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Chineladas da Empregada - Epílogo

O telefone toca na casa de dona Cleci. - Alô? - Cleci? Oi, aqui é a Sônia! - Oi... o que você quer? Sônia ainda não se acostumou com a nova forma de tratamento utilizada pela ex-criada, que jamais dispensava o ‘senhora’ ao se dirigir a ela. - Eu precisava falar com o Julius, pode me passar ele, por favor? - Não, não posso! Quantas vezes já te disse que ele não quer falar contigo? - Mas Cleci, é importante, eu preciso combinar com ele de ir aí buscar umas coisas minhas... - Pois saiba que ele não quer nem ouvir falar no teu nome, inclusive pediu pra mim também não te dar trela, nem atender tuas chamadas. To falando por consideração, se é que uma tipinha como tu merece alguma. - Cleci, por favor, vamos conversar civilizadamente, tu não tens o direito de falar assim comigo! - Ah é? E quem é tu pra dizer o que eu tenho direito ou não? Ainda acha que é a minha patroa, decerto? Pois pra mim tu é só uma vagabunda de quinta que não soube honrar o marido que tem, quer dizer, tinha. Saiba que agora eu sou a responsável por cuidar desses assuntos pro Julius, ELE que me encarregou porque confia em mim! - Cleci, dessa forma não vai dar pra conversar! Ainda é muito cedo pra que tu fique com essa arrogância toda, se achando superior a mim e no direito de me ofender. Tô batalhando na justiça pelos meus direitos, fique sabendo! - Ah, tá, é? Boa sorte, então! Tomara que o juiz fique com pena da pobre esposa que chegou em casa vestida de puta e fedendo a porra! Ha ha ha! Talvez, se tu der uma trepadinha com o juiz e pagar um boquetezinho depois, ajude! Mas isso não é problema pra ti, né? Pelo contrário, é especialidade! Ha ha ha! – diverte-se Cleci, com extremo sarcasmo. - De onde tu tirou tanta mágoa, será que posso saber? – rebate Sônia - Foi por causa do Valdir? - Valdir? Ha ha ha! Essa foi boa! Daquele mulherengo safado e sem-vergonha eu quero é distância! Na verdade, tu me fez um grande favor. Hoje só tolero olhar pra cara dele por causa do Júnior. - Estás enganada com ele! O Valdir é um homem trabalhador e sensível, ficou do meu lado e me deu todo o apoio quando aconteceu aquela confusão toda. Me ofereceu até a casa dele pra eu ficar um tempo, até que tudo se ajeitasse. - Ha ha ha! Sei bem o que ele te ofereceu de muito bom grado, é aquilo que ele tem de sobra. Ha ha! Sabe, já tô ficando com peninha de ti... sério! Não sei o que é pior, as surras de chinelo que eu te dava ou o negão tarado atrás de ti, não te dando um minuto de sossego... hehehe! Sei como é a energia do traste... Olha, vai te acostumando a ser acordada de madrugada com uma coisa cutucando tua portinha de trás: é o safado que chegou do baile cheio de tesão, às vezes mesmo depois de já ter comido outra piranha na rua. Mas... como tu tá dependendo dele agora, né... a gente acostuma. Acho que tu até já entrou no novo ritmo, não? – tripudia Cleci. - Podes falar o que quiser, eu não vou ficar ouvindo esse monte de disparates de uma pessoa tão baixa. Liguei pra combinar de buscar minhas roupas... - Do que tu me chamou? – interrompe Cleci. - Cleci, chega de ofensas, vamos tratar das minhas roupas e... - Eu perguntei do que tu me chamou, sua vagabundinha! - Tá, Cleci, desculpa, eu não te ofendo mas tu também não me ofende, ok? - E se eu quiser quiser continuar te chamando de putinha, de piranhinha, o que tu vai fazer? Desligar na minha cara? - Cleci, por favor... - Vai, puta, desliga na minha cara pra tu ver, desliga! PIRANHA! CADELA! SEM-VERGONHA! CHUPADORA! DESQUALIFICADA! - Tá mais calma? Podemos voltar a conversar? – contemporiza Sônia. - Podemos, mas não vem querer me dizer como eu devo agir contigo, tá, cadela? - Tudo bem, Cleci. - Pois bem! De que roupas tu tá falando? - Uns vestidos de festa, uns scarpins, tipo aquele que tu usaste... - O Jimi Cho, sei lá como se diz, aquele é meu agora! Os outros de salto também, adorei eles. Te contenta com o meu salto-alto surradinho, que tu usou pra ir dar pro Valdir. Um sapateiro deixa ele ‘nos trincs’. Quanto aos vestidos, tu só vai poder levar os que eu não gostei. Já separei e coloquei num saco pra mandar te entregar. - Como assim, Cleci? Do que tu tá falando? Essas roupas são minhas! - Eram, meu bem! Agora são minhas... - Quem te disse? - O Julius, ora! Quem mais poderia ser? Ele que comprou... Silêncio do outro lado da linha. Sônia não consegue acreditar no que ouve, não consegue articular palavra. Sente-se como se lhe faltasse o chão. Cleci quebra o silêncio: - As roupas e sapatos que não me agradaram coloquei num saco de lixo e vou deixar com o porteiro. Vou dizer pra ele que uma coitada vai vir buscar amanhã à tarde. No caso, vai ser tu, né? – diverte-se Cleci – Vem com uma roupa bem velhinha, bem mendiga, pro porteiro saber que é tu. Ah, e não te preocupa, o porteiro é novo, não te conhece. Só vai ter que cuidar pra ninguém do prédio te ver, né? Pelo menos aqueles que ainda não sabem da tua fama! - Por que o Julius fez isso? – é só o que Sônia consegue perguntar. - Hum... decerto porque gosta de me ver bonita, né? A esposa não valia nada, mas as roupas... são maravilhosas! Já tô usando, até. – vangloria-se a ex-criada. - E por que ia querer te ver bonita? - Ah, meu bem... já vai querer saber da surpresa agora? Eu ia falar mais tarde! Nenhuma resposta do outro lado, provavelmente em decorrência de alguma premonição terrível. Cleci faz questão de continuar: - Vamos nos casar, meu bem! Teu lugar agora me pertence! Oficialmente! Hehe! Só lamento não poder te convidar pra festa. - Tu tá mentindo, sua... - Sua o quê? - Diz que é mentira, Cleci, diz! - Não posso, meu bem, sabe por quê? Porque é a mais pura verdade, verdade verdadeira, v-e-r-d-a-d-e, ouviu bem? E teu tô feliz demais com isso, eu e o Ju. – deleita-se Cleci. Silêncio do outro lado da linha, dessa vez por um tempo excessivamente longo. Cleci, mais uma vez, retoma: - E tu nem ia acreditar em quem tá me ajudando nos preparativos: a Déia e a Solange, tuas grandes amigas, lembra? Meu deus, fiquei boba com a reação delas quando o Ju disse que eu sou a nova mulher dele. Estranharam, claro, perguntaram algumas coisas mas em menos de uma hora já estávamos íntimas, fofocando e tomando chazinho. Hihihi! Outras conhecidas tuas não chegaram nem a perguntar o que houve, acredita? Te esqueceram num estalar de dedos. Essa grã-finagem, vou te contar... quanta falsidade! Mas o bom mesmo são as festas... nunca recebi tanto convite! – vangloria-se Cleci. O silêncio persiste no outro lado da linha. Cleci decide concluir o papo: - Bom, acho que chega de emoções e novidades por hoje, né? Não quero que tua cabecinha exploda. Tenho coisas ainda mais espantosas pra te contar, mas só depois de amanhã, tá? Como uma boa cadelinha que acabei de adestrar, tu vai ligar na quinta lá pelas cinco da tarde, pra sofrer mais um pouquinho com o que vou contar, tá? - O que mais falta? – Sônia enfim consegue dizer, com voz sôfrega. - Mas que afobação! Quem é que te segura, hein? – espanta-se Cleci – Depois de amanhã, já falei! Mas só pra adiantar, já que tu faz tanta questão: antes do teu plano desastrado de me provocar ciúmes com o Valdir, eu já trepava com o Julius, sabia? Pronto! Satisfeita? Dorme com mais essa agora! E depois de amanhã me liga pra saber o resto, e bem mansinha e educada, já sabe. Tchauzinho! E desliga o telefone. -------------------------------------- Dois dias depois, o telefone toca novamente. - Alô! - Oi, Cleci, aqui é a Sônia. - Oi, minha cadelinha, como vai? Ligou bem na hora que eu mandei, tô gostando de ver! - Cleci, por favor... - Por favor o quê? - Nada não. – Sônia responde, após pensar um pouco. - Hum... isso mesmo! Minha cadelinha tá bem adestrada, aprendeu a falar comigo de cabeça baixa e rabinho entre as pernas. Pegou tuas roupas ontem? - Peguei. Uma perda de tempo, aquelas roupas nem uso mais, tão fora de moda! - Mas o que tu quer com roupas da moda? Pra ir no buteco comprar mortadela e cachaça pro teu negão? Ou ir pro bailão, tu acha que ele vai deixar? Pra passear no parque no domingo não precisa ir bem arrumada. Quem precisa estar chiquérrima sou eu, meu bem, pra ir nos meus eventos sociais, por isso fiquei com as tuas melhores roupas. Como tu não tem e acho que nem vai ter mais eventos sociais... Sônia engole em seco a humilhação. Cleci continua, excitada com sua peculiar ironia: - O Ju me prometeu roupas novas, semana que vem vamos tomar um banho de loja. Se a minha cadelinha continuar dócil e obediente, vai ganhar umas roupinhas melhores, que eu vou deixar de usar. - Tá certo, agora diz o que me prometeste na última conversa. - Mas caaalma! Eu ainda nem ouvi um agradecimento! Olha que não ganha mais roupa nenhuma! - Obrigada! - Obrigada o quê? - Obrigada, Cleci! - Antes do Cleci, não vai bem uma palavrinha? Essa foi a maior humilhação que Sônia já se viu obrigada a engolir. - Obrigada, dona Cleci! – a voz sai com dificuldade. - Muito bem! Minha cadelinha tá aprendendo rápido! Também, não é fácil passar de dondoca pra subalterna, né? Mas eu te transformo rapidinho, sempre te domei muito bem! Na verdade, nós duas sempre suspeitamos que estávamos em posições erradas, né? Aquelas tuas brincadeiras de troca só me fizeram ter certeza disso. Mas agora, felizmente, estamos nas posições que Deus quis pra gente. - Podes falar agora? – Sônia impacienta-se, fingindo não ter prestado atenção ao que a outra acabara de falar. - Quer mesmo que eu fale? Tá preparada? Olha, isso vai doer, hein! Mais do que o meu chinelo que tanto cantou na tua bunda. - Tô! Pode falar. - Tudo bem... já que te bateu saudade, vamos a mais uma surra, dessa vez com palavras. Limpou bem o ouvidinho? – debocha – Pois bem... em primeiro lugar, saiba que desde umas três semanas antes da burrice que tu fez, eu e Julius já trepávamos bem gostoso, num motel de luxo, enquanto tu achava que ele tava trabalhando ou viajando. Obrigado pelas folgas semanais, viu? Aproveitei elas muitíssimo bem, eu e o Ju. Trepamos muito, tu nem imagina. Dei a ele o que tu não dava, por isso não te espanta que hoje ele quer casar comigo. - Isso não pode ser verdade... - É a pura verdade, meu bem, por mais que te doa. E sabe do que mais? Ele sabia que eu te surrava todos os dias, das nossas trocas de papel nos fim de semana, de todas as loucuras que tu fazia e mandava eu fazer. Eu contava tudo pra ele, a forma que eu te descia o chinelo e a cinta, como tu reagia, os gritinhos, o estado que ficava a tua bundinha, tudo. Ele queria saber em detalhes, se excitava com isso, sabe? Me chamava de malvadinha, pedia pra eu mostrar como fazia, a cara de má, depois me agarrava e... uuui! Imagina, né? Tenho até que te agradecer, graças a ti nossas trepadas são uma loucura... - Impossível... - Impossível nada, querida. Tu nem precisava esconder dele a bunda marcada, ele já sabia, já tinha se excitado com o que eu tinha contado e já tinha me comido por isso. Vou contar mais: lembra daquela vez que eu saí com teu vestido e voltei com ele manchado? - Lembro. - Pois é... adivinha de quem era a mancha! Ha ha ha! Não reconheceu a porra do maridinho? Ele ficou com tanto tesão de me ver com a tua roupa que nem me deu tempo de tirar ela. Ah... parabéns pela limpeza do vestido, ficou ótimo. Sempre uso ele pra excitar o meu Julius, é tiro e queda! Os salto-alto também, ele fica maluco quando desfilo com eles pela casa. - Como tu foste capaz de fazer isso? O que eu te fiz de tão ruim? É assim que me agradeces pelo aumento de salário que te dei, pelas regalias todas? Alguma vez eu te tratei mal, alguma vez gritei contigo? Me diz! – exalta-se Sônia. - Calma, minha lindinha, agora não adianta se desesperar! Já tá tudo feito e não tem volta! A culpa não foi só minha. Eu aproveitei a situação, claro, não sou boba. O Julius tava carente, desconfiado de uma mulher que ficava a cada dia mais tonta, estranha, só pensando nas suas taras e esquecendo do marido. Aconteceu que eu tava no lugar certo e na hora certa. Mas a merda toda aconteceu por tua causa, por mais uma das tuas maluquices. Qual marido não faria o mesmo vendo sua mulher chegar em casa naquele estado? - Nunca te perguntei daquela noite. Como o Julius descobriu? - Vai mesmo querer saber, meu amor? Já não apanhou o suficiente por hoje? - Quero saber, Cleci. Não tenho mais nada a perder. Me diz! - Olha... tu vai me odiar! - Cleci... tô esperando... por favor! - Bem, teve uma mãozinha minha sim, para que tudo acontecesse. Fui cruel, desculpe, mas fiz e tá feito. Eu e Ju já estávamos desconfiando que tu tava planejando algo grande, pois não tinha engolido aquela minha aventura com as tuas roupas. Com tudo o que eu contava pra ele, concluímos que tu realmente não tem limites e passaria a fazer coisas cada vez mais desvairadas. Então, já com a idéia em mente de te tirar da jogada e ficar com o meu Julius, botei na cabeça dele que tu tava pensando em traí-lo e aconselhei ele a contratar um detetive. - Mas nenhum de vocês sabia que eu ia sair aquela noite! - Pois é, querida, mas tu mesmo, com a tua cabecinha burra, pôs tudo a perder. Quando fez questão que eu ouvisse o tlec tlec dos teus sapatos, quer dizer, dos meus, antes de sair pra tua noite de puta, foi aí que abriu as portas da tua desgraça. Logo que ouvi, saltei da cama e liguei pro Julius, que tava num hotel, e disse que o momento era esse; então o Ju ligou pro detetive, que em poucos minutos já tava na tua cola, fotografando todos os teus passos, da saída do bailão com o Valdir até tua chegada em casa. Fiz questão de encontrar o Julius no hotel e trepar muito com ele, comemorando a tua desgraça, que ainda tava sendo construída. Foi lá que ele me pediu em casamento. Acho que nós duas trepamos ao mesmo tempo, né? Mas comemorando coisas diferentes... BEM diferentes! - Não pode ser verdade... não pode... não pode... – chora Sônia. - Agradeça à tua arrogância e à tua burrice, meu bem! E ao meu, agora teu, querido e surradinho sapato de salto-alto, pois veio dele o ‘tlec tlec tlec’ que foram as batidas nas portas da tua perdição. Começou com as minhas havaianas e terminou com o meu salto-alto, meus sapatos foram a tua desgraça, ha ha ha! Guarda bem ele, ele representa a maior transformação da tua vida, a definitiva. Do outro lado da linha, apenas sons de um choro abafado. Cleci não se apieda: - Fica triste não, meu bem, é o destino. A gente faz coisas muitas vezes erradas, eu também reconheço que fiz e até me arrependi um pouco, por ti, mas é o destino quem dá a solução final. Reconheço que tu foi muito boa comigo e não merecia tanta maldade, por isso vou conseguir, escondido do Julius, uma pequena quantia mensal pra ti, até que consigas um emprego. Mas um emprego decente, viu? Sei que tu tem uma personalidade difícil, muito porra-loca, mas não quero que tu vire puta. Ia me sentir culpada, achando que exagerei na dose. Meu objetivo eras apenas trocar de posição contigo, e não te afundar ainda mais. - Mas onde eu vou arranjar emprego agora, tu pensaste nisso? – pergunta Sônia, entre soluços. - Vou ver com minhas amigas se alguma precisa de empregada doméstica, faxineira, baby-sitter ou coisa do tipo, que sei que são trabalhos que tu sabe fazer. Mas já te aviso: tu vai ter que te concentrar no trabalho, em vez de ficar pensando bobagens! Lembra que foram estas bobagens que te levaram aonde tu tá agora, e podem te prejudicar ainda mais! - Cleci, sei que tu vais achar loucura, não vais acreditar, mas... tu deixarias eu fazer uma faxina aí no teu apartamento, enquanto eu não arranjo esse emprego? Eu juro que não vou mal-intencionada, não vou tentar nada contra ti, pode me revistar e tudo... só quero conseguir um dinheirinho pra mostrar pro Valdir que eu não to abusando da boa vontade dele... - He he he! Pobre Soninha... Sabe que eu nem acredito mesmo que tu fosse tentar algo contra mim? É sério! Acho que tu tem saudade mesmo é de sentir meu chinelo cantando gostoso na tua bunda! Aposto que, se eu te chamasse pra vir aqui, a primeira coisa que tu ia fazer era se pelar e arrebitar bem a bundinha pra mim, implorando pela boa e velha havaiana. Não to certa? Silêncio do outro lado. - Teu silêncio já responde, lindinha. Hehe! Mas não, não vai ser possível, infelizmente. Teus pezinhos não pisam aqui nunca mais, não quero arriscar o que lutei tanto pra conseguir. Não te preocupa que eu vou procurar uma patroa bem brava e exigente pra ti, pra te manter sempre nos eixos. De repente até uma castigadora, já pensou, unir o útil ao agradável? Mas não vai demonstrar que ta gostando, né, senão põe tudo a perder! - Tu farias isso mesmo? - Com todo o prazer, minha cadelinha! Mas presta atenção! Vou te fazer o favor de omitir o fato de que tu é avoada e meio moscona, pra pessoa que eu te indicar, mas se tu fizer merda... problema teu! Não adianta nem me ligar, só vai ouvir xingamento! Segue o meu conselho, trabalha, junta um dinheirinho e reconstrói tua vida. Se fosse tu, me afastava do Valdir, como já fiz, aliás. Ele não presta. Eu inclusive já tô bolando um jeito de provar pro juiz a vida torta dele e assim diminuir o tempo que ele fica com o Júnior. Tudo certo, minha lindinha? - Eu queria saber mais uma coisa... - Fala, meu bem! - Um dia eu vou voltar a apanhar da senhora? - Hum... gostei do ‘senhora’! Quem sabe, né? Sim, é possível, mas quero que tu entenda que ainda tem um caminho a percorrer. Tu precisa eliminar esse ódio que com certeza ficou, pelo que eu fiz, e aceitar que não tem volta, essa é a nova realidade; precisa se convencer plenamente de que eu sou superior a ti, mais corajosa e mais inteligente, e por isso tô aqui, porque é a vontade de Deus; e reconhecer, por fim, que eu não quero o teu mal, apesar de ter contribuído pra que tu perdesse tudo e hoje viva uma vida humilde. Por isso vou te podando, te adestrando aos pouquinhos, dando tempo ao tempo para que tu compreenda e aceite tudo isso, e desista de vez de tentar recuperar aquilo que nunca mais vai ser teu. Daí, o dia que eu concluir que tu não tem mais nenhuma pontinha de mágoa, rancor ou raiva de mim, que estiveres bem pura de sentimentos e disposta a me entregar de alma e coração a tua submissão, daí sim eu posso te receber. Te receber e também te oferecer com amor a minha disciplina. Com amor tu vai me oferecer a bundinha e com amor vai receber o chinelo, e não como antes, que era só um tesão desvairado da tua parte e desprezo da minha. Meu chinelo vai ficar guardadinho pra esse dia, tá? - Espero que esse dia não demore, minha senhora. - Eu também, minha querida! Não pense que eu vou te abandonar, não! Continuo te controlando, mesmo de longe, e não vou deixar que nada de ruim te aconteça. Sempre que tu estiver confusa, desanimada ou precisando de uma boa bronca, me liga, mas num horário em que meu marido não estiver, tá? Deus me fez superior a ti, mas me encarregou de te guiar e te proteger. E eu aceitei a tarefa. Um dia, quem sabe, a gente não conclui que foi bom Ele ter feito nossos caminhos se cruzarem, né? Agora vai pra casa, lindinha, antes que fique tarde. - Vou sim senhora! Estou melhor agora, me sentindo mais forte pra enfrentar essa rotina que não é nada fácil. Muito obrigada e fique com Deus. - Tu também, meu anjo... FIM