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Demoníaca!
Era uma mulher interessante. Poderia ser definida como uma figura exótica. Chegava pontualmente ao Pub todos os dias às 19 horas, vestida sensualmente e coberta com uma capa. Entrava altiva nos saltos sempre altíssimos, parava deliberadamente, tirava a capa, queria ser vista e seguia para uma mesa de canto, onde pudesse observar o bar. Naquele dia especialmente estava mais bela. Pude perceber até o perfume forte o suficiente para marcar sua presença, mas não impregnava o ar seguia-a em seu balançar discreto. O cabelo de um negro brilhante impecavelmente preso, com uma mecha farta a cair na lateral. Assim chamava atenção para os olhos profundos, obscuros, bem maquiados com sobrancelhas especialmente grossas. O longo nariz combinava com seu rosto angular. A boca sempre marcada de um vermelho vivo e entreaberta sugeriam uma língua ávida por beijos. Difícil adivinhar-lhe a idade, era dessas mulheres que o tempo esqueceu. Madura na atitude, corpo delineado de jovem, ousadia adolescente de não se importar com o mundo e até mesmo um vislumbre de diversão infantil com as reações sabidamente provocadas. Podia adivinhar que ali estava para uma travessura digna dos piores castigos, planejada e desejada.
Desci o olhar para seu colo, ``mon dieu´´ era obsceno olhar aqueles seios que pareciam querer saltar do decote e ser sugados interminavelmente. O pescoço descoberto, marcado por uma discreta gargantilha que fazia lembrar as argolas de escravas africanas, e onde se via uma pequena marca fazia a imaginação correr. Ombros descobertos mostravam uma pele sedosa, e daquele ângulo pude vislumbrar uma pequena cicatriz, logo abaixo do pescoço. Braços longos, mãos bem cuidadas e unhas de um vermelho carmim, que não sei porque me lembrava sangue, e me evocava a necessidade de prová-lo. Sentara-se e o vestido preto sofisticado deixou entrever as pernas, longas e definidas, convidando a um abraço. Meias 7/8 de renda mal disfarçadas deixavam aparecer um relance das coxas que mereciam ser comprimidas por mãos hábeis.
Eu já estava perdidamente desconcertado com o efeito de sua presença, virei os olhos e deparei com os seus, ela me sabia excitado, mas baixou seu olhar rapidamente num gesto aparentemente recatado que me provocava ternura. Olhei para seu ventre e imaginei que teria filhos. A cintura era fina, mas havia algo de maternal no formato de sua barriga lisa. Imaginei-me a lamber-lhe o umbigo. Ela se moveu, e no movimento das pernas me deu o prazer de mais adivinhar que enxergar sua vulva totalmente despida de roupas e pelos.
Costumo beber apenas cerveja, pedi um whisky, que tomei sem sentir.
Os saltos finíssimos dos sapatos impecáveis soaram no chão às minhas costas e eu gelei. Ela se aproximou do balcão, inclinou-se levemente de forma despretensiosa me roçar o braço, e acho que até mesmo vislumbrei um meio sorriso onde a ponta da sua língua aparecia (creio agora ao descrever a cena, que foi a minha imaginação). Pediu cigarro, uma garrafa de vinho tinto de boa qualidade e voltou ao seu lugar.
Eu suava e latejava de tesão. Servida do vinho, ela pegou o cigarro, abriu a pequena bolsa sobre a mesa e tirou um isqueiro. Acendeu-o fitou gravemente a chama, parecia apreciar o fogo, e deu uma longa tragada saboreando a fumaça, enquanto eu me desfazia inteiro. Seus gestos pareciam tensos, e ao mesmo tempo que naturais.
Ela nunca falava com ninguém, ali permanecia por hora e meia, tomava apenas três cálices de vinho e levantava com um semblante levemente desapontado e saía. Me dei conta naquele momento que nunca a vira pagar uma conta, saía como que despercebida. Atravessava a rua e sumia.
Creio que esse ritual durou uns 15 dias. Pouco mais, pouco menos. E foi naquele dia que o homem apareceu. Figura imponente, impressionou-me sua aparência elegante, mas de uma certa virilidade animal. Rosto forte e marcado, lhe oferecia uma dignidade impar. O sobretudo não escondia um corpo avantajado que se adivinhava definido por atividades físicas. Impressionou-me as mãos (e olha que homens não me impressionam) e pude imaginar o que fariam com aquela mulher quando ele se encaminhou para ela. Ela mal levantou os olhos, vi que entreabriu mais os lábios e molhou-os com a língua. Meu Deus, aquela língua que eu há dias imaginava a explorar meu corpo. Pude perceber um leve tremor em seu corpo quando ele se sentou sem dizer palavra. Ele encheu o cálice de vinho, e bebeu-o calmamente, enquanto deliberada, e até certo ponto grosseiramente, avaliava aquela mulher. Eu podia perceber-lhe o desconforto e me perguntava o que estaria acontecendo ali. O olhar dele percorria cada ponto, cada parte daquele corpo maravilhoso, e ela reagia como se estivesse sendo tocada. O rosto da minha deusa se transformara em um mar de pornografia mal disfarçada. Somente naquele momento percebi o quanto era devassa e despudorada. Ele a desnudara na minha presença (e de todos os presentes, pois naquele momento o bar estava cheio) de forma amoral.
Puxou-a pela mão de forma delicada e impositiva, ela se moveu com uma leveza única e levantou-se. Ele, ainda sentado segurou-a pela cintura, e eu pude notar que ia desfalecer mas manteve a postura com forças retiradas do seu íntimo, que eu podia sentir em chamas como o fogo do isqueiro. Quando ele desceu levemente as mãos na altura dos quadris, ela afastou as pernas (quem ia desfalecer naquele momento era eu, será que mais ninguém percebia a magia que ocorria naquele ponto do bar?). Ele ergueu-se, beijou-lhe o rosto bem próximo àquela boca irresistivelmente erótica e virou-se para a porta, seguindo calado. Ela rapidamente pegou a bolsa e a capa e seguiu-o.
Tive intenção de detê-la e ela talvez percebendo isso virou os olhos em minha direção, e não me perguntem porque pude perceber naqueles olhos negros uma indescritível felicidade agradecida e vitoriosa.
Nunca mais a vi, mas continuo voltando ao bar diariamente na esperança de descobrir o que aconteceu depois que viraram a esquina a dois anos atrás, e eu ainda pude ver a mão dele sobre seu pescoço longo, a acariciar a cicatriz.
(E foi assim que Demoníaca conseguiu sua coleira, a duras penas, sendo testada diariamente durante 22 dias, se expondo, se mostrando, se entregando àquele ser que não se materializava. Instruíra-a e deixara claro que poderia um dia, se a achasse merecedora, ir ao seu encontro, mas também poderia nunca nem mesmo ir avaliar sua dedicação. Por 22 dias ela vivera pra Ele, sem um único sinal, sem nem mesmo uma certeza. Dedicara todo seu empenho e determinação num fio de esperança que seu momento, tantas vezes desacreditado chegara. Agora ali ajoelhada com cabeça no colo de seu Dono, enquanto vislumbravam o entardecer da mais alta torre do castelo, as lágrimas lhe desciam incontroláveis e Ele afagava gentilmente seus cabelos, como sempre fazia ao final de suas cenas. Nua, sentia leves tremores no corpo no contato com a brisa fresca que pareciam fazer voltar os orgasmos atingidos momentos antes, ate que ouviu ao longe Sua voz firme: ``não goze doce cadelinha, ou me obrigará a castigá-la e estamos exaustos´´. Sorriu feliz, felicidade essa que não a abandonara nos últimos dois anos, e lembrou-se do homem do bar, ele sabia,era o único que sabia).