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Viagem em Ti

Gosto de mergulhar nos lagos gelados que são os teus olhos. Uns dias azuis como o mar revolto, noutros verdes como uma floresta perigosa, mas sempre gelados. Já nem me lembro bem do que me atraiu em ti, mas deve ter sido o meu fascínio pelo abismo. Tu és duma crueldade ambiciosa. Transbordas calma e frieza, um verdadeiro fiorde, profundo e gelado, desprovido de emoções à superfície, mas revolto na profundidade. Enquanto me amarras, processo que demora largos minutos, não dizes palavra, e um sorriso ilumina-te o rosto, enquanto um silêncio expectante nos abraça. Fazes verdadeiras obras de arte com as cordas no meu corpo, e depois sentas-te calmamente a admirar o teu trabalho, obra das tuas mãos. Eu estou ofegante, ansiosa, receosa pelo que sei que se segue, mas que tarda em chegar. A tua excitação é visível, apesar da tranquilidade aparente. Passas por trás de mim e agarras a mordaça que logo me colocas. É apenas um ritual, porque sabes que eu não gritaria. Não perturbaria a tua arte com os meus gritos, prefiro desfrutar em silêncio. Mas faz parte da cena, aumenta o nosso desejo. O teu de humilhar, maltratar e cuidar, o meu de te pertencer por inteiro, sem limites nem barreiras. As chicotadas sucedem-se um pouco por toda a parte, as lágrimas inundam os meus olhos e os vergões marcam-me a pele. Os meus gemidos são mais de prazer do que de dor, e tu bem sabes. Estás ainda longe do meu limite, preferes que a punição e o nosso prazer se prolonguem no tempo. Por vezes paras, contornas-me, passas as mãos pelo meu corpo. Acaricias a a minha pele marcada, o meu sexo molhado, prova indesmentível do meu prazer. Empurras-me, apenas pelo prazer de me veres lutar para não cair apesar dos pés amarrados. E quando estou quase a sucumbir desamparada, as tuas mãos agarram-me e recolocam-me na posição. Percebes nos meus olhos quando eu não aguento mais, quando a dor e o desconforto são já insuportáveis, e nessa altura sais do quarto. Deixas-me só com o meu desespero, sem perceber se vais voltar para me libertar, ou se vais deixar acabar todas as minhas forças. Voltas no momento exacto, libertas as minhas amarras, e eu, feliz, agradeço-te dando-te o prazer que mais gostas. No final levantas-me, beijas a minha boca ainda cheia de ti, e dizes-me ao ouvido: - És a minha putinha. E eu sorrio-te, plena de felicidade.