Back to Browse

A Marca

Já tinha lido de tudo a respeito. Batia com os dedos sobre a mesa, pensando entre uma página e outra qual seria a melhor opção. Culpava-se por ter sugerido ao dono aquela história de marca... acendeu outro cigarro e, compenetrada, olhava para centenas de imagens, tatuagens, desenhos que poderiam ser gravados em seu corpo como sinal de entrega. O combinado era simples - ele escolheria a imagem e onde a gravar. Mas só o faria se ela apreciasse de fato, se ambos estivessem de acordo. Assim, decidiram fazer as buscas juntos e trocar opiniões sobre o que vissem. Era uma aliança que estabeleceriam, um segredo entre os dois. O relacionamento não era eterno, mas a marca... Após virar mais uma página (esta com símbolos celtas), acendeu outro cigarro e arrematou o café. Examinou a borra na xícara e pensou que gostaria de saber lê-la, como os turcos fazem. Sorriu. Pensou que a marca deveria ser escura, em preto - não queria nada colorido. Nada lindíssimo. Queria uma marca de escrava. Levantou-se e foi para o quarto. Olhou o grande espelho no guarda-roupa e despiu-se. Ainda tinha vergonha de fazer aquilo para qualquer pessoa, até para ela mesma. Examinou com a calma de um desenhista a própria pele. Os registros que o tempo e os fatos deixaram grafados na tela morena clara. Por que gostava, queria, quase implorara pela marca se já tinha tantas pelo corpo? Já fizera a entrega do sangue, de um pedaço dos cabelos, todo tipo de entrega ao dono... mas queria carregar em si algo dele, pra sempre. Então pensou - uma marca! Começou a contar cada uma das cicatrizes dolorosas que levava nos seios, abdomen, coxas, nádegas. Lembrou de como foram postas ali, em locais tão delicados. Por anos as escondeu, eram seu motivo de extrema vergonha. No entanto, hoje, ostentava cada um daqueles registros de torturas reais como prova de sua sobrevivência a tudo e a todos. Sorriu mais uma vez. Lembrou quando ele beijou suas cicatrizes, uma a uma, e disse que mal as via, que não a rejeitaria por isso. Ela lhe contou dias e dias a fio como cada uma fora feita - cortes, queimaduras de cigarro, suturas realizadas às pressas - e ele a ouviu e a recebeu. Era justo que uma marca dele, nova e querida, desejada, suplantasse as que lhe foram impostas. Respirou fundo, vestiu-se. Mais um cigarro. E a dúvida torturando - que raio de marca superaria as demais? Não apenas em beleza, não apenas uma tatuagem - mas em prazer e dor. Algo que fosse mais doloroso que todas as outras juntas. E que fosse inigualável em prazer. - Nada de anéis ou argolas - dissera ele. Não queria acessórios, ferros, nem ela. Poderiam ser removidos, sim, poderiam. - Tatuagem? - sugerira, vacilando. - Mas nada que a constranja, minha linda - afirmou, preocupado, descartando assim lugares como rosto, mãos ou muito visíveis por terceiros. Queimaduras... ela não dissera a ele, mas queria ser queimada. E para grafar um símbolo queimando, ah, tinha lido... tinha que saber fazer! Ou o desenho ficava comprometido. E a dor do ferro em brasa seria, no mínimo, equiparável a todas as dores que já sentira na pele, juntas! Desde então sempre dava jeito de lhe mostrar marcas a ferro, em brasa, imagens que lhe chamavam a atenção. E ele, sorrindo: - Anjinho, não ficaria bom tatuar isso aqui! Olhe... é marca a ferro, viu? Calava-se. Tinha medo - o que pensará de mim por desejar algo tão incomum, uma cicatriz? A idéia porém a atormentava. Decidiu que falaria com ele a todo preço. E não passaria daquela noite. Esperou que ele chegasse do trabalho. Esperou que a beijasse, que tomassem banho, jantassem e conversassem. Serviu o pudim namorando a lâmina, separando os gomos, vendo sua própria pele sendo cortada pela vontade do dono. Tudo voltava ao mesmo ponto - a marca. E repentina, enquanto ele dava a primeira colherada no doce sobre o prato, falou entre lágrimas: - Anjo, quero ser marcada a ferro, a brasa. Ele não engoliu. Olhou para ela sem entender o que ouvira. Ela repetiu: - Isso mesmo, senhor. Eu gostaria que me marcasse com ferro quente. Subitamente arrependida pelo atrevimento, deixou os olhos ficarem ainda mais mareados, culpando-se pela grande bobagem dita. Gaguejando, tentou explicar seus motivos. Explicou sobre a dor e o prazer e isso e aquilo. Ele a ouviu, medindo cada palavra e fitando-a nos olhos. Atento e controlado. Tenso. E atento, atento, atento. Quando ela terminou, chorando incontrolavelmente, ele a tomou nos braços, levou-a ao sofá e nada disse até que ela parasse de chorar. E serenamente começou a contar-lhe coisas bobas dos dois. E depois de um chá quente e adocicado, entre beijos, ele a fez dormir, como sempre. E o assunto parecia encerrado. No outro dia, não sabia as horas, ela acordou. Abriu os olhos. Mas não conseguiu mexer o corpo. Puxou um dos braços, as pernas e viu-se presa, incomodamente presa. "Ele me sedou", pensou tensa. Lembrou-se que somente fizera isso uma vez, para a castigar. E então temeu, tremia toda de medo e de frio, lembrando a conversa da véspera e como poderia tê-lo zangado a ponto de castigá-la da mesma forma. Procurando manter a calma, percebeu que estava com os pulsos e tornozelos presos a uma trava. Pernas abertas, de quatro, pulsos entre as pernas. Exposta e mal equilibrada. Não conseguia deitar e agora, desperta, com dores no corpo e pescoço, deduziu que fora presa ali mais tempo do que imaginara. Pensou em falar e chamá-lo, mas a voz estava contida pela mordaça. O som sufocado na garganta era sinal de um castigo. Começou a chorar, as narinas trancaram e, com ligeira falta de ar, debateu-se, num pedido mudo de socorro para que seu dono aparecesse. Ele a tocou no rosto, olhou nos seus olhos com calma e tirou a mordaça. Ela respirava ofegante, não se atrevia a falar. E com a mesma serenidade da véspera, o dono sussurrou-lhe nos ouvidos que ficasse calma, que ele a amava e protegia. Que lhe daria o que pedira, não era um castigo. Mas que seria uma dor especial, precisava do silêncio dela. Ela consentiu e, submissa, pediu a mordaça novamente. Sorrindo, ele disse que pegaria outra, que abafasse melhor o som. Ela confiou, aceitou e foi silenciada com uma gag que tomava a boca toda, até quase a garganta. Doíam-lhe as mandíbulas, mas não reclamou. Sabia que agora não haveria nada que o impedisse de prosseguir. Nem lágrimas, nem gemidos, nem olhares. Escutou seu dono vestindo luvas cirúrgicas. Sentiu os dedos cobertos de látex examinando-a, penetrando-a, fazendo exames e comentários humilhantes. Ele a abriu com as duas mãos, fazia tudo como em uma sessão. Ela se sentia úmida e dolorida. Impossível fugir, impossível fechar as pernas. Ele a examinava com violência e sem cerimônia. Procurava o ponto para marcá-la. E num relance, ela viu o que lhe sucederia. Com a calma costumeira, observou o dono lidar com uma espécie de braseiro. Avivava as brasas. E o calor, dado o frio daquela manhã, era agradável a ela. Seu coração encheu-se de medo e de excitação quando viu uma peça metálica sendo aquecida entre as brasas, avermelhando e temperando-se. Seria marcada! Mas aonde? Julgou que, naquela posição, ele desejaria marcá-la na bunda. Enquanto o pedaço metálico ganhava rubor, sentiu seu dono masturbando-a. Tocava seu clitóris, queria-a úmida e excitada. Ela se entregava, constrangia-se por ser explorada e coberta de humilhação e gozo, fazia os movimentos que ele exigia, contraía-se. Ele a humilhava - cadela, puta, oferecida, dá teu rabo pra mim... tantas frases e comando que ela amava. Ela gozou rapidamente, convulsa, a um simples comando verbal dele. Mas o dono não a penetrou de forma alguma e, num tom de voz cheio de crueldade, começou a dizer-lhe aos ouvidos: - Você me pertence? Gosta de ser tocada? Goza quando faço isto? E a escrava, em lágrimas de prazer, dizia com os olhos as respostas que ele já sabia - sucessões de afirmativas, implorando para a penetrar. - Seria capaz, escrava, está preparada para entregar seu gozo apenas para mim? Sim, estava. Estava. Desde que ele ordenara, nunca mais se tocara, nem se entregara a qualquer prazer, solitário ou não. Era proibida de masturbar-se e de gozar sem ordem dele. Por que perguntava o que já sabia, o que tinha como certo? Podia ouvir o ferro estalar. Tão pequeno, tão escarlate, pronto para o uso. Olhava desesperada para o braseiro - afinal, vejo mesmo o que vejo? Uma peça tão pequena, quase um anel com iniciais... - Escrava, depois da minha marca nunca mais poderá, não conseguirá sentir prazer com outro. Está disposta a isso? Sim, estava. Estava. Estava. Era tudo o que conseguia pensar - a marca. Queria ser marcada. Ele então trocou as luvas de látex por outras muito grossas, provavelmente térmicas. Aproximou-se mais uma vez de seus ouvidos, beijou-lhe a testa e disse que a amava e por isso selaria para sempre seu prazer. De súbito, a escrava entendeu o que ele faria. Gelou-se, não esperava aquilo! Pensou em gritar, em pedir para parar, mas não houve tempo para arrependimentos. E com uma única investida, ele a marcou. Uma estocada certeira, profunda e insuportavelmente quente marcou-lhe o clitóris entumescido. Centenas de terminações nervosas, em chamas, sucumbiam definitivamente sob o ferro incandescente, mantido sem piedade sobre o local escolhido. A vista, escurecida, levou-a ao desmaio pela dor, enquanto seu senhor, impassível, mantinha-a segura para não comprometer o trabalho que, como um ferreiro, consumava ali. Minutos, talvez horas após, despertava novamente. Sentia-se anestesiada e morta entre as pernas, deitada de costas sobre a cama, presa e indefesa diante dos curativos do dono. Estava marcada. Castrada em seu prazer. Mutilada em sua liberdade. Cauterizada para sempre. E repleta de alegria, em lágrimas de gratidão, fez uma prece aos anjos. Fechou os olhos. E adormeceu.