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ARDOR Primeiro dia Eram quase 11h, de uma manhã cinzenta na cidade do Rio de Janeiro, quando Laura chegou ao aeroporto. A ponte aérea sairia em poucos minutos, não daria tempo nem para o cafezinho. Levava apenas uma bolsa preta, grande, com parte do conteúdo de suas fantasias. No táxi, a caminho do aeroporto, pensava como teve coragem de propor isso a Marcos. Marcos... Ela o conheceu há cinco meses numa viagem de trabalho. Ele, um jovem engenheiro recém integrado a equipe que ela supervisionaria. Ela, uma engenheira experiente, sozinha e independente. Viajando pelo país preenchia suas necessidades de companhia, mas nunca fora tão longe. Estava com medo, agora que essa fantasia iria se concretizar. Nunca tinha feito isso e nem ao certo sabia se a pouca experiência de vida de seu parceiro permitiria a ele tal entrega. Ainda havia tempo de voltar atrás, telefonar, desmarcar, dizer que foi um erro, que teria outro compromisso, que houve um imprevisto. Poderia dar mil desculpas, se quisesse e não quis. São Paulo estava nublada, sem chuva, com temperatura baixa. Dirigiu-se ao balcão da locadora de carros. Havia reservado um quatro portas, vidros escuros. Não faria questão de modelo. Guiou devagar até o endereço que havia escrito num papelzinho. Parou numa garagem, fechou o carro e caminhou alguns poucos metros numa rua quase vazia aquela hora. Havia feito uma reserva no hotelzinho vagabundo, pelo telefone. O recepcionista estranhou, disse que não era necessário reservar, sempre tinha vaga, eram de alta-rotatividade. Laura queria ter certeza e também tinha alguns pedidos a fazer, pagando muito bem por isso. Pegou a chave na portaria e subiu. Estava escuro. Abriu a porta do quarto no segundo andar. Exatamente como tinha pedido: uma cama, uma cadeira e uma bacia grande. No banheiro nada, nem uma toalha, apenas chuveiro, pia e vaso. Abriu a bolsa. Tirou toalhas limpas, sabonete cremoso e uma esponja macia. Um lençol limpo cobriu a cama, de colchão sujo e rasgado, cheio de reentrâncias formadas pelos muitos corpos que ali deitaram. Isso excitou Laura. Tirou a roupa, deitou-se na cama. Lembrou que não tinha comido, mas sentia que nada passaria pela sua garganta. Olhou o relógio: 15h de sexta-feira. Ela teria ainda duas horas para desistir. Não o faria. Já fora até ali, seguiria em frente. Em Salvador, Marcos olhava o relógio a cada dez minutos. Imaginava por que o tempo tornara-se tão arrastado desde a noite de quarta-feira, quando Laura ligou. A proposta era simples: queria um final de semana, da noite de sexta à tarde de domingo, mas as condições ela determinava e ele não podia questionar. Se quisesse deveria se entregar a todos os comandos dela. Uma passagem estaria esperando por ele no aeroporto da cidade – mas ele só saberia o destino na hora. Deveria levar apenas uma mochila velha, duas cuecas e um par de meias. Na carteira, R$ 100,00 para pagar o estacionamento na volta. Nada de cartões de crédito, talões de cheque, celular nem relógio. Ele havia topado na hora, confiava nela e há muito queria uma aventura desse tipo. No balcão da companhia aérea descobriu que iria para São Paulo. Assustou-se, não conhecia a cidade e o pouco dinheiro na carteira o deixava inseguro. Acostumado a estar no comando, dispor de dinheiro ou de crédito, saber o que aconteceria depois, planejar, controlar seus movimentos. Um minuto depois, estava sentado no avião, indo em busca de um delírio e sem saber o que o esperava. 21h. Laura levantou-se da cama. Meio zonza, meio em transe, efeito da fome e da excitação que tomava conta de seu corpo. Tirou da bolsa um vestido, um par de sandálias, batom e perfume. Deixou-os na cadeira. Tirou um jeans velho, comprado em brechó. Uma camiseta preta sem mangas e um par de Havaianas. Estendeu-os cuidadosamente em cima da cama. Tomou um banho. Pegou o vestido e deu uma olhada de novo. Andara por muitos lugares até escolher: um vermelho vinho, meio cintilante, justo e decotado. Seu corpo ficava apertado dentro dele. Seus seios grandes quase pulavam pelo decote. O quadril bem marcado, sem nada por baixo. Sentiu-se vulgar. E gostou da sensação. Calçou as sandálias, colocou uma camada exagerada de batom e um pouco de perfume. Calculou o horário. Com o trânsito, levaria quase uma hora para chegar ao aeroporto. Deixaria ele esperando um pouco, queria que ficasse aflito, inseguro. Desligou o celular. Guardou na bolsa, embaixo da cama. Estava saindo de circulação durante todo o final de semana. Nascia, naquele momento, uma nova Laura. O vôo chegou no horário. As instruções de Marcos eram claras: desembarcar e ficar parado na frente do aeroporto, junto ao ponto de táxi. Ficou esperando por vinte minutos, a mochila pendurada no ombro. Não estava acostumado a esperar, a atrasos, ao vazio que começou a tomar conta dele na noite escura, movimentada, onde todos pareciam ir a algum lugar, saber o destino. Queria o celular, pegar um táxi, ir a algum lugar. Laura o viu de longe. Diminuiu a velocidade do carro. Ele estava inquieto, mexia-se, a todo momento olhava para os lados. Ela se aproximou devagar. Os vidros escuros não permitiriam vê-la. Parou. Abriu a porta traseira. Ele abaixou-se, olhou dentro e já começava a falar, reclamando. Ela disse simplesmente: cale-se. Os olhos dele acompanhavam o trajeto, as luzes da noite, os edifícios. Não sabia onde estavam indo. Viu o ambiente mudar, tornar-se mais velho e degradado. O movimento das ruas, as prostitutas começando a circular, travestis gesticulando. A mesma paisagem noturna que existe em todas as cidades. Pararam de repente, entraram num local escuro onde outros carros já estavam estacionados. Laura desceu, deu a volta no carro e abriu a porta. Desça. Caminharam poucos metros. Entraram num prédio velho, sem placas, sem luzes, apenas um passar apressado de homens e mulheres seguindo seus próprios caminhos, sem se importarem com eles. Subiram as escadas, madeira velha, cheiro de mofo, uma única lâmpada num longo corredor. Laura abriu a porta: entre. Os olhos de Marcos percorreram o ambiente. Uma certa repulsa passou pelo seu corpo. Pensou em protestar, em dizer a Laura que não queria estar ali, que poderiam procurar um lugar melhor, mas viu em cima da cama que ela já havia preparado parte da fantasia, que aquele era o ambiente que ela havia escolhido. Calou-se. Sabia que a partir daquele momento testaria todos os seus limites. Foi somente nesse momento que Marcos se deu conta da roupa de Laura, do vestido justo, do batom exagerado, do perfume mais forte do que ela normalmente usava. Um arrepio percorreu seu corpo. Tesão. Uma vontade de puxá-la para si e fazer amor com ela ali mesmo, naquele lugar que antes lhe causou repulsa. Tentou se aproximar, passar a mão pela cintura dela. Mas o olhar deteve seu gesto. Percebeu que ela pouco falaria, se comunicariam intensamente com os olhos. Isso, de certa forma, aumentou o seu prazer. E o seu medo. Ela pediu que ele se despisse e usasse as roupas que estavam sobre a cama. Ele pediu para tomar um banho, ela retrucou que queria o cheiro intenso do seu corpo. Sentada na cadeira, observou ele se despir. Achava lindo e excitante ver o homem tirar a roupa, meio sem jeito, com movimentos bruscos. O corpo jovem de Marcos a atraía. Magro, alto, forte sem ser excessivamente malhado. Os pelos fazendo um desenho que destacava as formas. As pernas longas, a bunda bem torneada, as costas largas, o pescoço longo encimado por uma cabeça bem modelada por cabelos curtos. A pele macia que ela tantas vezes já alisara. E o cheiro... Suor, perfume, cigarro. Tudo misturado, compondo uma identidade única para aquele macho. Sem se dar conta, Laura sentiu-se úmida, quente, pronta para se entregar. Bastaria um gesto, uma palavra, um olhar em falso e estariam juntos, como explosivos amantes que tantas vezes já se encontraram. Ganhariam mais uma noite e perderiam a fantasia. Laura desviou o olhar, acendeu um cigarro e inspecionou suas unhas pintadas de vermelho. Não desistiria. Marcos sentia seu coração bater mais forte. Percebera uma leve hesitação no olhar de Laura. Poderia ter ido até ela, se ajoelhado entre suas pernas, pegar a nuca, puxar para sua boca e beijar. Sentiu que se fizesse isso naquele momento, ela desistiria. Ficariam juntos naquele lugar, por algumas horas e depois sairiam em busca de um lugar melhor. Pensou que talvez não tivessem outra oportunidade, que os medos falariam mais alto e a fantasia seria perdida. Já estavam ali, deixaria acontecer. Nu, pegou a calça que estava sobre a cama. Era um número menor, ficaria bastante apertada e desconfortável sem a cueca. Vestiu-a assim mesmo. Precisou rebolar para acomodar seus órgãos, esticar-se para fechar o zíper. Vestiu a camiseta, também apertada. Curta, parte de sua barriga ficou de fora. Por último, calçou as sandálias. Sentiu-se como um mendigo que ganha roupas usadas e fora do seu tamanho. Um estranho, fora de seus padrões. Começou a entender que não seria ele, Marcos, que viveria aquela aventura. Naquele momento deveria nascer outro homem ou não conseguiria se entregar por completo. Laura levantou-se. Chegou perto dele, deu uma volta inspecionando. Sua mão alisou as costas dele, apalpou a bunda com força. Sentia-se poderosa. Entregou-lhe um maço de cigarros e fósforos para que ele guardasse no cós da calça. Abriu a porta e, num último momento de hesitação, perguntou: tem certeza? Marcos olhou nos olhos dela, passou a mão pelo seu rosto e, sorrindo, saiu na frente. Saíram para a rua. Caminharam em silêncio por alguns minutos. Ela na frente, ele atrás, deliciando-se com o movimento dos quadris dela no vestido justo. Aquele movimento o embalava e começou a fazê-lo desligar-se de quem era. Só conseguia pensar nela, em fazer qualquer coisa que lhe desse prazer. Dobraram a esquina, entraram numa espécie de boate ou prostíbulo, ele não tinha muita certeza de que lugar era aquele. Música alta, fumaça, escuro. Mesas e cadeiras nas laterais. Um bar ao fundo. Um tipo de palco bastante tosco. Uma mulher dançava sobre ele. Laura foi até uma mesa vazia, sentou-se e indicou uma cadeira a ele. Enfiou a mão pelo cós de sua calça e pegou o cigarro. O toque o fez arrepiar. Parecia que havia uma espécie de eletricidade os envolvendo. Ela disse que estava com sede. Ele não tinha nem uma moeda com ele. Vire-se, arrume uma bebida para nós. Num primeiro momento, veio-lhe a falta da carteira, do cartão de crédito. Precisava se acalmar, pensar, olhar ao redor, encontrar uma solução para conseguir dinheiro. Não tinha nada que pudesse vender ou trocar, nem o relógio ela o deixara trazer. Olhou a moça se exibindo no palco, tirando a blusa e apontando o sutiã para aqueles que estavam mais próximos. Alguns se aproximavam, colocavam notas de pequeno valor entre os seios dela e ela mostrava-lhes o mamilo. Uma idéia passou pela cabeça, rápido, e foi descartada: ele não subiria no palco para dançar. Isso, ele não faria. Um homem aproximou-se da mesa. Dirigindo-se a Laura, perguntou se ela aceitava uma bebida. Marcos já abria a boca para protestar, levantar-se, dizer ao homem que aquela era a mulher dele e não precisava de nada. O olhar dela o deteve. Sim, aceitavam uma cerveja e três copos. O homem sentou-se sem cerimônia. Começou a sussurrar no ouvido dela, enquanto ela apenas sorria. Beberam duas cervejas. A mão do homem começou a passear pelo braço dela. Laura passou a lhe dar atenção. Mais uma vez Marcos quis gritar, partir para a briga, tirá-la dali. Lembrou-se porque estavam ali, respirou fundo, levantou-se sem dizer nada. Os olhos de Laura o seguiram. Marcos foi até o balcão do bar. Conversou com o homem que servia bebidas. Ele sinalizou para a moça que dançava no palco. Ela desceu, foi ao encontro deles e conversaram. No momento seguinte Marcos subiu no palco. Uma nova música começou e ele dançou como se não houvesse mais ninguém na sala, além de Laura. Exibia seu corpo, descobria gestos e movimentos que nunca pensou que existissem dentro dele ou que fosse capaz de executar. Tirou a camiseta. Indicava o cós da calça como a vira fazendo com o sutiã. Uma nova platéia se aproximou do palco. As notas foram mais generosas. Ele as guardou no bolso enquanto abria o zíper e deixava a calça baixar lentamente. Naquele instante era outro homem, sem passado, sem história, sem pudores. Exibiu a bunda, rebolou, abaixou-se até quase deitar no chão, abria mais a calça e acariciava os próprios pelos. A cabeça rodando pela música, pela bebida e por Laura. O pau duro só de olhá-la de longe. Nesse momento a moça subiu novamente no palco. Juntou-se a ele. Passou as pernas por sobre a sua barriga e também começou a dançar. Ele olhou para o alto, um vulto de mulher, enxergava por baixo da saia dela. Via-lhe a calcinha pequena, preta, em contraste com a pele branca. Não conseguiu pensar direito, apenas deixou-se levar. Ela tirou a saia, ficando de calcinha e sutiã. Dançava montada sobre ele. Simulando o ato sexual. Se esfregando nele. O tesão tomava todo o seu corpo. Levantou os braços e arrancou o sutiã. Os seios pequenos, de auréolas grandes e marrons, pareciam deliciosos e ele tentou alcançá-los com a boca. A cada tentativa frustrada, a platéia aplaudia. Ela abaixou-lhe a calça, exibiu o pênis e apontava, pedindo mais contribuições. A platéia aumentou. Ela, quase profissionalmente, começou a chupá-lo. Ele, inebriado por tudo, não conseguiu controlar a ereção e gozou. O show acabara. Dividiram o dinheiro. Ele voltou à mesa, pagou a conta e puxou Laura pelo braço. Ela deixou-se levar sem uma palavra. Na rua, encostou-a no primeiro poste e beijou-a como se nunca tivesse feito isso antes. Segundo dia Fora pega de surpresa. A mistura de bebida, num estômago vazio, e a excitação de vê-lo gozar em pleno palco, na frente de todos, a aturdiu a ponto de não esboçar reação quando foi puxada pelo braço. Do lado de fora, o vento frio da noite e o beijo a fizeram recobrar a dimensão do que estava acontecendo. Cedeu ao beijo, pois o tesão foi maior, mas a fantasia imperativa - que os trouxera até ali - falou mais alto. Uma sonora bofetada o deixou atônito. Pego de surpresa em meio a um turbilhão de novos sentidos despertados, não entendeu a reação dela. Afastou-se, indignado, esboçando uma reação que foi sumariamente abortada pela continuação dos tapas em seu rosto. Laura não dizia uma palavra, apenas batia, com força e repetidas vezes. As pessoas em volta olhavam e seguiam seus caminhos. Ele nunca se sentira tão humilhado, publicamente exposto, no entanto as palavras não saiam. Conforme ela batia, suas pernas vergavam e Marcos acabou de joelhos no chão imundo daquela rua desconhecida. Nesse momento, Laura arrancou a miserável camiseta que cobria parcialmente o tórax dele e a fez em tiras. Com uma frieza que até mesmo ela desconhecia existir dentro dela, emendou as pontas, fazendo uma espécie de corda frágil. É um vira-latas e assim será conduzido pela noite, foram suas palavras ditas olhando diretamente nos olhos dele. A precária corda fechou-se em nó ao redor do pescoço dele, deixando uma parte livre para servir de guia, que enrolou na mão. Levante-se, vamos farejar a noite, disse puxando-o pelo pescoço e fazendo quase tropeçar ao se levantar às pressas. Andaram, andaram sem rumo. Alguns assovios, umas piadinhas, “vem cá, totó, lambe aqui”. Uma lágrima rolou, escondida, pelo canto do olho de Marcos. Vergonha. Não era isso que imaginou, as fantasias de sexo selvagem, a dominação pela mulher mais bela e poderosa que conhecia estavam sempre envoltas em papel de seda e recendendo a Chanel 5. O fedor de urina das ruas, a coleira de trapos, ser menosprezado por aquela gente não o excitava. Enquanto andava sem direção, Laura recusou-se olhar para ele. Sabia os sentimentos que deviam assombrá-lo e intuía que ver a tradução disso numa expressão desolada poderia fazê-la parar. Fome. Pela primeira vez deu-se conta de estar com fome e atordoada por conta dela. Dinheiro. Precisavam fazer dinheiro já que o tolo deixara sobre a mesa do bar a pequena quantia que havia ganho se exibindo. Amarrou-o a um poste e foi conversar com os travestis que faziam ponto na área. O olhar de Marcos acompanhou o movimento: isso já seria demais, ele se rebelaria se ela o fizesse tocar num deles, se o obrigasse ao que quer que fosse. Diria que não, que estava parando ali, que queria ir para o aeroporto e voltar para casa. Voltaria para sua cama macia e cheirosa que a empregada devia ter deixado preparada; para o café da manhã da mãe; para pegar a parte de esportes do jornal do pai, enquanto resmungavam amenidades no começo do dia. Voltaria para um destino que já lhe fora traçado há muito tempo, para a rotina de executivo que dentro de alguns anos seria muito bem sucedido, repetindo a trajetória do pai. Em poucos segundos a projeção do seu futuro passou-lhe à frente dos olhos. E os seus desejos, onde ficariam? Trancados dentro de um quarto de motel, no silêncio de uma prostituta qualquer, regiamente recompensada ao atender favores especiais e manter a discrição. Era isso que o esperava... então, isso poderia esperar até segunda-feira. Ainda havia um lapso de tempo para preencher de lembranças. Laura voltou. Sem dizer uma palavra o desamarrou e conduziu ao meio fio. Estou com fome, vai fazer dinheiro para me alimentar. O primeiro carro parou. O homem estava interessado nela. O descartou mas ofereceu o putinho bonito para ser chupado. Interessa? Não, então siga em frente. O próximo carro queria os dois mas se contentou em chupar o pau do mocinho bonito. Laura o fez abrir a calça e exibir o pênis enquanto negociavam preço. Fechado. Encoste-se na janela para o gentil senhor se deliciar. Marcos chegou junto ao carro, encostando-se na janela aberta do lado do carona. Espalmou as mãos no teto e sentiu as mãos do homem a manuseá-lo, apertar o saco, masturbando-o grosseiramente em busca de uma ereção. O homem reclamou que o pau não ficava duro, que queria o dinheiro de volta. Laura chegou-se por trás dele, colando o corpo ao seu e falando baixinho ao seu ouvido: que porra de macho é você que vai me deixar com fome? Faz esse caralho subir, deixa o velho satisfeito e vamos embora logo. Dizendo isso e deslizando as unhas pelas costas de Marcos, descendo até a bunda, apertando. A mão enfiada dentro da calça, acariciando o ânus, o dedo insinuando-se... abre esse cuzinho pra mim... deixa te ajudar a fazer o pau subir. Novamente a mente de Marcos desligou-se da realidade. Entregou-se aos dedos dela e à boca do homem. Gemeu e gritou, esporrando na boca aberta e aflita do velho que se masturbava enquanto isso. Tudo acabado, se foram em busca de comida. Uma barraquinha vazia, uma senhora que cochilava e cachorro-quente. Estava perfeito. Um cachorro-quente, uma Coca diet – não tinha, servia qualquer coisa – e um pão puro. Laura sentou-se no caixote que fazia as vezes de banco e colocou o pão num guardanapo, no chão, para que Marcos comesse como um cão que era. Em silêncio, de quatro, ele comeu tudo. Enquanto comiam, Laura e a velha conversavam e riam. Falavam da dureza da vida e da cretinice dos homens. A velha elogiou o mocinho bonito. Laura ofereceu-o. Não, obrigada, já passara da idade desses prazeres. Despediram-se. De volta ao hotel, Laura amarrou-o ao pé da cama e foi tomar seu banho. Saiu nua do banheiro e deitou-se. Marcos perguntou o que devia fazer. Ora... deite-se onde está e durma, foi uma noite dura. O chão duro e frio, o jeans apertado e toda aquela situação não deixaram Marcos dormir direito. Viu o dia amanhecer. Olhava Laura dormindo nua e se excitava cada vez mais. Masturbou-se em busca do sono, que nem mesmo assim veio. Ela acordou a manhã já ia avançada. Chegou na borda da cama, olhou seu cãozinho cochilando encolhido. Teve pena e tesão. Não imaginou que ele poderia ir tão longe. Daria-lhe uma recompensa. Levantou-se, fazendo-o despertar com seus movimentos. Soltou a corda que o prendia. Hora do banho, meu totó. Despiu-o. Levou-o ao banheiro onde encheu a bacia de água morna. Agache-se na bacia, vou lavar meu cãozinho. Derramou a água pelas costas dele, com as mãos em concha. Ensaboou-o. Deteve-se nos genitais, no ânus, provocando. Tenho que cuidar direitinho da minha fonte de renda. Tenho que deixar esse cuzinho pronto pra nos alimentar. Dizendo isso e o penetrando com o dedo, massageando o pau. Quando sentiu que ele iria gozar a qualquer momento, parou tudo e mandou-o para o chuveiro, proibindo de se masturbar – uma vez que vira que ele já fizera isso à noite, sem a autorização dela e deixara as marcas no chão do quarto. Saiu do banheiro, dando-lhe um momento livre para se recuperar de tudo. Vestiu-se e saiu do quarto, em busca de comida. Voltou, pouco tempo depois, com duas quentinhas que comeram em silêncio. Fumaram um cigarro. Ela queria um café, bem forte, depois; ele a queria, mas não disse nada. Laura deitou-se. Por um momento pensou em parar, em chamá-lo para junto dela, queria sentir o corpo dele no seu. Queria aninhá-lo e perguntar tudo o que se passava na cabeça dele. Desistiu. Sabia que se fizesse isso perderia o clima, a magia, a fantasia. Somente não resistiu a olhá-lo de frente, bem fundo nos olhos e abrir as pernas, com um sorriso malicioso. Desde que Laura o mandara se agachar na bacia Marcos desistira completamente de dizer qualquer coisa. Abdicou de vez de qualquer lampejo de racionalidade, deixando-se levar apenas pelos instintos, seguindo-a, tentando captar nos olhos dela, nos seus pequenos movimentos, todas as vontades que ele simplesmente iria cumprir. Comeu o que ela oferecia, sentado no chão, em silêncio. Aceitou o cigarro que lhe dera e fumou-o sem tirar os olhos dela. Quando a viu deitar-se e abri-lhe as pernas, entendeu o que devia fazer. Marcos levantou-se, nu como estava, foi em direção a Laura levantou-lhe a saia curta, tirou-lhe a calcinha e começou a lamber as pernas. Um pé empurrou-lhe, fazendo recuar um pouco e posicionou-se no meio do seu peito. O outro pé foi-lhe em direção à boca, para ser chupado. E ele chupou e lambeu cada dedo, subindo com a língua pela perna. Assim ficou até que ela retirou o pé que o detia e ele pode chegar entre as coxas dela, que se abriram, permitindo sentir-lhe a umidade e gosto do tesão, que logo explodiu em sua boca, fazendo-a gritar e agarrar-se a cabeceira da cama durante o orgasmo. Quando ele tentou deitar-se sobre ela, penetrá-la, foi expulso: vai gozar em outra buceta, guarde sua porra para presentear quem eu escolher. Levantou-se, vestiu o mesmo vestido vermelho vinho, passou a maquiagem e o perfume doce. Olhou para ele: vista-se, hora de fazer a ronda do dia. A noite já tinha caído quando saíram do hotelzinho. Só restara a Marcos o velho jeans apertado e as havaianas. Hoje ele não usava a cordinha como coleira. Vagaram pelas mesmas ruas do dia anterior. Nenhum dos dois sabia exatamente em busca do quê. Foram parar num velho botequim onde, na calçada, se improvisava uma espécie de forró. A música vinha de um aparelho portátil, colocado em cima de uma mesa de ferro. As pessoas bebiam pinga e cerveja, homens e mulheres dos tipos mais diversos. Dançavam na própria calçada, bebiam em pé, encostados na parede ou nos carros. Formavam-se pares, na esperança de conseguir alguma diversão, uma trepada ou simplesmente passar o tempo. Laura chegou-se a um pequeno grupo de mulheres encostadas na parede, ao lado do aparelho de som. Pediu fogo para acender o cigarro e puxou conversa. Riram. Ensaiaram passos de dança sozinhas. Apontaram para Marcos e riram novamente. Uma delas foi em direção a ele e tirou-o para dançar. Logo, Laura também dançava, com um jovem baixo e forte, parecia peão de obra ou algo do gênero. Ele a apertando, puxando com força, quase se esfregando nela. Beberam pinga ardida e cerveja barata. Riram numa camaradagem espontânea. Laura fez Marcos ajoelhar-se e beijar os pés das mulheres em agradecimento. Pés mal cuidados, de unhas grosseiras e esmalte descascado. Todas se admiraram da gracinha do moço bonito. O tal peão, que também se juntara ao grupo, propôs irem ao quarto dele, continuar a festa em particular. Duas das mulheres se entreolharam e riram entre si. Viraram-se para Laura: vamos e você leva esse seu moço bonito pra gente brincar. E lá foram eles, pinga e cerveja na mão, na direção do tal quartinho. Marcos já andara em bairros pobres, estagiário na periferia da cidade, mas nunca entrara num cortiço. O quartinho do tal peão ficava no antigo porão de um velho casarão que há muito já devia ter sido interditado. Cheirava a mofo. Não tinha janelas, a ventilação era feita através de tijolos furados acima da porta. Lugar pequeno e escuro, com uma cama velha e uma cadeira; as poucas roupas penduradas em pregos nas paredes. Só havia dois copos, que seriam compartilhados, ou se bebia no gargalho das garrafas. Um radinho de pilha daria a trilha sonora da nova festa. Marcos, Laura, o tal peão e duas mulheres: uma, na casa dos quarenta anos, voz estridente, um tanto quanto escandalosa, vestia-se como uma mocinha, com roupas justas acentuando a magreza; a outra, beirando uns cinqüenta, de formas muito generosas, com seios que quase pulavam do decote e um quadril enorme, praticamente não falava, murmurando uma ou outra palavra em assentimento ou discordância do que os outros propunham. Foi essa que quis começar a festa. Moça, empresta teu mocinho bonito? Laura olhou para ele e fez um leve movimento com a cabeça em direção a mulher. Marcos deu três passou e parou em frente a ela. Tira a roupa que eu quero ver o que ocê tem pra me servir. Os outros se encostaram onde dava para assistir. Ela sentou-se na única cadeira, esticou o pé: lambe. Marcos ajoelhou-se e lambeu. Satisfeita, mandou-o virar-se de costas para ela, pegou a sandália e acertou-lhe a bunda. Ele não disse um “ai”. Ela continuou até cansar. Bem jeitoso o teu menino, moça. Fica em pé, deixa ver esse caralho. Murcho? Ô, Nega, vem aqui dar um jeito nisso, ocê é boa de boca. A outra mulher se ajoelhou na frente de Marcos e começou a chupá-lo. O peão assanhou-se para cima de Laura: passou o braço pela cintura dela, começou a falar gracinhas no ouvido. Enquanto era chupado, viu Laura segurar o peão pelo pescoço e fazê-lo ajoelhar-se na frente dela. Esticou a perna sobre o ombro dele e deixou-o lambê-la. A cena fez a ereção de Marcos começar e as mulheres se deliciaram: chupavam, apertavam a bunda, enfiavam o dedo no seu cu. Laura fez o peão deitar-se nu, no chão, e o masturbou os pés. A pinga e o tesão deixaram o peão sem tino: as mulheres fizeram Marcos colocar-se sobre ele e dar-lhe o pau para chupar. Foi chupado até gozar e as mulheres lamberam a porra que se espalhou sobre o peito, sob o olhar sacana de Laura. Moça, a gente não vai se divertir também, não? Laura olhou fixo para Marcos: faz elas gozarem. Chupa. Sentiu a repugnância na expressão de Marcos. Repetiu: chupa. Sentaram as duas na beira da cama, pernas abertas, esperando o prazer que lhes seria oferecido. E Marcos chupou, uma e outra, alternando língua e dedos, até que as duas gozaram. Vista-se, vamos embora. Laura mandou beijos para mulheres e cutucou, com a ponta do pé, o peão que continuava caído no chão. Já era madrugada quando voltaram para rua, na noite fria e chuvosa. Último dia Na boca de Marcos tinha ficado um gosto estranho: pinga barata e buceta fedida. Sentia que tinha se tornado meio bicho na hora de chupar aquelas mulheres. Se fosse quem sempre tinha sido, vomitaria. Sexo lhe fora apresentado pelas cheirosas coleguinhas de colégio: escola tradicional, classe média alta, todas vestidas em lindas lingeries safadas, escolhidas a dedo, no shopping sem as mães. Estivera uma vez com prostitutas – festa de aniversário de um amigo – mas eram “meninas finas”, bordel de luxo, que lhe consumira quase toda a mesada. Andaram sem rumo pela noite. Dividiram o último cigarro. Laura queria fazer xixi e recusava-se a agachar na rua, levantar o vestido e se aliviar. Viram as luzes de um posto de gasolina, lá deveria ter banheiro. Uma pick-up preta abastecia. O frentista, um jovem e duas moças conversavam. Laura foi em busca do banheiro. Marcos chegou-se ao grupo, pediu um cigarro à menina que fumava. Na saída do banheiro, Laura percebeu que Marcos se enturmava. Encontrara seus iguais: jovens, ricos, bonitos. Um sorriso passou pelo seu rosto. Achara o que faltava para fechar a aventura. Percebeu que o frentista entregou as chaves a dois rapazes que compravam cerveja na loja de conveniência. Se aproximou dos rapazes, sorriu. O que ficara com as chaves, uns 25 anos no máximo, alto e louro, retribuiu o sorriso. Levantou a latinha de cerveja, a convidando. Se pagar um café, eu aceito. O café, um cigarro e a pergunta: já fechou a noite? Não, ela ainda não fechara o turno. Estava interessado? Um riso maroto numa boca lindamente desenhada, de dentes perfeitos, respondeu: e quanto falta pra fechar? Dinheiro? Não, isso ela não queria. Drogas? Também, não. Apontou para Marcos, falta o gran finale pra fantasia do mocinho. Interessa? Se dirigiram ao carro. O amigo que o acompanhava se despediu, pegaria um táxi, não agüentava mais nada. Uma rápida conversa com os que estavam no carro: o rapaz e uma das moças topava; a outra disse que os esperaria, cochilando no carro. Eram cinco e deviam decidir onde ir. Laura não quis arriscar-se mais, ficariam por perto. Deixariam o carro estacionado no posto. Na rua por onde vieram havia vários casarões abandonados, encontrariam um que servisse. Um sobrado velho, cercado por grades de ferro e tábuas foi escolhido. Na lateral, uma escadaria com um vão embaixo daria o abrigo perfeito e discreto. Laura tomou à frente: alguém tem algo que sirva para amarrar? A menina tirou a faixa que prendia o vestido aos quadris. Com ela, Laura prendeu as mãos de Marcos nas costas. A moça foi gentil, então começa. Ele é seu, use-o. Parece que num primeiro momento a menina ficou em dúvida se era brincadeira ou realidade. Laura esbofeteou Marcos. Tá vendo? Pode fazer o que quiser. Ele é mansinho. A menina riu, se aproximou e repetiu o gesto. E outra, mais outra, pareceu descobrir um novo brinquedo. Ria, batia e pulava em volta. Chegou perto do jovem louro, desatou-lhe o cinto e com ele começou a bater nas costas de Marcos. O outro rapaz se animou com o que viu: abriu e tirou as calças de Marcos, segurou-lhe o saco com força, lambeu o queixo: é disso que você gosta, putinho? Laura e o rapaz louro nada diziam. Encostados num muro baixo, fumavam em silêncio. Depois de dois cigarros, o louro levantou-se, decretou o fim da brincadeira das crianças. Chamou Laura. É isso que você quer? Então, fique parada na frente dele. Tirou a camisa, pegou o cinto da mão da menina e começou a estalá-lo nas costas de Marcos, com violência. Fez Laura contar cada batida. Na décima primeira, Laura mandou-o parar. A pele das costas de Marcos já quase sangrava. O louro sorriu, contornou o corpo curvado de Marcos, chegando bem perto de Laura. Num movimento rápido, segurou-a pelos cabelos, com força. Tá com peninha dele? Então vai lamber as feridas. Meio que a arrastando, levou às costas e a fez lamber. Marcos não tinha forças para nenhuma reação. Aí, putinho. Agora é com você: abriu a calça, tirou o pênis ereto para fora, ou chupa ou ela é a próxima a apanhar até eu gozar. Pelos olhos de Marcos passaram todos os medos possíveis imaginar. Se colocou de joelhos à frente do louro e, com as mãos ainda amarradas às costas, começou a chupá-lo. Não demorou para que a boca ficasse cheia de porra. Enojado, Marcos deixava escorreu pelos lábios. Tua vez, gostosa: lambe o que está escorrendo. Fez Laura ajoelhar-se e lamber a porra na boca de Marcos. Naquele momento, ele não sabia o que o humilhava mais, o gozo do outro na sua boca ou a sua mulher provando nele o suco do outro. Rindo alto, ajudou Laura a se levantar. Mandou a menina desamarrar as mãos de Marcos. Gostosa, você é do cacete! Quando quiser brincar de novo, me avisa. Disse isso beijando Laura na boca, chamando os amigos e indo embora. Não disseram nada no caminho do hotel. O sol já estava alto quando chegaram. Tomaram banho em silêncio. Colocaram suas roupas comuns. Desceram as escadas, se dirigiram para o carro e de lá para o aeroporto. Laura devolveu as chaves do carro. Tomaram um último café. Você combinou tudo com o louro, não foi? Laura olhou bem dentro dos olhos dele. Faz alguma diferença? Não fazia. Era a última vez. Vôo 1943, com destino a Salvador, embarque imediato no portão 22. Boa viagem!