Back to Browse
Oito... Dezesseis
O ambiente é confuso, barulhento. Garçons correndo pra lá e pra cá, um vozerio incessante misturado a sons de talheres me leva a concluir que este não é o melhor lugar para um encontro desse tipo. Mas cá estou, no meu primeiro encontro com um grupo de adeptos do bdsm. Chego na cara dura, conhecendo apenas um membro do grupo; logo o encontro e sou apresentado aos mais próximos na mesa. Codinomes esquisitos, gente idem. Sem fazer muita questão de me mostrar simpático e sociável, como sempre, aliás, sento-me numa cadeira livre e peço uma cerveja. Meu amigo já está no outro extremo da mesa, conversando sei lá o que com um casal. Distraio-me com o cardápio, recurso que sempre utilizo pra dar a impressão de que estou à vontade, enquanto tento pescar algo das conversas que se desenrolam ao redor. Nada de interessante. Reparo à minha frente a chegada de um homem numa cadeira de rodas, semblante sério, olhar inquiridor, aparentando uns
quarenta anos. Ajeita sua cadeira e, indiferente à boa regra da discrição, fica a me contemplar. Demoro-me na leitura do cardápio, sem
levantar os olhos, na esperança de dissuadi-lo de seu propósito, seja ele qual for. Sem perspectiva de sucesso, abandono o objeto que me entretinha e dirijo ao homem um contido e minimamente cortês sorriso, logo encoberto pelo copo de cerveja. É o suficiente para
encorajá-lo:
- Vejo que és novato nesse grupo, não?
- Sim, pode-se dizer que sim.
- O que está achando do pessoal?
- Bem... nada. Nada ainda.
O homem sorri e me estende a mão.
- Meu nome é Alberto, muito prazer!
- Henri, prazer respondo, apertando sua mão.
- Qual a sua vivência no bdsm?
- Na verdade, nenhuma ainda. Mas me interesso e já li bastante coisa.
- Dominador ou submisso?
O homem é bastante direto. Sua pergunta me deixa meio sem jeito, não por eu não saber minha inclinação dentro do bdsm, que é a de submisso, mas por não adivinhar a reação dele e das outras pessoas do grupo à minha resposta. Por enquanto, só conheço reações baunilhas a esse assunto. Decido por não entregar o jogo.
- Bem, digamos que eu estou ainda numa fase de estudos e descobertas sobre este universo. Prefiro não me posicionar ainda,
entende?
- Claro, claro, hehe! Desculpe pelo meu tom um tanto... incisivo, hehe!
- Tudo bem! respondo, com um sorriso sem-graça.
Alberto dá um gole generoso no seu uísque e fica em silêncio por alguns instantes. Seus olhos percorrem todo o ambiente em volta,
calmamente, sem foco específico, demorando-se um instante numa bela moça na entrada do restaurante, do lado de fora. Não é a primeira vez que olha naquela direção desde o começo da nossa conversa.
- Sou sub, retoma mas só depois do acidente pude compreender e vivenciar em todo o seu âmago a submissão e a devoção a uma pessoa. De outra forma, talvez nunca conseguisse me entregar de corpo e alma a uma mulher, estar à inteira mercê dela.
Suponho que o acidente a que ele se refere tenha sido o que o deixou nessa condição, mas não quero perguntar. Nem preciso.
- Deves estar curioso, não? Alberto continua Sim, antes do acidente eu andava com as minhas próprias pernas, e isso me fazia
independente demais, de corpo e mente, para que eu tivesse a oportunidade de vivenciar tudo o que vivenciei a partir do fatídico dia. O
acidente foi um marco absolutamente indispensável na minha existência.
Apenas aceno com a cabeça, demonstrando interesse. Realmente, não posso dizer que ele me aborrece. Ainda. Peço outra cerveja. Alberto
continua:
- Acidente de automóvel, antes que você pergunte. Colisão lateral. Lesão na coluna vertebral. Poderia ter sido fatal, pois eu estava sem cinto. Sabe o lado irônico da história? A preferencial era minha! Hehehe! Sabe o mais irônico ainda? me questiona com entusiasmo, olhos injetados em mim.
Não me arrisco a perguntar. Porém, não há mais chance de ignorá-lo. Mordi a isca, problema meu. Acho que esse não é o primeiro uísque dele.
- O motorista não tinha carteira! Quer dizer, a motorista! Hahaha! Foi uma mulher que tirou para sempre de circulação o maior
garanhão da redondeza! Hahaha! Já imaginou situação mais irônica?
Cada vez mais encabulado e temendo que o entusiasmo de Alberto atraia todas as atenções da mesa, tento não incentivar muito o delírio dele. Apenas faço uma observação, intrigado com o fato de ele ter enfatizado o gênero do motorista, e não o mais importante:
- Não tinha carteira de motorista, é?
- Não, ehehe! Se ela não tivesse desrespeitado duas leis de trânsito, a da habilitação e da placa Dê a preferência, eu não estaria nessa cadeira de rodas hoje! Hahaha! E sabe o pior?
Não sei como fui dar trela pra esse cara... Onde isso vai acabar?
- A menina tinha dezesseis aninhos, hehehe! Nem poderia ter carteira mesmo, né? Estava aprendendo a dirigir, a pobrezinha. Tão
novinha... mas não era boba não! Tirando o descuido da placa de preferencial, que ela não conhecia, não se esqueceu de pôr o cinto de
segurança. Relapso fui eu! E como o carro do papai dela também tinha air-bag, seu belo corpinho não sofreu nada além do susto. E sabe do pior?
Vixi maria... Achei que isso fosse o pior...
- O caso não deu em nada! O papai dela é rico e seu advogado cuidou de tudo. Com a ajuda do nosso belo código penal, sabe como é. A menina, se sofreu alguma represália, foi um xingão do papai e um corte na mesada. As férias na Disney, será que foram comprometidas? Hahaha! De lembrança mesmo do acontecimento, só isso aqui! Hahaha! dá umas batidinhas no apoio de braço da cadeira de rodas.
- Putz... nem sei o que dizer... sinto muito é só o que consigo falar, de olhar baixo. Por que será que ele ri quando conta essas
barbaridades? Vontade de ir embora. Isso é o que dá ser anti-social que nem eu. Acabo atraindo esses malucos...
- Mas isso é passado... pra ela né, pois pra mim é sempre presente! Hihihi!
Alberto termina seu uísque de um gole só. Pede outro e continua:
- Mas sabe... hoje evito falar desse episódio com minha dona. Não quero que ela tenha pena de mim. Na verdade, quero convencê-la de que, por ela, eu seria capaz de optar por estar nessa condição, mesmo que o acidente não tivesse ocorrido. Não imagino como poderia ser o tipo de escravo que sou dela estando plenamente capaz. Não daria certo.
- Como assim? Por quê? me ocorre a curiosidade. Como ele começou a falar de dominação/submissão, o que me pode ser útil, decido frear por um momento o ímpeto de pedir a conta e ir embora.
- A forma como ela me ignora, sabe? Ou me esquece. Sei que às vezes é proposital, às vezes ela tá mal-humorada mesmo, e geralmente não curto quando isso acontece. Mas me diz: de que forma ela ia me esquecer a um canto, por castigo ou descuido, se eu não estivesse preso a essa cadeira? De que outra forma ela me falaria dos detalhes mais picantes das transas com seus parceiros, que aliás não são poucos, ignorando que eu também sou homem? E mais, você acha que ela me deixaria assistir a algumas de suas belas fodas, escondido atrás de uma parede falsa, se não me considerasse um inválido que não oferece qualquer perigo a ela? Se eu fosse um homem inteiro, não teria nada disso!
Não acho o que perguntar nem consigo tecer qualquer comentário. Só me resta beber. É impressionante como esse homem me intimida.
- Daí continua a grande questão: ser este meio-homem e estar sempre ao lado dela, ou ser plenamente capaz e fazer parte da vida dela apenas durante efêmeras duas ou três fodas? Mas parece que essa o destino já escolheu por mim, né? Hahaha! Resta-me, então, uma segunda questão: abdicar da minha dignidade para fazer parte da vida dela, ou procurar minha realização em outra mulher? O que você escolheria?
- Olha, não sei... é o tipo de situação que é complicado se avaliar de fora, entende? Sequer conheço sua dona.
Ele volta a dirigir o olhar para a porta do restaurante, mas dessa vez me incentiva a fazer o mesmo, com um meneio da cabeça. A moça loira ainda está lá do lado de fora, conversando com um cara. Reparo melhor nela: é realmente bonita, em forma, tem belas pernas e um traseirinho bem empinado, auxiliados pelas botas de salto agulha; veste um jeans claro bem justo e uma jaqueta de couro vermelha; os cabelos louros e lisos alcançam o meio das costas. Conversa com um sujeito bem mais alto, pinta de modelo, aparentando uns dez anos a menos do que o meu interlocutor.
- Gostosa, não é? Alberto me traz de volta Sofia é o nome dela! Realmente, o que eu lhe perguntei não poderia ser respondido assim, na lata; não antes de conhecê-la! Você já ficou balançado, né? Hehee! Ela que me humilha, e por ela me desvalorizo. Me esqueceu aqui de novo, a danada! Já chamei-a duas vezes! Ela sabe como eu fico deslocado nessas situações, ela sabe dos cochichos e das fofoquinhas, sabe de tudo! Mas o que faz a respeito? Nada! Tá lá combinando sua nova trepada, com toda a certeza. Hoje até que tá boazinha; tem vezes que eu é que fico esperando no frio até ser lembrado, acredita?
Estou realmente encabulado. Ainda bem que ele tá manerando na voz e não tá atraindo todas as atenções. Lanço mão do meu copo de cerveja para disfarçar o constrangimento.
- Pior que eu nem posso reclamar muito. continua Lutei pra conseguir certos privilégios e temo perdê-los. Foi um longo caminho até que estivéssemos íntimos o suficiente pra que ela me deixasse espiar suas transas. E que belas transas... ela parece que nasceu pra
coisa... fode muito, e com uma diversidade de parceiros... ficar vendo aquela bundinha rebolando em cima dos caras, ouvindo os gemidinhos, presenciando seu gozo... fecha os olhos, numa expressão de prazer nenhum filme pornô se compara a assisti-la, o que faço pelo buraquinho na parede falsa. E a naturalidade dela depois, se vestindo na minha frente, me falando das suas sensações, do desempenho do cara, depois de tê-lo despachado; perguntando se eu tinha gostado do showzinho...
Por mais absurdo que possa parecer, começo a me interessar pelo insólito relato. Realmente, estou curioso pra saber até onde ele vai, a qual nível de insanidade. Mas prefiro não perguntar nada, incentivá-lo é um perigo.
- Às vezes ela me empresta a calcinha que usou instantes antes da transa, ou uma meia... sabe que amo cheirar as meinhas dela, ainda
mais enquanto assisto-a trepar. Como assistir a um bom filme saboreando um bom charuto... nada me excita mais... Toda vez que vou
visitá-la, ganho uma meinha pra me distrair; minhas preferidas são as soquetes que ela usou na academia e no cooper. Quando tá disposta, me deixa massagear seus pezinhos, passar hidratante, até mesmo beijá-los algumas vezes. Me elegeu como responsável pela sua coleção de botas e scarpins, sabia? É meu dever deixá-los sempre limpos, reluzentes e arrumados. gaba-se, sorridente como um garoto.
- Quanto tempo vocês passam juntos? Mora com ela? pergunto.
- Quem me dera... um dia conquisto isso, se Deus quiser... Passamos juntos geralmente os sábados, ou os domingos; às vezes os dois dias, mas daí minha irmã tem de me buscar lá no sábado e depois me levar de novo no domingo, pois não posso pousar lá. Também não são todos os fins de semana que a encontro; às vezes ela não quer me receber, o que me deixa muito triste; às vezes ela tá sem paciência comigo, me xinga, não deixa eu fazer as coisas pra ela, me esquece num canto e vai telefonar, ou ocupar-se de outras coisas, às vezes até sai de casa e me deixa lá, como se eu fosse um brinquedo. Mas eu sempre penso em alguma surpresa pra melhorar seu humor, quando ela voltar. Sei que às vezes Sofia é meio cruelzinha comigo, mas no fundo tem um bom coração. Tornou-se minha amiga íntima, abriu sua casa e seu coração pra um inválido feito eu, que não tenho muito a oferecê-la... nenhuma outra faria isso... resmunga.
- Quanto à relação de dominação/submissão de vocês, o que mais rola? já não me acanho em perguntar.
- Menos do que eu gostaria, admito. Sofia se recusa a me bater, nem um simples tabefe, por mais que eu implore; é contra seus
princípios. Entendo... Intimidade física, além do lance eventual da podolatria, não há. Uma vez ela me cuspiu, num momento de raiva, e desde então tenho trabalhado para convencê-la a fazer de novo. Mas nossa relação está longe de ser superficial; pelo contrário, ela é riquíssima, é profunda, de alma. Constitui-se basicamente na dominação psicológica, humilhação verbal e de comportamento, como você inclusive está observando hoje. O que me dá mais prazer é quando a humilhação é natural, quando ela tá mal-humorada e o faz sem perceber,
despejando em mim suas frustrações só porque eu estou ali naquele momento.
- Entendo.
- Depois ela se dá conta de que eu não tenho culpa e refreia seu impulso; daí eu tento fazê-la zangar-se de novo e voltar a me xingar,
até o momento que ela percebe o meu jogo. Daí me pune: me deixa de castigo um tempo, num canto, me proíbe de vê-la se vestir ou transar, de massagear pezinho, me deixa sem meinha pra cheirar etc. E nesse eterno jogo, recuando e avançando, pacientemente, me realizo e faço parte da realização dela. Tenho certeza. Sei que é difícil, pra quem está de fora, compreender, mas é assim...
- Há quanto tempo vocês se conhecem?
- Quatro anos. Sofia tinha vinte quando a conheci.
Mais uma olhada impaciente para a porta do restaurante. Alberto decide ir até lá.
- Acho que está na hora de vocês se conhecerem. Talvez te ajude a compreender tudo o que falei. Tenho de ir buscá-la, pelo jeito.
- Na verdade, eu...
Alberto já não me ouve. Está a meio caminho da sua musa, empurrando com energia as rodas da cadeira. Nada demove esse homem dos seus intentos... E agora? O que eu vou falar pra ela? Que situação... Ele já está lá com sua dona. Sofia continua falando com o cara, apenas voltando-se para Alberto para responder o que ele insistentemente pergunta. Depois de uns minutos, despede-se do galã e entra no restaurante, Alberto atrás. Este toma o rumo do banheiro e ela vem em minha direção. É agora...
- Olá! Você é o Henri, né? Muito prazer, Sofia! apresenta-se, trazendo uma cadeira e ajeitando-se à minha frente.
- Olá! Ahn... Muito prazer! estendo-lhe a mão.
- Alberto tá te alugando há muito tempo?
- Err... não, não, capaz! Muito simpático o teu... amigo.
- Às vezes ele esgota a paciência, vou te contar... ainda mais quando bebe! faz uma cara de enfado.
- Estava me contando a história de vocês. Sou novato nesse grupo, e posso dizer que foi uma conversa bem instrutiva. Muito experiente
ele.
- O que ele falou de mim? dispara.
- Hã... bem... nada, quer dizer, falou bem de você, muito bem!
- Entrou em intimidades, né? Tenho certeza, ele é senhor de fazer isso!
- Não... quer dizer... nada de mais. meu jeito atrapalhado estraga tudo.
- Hoje ele vai pagar por isso... e não diga que não avisei... tá me enchendo desde cedo, acha que eu lhe devo toda a atenção do mundo, que vivo pra ele... odeio quando interrompe minhas conversas!
A pose, o olhar feroz, o jeito de dominadora me faz começar a pegar o espírito daquilo que Alberto tentou me transmitir. Em frente a ela, começo a me transformar nele. Não só eu, acho que qualquer um.
- Ele falou de como nos conhecemos?
- Não cheguei a perguntar. Só me disse que foi há quatro anos.
- Oito! Eu tinha dezesseis.
Faço uma cara de estranheza.
- É, ele sempre suprime essa parte, continua - deixa pra eu contar. Na verdade, não gosta que eu conte, tem vergonha, mas eu sempre conto. Acho que ele até prefere assim, pois não sabe conectar as duas partes da história, não sabe como fazer a pessoa compreender totalmente o que ele quer dizer, sentir o que ele quer que sinta. Eu também não sei o que ele deseja na verdade. Sou direta e pronto, tô nem aí.
- Bom... o que tem de tão misterioso nessa história?
- Decerto ele começou seu falatório com o dramalhão do acidente e tudo, né? Do lado irônico, que uma singela garota sem habilitação
acabou com sua vida e blá blá blá...
- Sim, ele falou no acidente, com muita mágoa contida, inclusive.
- E que mais ele falou da garota?
- Bem... só que tinha dezesseis anos, era de família rica... só...
- E não disse que esse caso ocorreu há exatos oito anos?
Seu olhar de malícia dispensa qualquer explicação. É suficiente para me petrificar.
FIM