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G E W Ü R G T (2ª parte)

Fora daquele cômodo escuro e abafado, um outro homem acorda. Ele também dormiu em um colchão jogado no chão e sente o corpo levemente dolorido. Ouvindo os gemidos amordaçados do homem seqüestrado, sorri. Há horas ele estava desmaiado. Nada o acordava por mais que o sacudisse. Parecia morto. “É o clorofórmio!”, explicou um dos rapazes que o capturou no centro e o trouxe para esta casa. “Ggggggmmmmmgoodmmmm”, ele geme baixo e irregular. Para conseguir ouvi-lo é preciso muita atenção e silêncio. Se um rádio estivesse ligado ou duas pessoas conversado, ninguém o ouviria. A mordaça é mesmo boa. Na Alemanha, o vendedor fez questão de se auto-amordaçar para demonstrar, mas não era uma situação real. Como também não foram as com os garotos de programa. Em nenhum dos casos, a vida deles dependia de alguém ouvi-los. Então, gemiam de qualquer jeito. Alguns, rindo. Agora, porém, ele ouve um gemido que luta para ser ouvido e isso lhe causa uma excitação inigualável. Em silêncio e saboreando aqueles grunhidos, ele se levanta. Tem sede. Numa torneira sem pia, bebe uma água com gosto de plástico que lhe embrulha o estômago e quase o faz vomitar. “Comprar um galão de água!”, ele pensa, enquanto abre a geladeira e pega uma lata de cerveja. Seca-a de um gole só. O enjôo diminui. E seu tesão só aumenta. Há mais de um mês preparava-se para este final de semana. A primeira parte parecia também mais difícil: encontrar a vitima certa. Teria que ser alguém que pudesse desaparecer por alguns dias sem que ninguém se importasse. Nisso, como em tudo mais, teve sorte. O dono de uma sauna prive lhe mostrou as fotos que um fotografo de bairro havia enviado. Fotos ruins e amadoras de homens pelados. Com uma máquina digital, ele os fotografava em seu apartamento e tentava agenciá-los. Não eram modelos nem garotos de programa profissionais, apenas desesperados de todos os tipos. Gente que fazia qualquer coisa por qualquer dinheiro. Por essas fotos, ele o escolheu. Gostou dele pelo modo contrariado como beijava os outros modelos e pegava em seus paus. Via-se que não gostava daquilo, mas que não tinha escolha. Era um homem comum como tantos outros. Nem alto nem baixo. Com mais de trinta anos. O corpo firme, mas sem músculos fortes. O rosto quadrado. Os cabelos escuros e encaracolados. O pau, normal. E a bunda, boa. Não devia fazer muito dinheiro como michê nem com nada. Soube, depois, que ele estava para ser despejado da pensão ordinária que morava e que tinha dívidas em toda cidade. Todo mundo sabia que logo ele iria sumir. Se não fosse por iniciativa própria, pela dos outros. Escolhida a vitima, o resto foi só dinheiro. Pagar para alguém vigiá-la alguns dias, para arrumar um lugar seguro para o cativeiro e para capturá-la e entregá-la onde ele combinasse. Nada muito complicado e novamente teve sorte. O rapaz que seguiu a vítima sabia de uma casa fora da cidade e tinha um amigo que poderia ajudá-lo a fazer o seqüestro. A casa escolhida está em obras. Há canos, madeira e sacos de cimento por todos os lados. Não tem nenhum móvel. Nem mesmo uma cadeira. Mas tem uma geladeira, um fogão de duas bocas e o mais importante: é segura e afastada da cidade. Não muito, mas o suficiente para ser um lugar quase deserto. Não há vizinhos perto. A água e a luz são roubadas. Vêm por mangueiras enterradas nos terrenos vazios. Mesmo tendo calculado tudo muito bem, ele esqueceu da água. Nada muito difícil de resolver. E depois, tem cerveja, suco e leite na geladeira. De sede, eles não morrem. E mesmo que tivesse o dobro de trabalho que teve, aqueles gemidos já pagaram todo esforço. Em cima de uma tábua sobre dois cavaletes que serve de mesa, está a mochila com as roupas do homem capturado. A dona da pensão a vendeu sem perguntar nada e ainda deu desconto. Ela se achava muito esperta, mas não era. Ele teria pagado quanto ela pedisse. Estava com aquela mochila há quase dois dias. Ela guarda quatro calças jeans surradas, oito camisetas puídas, umas blusas de frio, algumas meias furadas e seis cuecas brancas de listras, destas vendidas em pacotes de três, e duas diferentes, que ele devia usar para trabalhar. São as peças mais novas. A preta é toda transparente e a vermelha tem um zíper na frente e, atrás, é fio dental. Todas estão muito usadas e cheiram forte o sexo dele e o de seus clientes. Na pensão, ele não tinha onde lavar suas roupas e também não parecia muito preocupado em arrumar um. “Ele é imundo!”, a proprietária avisou quando abriu a porta do quarto 20 para pegar as roupas dele. O quarto era um quadrado úmido, fedendo a mofo e com uma pia encardida e sem água. Na parede, tinha um pôster do Rambo segurando uma metralhadora e outro do Bruce Lee dando um golpe de karatê no ar. Os dois sem camisa, musculosos e voltados para a cama dele. Deitado, ele podia olhá-los até dormir ou, se quisesse, baixar a cueca e bater uma sem muito esforço. (continua)