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Chineladas da Empregada - 4ª parte

O dia seguinte foi penoso para Sônia, não só pela árdua rotina de serviços domésticos, à qual ela não estava acostumada, mas pelo ato ousado e inesperado da criada, então na posição de dona da casa, na véspera. Ao entregar a bandeja do café, às dez horas da manhã, para a "patroa", constatou com desgosto que fora de fato o seu melhor vestido o "sorteado". Estava jogado em uma poltrona, amarrotado, junto com a sua melhor lingerie. No chão, o scarpin Jimmy Choo, como previsto por Sônia a partir do barulho ouvido na madrugada. Não resistiu: - Cleci, isso que fizeste ontem não estava previsto. Não deverias ter saído, ainda mais com a minha roupa! - A senh... quer dizer... tu não disse que a gente ia trocar as roupas? - Sim, mas tu pegaste meu melhor vestido! E esse sapato, tu imaginas quanto custou? Cleci só fez uma cara de indiferença. - E aonde foste? Eu não disse que tu poderias sair! - continuou Sônia, transtornada. - Mas combinamos que eu teria total liberdade como patroa, não? E eu ainda saí bem tarde, na hora em que o porteiro já tinha se recolhido, pra ninguém do prédio me ver. - E pra onde foste? - Sônia tremia de nervosismo. - Não é da tua conta! - disparou Cleci na mesma hora. A resposta teve o efeito de um tapa na cara de Sônia, daqueles inesperados, que a gente demora a se dar conta do que aconteceu. Ela ficou paralisada, totalmente sem ação, suas pernas chegaram a amolecer. Cleci, sentada na cama, lhe dirigia um olhar irônico, indiferente, totalmente segura de si. Encarnara o papel com perfeição, enquanto a outra parecia uma barata tonta, sem entender o que se passava diante dos seus olhos. Sequer imaginou que a brincadeira tomaria nuances tão... reais. - Será que agora posso tomar meu café em paz ou tu vai ficar me interrogando mais um pouco? - continuou Cleci, com a mesma arrogância e firmeza na voz. Parcialmente recuperada do "tabefe verbal", Sônia tem décimos de segundo para decidir se acaba com a palhaçada na mesma hora ou permite que os acontecimentos se desenrolem nos termos em que estão. Opta pela segunda alternativa, pois, apesar do choque, ainda é ela quem está no comando. Além disso, o prazer que a espera depende exatamente desse desenrolar dos acontecimentos. Que tola estava sendo! Pois não era isso justamente o que ela esperava? Uma patroa rígida e má? - Tudo bem - consegue enfim dizer, dando as costas à nova "patroa". - Espera! - grita a dondoca - Leva essa calcinha e o sutiã e põe na máquina, e tenta tirar uma manchinha que ficou no vestido. E daqui a meia-hora pode vir buscar a bandeja - ordena, apontando as roupas amarrotadas usadas na noite anterior, no sofá ao lado da cama. O sangue de Sônia ferve, mas ela se segura. Recolhe as peças que, sabe, alcançaram juntas a barreira dos mil reais, e se dirige à porta. - Ah... e ainda não ouvi nenhum "sim, senhora" e nem "dona Cleci". Como não estavas acostumada, perdôo, mas agora já sabes como prefiro ser chamada, ok? - Sim, senhora. - Vai! Pode ir! - ordena, mordendo uma torradinha com geléia. Se já fora difícil segurar sua raiva ao ouvir os impropérios daquela serviçal arrogante, imaginem qual não foi sua reação ao levar o dito vestido ao nariz e descobrir do que se tratava a tal "manchinha". "Será que foi de um daqueles trogloditas dos bailões que essa gente freqüenta?", pensou, penitenciando-se ainda mais. "E agora, como é que eu vou resolver isso, e sem levantar suspeitas? Maldita...". Meteu o nariz no interior da calcinha e reparou que esta também estava manchada, mas a seiva que farejou era de outra natureza... E pensar que achara muita humilhação o que ouvira minutos atrás daquela insolente... e agora ali, botando a mão em vestígios de sexo animal nas suas caríssimas peças de boutique... Nem ao marido ela permitiria tal extravagância. Num impulso instintivo, pegou a calcinha e esfregou-a com vontade no rosto, chafurdando no gozo daquela alemoa vulgar. Voltou a si num sobressalto e jogou a peça na máquina, junto com o sutiã. "Devo estar ficando louca...". Se o início do sábado foi coroado de humilhações de toda ordem para a nossa protagonista, o desenrolar do dia não deixou a desejar. Sônia já começou a apanhar a partir do almoço, isso porque dona Cleci voltara a dormir até meio-dia, pra se "recuperar de uma noite fooorte!", segundo palavras da própria quando Sônia foi buscar a bandeja. A pouca técnica da "nova empregada" no preparo do arroz rendeu-lhe a primeira sova com as fatídicas rasteirinhas brancas, antes mesmo de recolher a mesa. No período da tarde, muitas repreensões e xingamentos a cada deslize da inexperiente "empregada". Sônia trabalhou como nunca, foi incumbida de fazer limpeza profunda em todos os cômodos do apartamento, inclusive no quarto de Cleci. "Oras... por que a cara feia? Não é lá que vais dormir?", ainda fez questão de ironizar. Fez mais questão ainda de assistir à faxineira Sônia esfregando o vaso sanitário do banheirinho desse mesmo quarto. "Não esquece de esvaziar o cestinho de papel!" Outra esperteza da sua insolente criada (agora madame) foi justamente essa: adiantar ao máximo seu trabalho da semana. Para isso, "tiraria o couro" da coitada sob suas ordens, o máximo que desse. Não tava a fim de fazer faxina durante os próximos dias. Cena memorável foi a da faxina no banheiro do closet do casal. Chegando Cleci para desferir-lhe mais um sermão por algum motivo besta, senão inexistente, Sônia, agachada e esfregando o chão, apenas baixa a bermudinha (a mesma que usou pra brincar de puta na noite anterior) e ergue bem o traseiro, rosto no chão. A patroa má apenas dá um sorrisinho, descalça o chinelinho de brilhantes e... "ahhh, como essas criadas dão trabalho... o que seria delas sem nós?" Já anestesiada de tanta humilhação, sabendo que, dependendo daquela alemoa abusada, elas só tenderiam a aumentar, Sônia se permite o prazer da submissão, prazer este que estava custando a se admitir. Permite-se excitar enquanto desempenha as ingratas tarefas, tanto quanto sempre se excitou com as surras de cinto e chinelo da sua carrasca. Compreende, enfim, tais tarefas como uma continuação das surras propriamente ditas, uma seqüência natural. E gosta. Absorve com gosto os xingamentos, as ironias, as ordens de limpar o vaso sanitário, recolher o lixo, a indiferença de Cleci ao seu cansaço e às suas mãos feridas, etc. Mas o que torna seu prazer completo é saber que, por mais estranho que isso possa parecer, ainda é ela quem está no comando. É saber que Cleci está nesse contexto unicamente em prol do seu prazer. Foi dito que Sônia sempre quis tudo em sua plenitude, e assim estava sendo. O prazer do poder e da submissão juntos, só ela podia experimentar. Finda a última tarefa do domingo (pouco antes da chegada dos outros moradores do apartamento), qual seja, fazer o pé da madame Cleci, Sônia reassume o papel de patroa. - Nossa, o apartamento tá um brinco! Não fizeste a Cleci trabalhar no domingo, né mooor? - foi o comentário de Julius. Restabelecido o ritmo normal da casa, como se nada tivesse acontecido, a semana tem início. É óbvio que Sônia quis repetir o insano fim-de-semana, e já começou o planejamento na segunda-feira. Mas dessa vez ela é quem surpreenderia Cleci. Afinal, detinha o poder. Quem poderia impor-lhe limites? Quem ousaria opor-se ao seu prazer? O próximo fim-de-semana seria marcante... Realmente o foi. Mais que marcante... foi definitivo. Continua...