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K e o Quarto Escuro
Coloquei uma cadeira no centro da sala e chamei K. Ela veio da cozinha, com um copo de suco. Ela estava de shorts e blusa de alça.
Senta.
Ela sentou segurando o suco.
Bebe logo esta porra!
K fez uma careta. Bebeu tudo e colocou o copo no chão ao lado da cadeira.
Eu fiquei andando ao seu redor. K ficou com a cabeça imóvel, mas os olhos tentavam me acompanhar.
Fiquei em silêncio por um ou dois minutos. Eu sentia a expectativa de K tão concreta como um soco no estômago.
Tira a roupa, falei finalmente.
A putinha estava tão acostumada a ficar nua que nem pestanejou em tirar a roupa.
Voltou a se sentar na cadeira.
Onde está a coleira?
No quarto.
Vai pegar...
K se levantou.
Engatinhando e rebolando...
K ficou de quatro e foi até o quarto. Voltou com a coleira na boca.
Coloque-a.
Ela colocou.
Sente novamente.
Nua e frágil, ela se sentou e ficou me ouvindo:
Muito bem, K. Eu dei estas ordens, pois eu queria ver mais uma vez como você as executaria. Se faria de uma maneira automática ou se faria carregada de espírito. E você, K, fez de uma maneira automática.
Mas...
Psiu! Não quero ouvir um pio!
Sim, senhor.
Pigarreei, olhei para ela e continuei:
Você não sabe o que quer, K. Uma hora, me adora, me ama, promete que nada vai te chocar, que o que ofereço é o melhor dos mundos, que é um universo em si mesmo. Outra hora, começa a ficar indisciplinada, se recusa, se choca, diz que minha sensualidade é bizarra, que te ofende, que não tem charme e não sei mais o que. Como você quer que eu te trate, sua puta?
Eu não me queixei de nada!
Cala a boca!, disse e lhe dei um tapa no rosto que a deixou completamente chocada.
Está vendo como você ficou? Com cara de choro...
K abaixou a cabeça.
Às vezes, você me irrita, K. Tenho vontade de te dar uma surra até te deixar toda inchada...
Eu estava começando a ficar transtornado. Fui até a janela e tentei respirar. Vi alguns pássaros negros passando pelo céu. Pareciam gralhas. Mas o que fariam malditas gralhas no céu de São Paulo?
Eu me voltei para K.
Você vai para o quarto escuro.
Ela levantou a cabeça.
Não, por favor, o quarto escuro, não.
Você precisa. Você precisa saber o que quer, se quer mesmo entrar neste mundo erótico submerso em sombras e em sonhos. Se está disposta de sentir o prazer mais banal até o mais espetacular. Se quer o teatro, a magia, a poesia assim como também a masmorra, o chiqueiro, a podridão. Chega de colocar limites na loucura. É para isto que vou te colocar no quarto escuro. Para você pensar, refletir, decidir.
Eu tenho medo de escuro, ela falou numa voz infantil.
E eu não sei? Toda vez que te prendo no quarto escuro, você se cutuca toda, se machuca, se fere, corta a própria pele, rói as unhas, treme, se apavora, faz tudo, mas não faz a coisa mais importante: pensar.
Eu não consigo pensar com medo.
Vamos ver se não consegue.
Saí e fui até a área de serviço. Esperei algum tempo para que minhas palavras fizessem efeito. Voltei em seguida com as correntes e os cadeados.
K me olhou assustada.
O que o senhor vai fazer?
Eu vou te acorrentar, te amordaçar e te colocar no quarto escuro.
A expressão de K ficou ainda mais assustada.
Se o senhor não me prender, prometo que eu não vou mais...
Estou cansado das suas promessas, K. Está na hora de você crescer. Venha!
Ela continuou imóvel na cadeira.
Venha, sua cadela!
K se levantou e me seguiu como se fosse uma condenada.
Entramos no quarto escuro. Havia apenas uma cama e mais nada. K se deitou. Eu peguei as correntes e envolvi todo o seu corpo. Ela me olhava amedrontada.
Se eu pedir piedade...
Se você pedir piedade, eu paro que estiver fazendo na hora. Mas neste caso, se você pedir piedade, eu te liberto... para sempre.
Então eu não vou pedir, ela me respondeu tão apressadamente que não pude deixar de sorrir.
Mas eu vou refrescar para o seu lado: te deixarei presa por apenas quinze minutos e mais nada.
Não deixei que respondesse. Peguei a mordaça e coloquei em K. Antes de desligar a luz, eu olhei e admirei a mulher acorrentada e amordaça. Os seus olhos se grudaram no meu.
Apaguei a luz.
Quinze minutos depois, acendi a luz novamente. K franziu a testa quando a claridade atingiu os seus olhos.
Tirei a mordaça da sua boca.
Você está bem?
Sim, senhor.
Me diga: não pareceu uma eternidade?
Sim. Eu me controlei, achando que os quinze minutos passariam rápidos, mas quando me vi no escuro, me senti apavorada. Eu queria gritar, mas não conseguia. Pensei que fosse desmaiar. Mas aí...
O tempo foi passando e você se acalmou...
Isto mesmo: eu me acalmei. E aí comecei a pensar, pensei em tudo: da minha infância até ontem à noite.
Ela riu.
Eu pensei até numa amiga que eu tinha no ginásio, a Cleide. Não consegui entender porque pensei na Cleide. Mas eu pensei. E dei risada comigo mesma.
E depois?
Eu me acalmei totalmente. E pensei que não tinha porque ter medo. Nem do senhor, nem da escuridão, nem de mim mesma.
E nem da vida, e nem do meu mundo e nem de nenhum outro mundo...
É isso. Eu acho que tudo que fiz na vida foi movida mais pelo medo do que por outra coisa qualquer. Que bom, Mestre Paul! Estou feliz...
Abri os cadeados, tirei as correntes. K encolheu as pernas e depois as esticou. Ficou lá me olhando, nua, abrindo levemente as pernas, mostrando que estava excitada.
E agora, Paul? O que senhor quer que eu faça?.