando, inconsciente, prensa na parede, toda a fúria havia cedido lugar para um objeto imóvel, feito de carne e ossos. Com uma mão em seu pescoço, lhe mantive na mesma posição, imóvel. Usei a mão livre para entrar nela, entre suas pernas, enfiei dois dedos bem fundo. O gozo ainda quente besuntara meus dedos. Levei os dedos a boca e senti seu gosto. Lentamente. Então a soltei. Abri minhas mãos e Carmem foi direto ao chão, fazendo um barulho da queda de um monte de entulho contra o carpete vermelho de desenhos islâmicos. Carmem ficou imóvel no chão. Dei-lhe as costas, e ela despertou. Em câmera lenta começou a se revirar, com a respiração em desritmo, tentava puxar oxigênio, não conseguia inflar os pulmões. Podia ouvir sua sibila grotesca, tentando desesperadamente voltar a respirar. Apanhei o maço de Marlboro no bolso de minha calça jeans jogada no chão, aos pés da cama King Size. Sentei-me na beira da cama e acendi um cigarro. Fiquei fitando-a se revirar no chão, nua, entre a vida e a morte, fazendo aquele barulho todo ao tentar fazer o oxigênio voltar a circular por seu sistema respiratório semi-atrofiado. O peito inchando e esvaziando anacronicamente, ela parecia uma gata engasgada com uma bola de pêlos ou uma bomba-de-ar quebrada. Traguei o cigarro e deixei minhas costas caírem sobre o lençol negro na cama, senti os sulcos ensangüentados arderem contra o tecido viscoso. O pedaço de unha ainda estava lá, cravado em mim. Inclinei-me para o lado, tentei puxá-lo de uma só vez, mas era uma espécie de ferrão de vespa, a maior parte estava dentro da carne e não conseguia prendê-lo entre os dedos, precisaria de um alicate ou uma pinça para o trabalho. Desisti. Continuei deitado por alguns minutos, observando os desenhos dourados no assoalho de gesso e ouvindo Carmem fazer aquele barulho todo com os pulmões quase explodindo. - Você – ela rosnou, engasgando com o ar e as palavras – perdeu, porra!