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Shoe Worship - O Início de Tudo

E pensar que tudo começou em um brechó... Era uma época em que eu seguia um estilo de vida meio "alternativo", comprava umas camisas esquisitas em brechós, freqüentava os bares underground da cidade e adquiria um modo de falar, pensar e agir típico de uma certa parcela da juventude gaúcha, tão tradicional quanto a estátua do Laçador ou o muro da Mauá: os universitários da federal. Na verdade, todas as universidades têm seus "centros formadores" desses tipos: aquele aposento bagunçado e sujo, com uma mesa de sinuca no centro, pôsteres de líderes de esquerda nas paredes pichadas e uns bichos-grilos de longas melenas e barbas, discutindo sobre grandes pensadores e problemas da humanidade. Entrar lá é como voltar ao ano de 1964. Quantas vezes não tive vontade de dizer-lhes que eles ririam de si mesmos no futuro... Mas, em vez de ser chamado de reacionário e mais um milhão de insultos, preferi guardar meu veneno e continuar usando a mesa de sinuca. Pois bem, voltando ao brechó. Na realidade, uma das razões que me levavam a tais locais, além das já citadas roupas, era que eu estava obcecado com a idéia de possuir um par de calçados femininos usados, fosse tênis, salto alto, qualquer tipo. Sou podólatra desde que me conheço por gente, mas raríssimas vezes tive a oportunidade de ter em mãos esses deliciosos objetos de fetiche, para adorá-los quando e como quisesse. Quase sempre o fazia em presença da dona, eventual namorada, após alguma relutância dela e por pouco tempo, o suficiente para que eu não fosse taxado de maluco e acabasse perdendo a garota. Mas eu acabava perdendo-a por outros motivos mesmo... hehe... e o tesão pelos tênis que eu ficava de lembrança, idem. Podólatra precisa de variedade. Algumas vezes minha libertinagem era escondida: quando minha irmã convidava amigas para dormirem lá em casa após a festa, aí sim, era outra "festa" pra mim (enquanto elas tavam na dita festa!); já "peguei emprestado" sandalinhas em vestiários, já fiz de tudo. Ah... shoe worship é o nome da prática. Do fetiche, da tara, como preferirem. Então, como consegui-los? Pedir pra amigas, primas, conhecidas me doarem ou venderem seus tênis e meias usadas? Perda de tempo; nunca entendi por quê, mas a rejeição sempre foi forte. Cheguei mesmo a tentar convencer algumas a doarem calçados pra campanha do agasalho, oferecendo-me como intermediário-entregador (vê se pode!), mas também sem sucesso. Sendo assim, o brechó era a solução que me restava. Estando lá, porém, embora me encantasse com alguns modelinhos de scarpins, sapatos de dança e delicadas sandalinhas, muitas inclusive com as excitantes marcas de pezinhos 35, o fato de não saber quem os usara era pra mim um empecilho. Acabava buscando alento nas camisas "volta ao mundo" e outras peças estapafúrdias. Eis que um dia, estando eu matando tempo num brechó perto de casa, mais admirando as sandalinhas de sei-lá-quem do que qualquer outra coisa, ela me surge: cabelos castanho-claros, levemente ondulados, descendo até o meio das costas; rosto de traços delicados mas com um quê de enfado; olhar firme sob sombrancelhas levemente espessas e maçãs do rosto sardentinhas, dando certa vivacidade ao conjunto - eis o que pude assimilar naquele átimo de tempo. Usava ela uma camiseta branca de estampa indecifrável, calças jeans de cintura baixa e sandália plataforma. Trazia uma sacola de tecido ao ombro. Como não podia deixar de ser, prestei especial atenção aos pezinhos, quando ela passou às minhas costas em direção ao caixa. Eram lindos. 36 ou 37. Logo descobri seu intento: queria negociar umas peças, que trazia na sacola, com a velhinha dona do brechó. Foi tirando umas camisas de manga, uma saia de pregas, uma calça com aspecto de nova e, por fim, um par de Nike Shox bastante judiado. Aquele tênis atraiu meu olhar como um imã; fiquei olhando, hipnotizado, sem piscar. Demorei a perceber que minha atitude era bastante indiscreta; então voltei à posição original, frente aos scarpins usados, cuidando-as agora com o canto do olho. Ficaram negociando o preço, a velha sempre com aquela cara carrancuda, sem mostrar qualquer animação pelas peças mostradas. Não pensem que nunca passou pela minha cabeça fazer um acordo com ela, para que me descrevesse as mulheres que vendiam sapatos lá, mas entender meus motivos estaria muito além da capacidade da pobre anciã. Vinte e cinco reais foi quanto a sovina ofereceu. Por tudo. Aproximei-me para acompanhar melhor a transação, fingindo escolher algumas camisas. - Mas esse tênis custa mais de duzentos reais na loja, a senhora sabia? - Mas ele tá muito surrado, é difícil alguém querer comprar agora. Em poucos instantes de negociação, conseguindo aumentar a oferta em míseros cinco reais, Juliana (a velha, sem saber, me prestou grande ajuda) consentiu em deixar as roupas lá. Decerto tava necessitada da grana. Qual não foi minha surpresa ao avistar, quando Juliana abriu a carteira, o conhecido cartão da UFRGS. Agora, pensei, pra descobrir tudo sobre ela, é só questão de tempo... Afinal, que garota na idade dela não tem orkut hoje em dia? Evidente que comprei na mesma hora o Nike usado. Por vinte e cinco reais, acreditam? Ao mesmo tempo indignado com a sovinisse da velha (Raskolnikov, de Crime e Castigo, estava certo...) e radiante por conseguir tamanha preciosidade por tão pouco, corri pra casa. Tive de me segurar pra não meter a cara naqueles tênis no ônibus mesmo... eheh! Difícil descrever em palavras as sensações despertadas pela imagem daquelas solinhas impressas nas palmilhas do tênis, aquele aroma único... embora um pouco atenuado por talvez uma semana sem uso, além de um certo hidratante que não me é estranho... tornei-me um especialista, sabe? Ehehe! Aquele pezinho que eu vira de relance horas atrás, de unhas impecáveis, agora como se estivessem colados ao meu rosto... um tipo de intimidade que poucos podem compreender. Deus sabe o quanto focinhei e lambi aquelas palmilhas, em êxtase. Naquela noite e nas seguintes o Nike Shox foi meu companheiro inseparável: dormia e acordava com o narigão lá dentro. Chegara então a hora de iniciar as investigações. Encontrar Juliana novamente, ou ao menos teclar com ela, só dependia agora da minha habilidade de detetive cibernético. E um pouco de sorte. Iniciei buscando seu nome na comunidade da UFRGS. Humm... 174 Julianas? Não vai ser difícil; espero que ela tenha colocado foto. Não levou vinte minutos e lá estava ela na minha frente, com seu rosto pintadinho de sardas e olhar perscrutador. Daí a adicioná-la foi barbada: disse que eu também era da UFRGS, perguntei alguma bobagem qualquer sobre o perfil dela, e lá tava eu na listinha da Juliana. Feito isso, eis que me surge o tão esperado MSN... adicionei na mesma hora! Menos de uma hora de iniciada a investigação, estava eu em contato direto com minha musa dos pezinhos... Mais fácil do que eu imaginava! Após algumas conversinhas iniciais sobre amenidades (já tinha até um roteiro para novos chavecos no msn, hehe!), criamos intimidade suficiente para que eu chegasse ao assunto que me interessava: - Tu tem certeza d q nunca me viu pessoalmente? - perguntei. - Olha, pelas fotos do teu perfil, não tô lembrada não! Claro, ela não tinha prestado atenção em mim no brechó. - Lembra o dia em q tu foi no brechó vender umas roupas e um tênis? - Lembro. Pq? - E se eu te dissesse que sou o cara q tava lá, olhando umas roupas, quando tu chegou? - Era você, é? rsrsrs. É, lembro q tinha alguém lá. - E se eu t dissesse q comprei teu Nike Shox e tô com ele aqui na minha frente? - Caramba, tu comprou! hahaha Pq? - Coleciono. - Coleciona Nike Shox usados? rsrs - Não qualquer um, nem precisa ser Nike. Só precisa ter sido usado por garotas de belos pezinhos. - Hahahahaha! Mas meu pé é feio! - Tu q pensa! Dei uma olhada qdo tu passou atrás de mim. - E o q tu faz com os tênis? - Brinco com eles, cheiro, tiro as palmilhas... - Caraaaaacaaaaa! Tu é mesmo doido, hein! - Talvez... rsrs - Ele não tava com chulé não? hahaha - Tava não. Tava é com um cheirinho delicioso, provavelmente do hidratante q tu usa. - Vixi... qdo eu penso q já vi d tudo... - Mas falando sério: tu tem outro tênis q não use mais? - Devo ter. Pq? - Eu compro. Se tu usar ele por 2 semanas, seguindo minhas instruções, eu pago bem mais do q aquela velha. - Q nojo q me deu daquela lazarenta! Até me arrependi d ter vendido, mas tava precisando mesmo da grana. - Então... me prepara outro tênis direitinho, e te pago o q a velha pagou por todas aquelas roupas, e mais um pouco. - E como é essa preparação? - Tu passa a usar o tênis a partir de hoje, por pelo menos três horas por dia durante uma semana, sempre com a mesma meia. Lembre-se de NÃO usar nada no tênis nem na meia (talco, creme etc) nesse tempo. Pode ser? - Caraca! vai ficar mó chulé! rsrs - É assim q quero. Topas? - Quanto vai pagar? - R$30 pelo tênis, R$40 se vier a meia junto. - Humm... nada mal... - Se tu fizer tudo certinho e eu gostar do q receber, poderei comprar muitos outros futuramente, teus ou de amigas q vc conseguir (ganha comissão, obviamente). Meias também: se tu topar preparar algumas com freqüência, pode aumentar bastante teus rendimentos mensais. O q acha? - Bemm... é uma coisa meio estranha, há de concordar comigo, mas se tu tá falando sério... posso responder amanhã? - claro! Demorou uns dias ainda pra que eu ganhasse a suficiente confiança de Juliana. Depois de uma conversa ao vivo marcada no RU, porém, tudo se ajeitou. Todo meu esforço fora premiado! Fico imaginando: como será que os podólatras se viravam quando não tinha internet? eheh! As coisas se desenrolaram muito melhor do que eu sequer sonhara. Criei uma baita intimidade com a Juliana; já possuía três tênis dela e levava quinzenalmente uma meinha nova lá no prédio do Direito, pra ela "preparar" pra mim. Descobri que ela tinha uma irmã mais nova, Priscila, dezoito aninhos, com pezinhos ainda mais lindos e delicados. Lógico que os tenisinhos dela não poderiam faltar na minha coleção, né? Juliana foi quem cuidou disso, e sem dizer nada pra pobrezinha, acreditam? Convencia Priscila a doar os tênis e acabava ficando com toda a grana... Mercenária... rsrs. Se algum estranho lesse nossos bate-papos no msn, agora, achar-nos-ia bem malucos. - Oi Ju! Adivinha o q to fazendo? - Imagino! rsrsrs. Qual cheirinho tu prefere: o meu ou o da Pri? - O teu, lógico! Ela não usa o tênis muito tempo, sei lá. Em uma semana não tem mais cheirinho... - Vê lá, hein! tô ficando com ciúmes! rsrs - Fica não, Ju! Tá, to fungando tua meinha nesse momento. - Cafunga mais! - Tá bom. Bem na parte dos dedinhos. Hummmmm... - Oras... vou conseguir essa webcam logo pra ver se tu ta obedecendo... - Se quiser, mostro pessoalmente lá na facul... - Não precisa. Ah... falei com aquela colega que tu tinha perguntado. Tudo indica que ela vai topar, ela é bem liberal, sabe; só falta combinar o preço. Depois te digo quanto consegui, tirando minha comissão, lógico. - Puxa, brigadão, Ju! Vê se consegue um preço camarada. Tenisinho 34 é meu sonho de consumo... imagina só os dedinhos... e de uma ruivinha! Cara, isso já tá me tirando o sono. - rsrsrs. Pé bem branquinho. Ah... e a Carol já começou a preparar tua meinha. Passei pra ela as instruções certinho. Sexta ela me entrega. - Ótimo, ótimo! O q seria de mim sem vc... - Éééé! vou querer aumento, hein! - Terás, terás... sabe o q precisa conseguir pra isso, né? - Sim. Breve terá notícias... boas! O AllStar de uma menina roqueira... Cíntia, a garota dos cabelos vermelhos, piercing no nariz, tatuagens, roupas pretas e calças com tachinhas... e seu AllStar imundo, o sonho de consumo que eu acalentava há seis meses, desde o dia do quebra-pau no show do campus... o tênis que ela usava quando literalmente deu uma surra em dois caras ao mesmo tempo, quebrando três dentes de um deles... com o AllStar! Meu futuro AllStar... Mas tudo o que aconteceu até que ele fosse parar nas minhas mãos, é história pra um próximo capítulo. Assim como o que Ju me aprontou, assim como o que aconteceu quando resolvi "expandir" o negócio e ser generoso com outros podólatras, tudo... Prefiro ficar agora com a imagem daquela garota inocente, tentando conseguir um trocado com seu Nike Shox velhinho, mal suspeitando do poder que tinha em mãos. Ou nos pés...