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Espumas na Noite
Era uma vez um Dominador que sonhava.
Ele sonhava e tinha o dom de transformar todos os seus sonhos em realidade.
Sonhava com Sua vida. Uma vida boa, rica, abundante. Sonhava com a busca de todo o conhecimento do Universo pois era ávido do Saber. Sonhava com Seu Reino. Um reino próspero, onde as pessoas viviam na mais perfeita harmonia e eram felizes. E com seu dom especial fez com que todos esses sonhos fossem reais.
Mas ainda faltava concretizar mais um. Ele sonhava com a submissa perfeita. Não como a maioria. Sonhava com uma sub muito especial, que pudesse reinar ao seu lado. Como era muito inteligente e curioso, buscava alguém com quem pudesse conversar, que tivesse personalidade, inteligência, conteúdo e uma boa dose de independência no seu pensar. Uma switcher? me perguntariam alguns. Nada disso. Mas, alguém que se submetesse somente a Ele e Lhe entregasse completamente sua alma, seu corpo e seu coração.
Subs e escravas vinham de todos os cantos do mundo para se ofertar a Ele. Algumas muito boas até. As melhores de todos os Reinos já existentes. Mas ainda faltava algo para que elas fossem exatamente como aquela que Ele desejava possuir.
Um dia, contaram a Ele que havia uma mulher que morava em uma floresta ali perto, mas que era muito arredia. Ela brincava livremente com os animais, se banhava nua no riacho nas noites de lua. Era um vento livre. Ele deveria chegar com muito jeito senão ela fugiria. Então, disfarçou-se de viajante e foi ao seu encontro.
Pediu pousada em sua cabana e disse que estava na estrada à muito tempo, atrás de algo que Ele nem mesmo sabia se existia. Ela apenas sorriu. Disse que entrasse e ficasse o quanto quisesse. Acolheu-o com carinho e doçura. Preparou-lhe um banho com ervas para que lavasse a poeira e o cansaço da estrada, cuidou de Suas vestes, preparou-Lhe uma sopa quente e revigorante. Ele somente observava. Percebia que ela trazia em si a essência da fêmea. Resolveu, então, ficar alguns dias.
Durante o dia ela Lhe ensinava sobre a natureza. Ele brincava com ela e os animais na relva, conversavam sobre tudo, e riam... riam muito juntos. Quando a noite caia, já cansados, Ele a aninhava em Seu corpo à frente da lareira, após se banharem nus no riacho, e passeava as mãos sobre aquele corpo que ia, pouco a pouco, desabrochando em Suas mãos.
Foi, delicadamente, introduzindo novas brincadeiras a cada noite. A imobilizava com cordas de algodão que ela mesmo trançara e tingira durante o dia, vendando seus olhos e lhe explorando as sensações corporais, em algumas noites. Em outra, apresentou-lhe os prazeres do fisting quando estavam imersos no riacho. Assim fez até que ela aprendesse todas as práticas que Ele tanto gostava. E ela, a cada dia, superava mais e mais os seus limites. Até que chegou o dia em que Ele a chamou para viver em Seu Reino.
Apesar de todo o temor que tinha por deixar a floresta em que vivia, ela havia aprendido a amar aquele homem, de uma forma tão intensa, que Sua presença era para ela tão imprescindível quanto o ar que respirava. Então, ela largou tudo e seguiu aquele Homem sem olhar para trás.
Todo o Reino a recebeu de braços abertos. Finalmente o grande Senhor tinha a submissa que tanto queria.
Durante um bom tempo viveram muito felizes. A cada dia ela superava os seus limites. Aprendia cada vez mais, queria cada vez mais. E a adoração que ela tinha pelo seu Senhor estava estampada em seus olhos e em todos os seus gestos e atitudes. Ele também estava muito satisfeito com tudo. Na verdade, se amavam. E eram muito felizes desta forma, até que esse sentimento radiante começou a incomodar alguns.
Certos Dominadores, Senhores de outros Reinos, e outras plagas, começaram a se preocupar com o fato de haver diálogo e amor entre eles. E se isso desse idéias às suas subs? E se elas passassem a acreditar que poderia, sim, haver amor em uma relação BDSM? E se elas resolvessem dialogar? Não! Isso não poderia acontecer. Colocaria tudo a perder. O mundo deles, simplesmente, desmoronaria...
A subs de outros Reinos, algumas muito boas, as melhores até, começaram a sentir muita inveja do relacionamento dos dois. Como podia, uma sub ser tratada como gente, como alguém que tinha identidade, pensamento próprio, um tesouro de ouro e jade? Porque ela era merecedora desse tratamento, enquanto todas as outras eram consideradas como ``subnitrato de pó de traque´´, como lixo? Não, ela não poderia continuar assim tão feliz...
Nas manhãs, os Dominadores saiam juntos para caçar ou ficavam no castelo cuidando dos afazeres normais que os Senhores tem. Nesses momentos, os Dominadores temerosos pelo seu futuro, diziam para o Dominador que sonhava, que ele não poderia tratar a sub daquela forma, que não estava certo, que no Manual do Bom Dominador, na página 827, dizia que não poderia haver amor. Que se Ele continuasse a tratar a sub daquela forma, em breve, Ele é que seria o dominado. E tanto falaram no ouvido do coitado que Ele resolveu mudar Sua postura.
Às tarde, as subs permaneciam no harém se preparando para servir seus Senhores. E nesses momentos conversavam sobre as fofocas de todos os Reinos, os últimos modelos em algemas de couro, a cor da moda para coleiras, os novos óleos para massagens, essas coisas que todas as mulheres conversam quando se encontram sem a presença masculina. E as subs, invejosas do relacionamento do Vento Livre com seu Senhor, começaram a minar sua confiança. Diziam que ela seria largada e esquecida de lado tão logo seu Senhor se cansasse de brincar com sua pretensa inteligência, que conteúdo, em submissas, era atrativa num primeiro instante, mas que o que todo Dominador desejava era uma submissa acéfala e obediente, que existisse somente para servir. E tanto falaram no ouvido da coitada que ela ficou insegura do amor de seu Senhor.
Os dias foram passando. A relação entre os dois já não era mais a mesma. Ele cobrava dela uma perfeição, dentro dos moldes do Manual do Bom Dominador, e seguia cada linha à risca. Ela foi se anulando, por amor a Ele, que se importava agora somente com sua postura perante a comunidade, se esquecendo de tudo aquilo que antes havia desejado. Já não havia mais compreensão. Já não havia mais cumplicidae. Já não havia mais felicidade.
Aos poucos, Ele foi deixando de sentir prazer em estar em companhia dela. Ela não mais dialogava. Não riam mais juntos. O servir havia se tornado uma obrigação, não mais um prazer. E Ele então foi se afastando.
Ela, vendo que a cada dia seu amado estava mais distante, foi entristecendo cada vez mais. Lembrava-se das palavras das outras subs, e tentava se anular totalmente para que seu Senhor voltasse a lhe amar como antes. Mas, vendo seus esforços inúteis, sua alma adoeceu.
Um dia, não aguentando mais a pressão, tentou dialogar com Ele, ver onde foi que errou, onde o caminho se perdera. Ele foi grosseiro com ela. Disse que ela não poderia questionar nada. Ela respondeu que estava sendo sincera quando falava de seus sentimentos.
- Não me interessa sua honestidade. A mim, só interessa a sua postura!
Nesse momento ela começou a chorar. Chorava copiosamente. E sua tristeza era tão profunda que os elementais da floresta onde ela vivera se compadeceram dela e fizeram com que ela se dissolvesse em suas lágrimas, que escorreram formando um rio de prata que separou o Reino da floresta.
Ele, ao ver o Seu grande sonho se desfazer a Sua frente, deu um grito terrível de dor e tentou reter a água, que um dia foi aquela sub que Ele tanto desejara e a quem amava profundamente. Em vão! Como todo rio segue seu curso, ela também já havia seguido para o mar. Como tinha sido tolo em ouvir Seus pares! Afinal, o jogo era Dele, e as regras também deveriam ser!
Ele, então, largou tudo, despiu Suas vestes e se embrenhou na floresta etntando encontrá-la. Os sussurros, trazidos pelo vento nas copas das árvores, que se escuta na floresta, é o seu lamento de dor.
E nas noites de luar, podemos perceber a sub da floresta, transformada em espuma de prata por sobre as ondas, indo e voltando. Se mantem à distância, na escuridão da água fria do oceano e ao ouvir o chamado daquele a quem entregou sua alma, pensa em voltar, pois seu amor por Ele é imenso. Mas então, se lembra de toda a dor, e retrocede.
E é por isso que as ondas vem e vão. Eternamente!