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Sinhazinha I Concurso de Contos e Poesias BDSM - Participante
Ser negro e escravo tem muita agrura, sim sinhô. Tem muita cana para cortar, ou mato para carpir, ou lenha para carregar, todo dia tem. Também tem muita ordem para cumprir, sem hora de almoçar, e chibatada para levar no lombo, amarrado no tronco, se não atender depressa e direito os desmandos do Coroné.
Coroné é homem ruim, filho do cão, com raiva nos olhos. Por ele, para cada bezerro cria de touro campeão que nascesse em sua fazenda, mandava sacrificar um negrinho bem cevado para o churrasco. Mas o negrinho cevado de hoje é o braço mandado de amanhã, e a carne não deve ser mesmo boa. O bezerro, claro, vale muito mais.
Difícil acreditar que das entranhas podres desse cão pôde sair a semente que trouxe ao mundo Sinhazinha.
Ah! Sinhazinha! Moça faceira, brancura da lua, cabelo vermelho qual mogno em brasa, sorriso de luz a nos amansar. Mais linda que todas as bonecas de pano com cabeça de porcelana que o Coroné mandava trazer lá da Europa para agradá-la, quando ela ainda era menina.
Quantas vezes desejei ser o potro que a levava, em trote macio, em monta de lado, com saia rodada, quando danava a passear até a beira do rio.
Quantas vezes, desde menino, me joguei de quatro embaixo do estribo, só para Sinhazinha ter onde pisar, e alcançar a rédea. Ela pisava duro, e botava todo seu peso em cima dos meus quartos. Mas quem não ia querer o peso de um anjo em suas costas?
Uma vez a vi salvar um preto bandalho que dormiu no serviço, e Coroné mandou o Capitão do Mato bater para dar exemplo e ele ia bater até matar. Ela deu uma risada sapeca, e disse para o Coroné:
- Deixa papai, pode deixar que eu bato, e vou bater tão forte que ele nunca mais vai se aventurar a gazetear!
E ela foi mesmo, de chibata na mão, castigar o negro. Mas a mão de Sinhazinha era tão suave, e seu jeito de bater tão gracioso, que não teve quem não achasse graça, fazendo passar até mesmo a raiva do Coroné. Ela por sua vez sabia que por mais que batesse no escravo, ele não merecia morrer, mas que podia dar a ela um belo divertimento. E que até que era bom esse negócio de castigar...
Foi a primeira vez que eu vi um negro apanhar sorrindo.
Outras vezes ela mandava chamar, e dava ordem de ir à cidade, buscar na venda fita de cetim, renda e filó, para fazer roupa para as bonecas.
E ai do negrinho que trouxesse errado o que ela pediu! Ela fazia um beiçinho amuado, ralhava, e mandava até mesmo ajoelhar no milho! Era danada a Sinhazinha!
Uma vez, só uma vez, ainda que sem querer, a vi dançando e rodopiando no terreiro dos fundos, bem ao pé do alpendre da Casa Grande, debaixo de uma dessas chuvadas de verão que vêm, e depois se vão, em apenas alguns minutos.
Ela estava só de combinação, e o algodão molhado pela chuva bendita revelou para mim a criatura mais linda que essa vida já deixou meus olhos ver... Os seios pequeninos, as ancas redondas de mulher quase feita... Ela pulava e rodopiava, e batia o pezinho na poça, e soltava gargalhadas brincando na chuva. Foram minutos eternos, de imagem gravada para sempre nos meus pensamentos.
Até que ela me achou espiando.
Fez cara de muito brava, e ameaçou contar para o Coroné. Mas eu implorei de joelhos que não contasse. Ela, travessa, para me castigar, mandou-me deitar no chão do terreiro, de barriga para cima, e pôs-se a dançar em cima de mim!
Por aqueles breves instantes, por entre as brechas da combinação, em relances de coxas cor-de-leite, na lama lambuzada no meu peito por aqueles pés pequeninos, pela primeira vez desde quando achei que era gente nesse mundo, me descobri experimentando o que os mais velhos chamavam de fe-li-ci-da-de. E não era preciso cavar, procurar, correr atrás para encontrá-la ela já estava ali. Eu já estava ali.
Era ali, sob os pés de Sinhazinha, o meu lugar.
Vida de negro escravo tem muita agrura, sim sinhô. Mas se um dia, como ouço dizer, a tal liberdade que eu nunca conheci realmente vier, e a alegria na Senzala for tão grande que a cantoria se embrenhe noite adentro sem que o sol possa acompanhar, e cada negro possa seguir para onde o seu destino apontar... Ah! Sinhô Deus! Deus que o padre jura por todos nós olhar, e também Nossa Senhora que a Ele um dia pôs-se a ninar, e todos os santos a quem eu possa rogar - seja São Pedro ou Xangô, Iansã ou Santa Bárbara - se um dia Sinhô, esse tal dia chegar, me perdoa Sinhô o que vou pedir, mas me deixa continuar... A servir Sinhazinha!
Pois Sinhazinha, menina faceira, brancura da lua, cabelo de fogo qual mogno em brasa, sorriso de luz a nos amansar não há Sinhô, não há! liberdade maior dentro da cabeça da gente, do que poder ser seu estribo, e por ela se deixar pisar.
E se poder continuar a ver Sinhazinha sorrir, e a dançar travessa, e a fazer seu beiçinho amuado, e mesmo receber sua bronca e castigo for, em verso e prosa, em idéia e significado, o mesmo que ser escravo, quero continuar escravo.
Quero viver escravo.
Quero morrer escravo.
Propriedade de Sinhazinha.
E viverei feliz.